Eu não era um grande jogador de futebol. Ou melhor (e pior), não sou ainda e dificilmente passarei a ser. Nunca passarei a ser, sinceramente. Mas houve um tempo em que isso não me dizia respeito. Mesmo sendo um pereba nato, eu arrisquei aqui e ali umas partidinhas.

Talvez eu esteja exagerando- e não pela humildade, acreditem. Em boa parte da infância, minhas partidinhas eram rigorosamente diminutivas. Eu, mais uns dois colegas de sala, alguns garotos mais novos que a gente (ou de minha idade, um ano ou dois mais novos que a turma) e pronto, era armado o arremedo de jogo.

Lembro que usamos a bola uma ou duas vezes. Vá lá, que tenham sido dez. Em um lance fortuito, eu atirei um tirambaço na janela da diretoria. Quer dizer, não sei se fui eu ou outro dos dois ou três integrantes do clássico. Não importa e vamos admitir que não fui eu, um coadjuvante na história.

Pois desde esse dia a bola (de plástico) não foi mais permitida. Não que isso fosse grande coisa. Falando sério, era irrelevante, até porque já tínhamos jogado sem aquele pobre instrumento. Acreditem, amigos, no futebol, o menos importante é a bola. Qual a nossa solução? Ora, a nobre e ilustre tampinha de garrafa. É engraçado, mas eu chamava de tampilha. Eu e meus colegas e acho que todos ao meu redor. Não sei quando ou por meio de que legislação, passou-se a chamar tampilha de tampinha. Possivelmente, desde que as garrafas de vidro (290 ml, em regra, 330 ml as do novo Guaraná Brahma) tiveram seu consumo reduzido.

E a tampilha era o instrumento daquelas partidas absurdas. Eram clássicos excepcionais, em que eu e meus dois camaradas disputávamos postos de craques primordiais, fabulosos, helênicos. Havia uma distinção na regra comum, em virtude da tampilha. Era vedada a condução, que consistia em arrastar a tampilha sob os pés, impedindo que o outro tomasse a bola, digo, o objeto.

Na escola, bastava aquele palco de pisos, próximo a uma escorregadeira e pronto. A rua não era interessante, com uma turma mais velha, no máximo para uma partida de baleado em escassas noites e nada mais. Não era interessante, nem era permitido e sempre me faltou ânimo para desobedecer regras- talvez aí resida um talento, um bom talento.

Até lembro em que houve uma partida entre todas as crianças da escola (ou algo assim). Os alunos da quarta série eram os capitães. E havia um meu rival no outro time, Fausto, acho, um sarará que era mais velho e naquela fauna, só podia disputar o título de leão quem tivesse mais de um metro e quarenta. O jogo foi ótimo, pelo campinho de areia do Jóia, mas nem tão bom, tenho a impressão de que meninos de 4 anos já estavam no meio da confusão.

Então, retornávamos à tampilha, o centro de um mundo curioso, em que o troféu de “craque do ano” (com 89 ou 93 gols) era um enfeite de bolo de aniversário e em que não importava quão ruim fosse você com uma esfera nos pés, sempre havia a chance de desempenhar ali um papel quixotesco, artístico, relevante.

Todos já sabem a história de cor e salteado e já viram os lances, que ecoarão na cabeça dos flamenguistas (e dos botafoguenses, pelo visto, que não vão esquecer o clube da Gávea tão cedo) por todas suas vidas. O time de amarelo destroçou o pobre Flamengo, que comemorava até outro dia seu melhor time em década. Mas eu gosto do passado.

O bom rubro-americano Escobar, em resposta a um presidente de mesa-redonda, falava do “Ca…banhas”, enquanto pegava no culote e gargalhava- com ele, todos os flamenguistas. Todos sorriam do rapaz, que fazia gols, e ainda assim demonstrava todos seus quilos a mais, desafiando a lógica da balança.

A balança é o grande desafio de certos jogadores. Neto, Carlos Miguel e muitos outros, passaram misérias e horrores, divididos entre a macarronada e o capotão, entre o supino e feijoada, entre os tacos e o exercício físico.

No México, mesmo elogiado, dado o desastre do maior time do país, financiado por uma enorme rede de televisão, a notícia mais atraente sobre Cabañas tratava de “patoladas” e supostos abraços homoeróticos em treinos. Quando não se tem muito o que falar do futebol, há sempre o que falar da vida dos rapazes da bola.

E, no entanto, este bom jogador que foi considerado o melhor das Américas por um jornal cisplatino (o que evidencia o total e descarado afastamento entre todos os países do Novo Mundo, uma vez que tal premiação foi olvidada pela mídia brasileira) decidiu um jogo marcante da Libertadores, gravando seu nome na História.

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Naturalmente, haverá quem diga que o verdadeiro autor da História foi Absurdo dos Santos, primo distante e próximo de Sobrenatural de Almeida, eterno craque dos gramados, atuando nas mãos de Obina (outro que, de modo valente, desdenha dos rapazes da maromba e da força muscular) ou em qualquer outro morro de grama determinante. Como é óbvio e justo que não se impute ao acaso obras que possam dignificar homens, fiquemos com o, como diria Eurico Miranda, “Mansões”.