É curioso como, de repente, vagas de bom-mocismo tomam o mundo do futebol. Vejam o caso do América, simpático clube carioca, da Tijuca. Passou anos de ostracismo futebolístico, penando com 250 outros times do Rio de Janeiro que não os quatro mais bem-quistos, sem obter qualquer conquista relevante. Conseguiu ir a uma final da Taça Guanabara, para ser garfado e assistir de modo inconveniente à chamada profissionalização do futebol. Mais ou menos como um semi-cadáver ou um tio incômodo que atrapalha o andamento familiar com sua tuberculose.

Tísico, o time chegou a um ponto baixo, baixíssimo e baixérrimo de sua trajetória. Muito baixo mesmo, os alvirrubros chegaram à segunda divisão do Estadual do Rio de Janeiro (Carioca?), mesmo tendo que sucumbir a times sofríveis. E foi, então, que num estalo, começou-se a temer pelo futuro do América.

Quem temeu? Os torcedores. A imprensa? Mais ou menos. Aqui e ali pipocaram iniciativas de restauração de um passado glorioso. Parceria com patrocinador de primeira divisão, administração de Romário, boa lembrança aqui e ali até o ponto de ter seus jogos transmitidos pela TV.

Sim, amigos, eu disse televisão. Nessa semana que passou, de modo um pouco surdo, tivemos uma pequena queda-de-braço pelos jogos do América. Não, não era a Rede Vida e a Canção Nova que disputavam por transmitir jogos de times menores. Eram os dois maiores canais de esportes na TV por assinatura brasileira. Para além dos bolodórios jurídicos, a emissora que se recusou a transmitir alguns jogos da Libertadores, a que cortou os últimos minutos do último jogo do Campeonato Argentino em prol do VT do GP de Motovelocidade e da premiação de um GP de Judô, essa emissora decidiu passar os jogos do América.

Podemos sorrir, então, afinal os mangangões estariam zelando pelo futebol de antigamente, dos primos pobres, pererê parará? Não mesmo, colegas. Os jogos a serem televisionados são exclusivamente os do América. Só interessa noticiar os jogos do América. A segunda divisão do Estadual virou a jornada da redenção do América- mais ou menos como zás-trás- a segunda do Brasileiro vira a redenção do Palmeiras, Botafogo, Grêmio, Corinthians e até mesmo a do Galo. É a ressureição farsesca da história da Fênix.

Reclamo disso? Não. Ou melhor, reclamo sim, mas nem tanto. O novo despertar do América é positivo, até como forma de ampliar o leque de clubes a quem se pode prestar atenção no futebol. Um mundo com poucos clubes relevantes é um abismo insípido e nauseante. Mas não se poderia tratar de melhor forma os companheiros do esquecimento que o América partilhava até pouco? Não só no Rio, mas na Bahia, nos Rio Grandes e em Roraima- sem que só o folclore excêntrico anual da Copa do Brasil os reavivem em nossas memórias?

Enfim, enfim e digo mais: Por fim. Que o América abra o olho e agarre esse momento. Amanhã, uma nova vedete pode apagar do fronte qualquer vestígio dessa história.

MichaelJacksonDancando1

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O homem é o mais obcecado dos seres. Preso na sua teia de divagações e sentimentalidades, o pobre homo sapiens sapiens não consegue ir daqui ali sem pensar, hesitar, refletir, rememorar traumas ancestrais, sofrer com a infância perdida e temer a morte. Podem reparar, o mais comezinho dos atos, seja uma mera ida à padaria ou  simples compra de cigarros, é precedido de uma filosofia milenar e problemática.

E não negando a natureza, que isso é coisa de pulhas, sou um neurótico com minhas obsessões. Em futebol, a principal das obsessões é a humilhação. Não uma qualquer humilhação, mas uma humilhação definitiva de tão canhestra. A humilhação é a redução da dignidade, a anulação do outro- situação acintosamente flagrada no relacionamento entre grandes e pequenos. Refiro-me, claro, não aos atletas, mas às equipes, aos esquadrões.

Ora, a definição do pequeno é , digamos assim, relativa, ainda mais num país continental, monumental e pandeiro, como é nossa  Ilha de Vera Cruz. O Davi nacional é um Leviatã regional, podendo ser um freguês caloteiro no terreno municipal. E nesse dia-a-dia, nessa rotina malemolente é que uns clubes tentam afundar os outros.

Primeiro, é preciso (ou mister, como diria um estagiário de Direito) lembrar que se trata de uma situação global. Desde a aniquilação do glorioso Central de Manchester, a história do futebol é o canibalismo: É time comendo time e nego comendo gente até as horas da madrugada. Normal, diria o profeta. E acrescentaria: Normalíssimo.

Segundo (ou segundamente), temos de encarar o fenômeno com a tristeza do bardo. Ainda que normal, parece inevitável que o sentimento de superioridade e esmagamento domine no futebol. Não falo da rivalidade tradicional, entre Bahia e Vitória, Grêmio e Internacional, Everton e Liverpool ou Sampdoria e Genoa, mas de uma situação distinta: É o conflito entre um time do interior e o do capital no Brasil, é o caso de um grande time inglês e um time geórgio, armênio ou bielorusso- está claro quem é o grande, está claro quem é o pequeno, a disparidade de forças, orçamentos, conquistas, etc.- e ainda assim, há toda uma vontade de esmigalhamento.

Mas estou desviando do que  deveria falar, da Libertadores da América, de Sport e Palmeiras. Nesse jogo, disputaram teses acerca da grandeza de um time, tanto do ressentimento orgulhoso dos nordestinos, como da maior tradição em vitórias palmeirense.

Curiosa, porém, foi a postura do time paulista na Ilha. Fechado, buscando o 0 a 0 a todo custo, o Palmeiras fez as vezes do pequeno- ainda que o Sport não mostrasse condições de se comportar como um vitorioso. O herói inesperado acabou perdendo os tiros da marca da cal-estes, consagram, mais uma vez o grande Marcos.

Findo o jogo, tem-se a sensação de que não há esmagados, nem a sensação da vitória triunfante.

O tempo desperta um temor reverencial em todos nós. Assim, os feitos do passado ganham uma dimensão que, se realizados hoje, jamais teriam. Tornam-se gloriosos, fabulosos, épicos, dignos da velha Hollywood. E, como o tempo, também é com a distância. Talvez eu deva retificar o que ia falando, pois o tempo somente nos causa respeito somente por ser ele mesmo de uma distância atroz. E é a distância esta senhora severa, definitiva, mágica e cabal que nos faz prostrar e prestar salamaleques genuflexivos, morais.

Vejam o caso da Liga dos Campeões da Europa e da Libertadores da América. Dia sim, dia também, alguém brada o desnível existente entre as duas competições, a diferença técnica, tática, antropológica e tenho medo do dia em que se gritará alguma distinção ética entre o futebol de clubes rebelde e profundo e aquele outro, aparelhado de museus e históriacortez_3_lg

De um lado, apresentam-se os argumentos a favor do campeonato europeu: os grandes craques, as equipes organizadas, com sócios e proprietários cuja soma de bens ultrapassa qualquer realidade tátil, os estádios deslumbrantes, os grandes embates. De outro, um torneio com a tradição brasileira, argentina e, no máximo, uruguaia. Argumentam os rapazes que times como Universidad San Martín de Porreas, Boyacá Chicó e mesmo um Colo Colo ou até um Nacional de Montevidéu são timecos, fraquíssimos, indignos de exercer qualquer barreira contra os brasileiros ou o Boca Juniors- são indignos até de fazer uma grande exibição.

Não posso deixar de me contrariar com e de contrariar essas afirmações, tão enfáticas, quanto mal-informadas.  São hipóteses alimentadas por um sentimento sempre presente e sempre detestável no futebol: o centralismo, um elitismo de quinta categoria.

Basta uma vista rápida para descobrirmos que a Liga dos Campeões não é tão grandiosa assim e que não somente os times dos maiores centros de futebol estão lá. Mais, é preciso perceber que os times dos maiores, mais ricos e mais desenvolvidos centros de futebol não são exatamente o melhor exemplo de grande futebol- e que, sim, os clubes menores podem ter seu papel.

Só nesta última edição (2008/9) da LC da UEFA,  tivemos Basel, Cluj, Anorthosis Famagusta, Panathinaikos e BATE Borisov . De outra mão, tivemos papéis medíocres exercidos pelo Celtic, Sporting (times que não são das maiores ligas, mas são tradicionais), Werder Bremen, para não falar do futebol mais ou menos praticado por boa parte dos outros clubes. Reparem que o Arsenal jogou mal e feio quase todas as partidas, o Real Madrid não convence ninguém na Europa há umas duas temporadas e que a Internazionale passou por uma pendenga daquelas para passar de fase num grupo em que Werder Bremen, Anorthosis Famagusta e Panathinaikos certamente não gastavam metade da folha salarial dos milaneses.

Claro, é mais improvável que um time de fora do G-14 ganhe o título, mas a presença de Villareal nas quartas deste ano e na final de 05/06,  do Leeds, do La Coruña e de outros clubes aqui e ali não são tão desprezíveis assim. E, claro, nem sempre é possível contar com um grande e pintoso futebol nessas ascenções. Se um Once Caldas retranqueiro é algo que pode constranger os mais pudicos, não podemos esquecer um papel melancólico encarnado pelos já citados Real Madrid e Internazionale neste ano.

Não discordo que a Libertadores de 2009 tem decepcionado em qualidade dos jogos, pois contamos com argentinos, mexicanos e colombianos enfraquecidos. Desprezar o esforço de um San Martin (clube universitário fundado em 2004), uma certa melhora dos times da antiga Província Cisplatina, mal comparando-os com um continente de histórico futebolístico e com níveis de riqueza nitidamente superiores é pôr a questão em pratos quebrados.

Esta situação toda é um reflexo de vira-latismo e deslumbre, e ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser, é uma afirmação tacanha de superioridade. Ao diminuir a Libertadores, aumentamos nosso tamanho e podemos, assim, nos imaginarmos mais pertos de um mundo mais rico e menos bagunçado do futebol. Que isso seja uma ilusão para consumo interno, faz parte da enganação nossa de cada dia. Que se dê ao custo da desvalorização de um torneio que é justamente a hipótese próxima de incrementar o futebol em toda a América Latina, é lamentável e deprimente.

Outro dia, um rapaz saiu correndo apressado pelo meio da cidade. Em seu frenesi, perdeu as chaves de sua casa, pisou nos pés de algumas senhoras -e reparem no peso que essa palavra ganha hoje- as senhoras têm 60, 70 anos e as menores de 89 parecem rejeitar definitivamente tal alcunha. Ser uma Senhora é quase ofensivo- tudo porque pensava que sua mulher, grávida, estava em vias de ter o rebento. Sim, em vias de dar à luz, o momento mais sagrado da humanidade.

No entanto, já chegando em casa, quando buzinava insistentemente a campainha, o rapaz se deu conta de que sua pequena não estava grávida. Pior, lembrou-se de que não tinha uma esposa. Mais trágico, teve a terrível visão de que não possuía sequer uma namorada. E, então, sentiu que quase havia causado o apocalipse por nada. E chorou.

Do jogo de domingo entre Flamengo e Botafogo, o jogo é o que importa menos a essa altura. Este é o dado trágico da semana, e ainda assim, ninguém fica muito preocupado, ninguém parece se importar. Incrível, teatral, espetacularmente estrondosa é esta situação. O jogo não importa.

A dramática mis-en-scene armada pela diretoria, comissão técnica e pelos próprios jogadores do Botafogo foi digna de um time que treme, que chacoalha suas pernas diante de qualquer jogo considerado decisivo. A visão do jogo é nada menos do que esta simples análise: o Botafogo não pode ganhar, porque simplesmente está além de suas capacidades. E estas capacidades estão além de minha compreensão- ou mesmo da de Freud.

Cuca monta times extremamente agradáveis, principalmente porque tratam o futebol não como uma mera busca pela não-derrota, e sim porque buscam o encanto da vitória. É claro que no futebol, como na vida, a busca do encanto constante não passa de uma falha e os transtornos que causam são dramáticos feito o diabo.

Cuca é mesmo trágico feito o diabo. O rosto de Cuca, após a derrota para o Once Caldas (nas semifinais da Libertadores) ou para o Figueirense e agora após o jogo contra o Flamengo é a perfeita expressão de um homem que não monta equipes para vencer campeonatos- ou pior, não consegue fazê-lo.

Alguém argumenta, de forma canibal, em meu juízo, que Cuca erra ao pôr o time para vencer quando, com 1 jogador a menos, deveria buscar os pênaltis. Ora, esta é a maior qualidade do time dele, é o destemor. Ainda não acredito que a derrota do Botafogo tenha sido causada pelo ataque, mas sim pelo desespero– o puro e simples e vital desespero. A jogada do gol assassino, na qual Tardelli sobra sozinho, após uma saída desastrada de seu marcador é a prova de que o que faltava ali não era marcação- e sim, calma, sangue-frio- e um pouco de psicopatia, essencial para viver.

A mis-en-scene é a concretização do desespero- não me venham falar da arbitragem, porque pretendo retirar o pentacampeonato da Canarinho, bastando lembrar do jogo contra a Bélgica,certo? A própria versão dos botafoguenses não se sustenta. Túlio diz que não tem nada a ver com o Flamengo, Montenegro diz que trabalha no Ibope e sabe da quantidade de flamenguista que existe no mundo e a torcida diz que os rubro-negros são sempre beneficiados (uma meia-verdade, mas que não é relevante para explicar a derrota).

Não foi o juiz que perdeu os gols nos últimos minutos, não foi o juiz que deixou o flamenguista Tardelli desmarcado, não foi o juiz que puxou a camisa de Fábio Luciano de forma acintosa e pueril. Foram botafoguenses, assim como foram alvinegros o rapaz que acertou a canela de Reasco e o que chutou a bola em Leandro ou o que tomou o gol do Figueirense ou ainda o que fez pênalti no jogador do Atlético Mineiro (ah, esse o juiz não marcou).

Acusar a conspiração é a forma evidente de desespero, e eu não conheço um homem que não esteja destemperado a cuspir tragédias arquitetadas às suas costas. Não que a malandragem e a safadeza não existam- são intrínsecas ao ser humano- mas daí a dizer que os próprios erros são malandragem e safadeza, bem…

Mas por que escrevo tanto? O que é a Taça Guanabara? Qual o real sentido de se discutir a Taça Guanabara? Quem via os comentários de José Trajano a respeito dos clubes paulistas (medonhos, inclusive- falo dos times), e não assistiu aos jogos dos escretes cariocas, imaginaria que o Duque de Caxias, o Macaé, o Mesquita e mesmo o Vasco da Gama ou o Flamengo jogavam um futebol digno do nome. Pelas minhas contas, o Campeonato do Estado do Rio de Janeiro teve 2 ou 3 jogos. É verdade que o Paulista não teve nenhum ainda.

Mas é tudo água. Por que falar tanto sobre a gravidez que não existe?