A última quarta-feira foi um dia mitológico para o futebol. E digo mais: Um dia transcendental. Ora, perguntariam a mim: Mas, poeta, um novo Pelé surgiu na relva? Um escrete de sonho com o mágiar de 54, o canarinho de 58 ou os asseclas de Orange de 74? E eu digo, não, não. Nem um São Cristóvão de 1919 surgiu neste último dia. Mais uma vez, contudo, o futebol mostrou sua magnanimidade, à qual me curvo.

Quando a Irlanda vencia uma descarada, horrenda, trágica, medonha, e por que não dizer?, apoplética França, uma França que envergonharia o mais colaboracionista dos ladrilhos de Vichy, eu pensava: algo de interessante pode surgir daí. A Irlanda é um time que espelha o país: resistente, esquisito e com um futebol rígido. É um time de luta- o que pode significar um jogo ridículo, seguido de um momento mágico de superação. E esse Eire, tão dúplice, encurralou os comandados (ou assim diz a lenda) de Domenech, de uma forma cabal. Não conseguiram o 2 a 0 e tiveram sua resposta da pior forma: numa condução circense, Henry levou a bola aos pés de seu compatriota e causou mais um episódio constrangedor na história do futebol: O time maior roubando o menor, com uma indignidade de arena.

Ali, pensei: O futebol acabou. E fui dar andamento a algum afazer, que redundou em assistir (ou tentar fazê-lo) o embate entre Obina e Maurício, digo, entre Palmeiras e Grêmio, ao mesmo tempo em que Cerro Porteño e Fluminense digladiavam-se por uma vaga na final da Sul-Americana.

A chatice do primeiro jogo deixou-me no Maracanã (se o narrador da Globo não vai ao estádio, na maioria das vezes, por que eu não me sentiria lá?), onde o Fluminense perdia, mas lutava para sufocar o time dos jogadores de pedras de Assunção.

Dos lances, ataques e contra-ataques, todos já sabem, não interessa muito. O que importa são os episódios gregos de  então. Obina e Maurício trocaram sopapos, dignos de enciclopédia. Um deu socos de jogador de futebol, socos no ar, enquanto o outro deu socos de rinha de galo, socos do mais puro acarajé. Desta batalha partiu o maior destempero: o afastamento dos jogadores do grupo palmeirense, de imediato. Ora, todos sabemos que a diretoria alviverde jogou para a torcida, num momento do mais puro desespero e da mais pura indecisão, motivada pela dúvida acerca do que fazer diante da perda de um título imperdível? (Ainda volto à impossibilidade que o Palmeiras se colocou neste 2009).

E a virada do Fluminense foi épica, fabulosa, magistral, digna de registro nos anais do Congresso, fosse aquela casa mais do que o que é.  A vontade com que o tricolor carioca se atira em campo espelha o futebol no seu momento mais sublime, a despeito de presidentes insanos, diretorias confusas, patrocinadores mandões e contusões inexplicadas. É o futebol superando a lógica, é o futebol superando o pessimismo.

PS:  O Fluminense não venceu nada, ainda corre um bom risco de ser rebaixado, blá, blá, blá. Não elogiar um momento por isso é a tragédia do suposto racionalismo futebolístico, parente do chatismo.

O trabalho nem sempre dignifica o homem. Pode aprisioná-lo, evitando suas distrações, como aconteceu comigo nas tardes de terça e quarta desta semana. Assim, não pude acompanhar os jogos da Liga dos Campeões. Não que isso tenha me importado tanto, uma vez que sabemos que este campeonato já acabou e já teve seu campeão no Arsenal.

Penso é em outra coisa. Ano passado, esperávamos todos pelo United e Chelsea. Ou melhor, pelos United e Chelsea. A esperança de boa parte dos espectadores do futebol como espetáculo era uma melhor de três que decidisse três campeonatos : A Copa da Liga Inglesa, o Inglês e o Europeu. Até a Premier League esperava isso, adiando o jogo do Campeonato Nacional.

Resultamos desesperados quando o Chelsea negou fogo no Inglês e o Liverpool e Milan decidiram esculhambar na Liga dos Campeões. Restou uma minguada Copa da Liga para José Mourinho, o irascível tuga, vaidoso e sabido.

Bruce Banner era genial quando esquálido e portando lentes com fundo de garrafa (as de Guaraná Brahma, de 330 ml), mas ainda assim era derrotado. Mesmo com belissimas vitórias em seu currículo gama, o rapaz padecia de algum mal que não o permitia escalar o topo, tal qual os alpinistas do Dedo de Deus, pondo-o numa depressão infinita.

Já o Gigante Verde, o brutamontes, o hipópotâmico, o frondoso, o jequitiboso-rei Incrível Hulk não passava de um troglodita, um destruidor. E ainda assim podia encarar todos os Vingadores com resistência incrível.

Assim que Mourinho saiu do Chelsea, todos creram no fim do time azul. Ao menos por um tempo, com o Arsenal embalado e o United ofensivo (antes dos problemas de Fergunson), isso soava verdade. No entanto, o Chelsea conseguia alguns bons resultados- e eu pensei sem externar a ninguém: “O Chelsea jamais levará o Inglês, mas a LC é possível”.

E o time continuava a vencer no Inglês (a ponto de alcançar o outrora “genial” United), a não perder nunca em Stamford Bridge e a encontrar moleza na LC. Convenhamos: Valencia, Schalke, Rosenborg, Fener não são lá grandes desafios. Veio o Liverpool, então. Avisei aos meus companheiros de devaneios: Decidir em Londres é diferente. Dito e feito. Avram Grant conseguiu, com todo o descrédito que teve, com toda a cara feia que a imprensa esportiva fez e com toda sua própria cara feia que o Criador lhe deu, sim, o israelense, o israelita conseguiu aquilo que o tuga, vaidoso e genial não conseguiu.

Ainda não acabou, porém. Resta o 21 de maio na Terra de Putin e as duas últimas rodadas da Liga Inglesa.

Acompanhemos. E jamais duvidemos do poder da força bruta. O Quem é a Bola ? nunca duvidou.