cafe-da-manha-com-saudeA seleção brasileira acaba sendo um assunto entediante. Há razões para amá-la e odiá-la, para torcer a favor e contra, apoiar com reservas, apoiar e às vezes torcer contra, tudo muito sensato, racional e sustentável em argumentos. Por outra, os lados da questão são tão irritantes que torcer contra os dois é o objetivo, numa impossibilidade física, lógica e moral.

Pensemos em Dunga. É um bom técnico? Não é. É péssimo? Também não, até porque ele está aprendendo a ser. E nisso residiu todo o erro das análises sobre o papel de Dunga na seleção, que espelha um erro maior de análise em futebol, sobre a dimensão dos técnicos no jogo.

Quando o Chelsea trocou Mourinho por Avram Grant, nenhuma alma viva pôde acreditar que aquilo daria certo. E até hoje todos insistem que o time só chegou onde chegou (a única final da Liga dos Campeões do qual o clube inglês fez parte) por uma suposta coesão do elenco. Ah, claro, há quem fale também nos treinos que não eram dados pelo israelense, etc, etc. O técnico é alçado a um papel de tanta importância, que, quando os fatos contrariam a teoria, todos ficam a ver navios e insistem tanto nela que acabamos convencidos pelo cansaço- só me lembro de Tostão como o resistente.

Alguma coisa parecida foi tentada para explicar os resultados de Dunga. O problema é que os fatos começaram a brigar com a análise. Não só a brigar, os fatos começaram a tripudiar da tese. E aí, a turma da Globo voltou atrás (o que é normal, no caso), montando a corrente para a frente e a turma crítica teve que ficar com a língua enrolada, visto que o time estava bem nas Eliminatórias e havia levado as Copas América e a das Confederações.

Pergunto-me eu, pergunta-se você, pobre leitor: Cadê o povo de Belo Horizonte e do Rio que pedia a detonação de Dunga? Certamente, estão gritando que Maradona é um néscio e já se pode imaginar que aqui e ali vão começar a ver em Dunga um gênio tático, responsável por nós mitológicos.

Nem tanto, nem tanto. Dunga não é um estúpido, mas também não fez nada sobrenatural. Nisso reside seu mérito. Escolheu um caminho e seguiu, com alguma correção de rota, mas numa trajetória que faz sentido- embora não seja um explicável em termos táticos corriqueiros.

É o suficiente para ganhar a Copa do Mundo? Não, pois falta muito tempo, a Copa é um torneio de tiro curtíssimo e nunca se pode menosprezar a capacidade brasileira de deixar o oba-oba prevalecer (a síndrome reversa do vira-lata).

No momento, é preciso dizer, o Brasil é uma grande seleção – comparada com as outras, os únicos termos de baliza possíveis- e o esquema (defesa sólida e contra-ataque)  funciona a contento. Não é um brilho total, mas qual time teve brilho total nesses últimos anos? Não consegui ver o brilho do Barcelona do triplete até hoje. O relógio suíço-mancuniano do United pode ser tudo, menos vistoso (até foi um pouco mais há uns dois anos).

O brilho deste Brasil, isso parece ficar claro a cada segundo, é o brilho do futebol de hoje, é o brilho da eficiência. Não há o que se reclamar disso, não há que se fazer um carnaval, de outra mão. É uma felicidade, claro, mas rápida e frugal quanto um belo café-da-manhã. Pode ser delicioso, mas a alma e o corpo hão de querer mais e mais.

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Todos os meus três leitores são brasileiros. E, só porque todo brasileiro é íntimo um do outro, ousarei falar da Seleção. Sim, só na intimidade pátria podemos nos sentir a vontade o suficiente para falar de tamanha vergonha. Por mais que a infâmia seja de conhecimento mundial, o homem consegue ser velado o suficiente para só debater sua humilhação na alcova, cercado por dois ou três amigos, um familiar que não irá rir, mas compadecer-se e sofrer junto.

Vivesse eu na Inglaterra, fosse eu lido por colombianos, calaria de forma retumbante e partiria para o convívio social como se o ocorrido ontem no Paraguai não houvesse, de fato, ocorrido. Mas estou na Bahia e sejamos francos. Vamos nos auto-depreciar.

Não chegarei ao extremo de afirmar que este é o pior selecionado de todos os tempos. Durante os anos 90 e começo dos 00, houve momentos em que só a fé extrema nas roupas e nas armas de Jorge conseguiu dar esperanças ao povo brasileiro. Esse grupo, considerando os 22, é razoável. Claro: pode-se argumentar que os laterais titulares são fraquíssimos (com o que eu concordo), que Diego já teve chances demais (com o que eu concordo), que Josué, Mineiro e Gilberto Silva – que sequer se firmam como titulares em seus respectivos times – só merecem uma vaga de titular na cabeça delirante de Dunga (com o que, acima de tudo o mais, eu concordo), mas lá está muita gente pela qual o povo clama: Júlio Cesar, Juan, Lúcio (o povo; eu, não), Adriano, Pato, Anderson… Faz-se uma seleção razoável com tal material.

Mas uma Seleção não é um baba de recreio. O baba de recreio, vocês sabem, se escolhe no zerinho-ou-um e joga horrores, devastando tudo com tabelas, esquema tático perfeito, sincronia absoluta de movimentos. A Seleção, não – sobretudo porque não joga contra um baba de recreio (fator fundamental para que o adversário, na escola, soe como a Laranja Mecânica).

Tento evitar as frases sobre a inexperiência de Dunga. Tudo bem: o homem consegue armar um time que perde para a Venezuela, mas não nos esqueçamos que havia um time em campo e que Dunga (graças a deus) não jogou. Mas e como se negar a ver o ridículo que ele passou hoje em Assunção, durante o segundo tempo, no qual fez substituições de um desespero cômico? A Seleção está nas mãos, nos bolsos e nos pés errados. Crucificar Dunga, sozinho, não dá jeito – embora pareça ser o passo seguinte, visto que até o Galvão já tomou sua posição contrária ao técnico. É preciso que um dilúvio purifique a CBF.

Boa parte da mídia e da torcida brasileira reclamava a sua presença na seleção. Após três décadas de Cafú, o torcedor ficou assombrado com a possibilidade de Maicon como titular absoluto da lateral direita pátria. Léo Moura nunca foi esse jogador todo, mas é claramente mais técnico que o rapaz da Inter de Milão. Merecia convocação? Por certo. Continuará a ser lembrado nas próximas chamadas?

Não creio. Primeiro porque está óbvio que ele não jogará e, caso jogue, não se encaixará no “esquema” de Dunga. Sendo praticamente um ponta, recebendo o título de ala e deficiente na marcação, Leo Moura perderá para Maicon (e até mesmo para Daniel Alves) na parte física e no combate aos avançados rivais. Como costuma dizer Gerson, Leo Moura é constituído, basicamente, de pele e osso – o que traz a vantagem de não estar exposto às contusões musculares, mas que gera problemas nas trombadas, nos empurrões, nos abraços durante os cruzamentos na área, nas tesouras e em outras práticas pouco saudáveis e de baixo valor estético, mas necessárias ao futebol.

Além disso, Leo Moura é velho. Perdoem-me a franqueza, mas considerando os seus 29 anos, o rapaz já estará dedicando-se ao showball em pouco tempo – junto com Maicon, Gilberto Silva (que atualmente está se esmerando em constranger todo o Emirates Stadium nas suas atuações pelo Arsenal), Lúcio, Mineiro, Josué e toda essa rapaziada que costuma carregar o piano. Portanto, Leo Moura não terá nenhuma longevidade no escrete – mas, como muita gente costuma achar que uma convocação acaba servindo como prêmio para uma temporada acima da média, tá tudo dentro dos conformes. Só duvido que o futebolista vá se contentar em enfrentar a Irlanda e guardar a única camisa canarinho que ele usou na vida para leiloar mais tarde no e-bay.

Nesta história de convocação de Leo Moura, o que me chama a atenção – e o que passa despercebido à mídia de narinas de cadáver – é a maledicência, a esperta estratégia de Dunga para iniciar o lateral rubro-negro na sua tenebrosa teoria do sofrimento. Ciente da atração do jogador pelas festas populares regadas a tonéis de álcool, sexo desenfreado e pancadaria gratuita, Dunga quis privá-lo disso. Segundo as teses do melhor treinador de seleções do mundo, para chegar à seleção, o futebolista precisa passar por provações comparáveis às de Augusto Matraga – e, pior de tudo, a queda de Leo Moura, que chorará de saudades do Rio de Janeiro no exílio de Dublin, não será seguida de redenção nenhuma. No máximo umas 500 pratas pela camisa no e-bay.