CRUZEIRO

Pois então, o Cerro Porteño, o clube proletário de Assunção, não ofereceu a menor resistência ao Cruzeiro. Comenta-se que em Minas o jogo poderia facilmente ter chegado à meia dezena, não fosse um homem de preto (ou de amarelo ou verde-cana) e um gol perdido cara a cara pelo Boliviano, Marcelo Moreno. O time do Cruzeiro certamente não é ruim. Todavia não me parece um time tão bom assim. PVC fala que um grande escrete está sendo montado, acompanhado por meu colega de redação. Peço calma a ambos. Lembremos de 2007. Lembremos do fatídico 4 a 0 sofrido na ida da final do Estadual. O time se recuperou? Não sei. O Brasileiro de 2007 foi decidido em 2 momentos: O primeiro, na verdade, um conjunto de momentos, foram as seguidas vitórias do São Paulo contra adversários diretos; O segundo foi também outro conjunto. Reformulo a frase, portanto. O Brasileiro foi decidido por 2 conjuntos de momentos. O outro conjunto de momentos foi o Cruzeiro. O Cruzeiro abusou da sorte, e quando o São Paulo parecia perder o fôlego, o Cruzeiro tropeçava de modo desesperado, semelhante a um cachorro com problemas nas patas. A dona pode ter todo o carinho do mundo, mas o pobre cão não será um caçador de gatos.

O ataque do time é bom, mas já era ano passado. As laterais estão bem ofensivas, com Marquinhos Paraná (ou seu bancário, Apodi) e Jadilson, mas estes dois cidadãos não sabem o que é marcação. O time padece de um defeito, flagrante nos dois gols sofridos em terras paraguais: é a defesa. O Cruzeiro tomou gols como só ocorre a um time muito desguarnecido – e o time possuia a vantagem, além de estar fora de casa. Mesmo contra um time mais fraco, é deveras temerário fazer isso em uma Libertadores, que está repleta de exemplos de Davis e Golias.

Como se não fosse o bastante, há o grupo. Potosí é um grande risco de se perder pontos (sobre altitude, cabe falarmos mais em outra hora). Não faço idéia de como anda o Caracas, mas se estiver tal qual o time do ano passado, serão partidas complicadíssimas. Há ainda o San Lorenzo, com D´Alessandro e no ano do centenário. Sim, o clichê dos argentinos vale muito. Se passar do grupo, o Cruzeiro chega, no máximo, às quartas. Será uma excelente campanha para essa defesa.

SÃO PAULO

No limite da irresponsabilidade. Não, não estou a falar deste centroavante acima fotografado. A atitude irresponsável é da diretoria do São Paulo, atual bicampeão brasileiro, que ao invés de seguir a política de reposicionamento dos últimos anos (desde quando o técnico era Cuca e o clube retornou ao torneio americano), repetiu o erro do ano passado, algo agravado pelas perdas de dois coringas, Souza e Leandro.

A respeito dos dois jogadores, o maior erro não foi nem a saída de ambos. No caso principalmente de Souza, foi um movimento necessário, uma vez que ele sempre se imaginou maior do que realmente é, o que, conforme já vimos no “Fluminense affair”, é inútil e problemático. Um medíocre pode ser genial se desde o começo se reconhecer medíocre. E um acima da média pode ser patético caso se imagine divino.

Souza e Leandro saíram, mas não chegou ninguém para o lugar deles. Pior, desde a saída de Danilo, o time não possui um armador , origem de boa parte das dificuldades do clube na Libertadores passada e mesmo no Brasileiro. A vinda de três “europeus” não é ruim, até pelas naturezas da negociações. Falo de custos e possíveis benefícios, naturalmente. O caso de Carlos Alberto é emblemático, até porque algum caboclo convenceu os alemães a torrarem numerário com o jogador, que não faz grande temporada há um tempo, e a solução encontrada parece ter sido a oração- o envio do rapaz ao Brasil é só o acessório.

Mesmo contando com um bom time titular, resta ainda dificuldades na montagem da defesa, esteio ano passado e que agora parece mais lenta. E o elenco é muito reduzido. São 22, 23 jogadores. Com as lesões, o time tem que contar com juniores. Só uma imaginação muito fértil conceberia outro Breno tão rápido e em outra posição. A diretoria aposta nisso e tem grandes chances de brincar com fogo.

O grupo não é complicado. O paraguaio Luqueño, o Atlético Nacional da Colômbia e o vencedor da partida entre Audax e Chicó não devem oferecer grandes dificuldades se o São Paulo render metade do que se espera (é bem verdade que o Audax deu uma canícula ano passado em pleno Cícero Pompeu). Falta, contudo, um homem de ligação, alguém que municie o ataque. O time hoje é inane. É quase impossível não dormir vendo o São Paulo jogar no Campeonato Paulista- mesmo o Muricy Ramalho pode ser pego no contrapé, tirando seus cochilos, ao mesmo tempo em que berra insistentemente.

Ah, eu tenho que arriscar um prognóstico. Consultando os caboclos de Bremen, vejo que o São Paulo pode chegar nas oitavas ou ser campeão. Isto é, não faço a mínima idéia de onde este time pode chegar.

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Encerrado o recesso de Carnaval – durante o qual os integrantes do Quem é a bola? permaneceram em conserva nos seus devidos barris de álcool – este digníssimo blog retorna à luta diária frente aos parvos da bola. Há quem diga que, durante o fim de semana, a esférica correu pela grama tanto no Brasil quanto nesta outra parte da orbe que chamamos Mundo – mas, francamente, não temos notícia a esse respeito. Como imaginamos que a massa boleira está cansada das metáforas carnavalescas nas matérias sobre a nobre arte (“O bloco do Náutico está pronto”, “No quesito harmonia, o Botafogo é nota… dez (com a devida e clássica voz da apuração carioca)”, “Mano Menezes, como um verdadeiro mestre de bateria, comanda o Coringão”, “Renato Gaúcho pede que a comissão de frente tricolor ensaie pra valer” etc.), trataremos de analisar a ala lusófona da Libertadores 2008, sem prelúdios ou eufemismos, apontando quem vai pra final, quem cai nas oitavas, quem será atropelado pela zebra da temporada e quem, além de ser rebaixado no Paulistão, vai sair na primeira fase da competição.

SANTOS

Ocupando uma honrosa zona de rebaixamento estadual, o Santos tem tudo para dar vexame em 2008 e ser eliminado precocemente. A rigor, nenhum grupo da Libertadores é difícil, mas o assombroso Cúcuta pode estar preparando mais surpresas continentais e o Chivas mora longe – todo cuidado praiano será tão escasso quanto o oxigênio em Oruro, cidade do San Jose, esquadra que completa o grupo santista. Ainda com dor de cotovelo pela saída de Luxa, o clube não se acerta e, conseqüentemente, o time é um despropósito absoluto: nenhum futebolista joga bem, Fábio Costa quer surrar alguém, todo mundo pede vergonha na cara, Leão continua ostentando orgulhosamente sua falta de sutileza, as jovens revelações flutuam entre o time profissional e o bolso dos empresários e, veja você, a maior contratação, até aqui, foi a de Betão – que até parece um bom rapaz, mas que nasceu para administrar empresas ou para fazer carreira na obstetrícia. Pelo que li desde que retornei do recesso, o Santos agora aposta em jogadores hispano-americanos que certamente conheceu via DVDs grosseiramente editados – nova mania brasileira considerada deveras saudável pela crítica especializada (chegaram Molina, Michael Quiñonez e Sebastián Pinto – que, além de enfrentarem o problema de adaptação, provavelmente jogam pedrinhas). É necessário lembrar, contudo, que um time recheado de falantes de castelhano não é certeza de boa campanha na Libertadores – se falar espanhol fosse sinal de sucesso na América Rebelde e Profunda, o Flu seria eliminado por um time colombiano de segundo escalão.

FLUMINENSE

Será eliminado por um time colombiano de segundo escalão. As Laranjeiras, desde a conquista da Copa do Brasil, só comentam, só sonham, só praticam, só desejam a Libertadores. Tudo foi planejado, traçado, calculado. É necessário falar espanhol? Contrata-se o Conca. É necessário fazer gol? Joga-se com três atacantes. É necessário raça? Renato Gaúcho se empenha num patético discurso sobre ser impiedoso (como se empatar com Macaé não fosse questão de incompetência, mas de dó). Não se pode negar ao Flu, porém, o reconhecimento de todo o seu potencial e talento: Thiago Silva, Neves, Dodô, Conca, Washington, Arouca, Cícero, Leandro Amaral – só estes já formam uma esquadra respeitável, temível (listando assim, lentamente, dá até vontade de dizer que compõem o melhor elenco do país). Mas o tricolor sente a falta de um bom goleiro e da rescisão de contrato com Gustavo Nery. Além disso, a campanha do pó-de-arroz neste seu tão esperado retorno à Libertadores pode ser atrapalhada justamente pela longa ausência do clube na competição. Faltam experiência, uns calos e umas manhas. Como esquecer que Dodô, na histórica derrota do Botafogo para o River Plate, ano passado, avisava ao banco de reservas que sentia-se incomodado por uma forte dor de barriga? Caso a nossa previsão de pouca longevidade do Flu na competição se concretize, diretoria e torcida precisam compreender que, trabalhando mediocremente como se deve, podem chegar à segunda Libertadores seguida em 2009. Quem sabe até com o bi-brasileiro, quem sabe.

 Jogadores caçados a pauladas, cantos incitando o linchamento, escudo policial para aparar pedras, futebolistas fraturados, arrastando-se em campo e, ainda assim, com forças para mirar seu soco inglês na nuca adversária. Em 1961, o Independiente de Santa Fe, da Colômbia, teve seus quatro defensores decapitados – e suas cabeças, a mando do Peñarol, percorreram a América sobre bandejas (uma clara tentativa de intimidação que, por sinal, lhe rendeu mais três ou quatro títulos).

Inicia-se hoje, portanto, mais uma edição da Libertadores da América. Claro: é ainda uma fase pré de uma competição que, a rigor, só empolga a partir das oitavas de final (salvo quando um grupo reúne esquadras fortes e tradicionais – caso de Inter, Velez e Nacional no ano passado). Amanhã é a estréia brasileira – o Cruzeiro enfrenta o Cerro Porteño, time que a imprensa adora classificar como “experiente”, “tradicional”, “chato” mas que, na realidade, tem o Tigre Ramirez como atacante (mas, ei, o Cruzeiro tem Fábio como goleiro!)

Esta edição tem tudo para seguir a mesma tendência que, desde 1992, só foi quebrada duas vezes: o título fica com Brasil ou Argentina (no mesmo período, o título da Liga dos Campeões rodou por cerca de sete países). Por mais que torcedores não-envolvidos na disputa (como os do Bahia ou do Santos) rezem pelo aparecimento de algo tão inexplicável quanto um Once Caldas ou por uma final tão insólita quanto um Olímpia x São Caetano, é muito difícil que uma zebra equatoriana derrube Boca Juniors ou São Paulo (o Fluminense é a provável vítima da temporada).

Recordem-se que, ano passado, um assombroso Cúcuta saiu do interior colombiano surpreendendo o continente, eliminando o Nacional, vencendo o Boca Juniors – mas, por fim, sendo eliminado no melhor jogo daquela edição: com Buenos Aires soterrada por uma névoa espessa, Riquelme liderou um concerto que, a certa altura, pela TV, era filmado na altura do chão, pela linha de fundo, sem visibilidade alguma – até que, do mais absoluto nada, surgiu a figura de Palermo dispersando a névoa da grande área com uma bicicleta digna de um hibridismo natural entre Leônidas e Dadá Maravilha. Naquele momento, Palermo foi quase um Mastroianni dirigido por Fellini.

Ainda que avacalhada na organização (vide o caso dos times mexicanos provocando constrangimentos e os jogos em que as equipes abdicam da saudável violência sulamericana – privando o torcedor, por exemplo, da “boa e salubre cabeçada brasileira” ou do rabo-de-arraia na versão uruguaia) e restrita basicamente a dois únicos países, a Libertadores da América preserva interesse, arte, charme e provoca uma volúpia no cidadão latino-americano que só encontramos semelhante no torcedor do Baré que segue o Roraimensão.