O ser humano não é um golfinho, um bonobo, uma abelha ou, vá lá, um pé-de-cebola, em razão da moralidade. Como diria um alemão, o ser humano é um ser moral. Sigamos na minha especulação absurda. Pensemos na pornografia. A pornografia é o que é, pelo sexo, pela pura e visceral exposição de membros sexuais em ebulição? Claro que não, colegas. A pornografia só é o que é pelo pudor. É o choque, é o pavor, é o espanto- e o prazer decorrente do conflito com tudo isso, o prazer da repressão que torna possível a existência da pornografia. Sexo por sexo, bonobos fazem, de forma marota e pouco ortodoxa. Mas o que eu devo falar mesmo?

Calma, leitor. Você, tomado de surpresa e espanto, pode pensar que este espaço transmudou-se de um campo sério,  futebolístico para adentrar as artes do corpo e da carne. Mas, não, pode acalmar-se. O que eu devo, e digo mais, tenho de, e digo mais, irei falar, diz respeito às teorias morais.

Como o ser humano é um ser moral- e mesmo o mais facínora dos gângsteres, o mais impudendo dos desgraçados incorrem nesta sina- ele passa a criar teorias e idéias a partir das suas situações da vida, de maneira que seus atos sejam justificados. Assim, o mais canalha dos pulhas há sempre de arrumar um argumento para seus atos.

Prometo que entro no futebol neste parágrafo. São muitas as aplicações da teoria moral no futebol. A todo tempo, todos estão tentando racionalizar seus atos. Mas a arte mágica ludopédica é tão grandiosa que revela cruamente a natureza humana: e estão na ciranda, dirigentes, torcedores, jornalistas, jogadores e técnicos, vibrantes, a desfiar um rosário de argumentos, hipóteses, situações eventuais e o que mais for, tudo no bom sentido de tornar explicável sua prática.

Os recentes casos das diretorias são-paulina e palmeirenses são claros. A utopia dos cartolas brasileiros é a de soarem modernos, europeus, executivos inteligentes e antenados com a moderna administração. Isto, propagado no céu, no mar e na terra e por nossos colegas da imprensa, quase ilude os pobres torcedores a respeito da qualidade dos gestores do futebol brasileiro.

Após uma derrota frustrante para o Cruzeiro e um semestre tétrico apresentado pelo São Paulo, a diretoria chutou o Preto Velho, Muricy Ramalho e trouxe um galante Ricardo Gomes, direto das charmosas ruas de Mônaco para o pretensamente parisiense ambiente do Morumbi. Está claro que a diretoria do São Paulo entende que o clube pode mais do que o tri brasileiro alcançado. Nisso, não está sozinha. Está claro que a diretoria não engoliu a eliminação para times brasileiros (embora, mais uma vez, o time que elimina o São Paulo esteja na final da Libertadores). Não está evidente, para a diretoria são-paulina, porém, que ela pode cometer equívocos e que a tão decantada estrutura tricolor não trouxe títulos que não os estaduais para o clube no período compreendido entre 1995 e 2004.

Enfim, toda aquela conversa de não submeter o time a avaliações imediatas de resultados, enfim, era palavrório flácido para acalentar bovinos.

Do mesmo modo, a diretoria palmeirense. A insatisfação com Wanderley (Vanderlei) Luxemburgo era enorme, a ponto de se especular dia sim, dia também, se a multa rescisória seria paga, de modo que o contrato fosse terminado antes do dia último estipulado. Os resultados (medianos para fracos, não tão incompatíveis com o time, embora discrepantes do preço pago pelo treinador e sua comissão técnica) não contentavam o Palmeiras, cujos dirigentes fizeram questão de manter Luxemburgo no começo do ano. O que se precisava era de um pretexto.

E a história de Keirrison foi um belo bode expiatório. Um bode magrelo, com as costelas à mostra, mas ainda assim belo, pela marotice argumentativa. Quebra de hierarquia por aplicar uma sanção a um jogador, cujo afastamento para negociação não foi explicado por ninguém. Enfim, enfim. Precisamos de teorias morais, de justificativas para nossos atos.

Outro dia, soube de um homem que bateu em outro, no meio da rua, sem razão alguma. Precisava de um motivo, um excludente, algo que dignificasse sua conduta. E então ele passou a berrar aos quatro cantos: “Te esmurrei para te salvar! Não fosse esse murro, você estaria morto.” E saiu, sem que ninguém o questionasse. Há quem diga que a vítima, compadecida, murmurou um “muito obrigado” e até verteu uma lágrima.

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O tempo desperta um temor reverencial em todos nós. Assim, os feitos do passado ganham uma dimensão que, se realizados hoje, jamais teriam. Tornam-se gloriosos, fabulosos, épicos, dignos da velha Hollywood. E, como o tempo, também é com a distância. Talvez eu deva retificar o que ia falando, pois o tempo somente nos causa respeito somente por ser ele mesmo de uma distância atroz. E é a distância esta senhora severa, definitiva, mágica e cabal que nos faz prostrar e prestar salamaleques genuflexivos, morais.

Vejam o caso da Liga dos Campeões da Europa e da Libertadores da América. Dia sim, dia também, alguém brada o desnível existente entre as duas competições, a diferença técnica, tática, antropológica e tenho medo do dia em que se gritará alguma distinção ética entre o futebol de clubes rebelde e profundo e aquele outro, aparelhado de museus e históriacortez_3_lg

De um lado, apresentam-se os argumentos a favor do campeonato europeu: os grandes craques, as equipes organizadas, com sócios e proprietários cuja soma de bens ultrapassa qualquer realidade tátil, os estádios deslumbrantes, os grandes embates. De outro, um torneio com a tradição brasileira, argentina e, no máximo, uruguaia. Argumentam os rapazes que times como Universidad San Martín de Porreas, Boyacá Chicó e mesmo um Colo Colo ou até um Nacional de Montevidéu são timecos, fraquíssimos, indignos de exercer qualquer barreira contra os brasileiros ou o Boca Juniors- são indignos até de fazer uma grande exibição.

Não posso deixar de me contrariar com e de contrariar essas afirmações, tão enfáticas, quanto mal-informadas.  São hipóteses alimentadas por um sentimento sempre presente e sempre detestável no futebol: o centralismo, um elitismo de quinta categoria.

Basta uma vista rápida para descobrirmos que a Liga dos Campeões não é tão grandiosa assim e que não somente os times dos maiores centros de futebol estão lá. Mais, é preciso perceber que os times dos maiores, mais ricos e mais desenvolvidos centros de futebol não são exatamente o melhor exemplo de grande futebol- e que, sim, os clubes menores podem ter seu papel.

Só nesta última edição (2008/9) da LC da UEFA,  tivemos Basel, Cluj, Anorthosis Famagusta, Panathinaikos e BATE Borisov . De outra mão, tivemos papéis medíocres exercidos pelo Celtic, Sporting (times que não são das maiores ligas, mas são tradicionais), Werder Bremen, para não falar do futebol mais ou menos praticado por boa parte dos outros clubes. Reparem que o Arsenal jogou mal e feio quase todas as partidas, o Real Madrid não convence ninguém na Europa há umas duas temporadas e que a Internazionale passou por uma pendenga daquelas para passar de fase num grupo em que Werder Bremen, Anorthosis Famagusta e Panathinaikos certamente não gastavam metade da folha salarial dos milaneses.

Claro, é mais improvável que um time de fora do G-14 ganhe o título, mas a presença de Villareal nas quartas deste ano e na final de 05/06,  do Leeds, do La Coruña e de outros clubes aqui e ali não são tão desprezíveis assim. E, claro, nem sempre é possível contar com um grande e pintoso futebol nessas ascenções. Se um Once Caldas retranqueiro é algo que pode constranger os mais pudicos, não podemos esquecer um papel melancólico encarnado pelos já citados Real Madrid e Internazionale neste ano.

Não discordo que a Libertadores de 2009 tem decepcionado em qualidade dos jogos, pois contamos com argentinos, mexicanos e colombianos enfraquecidos. Desprezar o esforço de um San Martin (clube universitário fundado em 2004), uma certa melhora dos times da antiga Província Cisplatina, mal comparando-os com um continente de histórico futebolístico e com níveis de riqueza nitidamente superiores é pôr a questão em pratos quebrados.

Esta situação toda é um reflexo de vira-latismo e deslumbre, e ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser, é uma afirmação tacanha de superioridade. Ao diminuir a Libertadores, aumentamos nosso tamanho e podemos, assim, nos imaginarmos mais pertos de um mundo mais rico e menos bagunçado do futebol. Que isso seja uma ilusão para consumo interno, faz parte da enganação nossa de cada dia. Que se dê ao custo da desvalorização de um torneio que é justamente a hipótese próxima de incrementar o futebol em toda a América Latina, é lamentável e deprimente.

personalidades-governantes-cuba-fidel-castro-discursando-20071A vida de quem acompanha futebol é difícil e sacrificante. Vejam vocês o meu caso. Passo dias,  noites e madrugadas elucubrando acerca do mundo da bola, criando teses, dissertando, perorando às muriçocas desta primeira capital do Brasil sobre isso e aquilo. Aí me pergunto: Tudo isso para quê? Para quê, se na semana seguinte, ou melhor, no jogo seguinte, todo o discurso, toda a cantiga será derrubada, tal qual uma águia mítica do oeste americano- ou uma arara-azul do oeste brasileiro.

E digo isso em termos abstratos, teóricos, amalucados? Não, não. Digo isso porque aconteceu comigo. Vejam só, bom peregrino que sou, já me preparava para pedir desculpas a Mano Menezes e reconhecer seu mérito na formação do Corinthians- um time de futebol eficiente, aplicado, bem distribuído em campo e tentando soar simpático,  quer dizer, menos antipático que o Grêmio de Mano Menezes, mas ainda assim um tanto antipático.

Pois então, eu já declamava meu canto, quando percebo o placar parcial na Arena da Baixada: 3 a 0. Geninho era o maestro do sacode e Rafael Moura o centroavante-chefe do CAP. Ora, senhores, meu discurso ia por água abaixo, esvaia-se feito a água da Pedra do Cavalo em tempos de El Niño.

Preferi acompanhar, então, a jornada sofrida do Palmeiras, com um a menos, fora de casa, etc.,  e era a hora de criar o texto dos apesares- o Colo-Colo ganharia, apesar de covarde. O Palmeiras perderia, apesar de ter sido considerado o melhor time da galáxia no começo do campeonato paulista. (Paro e penso como  é engraçado como esses jogos da última rodada da Libertadores vêm sendo levados em banho-maria- ou num ritmo normal- até os minutos finais, quando uma verdadeira coqueluche toma o mundo. Vejam só o pobre Universitario de Lima que contente com seus 2 licuris que tomava do San Lorenzo morreu ao tomar notícia do gol do San Luís nos estertores da partida contra o Libertad).

Quando o texto dos apesares estava pronto e algumas muriçocas já vibravam de emoção- pude sentir isso na pele- Cleiton Xavier me acerta um pombo sem asa e transforma os colo-colinos como nem Augusto Pinochet faria.  Minutos antes, o Corinthians encontrava 2 gols e aniquilava  minhas pretensões de seguir falando mal dos times de Mano Menezes- teria de voltar ao tema de antes do jogo.

Mais cedo, no continente em que o mais reles ladrilho tem 4000 anos de estrada, Manchester United e Arsenal pareciam fazer um jogo frenético e matador, e a se tomar pelos primeiros 15 minutos teríamos um duelo épico, de fazer Cecil B. de Mile gritar nas catacumbas. Pois não foi o que aconteceu. Traindo mais uma vez este feitor de teses que vos fala, o jogo foi de gato contra rato. Um Arsenal acuado somente sentia o domínio do United- e é incrível como Almunia foi um goleiro gigantesco ontem. E traindo qualquer obviedade textual, semântica ou gramatical, terminou em 1 a 0, mirrado, mirrado.

É bem verdade que este 1 a 0 foi melhor do que o placar vazio do dia anterior em Barcelona, no qual o Chelsea jogou como um time da sétima divisão inglesa, envergonhando o mais escroque de seus torcedores, ao passo que os culés não conseguiam desenvolver maiores qualidades redacionais- e Messi parecia um caudilho com um esforço descomunal para uma atuação inócua.

Falam muito de Direitos Humanos. Falam em vida, liberdade, dignidade- e é mais verdade que mais falam do que qualquer outra coisa. Mas poucos parecem estar atentos para a verdadeira tragédia humana que ronda o Morumbi.

Evidentemente trato do São Paulo Futebol Clube e não de uma das dondocas de capa de revista que possa habitar as redondezas do Cícero Pompeu. Fossem outros os tempos, não houvesse tevês, engarrafamentos e desesperos mil, estaria toda a população da capital paulista diante do Estádio ou do CT de Cotia em vigília diante do constrangimento que o miúdo time tricolor faz passar a todos: a diretoria, o treinador, os próprios jogadores, os torcedores e mesmo os adversários.

Tenho para mim que alguns dos adversários dos tricolores paulistanos apiedam-se dos rapazes e evitam maiores tragédias. Não parece ter sido o caso do Nacional do Uruguai há menos de 1 hora, mas poderia ter sido.

Disse certa feita que o São Paulo era um tédio atômico. Pois eu estava enganado. Este São Paulo aí é obsceno. Mais obsceno do que qualquer bebum que brade no ouvido de freirinhas indefesas e aponte para suas partes pudendas a jovens colegiais. Até outro dia, a única jogada do São Paulo consistia em Jorge Wagner chuveirar em busca de uma testa salvadora. Pois isso acabou, por ora. Com o baiano sentindo o peso da responsabilidade (e o cansaço) de ser o único manancial de alguma coisa para todo o time, não resta mais nada aos comandados de Muricy senão irritar os torcedores.

Afinal de contas, o que é Éder Luiz em campo se não o conluio de neurônios malvados com o intuito de destroçar os são-paulinos hipertensos? Em Montevidéu, o rapaz parecia deslizar numa pista de gelo. A escorregadela no contra-ataque de fim de jogo fez corar o mais impudendo dos canalhas.

Richarlysson não merece maiores comentários. A simulação de falta no fim do jogo, sem propósito algum, só fez sentido a mentes perturbadas. Aliás, a perturbação é a tônica de um time em que Fábio Santos pisa no jogador uruguaio sem maiores motivos.

O time do São Paulo não é um Sono. É um Campo de Concentração. Mais do que Guantánamo, o São Paulo de 2008 merece ser repudiado por todos os governantes do planeta. Mesmo o topetudo de Pyongyang, mesmo os barbudos de Havana, mesmo os chicoteadores de Beijing, todos eles parecem samaritanos, franciscanos, santos simpáticos diante da apatia, da lentidão, da inabilidade deste São Paulo.

Há aquele que culpa Muricy Ramalho. Afora a insistência dele com Fábio Santos (inexplicável, injustificada e desumana), o treinador não tem maiores culpas. Não foi ele que vendeu jogadores com a temporada iniciada e que contratou possíveis substitutos com tantos jogos em andamento. Não foi ele que vendeu jogadores a caros preços e não repôs o time na mesma medida.

É verdade que foi Muricy Ramalho que insistiu em não pôr (ou queimar) os garotos da base. Difícil seria perder com eles, sem o risco da rescisão contratual. Faltou um pouco de ousadia a ele, porém. Nada que se compare ao que fizeram os “homens de preto”, os cartolas.

Mas eu deveria falar do jogo? Falar do quê? Não houve jogo. Houve uma grande mancha branca em Montevidéu e foi como se uma borracha dividida em 21 pedaços (porque 1 pedaço era um brilho laranja inexplicável, resíduo da embalagem talvez) apagasse todas as memórias de quem ainda se recordava do que é uma partida de futebol.

PS: Parece que Zé Luís saiu por causa de uma crise asmática. A impressão é de que Ze Luís em crise epilética é melhor que Fábio Santos no vigor de sua forma física.