Está assentado na memória futebolística um texto de Roberto Drummond que se refere à fidelidade do torcedor do Clube Atlético Mineiro, o tal Galo. Diz o autor de Hilda Furação, que num embate hipotético entre o vento e o Galo, a massa torceria desesperadamente contra o vento. E nisso se vê muita beleza e uma fidelidade essencial, além do bem e do mal, da vida e da morte.

Não discuto. E realmente aplaudo a torcida, que aqui e ali demonstra sua paixão, lotando estádio, mesmo diante de times mais ou menos, como dizer…, furrecas. Mas torcer para o Galo é fácil. Já posso imaginar mineiros vociferantes e trágicos babando e tremendo diante do que falo, mas não tenho dúvidas, tanto que repetirei. Torcer para o Galo é fácil. Ah, ser roubado por José Roberto Wright, o homem que expulsou Deus em Goiânia, perder 17 mil vezes tendo o melhor ou uma das melhores equipes, ser até outro dia o maior pontuador do Brasileirão com um título somente, ah, tudo isso é fácil, amigo leitor. Não é tão fácil quanto torcer para um São Paulo, um Flamengo, sei lá, até mesmo para um Coritiba- grande regional, campeão brasileiro-, mas é fácil (Em relação ao Bahia, já venho acumulando algumas dúvidas).

Difícil, colegas, difícil e quase angustiante é torcer para o Fluminense de Feira. Se o Galo é o time dos que torcem contra o vento, o Touro sertanejo é o time que joga sem o vento. O vento é uma impossibilidade física, moral e filosófica para os times pequenos. Ao torcedor do Galo, sempre haverá a hipótese do vento parar. Sempre haverá um meteorologista prevendo (errando muito e quase sempre, mas acertando algum dia) o fim da tormenta. E se a tormenta acaba, o torcedor do Atlético já pode rir. O torcedor do Fluminense não.

sede touroO bravo touro pioneiro é um time para os trágicos, os apopléticos, os verdadeiros dons quixotes da nova ordem. Uma ida ao Jóia da Princesa mostra um estádio com menos de mil torcedores, todos apaixonados, mas com as circunstâncias mais curiosas.

Os palmeirenses reclamam da turma do amendoim? Pois dos 700 pagantes, 500 taurinos são dessa turma. Outros 80 compõem o total de componentes de quatro ou cinco organizadas que tentam motivar o time. Pois era esse o cenário do embate contra o Atlético das Alagoinhas, em jogo válido pela quarta divisão do futebol nacional. E o time de Alagoinhas parecia melhor, em boa parte do primeiro tempo e no começo do segundo tempo, até que o vento apareceu nas imediações do bairro do Sobradinho, onde se localiza o templo do Touro. Foi ali que um jogador com a cabeça enfaixada sacodiu a roseira e animou a moçada, o que deu oportunidade ao clube matar o jogo, com mais dois contra-ataques, e então dominar a partida de uma vez por todas.

É por esse momento de sonho que os torcedores do Fluminense (e do próprio Atlético e de seus irmãos em espírito, os suicidados pelo mundo do futebol) vivem, um momento em que é possível haver algum vento, sendo real a eventualidade de torcer contra qualquer coisa.

Por cada segundo é que vive o torcedor do Fluminense- e essa beleza é o patrimônio que ninguém há de tirar das mãos dos poucos que se aventuram ao Jóia da Princesa.

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O tempo desperta um temor reverencial em todos nós. Assim, os feitos do passado ganham uma dimensão que, se realizados hoje, jamais teriam. Tornam-se gloriosos, fabulosos, épicos, dignos da velha Hollywood. E, como o tempo, também é com a distância. Talvez eu deva retificar o que ia falando, pois o tempo somente nos causa respeito somente por ser ele mesmo de uma distância atroz. E é a distância esta senhora severa, definitiva, mágica e cabal que nos faz prostrar e prestar salamaleques genuflexivos, morais.

Vejam o caso da Liga dos Campeões da Europa e da Libertadores da América. Dia sim, dia também, alguém brada o desnível existente entre as duas competições, a diferença técnica, tática, antropológica e tenho medo do dia em que se gritará alguma distinção ética entre o futebol de clubes rebelde e profundo e aquele outro, aparelhado de museus e históriacortez_3_lg

De um lado, apresentam-se os argumentos a favor do campeonato europeu: os grandes craques, as equipes organizadas, com sócios e proprietários cuja soma de bens ultrapassa qualquer realidade tátil, os estádios deslumbrantes, os grandes embates. De outro, um torneio com a tradição brasileira, argentina e, no máximo, uruguaia. Argumentam os rapazes que times como Universidad San Martín de Porreas, Boyacá Chicó e mesmo um Colo Colo ou até um Nacional de Montevidéu são timecos, fraquíssimos, indignos de exercer qualquer barreira contra os brasileiros ou o Boca Juniors- são indignos até de fazer uma grande exibição.

Não posso deixar de me contrariar com e de contrariar essas afirmações, tão enfáticas, quanto mal-informadas.  São hipóteses alimentadas por um sentimento sempre presente e sempre detestável no futebol: o centralismo, um elitismo de quinta categoria.

Basta uma vista rápida para descobrirmos que a Liga dos Campeões não é tão grandiosa assim e que não somente os times dos maiores centros de futebol estão lá. Mais, é preciso perceber que os times dos maiores, mais ricos e mais desenvolvidos centros de futebol não são exatamente o melhor exemplo de grande futebol- e que, sim, os clubes menores podem ter seu papel.

Só nesta última edição (2008/9) da LC da UEFA,  tivemos Basel, Cluj, Anorthosis Famagusta, Panathinaikos e BATE Borisov . De outra mão, tivemos papéis medíocres exercidos pelo Celtic, Sporting (times que não são das maiores ligas, mas são tradicionais), Werder Bremen, para não falar do futebol mais ou menos praticado por boa parte dos outros clubes. Reparem que o Arsenal jogou mal e feio quase todas as partidas, o Real Madrid não convence ninguém na Europa há umas duas temporadas e que a Internazionale passou por uma pendenga daquelas para passar de fase num grupo em que Werder Bremen, Anorthosis Famagusta e Panathinaikos certamente não gastavam metade da folha salarial dos milaneses.

Claro, é mais improvável que um time de fora do G-14 ganhe o título, mas a presença de Villareal nas quartas deste ano e na final de 05/06,  do Leeds, do La Coruña e de outros clubes aqui e ali não são tão desprezíveis assim. E, claro, nem sempre é possível contar com um grande e pintoso futebol nessas ascenções. Se um Once Caldas retranqueiro é algo que pode constranger os mais pudicos, não podemos esquecer um papel melancólico encarnado pelos já citados Real Madrid e Internazionale neste ano.

Não discordo que a Libertadores de 2009 tem decepcionado em qualidade dos jogos, pois contamos com argentinos, mexicanos e colombianos enfraquecidos. Desprezar o esforço de um San Martin (clube universitário fundado em 2004), uma certa melhora dos times da antiga Província Cisplatina, mal comparando-os com um continente de histórico futebolístico e com níveis de riqueza nitidamente superiores é pôr a questão em pratos quebrados.

Esta situação toda é um reflexo de vira-latismo e deslumbre, e ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser, é uma afirmação tacanha de superioridade. Ao diminuir a Libertadores, aumentamos nosso tamanho e podemos, assim, nos imaginarmos mais pertos de um mundo mais rico e menos bagunçado do futebol. Que isso seja uma ilusão para consumo interno, faz parte da enganação nossa de cada dia. Que se dê ao custo da desvalorização de um torneio que é justamente a hipótese próxima de incrementar o futebol em toda a América Latina, é lamentável e deprimente.

Por increça que parível, como diz o poeta, já estou mais do que acostumado com autocratas incorrigíveis. Sim, colegas, e isto acontece nestes tempos democráticos, de paz, amor e ódio (ao menos declarado) ao arbítrio e à violência, o hábito de conviver com gigantes descomunalmente esmagadores tais quais morimbundos, digo, marimbondos maranhenses, formigas tornadas pobres vítimas e homens ordinários bravos, porém derrotados.

Vejam só o caso dos Estaduais. Sabemos que, desde os tempos ancestrais, tais torneios acabam por servir à lógica da humilhação do vintém pelo milhão, do esforço pela qualidade, etc, etc. E, no entanto, como dois e dois são quatro, a época de suas semifinais ganha uma relevância fabulosa. Claro, o clássico assassino, as eliminatórias tensas e cruéis, isso ganha uma dimensão extratática, extratécnica e, quem sabe até, escalafobética. E nessa toada, todos nós gritamos, nos mobilizamos e esquecemos dos regulamentos ridículos, que obrigam clubes a jogarem 19, 20, 25 jogos em 2, 3 meses.

Mas não podemos ser estraga-prazeres.As batalhas deste domingo, seja a travada entre Corinthians e São Paulo, Botafogo e Flamengo ou Fluminense de Feira e Bahia, todas elas trazem consigo a potencialidade cósmica que os grandes momentos de decisão possuem. E é nisso que devemos nos fiarmos para acompanhar estes jogos, mesmo que o duelo do Morumbi prometa mais defesas trancadas e bolas paradas do que futebol genuíno ou que no Maracanã possamos ter mais momentos engraçados na arquibancada do que um tratamento respeitoso à senhora pelota.  caxumba1

Claro, estes jogos não consertarão o nó do desenvolvimento futebolístico do país, i.e., dar sentido e permitir que os times pequenos e/ou do interior continuem a existir e evoluam de forma mais ou menos pujante. Aliás, a contradição essencial dos Estaduais é esta: única possibilidade de existência e atividade da maioria dos times do interior ou do Brasil profundo, não se apresentam como saída viável, tanto do ponto de vista financeiro, como do ponto de vista da saúde desportiva.

Se num Estado classe A do futebol como São Paulo, o Guarantiguetá outrora sensação torna-se um fracasso no ano seguinte, num Estado classe média (baixa?) como a Bahia, a atuação dos times do interior é uma incógnita a cada ano, a depender de investimentos aleatórios, enquanto nas fronteiras do mundo da bola brasileiro (pense num Espírito Santo, num Mato Grosso do Sul), os vencedores de ontem (Desportiva, Comercial) hoje não passam de pálida sombra ou fracasso evidente.

Esse mal-estar há de ser esquecido amanhã e nos próximos finais de semana decisivos. Mas há de perdurar durante todo o resto do ano, como um fantasma ou uma caxumba, a nos oprimir o cérebro, o queixo e nossas partes pudendas.

Leia também: Para que servem os Estaduais?

Pretendia evocar Rui Barbosa. Não que o excelso Cabeça de Nós Todos tenha refletido e discorrido sobre o nobre esporte, a espontânea arte. Não: evoco o Águia em sua Oração aos Moços. Lá, o mais nobre paraninfo já conhecido pelo homem elenca as três coisas às quais devemos respeito e dedicação: Deus, a pátria, o trabalho (e que me perdoem se me equivoco na ordem).

Prezado Cabeção, que vem a ser a pátria? Como poderíamos servi-la? Diariamente, acompanho o serviço pátrio de lorpas, de crápulas e canalhas que se valem do estandarte e do hino para as suas atividades igualmente torpes. Bilac que me perdoe, mas que significa cantar o Hino Nacional vinte vezes seguidas ao se alistar obrigatoriamente junto ao exército brasileiro?

Mas deliro. Divago. Perco-me. Desejo escrever, em realidade, sobre o regionalismo. Porque, no futebol diário e corrente, este que comentamos nas ruas e pelo qual padecemos às quartas e domingos, a pátria é a região, é a cidade, é o bairro. O rival torna-se estrangeiro. Há alguns textos, o companheiro de labuta desportiva refletiu a condição do torcedor exilado. Mantendo um discurso moderno e liberal, realmente sensato e lógico, Rafael B. defende-se de um ataque insensível e cruel.

Compreendo a sua condição. E explico: todo baiano que torce para um time baiano sente-se superior a outro que vibra pelas conquistas de um clube estrangeiro. E assim também eu costumo fazer: eu saio às ruas ostentando o brasão vitoriano como se ele me desse direito – divino e inalienável – de ser respeitado e admirado. Um bolsão de resistência. Algo assim.

Sim, é um procedimento assaz estúpido e inexplicável. Mas futebol e pátria são assim – inexplicáveis, estúpidos. Há algum tempo que percebo o futebol extremamente ligado à terra. Reconheço e perigo de tal posicionamento me levar, quem sabe, à construção de um campo de concentração ou ao fechamento das fronteiras – mas são riscos que um homem precisa enfrentar e diante dos quais deve se manter impávido, são e digno. Nunca pretendi que a minha relação com o futebol e com o país fossem pacíficos: como não detestar o Brasil? Como não vociferar e cuspir nos gramados?

Mas deixemos de abstrações – sei que o leitor, propenso à metafísica, já se perde em meio a Platões e Agostinhos. Discordo do companheiro Rafael B. num único ponto, concordo em outro e relativizo em mais um.

Primeiro: não creio que a escolha de um time seja algo necessariamente inconsciente. Não me refiro, naturalmente, aos que seguem esquadras por moda – desprezemos tais vampiros. Mas há muita coisa outra envolvida na escolha de um time. E aqui, naturalmente, afirmo que pode haver uma “escolha”. Pode ser, por exemplo, uma questão ideológica – e a minha se aproxima disso: iniciou-se como uma virulenta e apaixonada revolta contra a imposição maciça de camisetas e troféus do Sudeste. Não exatamente ressentimento, mas um incômodo – porque pareciam rir de mim. E homem nenhum se presta a que os outros riam dele. Joel Santana, com sua Epistemologia da Palhaçadinha, que o diga.

Há, também, a escolha edipiana. Quantos filhos, em domingos sombrios (vejam as palmeiras balançando, as crianças silenciando – tudo sob o céu nebuloso), não assassinam os pais simbolicamente numa final de campeonato em que o Vasco, time do jovem, esmaga o Flamengo, time do velho? A Grécia evocada. Tolo quem acha que o futebol acontece dentro das quatro linhas.

Hei-de concordar, porém, noutra questão – demonstrando que meu ressentimento de subjugado não é tão poderoso. Não simpatizo com as reclamações contra a imprensa do Sudeste. Sendo do Sudeste, é natural que os jornalistas tratem dos times de lá. Não acompanham o trabalho diário de Vitória, Bahia, Sport ou Náutico – e, naturalmente, não o comentam. Quando o fazem, acabam por escorregar na macumba para turista ou na desinformação, como bem demonstrou Rafael B. Pergunto-me como sobreviveu por tanto tempo a lenda da paz nos estádios nordestinos. Ou a de que a paixão daqui é maior do que a de lá.

Não concordo, porém, com a transposição desse panorama para o contexto estadual. Há uma diferença numérica muito vasta para que não seja levada em conta – e, assim como a imprensa estadual, no cenário nacional, trata dos seus times, a imprensa local acompanha os times de menor expressão dentro do Estado. Tal acompanhamento, por sinal, é a fonte maior do anedotário da imprensa esportiva. Portanto, assim como compreendo a preferência da forte mídia do Sudeste pelos seus times, entendo a preferência dos jornalistas soteropolitanos por suas duas esquadras centrais.

O regionalismo, enfim, já é equivocado desde o nome. Só há regionalismo se há um centro que trata de fazer do outro um cidadão periférico – daí, então, a sua arte e o seu esporte tornam-se pitorescos, engraçados, curiosos. É natural, portanto, a reação diante de tal quadro – logo, o periférico percebe-se central e alheio, central e solitário, central e orgulhoso.

 

 

 

 

 

Outro dia, um companheiro de jornada, desesperadamente bradou para mim, com ar de independência: “Você é um consumidor! Você não torce para um time de futebol, você apenas consome um produto”. E eu quase o vi babar pela camiseta.

Ora, ele dizia, “não existe isso de torcer para um time de fora da Bahia! Baiano é assim mesmo, não dá valor às coisas da terra”. Foi então que eu tive uma catarse. O apelo telúrico do torcedor do Sport Club Victoria da Bahia trouxe à tona todo um processo cognoscivo que me paralisou por boas horas. Afinal, eu seria o menos baiano dos baianos por não respeitar uma instituição da terra, seria quase um baiano anti-acarajé, um sacrílego, um assassino dos alfaiates, um contra-malê, um destruidor da Colina- tudo isso porque visto as cores do São Paulo Futebol Clube.

Sabemos, claro, que o conjunto de atos que leva alguém a torcer por um time não é um processo racional ou direcionado. Por outra: Não é o torcedor que escolhe o time, e muito mais próxima  a verdade está do contrário. Todo o processo inconsciente, de formação do ego, do superego, do anti-ego, do pós-ego e até mesmo do superduperego, os traumas e glórias de infância, o processo educacional familiar e escolar, os doces devorados na mercearia do Seu Joaquim, tudo isso desemboca na relação final entre alguém e o time de sua admiração.

E, no entanto, isso é inaceitável para muitas pessoas. Vejo aqui na região Nordeste, inúmeros reclamarem da subserviência ao Sul (leia-se Sudeste, incluso). Isto, é claro, tem raízes profundas no ressentimento causado pela ascensão econômica e pela proeminência política especialmente de São Paulo, Rio de Janeiro e, vá lá, Minas Gerais e na própria decadência que tomou as terras que se estendem de Teresina e Picos (ou São Luís, algo amazônico) a Salvador (ou Teixeira de Freitas), desde uns 200 anos.

Reclamam também meus conterrâneos da imprensa sulista, que trataria com certo desdém todo o time que não aqueles 12 (4 de São Paulo, 4 do Rio, 2 do Rio Grande do Sul e 2 das Gerais) e do domínio existente nas federações, conselhos de arbitragem, museus, livros e qualquer coisa que inclua futebol e discursos sobre o mesmo.

Assistindo um noticiário produzido no Rio ou em São Paulo, só posso concordar com meus colegas. Por maior que seja a boa vontade com que um grande do jornalismo esportivo, Juca Kfouri, trate o Esporte Clube Bahia, por exemplo, sinto que o olhar presente é a de alguma coisa exótica, excentricamente deslumbrante. É o que se nota nos comentários sobre a torcida, ou melhor, todas as torcidas do Nordeste. Mesmo o elogio, em relação à fidelidade das mesmas, acaba resvalando num maravilhamento com o pitoresco, com o algo mágico da região.

Isso quando não cai na desinformação ou na informação prejudicada pela distância mesmo. É o caso do trivela.com.br afirmando o Victoria da Bahia como um time inferior ao Paraná Clube ou qualificando o trabalho (mediano) de Vadão como esgotado (quando o que se notava era um péssimo time, formado de maneira estranha e esquisita pela diretoria) no momento de problemas do Campeonato Estadual .

Ok, aceito o argumento- e mesmo aquele que constata a decisão dos juízes a favor de alguns times quando na dúvida. É uma generalização, claro, e comporta torrentes de exceções.

Só que eu lembro, não nasci em Salvador, Recife ou Fortaleza. Nasci em uma cidade com pouca tradição futebolística e com um time, que se já fez um bom papel aqui ou ali, hoje enfrenta dificuldades tremendas. Como já disse, sou sensível ao apelo telúrico, e desde pequeno, acompanho a trajetória do Bravo Touro Pioneiro, o Fluminense de Feira. Não posso dizer que sou um torcedor, até porque, claro, isto não é um processo consciente, deliberado. Mas sempre guardei a simpatia. E guardo nas memórias profundas e coletivas, as histórias de mutretas contra times do interior. E, vejam só!, os personagens vilânicos da história são as vítimas dos primeiros parágrafos. Bahia e Victoria aparecem como aqueles que ajudaram a retardar o desenvolvimento alheio no Estado.

Ligo a TV num noticiário esportivo local, e uma nova catarse me leva ao desmaio. Acordo, mudo de canal duas vezes e quedo catatônico. O noticiário estadual fala de Bahia e Vitória em proporções desiguais, tempestuosas, quando comparados a outros times. Sim, se isso é bem verdade quando a maioria dos clubes do Estado está em recesso, também é quando os times estão em atividade. Claro, os campeonatos estaduais servem mesmo para o entusiasmo e a pré-temporada dos grandes (ou dos pequenos que se querem enormes).

Parece-me claro que sempre haverá insatisfação com o espaço dado. Parece-me claro que sempre alguns times chamarão mais atenção que outros (e que hoje a mídia paulista, carioca, gaúcha ou roraimense teme mais o Victoria ou Sport Club do Recife do que o Atlético Mineiro).
E mais cristalino do que água ou do que o próprio cristal, posso asseverar que o ressentimento é uma arma que só serve para esconder fraquezas e proteger estruturas ridículas- como certas diretorias e federações.