Fora uns quatro ou cinco ocasionais golzinhos praticados nas férias (eu sempre me assustava quando ficava na cara do gol e alguém gritava em minhas costas), passei um bom tempo afastado do futebol.

De fato, não tão afastado. Minha primeira lembrança de algum talento diz respeito à invenção de jogos fictícios. Eu compunha verdadeiros jornais com manchetes absurdas, desenhos degradados e espetaculares e referências pitorescas. Lembro bem a admiração de meu pai ao mencionar meu conhecimento sobre o apelido do Guarani de Campinas- acho que foi a primeira vez em que me tornava um vaidoso (sim, já fui e deixei de ser um vaidoso umas setecentas e quarenta e três vezes).

De início, minha imprensa abstrata falava dos jogos da rodada. De um tempo para outro, comecei a criar meus próprios jogos. Os jogos impossíveis não eram interessantes. Minha intenção era reeditar as pelejas já ocorridas, criar novas narrativas, possibilidades astrofísicas. Era uma espécie de videogame prático, antecessor dos mais modernos de hoje em dia.

E esse talento literário redundou em uma nova etapa: a prática. Sem muitos amigos (em muitas épocas foi assim), parti para o jogo solitário. Eu contra eu, representando 22 jogadores, os reservas, juiz, bandeirinhas, torcida, numa multidão solitária e frenética, obscena e psicótica.

Eram idos de 1996. Meu esporte era no quintal da casa- uma grama (como coçava quando eu caía nos pênaltis fantasmagóricos), areia em outro, que eu corria e desbravava como um etíope ou queniano na São Silvestre (se não fosse o Google, eu chamaria a Brigadeiro Luiz Antônio de Lima e Silva ou de Eduardo Gomes).

Por Jesus, pode parecer uma coisa triste, solitária e enfadonha- mas naquele momento, era uma catarse, algo próximo do Paraíso.

É curioso como, de repente, vagas de bom-mocismo tomam o mundo do futebol. Vejam o caso do América, simpático clube carioca, da Tijuca. Passou anos de ostracismo futebolístico, penando com 250 outros times do Rio de Janeiro que não os quatro mais bem-quistos, sem obter qualquer conquista relevante. Conseguiu ir a uma final da Taça Guanabara, para ser garfado e assistir de modo inconveniente à chamada profissionalização do futebol. Mais ou menos como um semi-cadáver ou um tio incômodo que atrapalha o andamento familiar com sua tuberculose.

Tísico, o time chegou a um ponto baixo, baixíssimo e baixérrimo de sua trajetória. Muito baixo mesmo, os alvirrubros chegaram à segunda divisão do Estadual do Rio de Janeiro (Carioca?), mesmo tendo que sucumbir a times sofríveis. E foi, então, que num estalo, começou-se a temer pelo futuro do América.

Quem temeu? Os torcedores. A imprensa? Mais ou menos. Aqui e ali pipocaram iniciativas de restauração de um passado glorioso. Parceria com patrocinador de primeira divisão, administração de Romário, boa lembrança aqui e ali até o ponto de ter seus jogos transmitidos pela TV.

Sim, amigos, eu disse televisão. Nessa semana que passou, de modo um pouco surdo, tivemos uma pequena queda-de-braço pelos jogos do América. Não, não era a Rede Vida e a Canção Nova que disputavam por transmitir jogos de times menores. Eram os dois maiores canais de esportes na TV por assinatura brasileira. Para além dos bolodórios jurídicos, a emissora que se recusou a transmitir alguns jogos da Libertadores, a que cortou os últimos minutos do último jogo do Campeonato Argentino em prol do VT do GP de Motovelocidade e da premiação de um GP de Judô, essa emissora decidiu passar os jogos do América.

Podemos sorrir, então, afinal os mangangões estariam zelando pelo futebol de antigamente, dos primos pobres, pererê parará? Não mesmo, colegas. Os jogos a serem televisionados são exclusivamente os do América. Só interessa noticiar os jogos do América. A segunda divisão do Estadual virou a jornada da redenção do América- mais ou menos como zás-trás- a segunda do Brasileiro vira a redenção do Palmeiras, Botafogo, Grêmio, Corinthians e até mesmo a do Galo. É a ressureição farsesca da história da Fênix.

Reclamo disso? Não. Ou melhor, reclamo sim, mas nem tanto. O novo despertar do América é positivo, até como forma de ampliar o leque de clubes a quem se pode prestar atenção no futebol. Um mundo com poucos clubes relevantes é um abismo insípido e nauseante. Mas não se poderia tratar de melhor forma os companheiros do esquecimento que o América partilhava até pouco? Não só no Rio, mas na Bahia, nos Rio Grandes e em Roraima- sem que só o folclore excêntrico anual da Copa do Brasil os reavivem em nossas memórias?

Enfim, enfim e digo mais: Por fim. Que o América abra o olho e agarre esse momento. Amanhã, uma nova vedete pode apagar do fronte qualquer vestígio dessa história.

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O homem é o mais obcecado dos seres. Preso na sua teia de divagações e sentimentalidades, o pobre homo sapiens sapiens não consegue ir daqui ali sem pensar, hesitar, refletir, rememorar traumas ancestrais, sofrer com a infância perdida e temer a morte. Podem reparar, o mais comezinho dos atos, seja uma mera ida à padaria ou  simples compra de cigarros, é precedido de uma filosofia milenar e problemática.

E não negando a natureza, que isso é coisa de pulhas, sou um neurótico com minhas obsessões. Em futebol, a principal das obsessões é a humilhação. Não uma qualquer humilhação, mas uma humilhação definitiva de tão canhestra. A humilhação é a redução da dignidade, a anulação do outro- situação acintosamente flagrada no relacionamento entre grandes e pequenos. Refiro-me, claro, não aos atletas, mas às equipes, aos esquadrões.

Ora, a definição do pequeno é , digamos assim, relativa, ainda mais num país continental, monumental e pandeiro, como é nossa  Ilha de Vera Cruz. O Davi nacional é um Leviatã regional, podendo ser um freguês caloteiro no terreno municipal. E nesse dia-a-dia, nessa rotina malemolente é que uns clubes tentam afundar os outros.

Primeiro, é preciso (ou mister, como diria um estagiário de Direito) lembrar que se trata de uma situação global. Desde a aniquilação do glorioso Central de Manchester, a história do futebol é o canibalismo: É time comendo time e nego comendo gente até as horas da madrugada. Normal, diria o profeta. E acrescentaria: Normalíssimo.

Segundo (ou segundamente), temos de encarar o fenômeno com a tristeza do bardo. Ainda que normal, parece inevitável que o sentimento de superioridade e esmagamento domine no futebol. Não falo da rivalidade tradicional, entre Bahia e Vitória, Grêmio e Internacional, Everton e Liverpool ou Sampdoria e Genoa, mas de uma situação distinta: É o conflito entre um time do interior e o do capital no Brasil, é o caso de um grande time inglês e um time geórgio, armênio ou bielorusso- está claro quem é o grande, está claro quem é o pequeno, a disparidade de forças, orçamentos, conquistas, etc.- e ainda assim, há toda uma vontade de esmigalhamento.

Mas estou desviando do que  deveria falar, da Libertadores da América, de Sport e Palmeiras. Nesse jogo, disputaram teses acerca da grandeza de um time, tanto do ressentimento orgulhoso dos nordestinos, como da maior tradição em vitórias palmeirense.

Curiosa, porém, foi a postura do time paulista na Ilha. Fechado, buscando o 0 a 0 a todo custo, o Palmeiras fez as vezes do pequeno- ainda que o Sport não mostrasse condições de se comportar como um vitorioso. O herói inesperado acabou perdendo os tiros da marca da cal-estes, consagram, mais uma vez o grande Marcos.

Findo o jogo, tem-se a sensação de que não há esmagados, nem a sensação da vitória triunfante.

Por increça que parível, como diz o poeta, já estou mais do que acostumado com autocratas incorrigíveis. Sim, colegas, e isto acontece nestes tempos democráticos, de paz, amor e ódio (ao menos declarado) ao arbítrio e à violência, o hábito de conviver com gigantes descomunalmente esmagadores tais quais morimbundos, digo, marimbondos maranhenses, formigas tornadas pobres vítimas e homens ordinários bravos, porém derrotados.

Vejam só o caso dos Estaduais. Sabemos que, desde os tempos ancestrais, tais torneios acabam por servir à lógica da humilhação do vintém pelo milhão, do esforço pela qualidade, etc, etc. E, no entanto, como dois e dois são quatro, a época de suas semifinais ganha uma relevância fabulosa. Claro, o clássico assassino, as eliminatórias tensas e cruéis, isso ganha uma dimensão extratática, extratécnica e, quem sabe até, escalafobética. E nessa toada, todos nós gritamos, nos mobilizamos e esquecemos dos regulamentos ridículos, que obrigam clubes a jogarem 19, 20, 25 jogos em 2, 3 meses.

Mas não podemos ser estraga-prazeres.As batalhas deste domingo, seja a travada entre Corinthians e São Paulo, Botafogo e Flamengo ou Fluminense de Feira e Bahia, todas elas trazem consigo a potencialidade cósmica que os grandes momentos de decisão possuem. E é nisso que devemos nos fiarmos para acompanhar estes jogos, mesmo que o duelo do Morumbi prometa mais defesas trancadas e bolas paradas do que futebol genuíno ou que no Maracanã possamos ter mais momentos engraçados na arquibancada do que um tratamento respeitoso à senhora pelota.  caxumba1

Claro, estes jogos não consertarão o nó do desenvolvimento futebolístico do país, i.e., dar sentido e permitir que os times pequenos e/ou do interior continuem a existir e evoluam de forma mais ou menos pujante. Aliás, a contradição essencial dos Estaduais é esta: única possibilidade de existência e atividade da maioria dos times do interior ou do Brasil profundo, não se apresentam como saída viável, tanto do ponto de vista financeiro, como do ponto de vista da saúde desportiva.

Se num Estado classe A do futebol como São Paulo, o Guarantiguetá outrora sensação torna-se um fracasso no ano seguinte, num Estado classe média (baixa?) como a Bahia, a atuação dos times do interior é uma incógnita a cada ano, a depender de investimentos aleatórios, enquanto nas fronteiras do mundo da bola brasileiro (pense num Espírito Santo, num Mato Grosso do Sul), os vencedores de ontem (Desportiva, Comercial) hoje não passam de pálida sombra ou fracasso evidente.

Esse mal-estar há de ser esquecido amanhã e nos próximos finais de semana decisivos. Mas há de perdurar durante todo o resto do ano, como um fantasma ou uma caxumba, a nos oprimir o cérebro, o queixo e nossas partes pudendas.

Leia também: Para que servem os Estaduais?

Pretendia evocar Rui Barbosa. Não que o excelso Cabeça de Nós Todos tenha refletido e discorrido sobre o nobre esporte, a espontânea arte. Não: evoco o Águia em sua Oração aos Moços. Lá, o mais nobre paraninfo já conhecido pelo homem elenca as três coisas às quais devemos respeito e dedicação: Deus, a pátria, o trabalho (e que me perdoem se me equivoco na ordem).

Prezado Cabeção, que vem a ser a pátria? Como poderíamos servi-la? Diariamente, acompanho o serviço pátrio de lorpas, de crápulas e canalhas que se valem do estandarte e do hino para as suas atividades igualmente torpes. Bilac que me perdoe, mas que significa cantar o Hino Nacional vinte vezes seguidas ao se alistar obrigatoriamente junto ao exército brasileiro?

Mas deliro. Divago. Perco-me. Desejo escrever, em realidade, sobre o regionalismo. Porque, no futebol diário e corrente, este que comentamos nas ruas e pelo qual padecemos às quartas e domingos, a pátria é a região, é a cidade, é o bairro. O rival torna-se estrangeiro. Há alguns textos, o companheiro de labuta desportiva refletiu a condição do torcedor exilado. Mantendo um discurso moderno e liberal, realmente sensato e lógico, Rafael B. defende-se de um ataque insensível e cruel.

Compreendo a sua condição. E explico: todo baiano que torce para um time baiano sente-se superior a outro que vibra pelas conquistas de um clube estrangeiro. E assim também eu costumo fazer: eu saio às ruas ostentando o brasão vitoriano como se ele me desse direito – divino e inalienável – de ser respeitado e admirado. Um bolsão de resistência. Algo assim.

Sim, é um procedimento assaz estúpido e inexplicável. Mas futebol e pátria são assim – inexplicáveis, estúpidos. Há algum tempo que percebo o futebol extremamente ligado à terra. Reconheço e perigo de tal posicionamento me levar, quem sabe, à construção de um campo de concentração ou ao fechamento das fronteiras – mas são riscos que um homem precisa enfrentar e diante dos quais deve se manter impávido, são e digno. Nunca pretendi que a minha relação com o futebol e com o país fossem pacíficos: como não detestar o Brasil? Como não vociferar e cuspir nos gramados?

Mas deixemos de abstrações – sei que o leitor, propenso à metafísica, já se perde em meio a Platões e Agostinhos. Discordo do companheiro Rafael B. num único ponto, concordo em outro e relativizo em mais um.

Primeiro: não creio que a escolha de um time seja algo necessariamente inconsciente. Não me refiro, naturalmente, aos que seguem esquadras por moda – desprezemos tais vampiros. Mas há muita coisa outra envolvida na escolha de um time. E aqui, naturalmente, afirmo que pode haver uma “escolha”. Pode ser, por exemplo, uma questão ideológica – e a minha se aproxima disso: iniciou-se como uma virulenta e apaixonada revolta contra a imposição maciça de camisetas e troféus do Sudeste. Não exatamente ressentimento, mas um incômodo – porque pareciam rir de mim. E homem nenhum se presta a que os outros riam dele. Joel Santana, com sua Epistemologia da Palhaçadinha, que o diga.

Há, também, a escolha edipiana. Quantos filhos, em domingos sombrios (vejam as palmeiras balançando, as crianças silenciando – tudo sob o céu nebuloso), não assassinam os pais simbolicamente numa final de campeonato em que o Vasco, time do jovem, esmaga o Flamengo, time do velho? A Grécia evocada. Tolo quem acha que o futebol acontece dentro das quatro linhas.

Hei-de concordar, porém, noutra questão – demonstrando que meu ressentimento de subjugado não é tão poderoso. Não simpatizo com as reclamações contra a imprensa do Sudeste. Sendo do Sudeste, é natural que os jornalistas tratem dos times de lá. Não acompanham o trabalho diário de Vitória, Bahia, Sport ou Náutico – e, naturalmente, não o comentam. Quando o fazem, acabam por escorregar na macumba para turista ou na desinformação, como bem demonstrou Rafael B. Pergunto-me como sobreviveu por tanto tempo a lenda da paz nos estádios nordestinos. Ou a de que a paixão daqui é maior do que a de lá.

Não concordo, porém, com a transposição desse panorama para o contexto estadual. Há uma diferença numérica muito vasta para que não seja levada em conta – e, assim como a imprensa estadual, no cenário nacional, trata dos seus times, a imprensa local acompanha os times de menor expressão dentro do Estado. Tal acompanhamento, por sinal, é a fonte maior do anedotário da imprensa esportiva. Portanto, assim como compreendo a preferência da forte mídia do Sudeste pelos seus times, entendo a preferência dos jornalistas soteropolitanos por suas duas esquadras centrais.

O regionalismo, enfim, já é equivocado desde o nome. Só há regionalismo se há um centro que trata de fazer do outro um cidadão periférico – daí, então, a sua arte e o seu esporte tornam-se pitorescos, engraçados, curiosos. É natural, portanto, a reação diante de tal quadro – logo, o periférico percebe-se central e alheio, central e solitário, central e orgulhoso.

 

 

 

 

 

Outro dia, um companheiro de jornada, desesperadamente bradou para mim, com ar de independência: “Você é um consumidor! Você não torce para um time de futebol, você apenas consome um produto”. E eu quase o vi babar pela camiseta.

Ora, ele dizia, “não existe isso de torcer para um time de fora da Bahia! Baiano é assim mesmo, não dá valor às coisas da terra”. Foi então que eu tive uma catarse. O apelo telúrico do torcedor do Sport Club Victoria da Bahia trouxe à tona todo um processo cognoscivo que me paralisou por boas horas. Afinal, eu seria o menos baiano dos baianos por não respeitar uma instituição da terra, seria quase um baiano anti-acarajé, um sacrílego, um assassino dos alfaiates, um contra-malê, um destruidor da Colina- tudo isso porque visto as cores do São Paulo Futebol Clube.

Sabemos, claro, que o conjunto de atos que leva alguém a torcer por um time não é um processo racional ou direcionado. Por outra: Não é o torcedor que escolhe o time, e muito mais próxima  a verdade está do contrário. Todo o processo inconsciente, de formação do ego, do superego, do anti-ego, do pós-ego e até mesmo do superduperego, os traumas e glórias de infância, o processo educacional familiar e escolar, os doces devorados na mercearia do Seu Joaquim, tudo isso desemboca na relação final entre alguém e o time de sua admiração.

E, no entanto, isso é inaceitável para muitas pessoas. Vejo aqui na região Nordeste, inúmeros reclamarem da subserviência ao Sul (leia-se Sudeste, incluso). Isto, é claro, tem raízes profundas no ressentimento causado pela ascensão econômica e pela proeminência política especialmente de São Paulo, Rio de Janeiro e, vá lá, Minas Gerais e na própria decadência que tomou as terras que se estendem de Teresina e Picos (ou São Luís, algo amazônico) a Salvador (ou Teixeira de Freitas), desde uns 200 anos.

Reclamam também meus conterrâneos da imprensa sulista, que trataria com certo desdém todo o time que não aqueles 12 (4 de São Paulo, 4 do Rio, 2 do Rio Grande do Sul e 2 das Gerais) e do domínio existente nas federações, conselhos de arbitragem, museus, livros e qualquer coisa que inclua futebol e discursos sobre o mesmo.

Assistindo um noticiário produzido no Rio ou em São Paulo, só posso concordar com meus colegas. Por maior que seja a boa vontade com que um grande do jornalismo esportivo, Juca Kfouri, trate o Esporte Clube Bahia, por exemplo, sinto que o olhar presente é a de alguma coisa exótica, excentricamente deslumbrante. É o que se nota nos comentários sobre a torcida, ou melhor, todas as torcidas do Nordeste. Mesmo o elogio, em relação à fidelidade das mesmas, acaba resvalando num maravilhamento com o pitoresco, com o algo mágico da região.

Isso quando não cai na desinformação ou na informação prejudicada pela distância mesmo. É o caso do trivela.com.br afirmando o Victoria da Bahia como um time inferior ao Paraná Clube ou qualificando o trabalho (mediano) de Vadão como esgotado (quando o que se notava era um péssimo time, formado de maneira estranha e esquisita pela diretoria) no momento de problemas do Campeonato Estadual .

Ok, aceito o argumento- e mesmo aquele que constata a decisão dos juízes a favor de alguns times quando na dúvida. É uma generalização, claro, e comporta torrentes de exceções.

Só que eu lembro, não nasci em Salvador, Recife ou Fortaleza. Nasci em uma cidade com pouca tradição futebolística e com um time, que se já fez um bom papel aqui ou ali, hoje enfrenta dificuldades tremendas. Como já disse, sou sensível ao apelo telúrico, e desde pequeno, acompanho a trajetória do Bravo Touro Pioneiro, o Fluminense de Feira. Não posso dizer que sou um torcedor, até porque, claro, isto não é um processo consciente, deliberado. Mas sempre guardei a simpatia. E guardo nas memórias profundas e coletivas, as histórias de mutretas contra times do interior. E, vejam só!, os personagens vilânicos da história são as vítimas dos primeiros parágrafos. Bahia e Victoria aparecem como aqueles que ajudaram a retardar o desenvolvimento alheio no Estado.

Ligo a TV num noticiário esportivo local, e uma nova catarse me leva ao desmaio. Acordo, mudo de canal duas vezes e quedo catatônico. O noticiário estadual fala de Bahia e Vitória em proporções desiguais, tempestuosas, quando comparados a outros times. Sim, se isso é bem verdade quando a maioria dos clubes do Estado está em recesso, também é quando os times estão em atividade. Claro, os campeonatos estaduais servem mesmo para o entusiasmo e a pré-temporada dos grandes (ou dos pequenos que se querem enormes).

Parece-me claro que sempre haverá insatisfação com o espaço dado. Parece-me claro que sempre alguns times chamarão mais atenção que outros (e que hoje a mídia paulista, carioca, gaúcha ou roraimense teme mais o Victoria ou Sport Club do Recife do que o Atlético Mineiro).
E mais cristalino do que água ou do que o próprio cristal, posso asseverar que o ressentimento é uma arma que só serve para esconder fraquezas e proteger estruturas ridículas- como certas diretorias e federações.