Hoje, quando perdeu a milésima chance de gol contra o Burnley (Arsenal 3 X 1), o dinamarquês Niklas Bendtner, do time londrino, sorriu. Não havia mais nada que pudesse fazer- e talvez só sua reencarnação como bola fosse a chance de que ele se envolvesse num gol. Sorriu e saiu de campo até aplaudido, embora não totalmente satisfeito.

Na semana passada, Neymar, do (excessivamente) incensado Santos, após ouvir o apito do juiz que marcava impedimento, deu um chapéu (lençol, cuia, o que seja) no zagueiro Chicão. Este, revoltado, o empurrou com uma graça digna de um militar de almanaque. E, pronto, estava criado um assunto para a semana da imprensa, já que o futebol do campeonato paulista (e de todos os estaduais) não vale mais do que duas linhas e meia lágrima (daí talvez, junto à preguiça e desídia deste que escreve, a razão de tanto tempo sem atualizações).

No dia seguinte, o zagueiro corintiano demonstrava sua revolta, acusando o atacante de não ter títulos e de ser “pipoqueiro”, i.e., de não ser um jogador decisivo. Consta que até Ronaldo (sim, ele está atuando) manifestou-se, no que teria sido excesso de graça do santista.

Daí a alguns defensores da arte e da criatividade (para não deixar de citar, lembro Juca Kfouri e alguns rapazes do Arena Sportv) partirem em defesa do amor livre e das peraltices de Neymar foi um pulo. E um pulo, como se sabe desde os tempos das cavernas, pode ser um salto de amarelinha ou um passo ao abismo, o  que, parece, foi o caso.

Longe de mim deter o martelo do julgamento. “Estão todos errados” é a primeira perdição retórica. No entanto, não quer dizer nada- ou diz pouco e insinua muito, como toda tentação. Ora, a brincadeira de Neymar não é, em si, inofensiva. Acho difícil que ele fizesse o mesmo caso seu time sofresse um revés inapelável. Claro, hei de convir, ele tem 17, 18 anos e um rapaz de dezenove anos não sabe nem segurar uma flor. Há narrativas de rapazes com menos de duas décadas de caminho que, atônitos, tomara um susto quando descobriram a existência de saudações tais como “Bom dia”, “Boa noite” e “Até logo”. Há relatos de um cidadão que, desde a descoberta dos cumprimentos, parou no Hospício e de lá não mais partiu.

Certo, Neymar é um jovem. Um jovem, no entanto, há de ser apresentado às regras do jogo no qual está inserido- do contrário, não há de faturar as benesses daquele. Dito de outra forma, quem quer comer a flor (ou o fruto ou a infrutescência), há de se ferir com os espinhos. Que o diga os apreciadores de pequi no cerrado brasileiro. O que Neymar fez foi uma piada- não exatamente inofensiva, mas certamente pouco cavalheiresca.

Ainda devo falar de Chicão. Chicão é um Mano Menezes da zaga. Isso pode significar um elogio ou não exatamente uma graça- depende de quem emite e de quem recebe a mensagem- ah, Charles Pierce. Mano Menezes é o treinador que vence a Copa do Brasil e, meses depois, ao discutir com um treinador interino do rival, imputa ao debatente a pecha de interino. É o que põe um time evidentemente superior na primeira divisão, sem quaisquer dúvidas e no campeonato estadual em que construía a equipe, pede desesperado o fim de um zero a zero com o Sertãozinho.

Chicão compõe a defesa sólida de um time, mais das vezes, entediante, mas nem por isso, ou até por isso, um time vencedor. Ora, Chicão pode reclamar de Neymar e até deve, ensinando-o bons modos. Bons modos deve ter o professor também, pois, do contrário, o aluno não conseguirá captar as lições. E Chicão demonstrou toneladas de ressentimento, ao depreciar Neymar e sua falta de títulos. O zagueiro até tinha um ponto, que é a excessiva zoada gerada pelos moedores de carne humana da imprensa em cima de jovens que ainda não possuem uma carreira. No entanto, a raiva transparecia e espelhava uma tragédia individual maior: Chicão lamentava-se não por Neymar ser alguém sem títulos, mas sim, por ele, Chicão, um trabalhador, um “homem de bem” do futebol, fazer parte de um time que foi espezinhado em campo pelos “moleques”. E, pior, além de terem jogado pior, perderam.

A maior humilhação de Chicão foi a derrota- esta sim, inaceitável, na sua visão. Que tenha vindo de pés de alguém que ainda nem chegou à idade de dar “bom dia” e “boa noite” diz menos a respeito de Neymar e mais a respeito da qualidade do Corinthians.

debordOutro dia, vi um sujeito gritando na rua, desesperado, parece-me que ninguém concordava com suas afirmações e ele era quase um solitário. Eu era sua companhia. Olhei no espelho e vi que esse sujeito de minha companhia, na verdade, era eu mesmo.

Pois sim, sou um complexado, um problemático e um obsessivo. Eu quase falava e agora falo que sou um ranzinza nato e vitalício. Outro dia, conversando sobre os demônios da bola, um amigo disparou: – Mas também, para você, ninguém é craque!

Aquela afirmação cravou em meu peito como um punhal- até porque verdadeira, de certo modo. E eu comecei a rememorar meus comentários sobre os últimos craques- assim chamados mundo afora. Ibrahimovic? Um bom jogador, mas que não muda definitivamente o time. Sim, porque sim a Internazionale é tetracampeã italiana, decorrente de circunstâncias do destino e de um evidente enfraquecimento dos maiores clubes da bota. Na Suécia, Ibrahimovic pode conseguir manter o time na média, mas não tenho a impressão de que carrega nas costas- como um Hristo Stoichkov fazia com a Bulgária.

Kaká. Excepcional, forte, rápido, carregou um geriátrico Milan nas costas (com auxílio dos vovôs em momentos cruciais, é verrdade) por, pelo menos, 2 temporadas, até o momento crucial da estafa. Não me agrada em Kaká, porém, o excesso de força e o mínimo de magia. O drible de Kaká é seco, eficiente, objetivo. Claro, é uma beleza e evidentemente é ótimo que ele busque o gol, a meta primordial, não sendo uma enceradeira, uma foca ou uma bailarina de caixinha de música. Mas eu sinto e me ressinto da falta de magia.

Cristiano Ronaldo. O tuga é ótimo, mas ainda percebo que aqui e ali ele some. Não digo só em jogos decisivos (há os que ele aparece), mas em alguns momentos, parece que as firulas não são capazes de convencer a ninguém, nem a ele e seu ego transatlântico.

Sobra-nos Gerrard e Messi. Por incrível que pareça, há situações em que o inglês agrada-me mais que o argentino, muito embora o brilho esteja mais ao lado do jogador do Barcelona, que, no entanto, nem sempre corresponde às enormes, gigantescas e monstruosas expectativas que são erguidas em torno de seu futebol. Espero eu- e nisso acho que não estou só com meu reflexo- que surjam jogadores históricos a cada minuto, jogadores essenciais, donos da história – e nisso num tempo em que vemos (vírgula eu, que escolho poucos jogos para ver) todos os jogos de todos os jogadores, em videotaipes, câmeras lentas e tudo o mais a que o freguês tenha direito, inclusive os defeitos, as falhas, mínimas que sejam.

A esta superexposição que corresponde o sucesso absoluto do futebol no mundo, talvez esteja a grande contradição de nossos tempos: Quanto mais vemos, sentimos e discutimos uma coisa, mais nos sentimos decepcionados quando não, mais distantes.

O homem atual é guiado pelo resultado, não é dado a contemplações, banalidades reflexivas ou, como diria um amigo, não é cheio de nove-horas. Tal qual em uma comunidade de galinhas, na qual pouco importa as habilidades em ciscar ou a sapiência no uso da moela, o que determina o homem hoje é o resultado, o produto final, o ovo. Sem pôr seus ovos regularmente, industrialmente, o homem não é nada.

E isso também é verdade no futebol. Mais: Isso é uma verdade superior no futebol, mais verdadeira do que no resto da existência. Para os treinadores, então, o resultadismo é uma doxa inabalável, a doutrina dos milênios e dos seiscentos. Como diz o outro, o jogo é jogado e há aqueles que conseguem sobreviver em meio à granja do dia-a-dia. É o caso do neerlandês Guss Hidink.

Os trabalhos deste rapaz dos Países Baixos chamam alguma atenção: Austrália, Coréia e Holanda nas últimas Copas do Mundo, a Rússia deste pré-2010, PSV nos píncaros da Europa, enfim, enfim, o homem é dono de resultados de respeito. Fosse uma galinha, seria de ovos dourados ou melhor, seria uma galinha que põe ovos de Fabergé.

E não à toa, Hiddink parou no Chelsea pós-Scolari. A atuação do time nas partidas contra o Barcelona demonstraram as bases da atuação do treinador: Pragmatismo até a medula, até o limite extremo. Na Catalunha, isso implicou um time acuado, apertado pelas circunstâncias de um time ofensivo, porém estéril. O Chelsea desistiu do jogo no Camp Nou e quase arrancou uma vitória num vacilo da zaga culé.

Em Londres, porém, a estratégia já não era a do ferrolho. Era alguma coisa arriscada também, ainda mais quando Essien abriu o placar num pombo sem asa fundamental logo no início do jogo.  Hiddink armou um Chelsea com contra-ataques insinuantes, mas que ao mesmo tempo abria seu campo ao jogo do Barcelona. Era uma estratégia, digamos assim, malandra. Enquanto o time inglês conseguisse permitir que o domínio blaugraná fosse inócuo, pouco efetivo, estava tudo ótimo. Ainda mais se o time acertasse alguns contra-ataques, que dariam a chance de encerrar a partida.

Havia um problema nesse esquema, porém. Primeiro, se faltasse alguma coisa aos contra-ataques. E faltaram. Drogba e Anelka sempre erravam alguma coisa no momento final. Segunda questão, se o juiz fosse um parvo. E era. Ao menos dois pênaltis não foram marcados- o que explica o ocorrido, pois não se anula a expulsão ridícula de um defensor do Barcelona que parecia a ruína do time. E, por fim, se aquela inefetividade ofensiva catalã acertasse uma única vez que fosse. Iniesta cumpriu essa parte, no finzinho da partida.

Em futebol, um minuto é suficiente para que ouro vire gema. E o pior, gema velha e estragada. Em dois confrontos que entregaram menos do que nossa mente idealista poderia imaginar, um lance fortuito arruinou a estratégia de uma senhora galinha, digo, de um senhor treinador. E Avram Grant continua sendo aquele que mais perto chegou do sonho de Abrahmovic.

Balaço nos ovos de Fabergé

Balaço nos ovos de Fabergé

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Por falar em promessas, profecias e decepções, nada pode ser mais triste do que o confronto entre Arsenal e United, também pelas semifinais da LC. Não pelos comandados de Fergunson, que voltaram a demonstrar a efetividade suíça, digna dos melhores relojoeiros do globo, com uma atuação suprema de Cristiano Ronaldo, rapaz que vem destruindo minhas últimas resistências em relação a seu poder de decisão, mas sim pelo time londrino.

Está claro que o druida Arsene precisa fortalecer o time para o próximo ano. Sim, o escrete continua agradável e faceiro, mas é preciso mais do que jogo bonito para avançar. Se antes havia Pires, Henry, Vieira e mesmo Gilberto Silva, hoje o time parece ressentir-se de algumas peças que permitam a evolução que todos esperamos. Ano passado, o time demonstrava mais ímpeto ofensivo e um caos na defesa. Hoje, o time perdeu um pouco daquela vocação (muito embora Arshavin indique potencial para mais), sem recompor a proteção da mesma maneira.

Cena 1: Ronaldo sai da arquibancada, com a camisa azul-grená, dribla meia torcida, seu próprio goleiro e todos os outros 20 jogadores em campo, parece que dribla a si próprio e faz o gol num 5 a 2 sobre o Compostela. O gol não foi bem assim, mas em minha memória infantil é exatamente deste modo que Ronaldinho aparecia. Ou melhor, ele já tinha aparecido antes daquela jogada espetacular, ainda que seus dribles não fossem os mais belos do mundo, o estilo da arrancada, a incapacidade dos zagueiros em freá-lo, transformaram aquele gol em um dos mais interessantes dos cantos de minha mente.

Cena 2: Bahia e Cruzeiro enfrentam-se no Mineirão. Alguém chuta a bola, o goleiro uruguaio Rodolfo Rodriguez segura a bola. Distraído, deixa a bola no chão. Um menino magro, muito magro, com dentes avantajados, puxa a bola e marca o gol. Pobre Bahia, goleado.

Ali, tinha aparecido de vez o rapaz para o mundo. Nestes dois lances, um de 93 e outro de 97 (incrível, tenho outrora inimagináveis memórias de 15 anos) estão sintetizadas as maiores virtudes do centroavante: o oportunismo e a arrancada.

Por incrível que pareça, a carreira de Ronaldo é uma decepção para mim, que o tive num pedestal na minha infância, para mim que cresci acompanhando sua carreira- e torcendo para que ele ultrapassasse Pelé- o que hoje me parece impossível, pois Pelé mais do que um jogador, virou uma história.

E eu guardava as melhores expectativas, as mais deslumbradas utopias para quando Ronaldo fosse equiparado e coroado por todos, como “aquele que superou Pelé”. Era evidente que isso ocorreria, esta a conclusão de quem acompanhava o rapaz nos seus primeiros anos de carreira. Ele chegou muito rápido no topo, e mais rápido do que uma bala, poderia driblar o topo, poderia driblar Pelé e marcar o gol da História.

Entendam-me: Meu desejo de ver um homem maior do que Pelé era o desejo de assistir a história gigante e grandiosa, a História que se vê em livros na centena de anos passadas. Era preciso ter as memórias milenares e grandiosas. Mas os times em que Ronaldinho jogou não foram exatamente sinônimo de vitória absoluta: ele ainda não tinha ganhado um campeonato nacional (embora tenha conquistado três copas nacionais) até 2002.

Sua atuação na Internazionale deve ter sido uma grande tristeza para os negro-azuis italianos: A conquista da Copa da UEFA parecia, ou melhor, certamente era, muito menos do que Ronaldinho nos entregava no sonhos. Mas então começaram os problemas.

O estrondo silencioso da Copa de 98: O acontecimento histórico e inexplicado ocorrido antes da final acabou por apagar a boa Copa que o centroavante fez. E então a contusão absurda, contra a Lazio. Pronto, ali meus sonhos haviam sido destruídos-Pelé era história, Ronaldo era mais real. A sua carreira, porém, teria maior destaque.

A espetacular superação de Ronaldo na Copa seguinte quase reconstruiu minhas esperanças de um novo Pelé. Após aquele 2002, Ronaldo não teria mais grande destaque, nem sequer conseguiu encetar uma seqüência decente de jogos. Sua atuação em 2006 foi indecente e obesamente, adiposamente acintosa com as boas lembranças e o gol do Compostela que jamais foi apagado de minha memória. Agora, com mais uma contusão, ninguém sabe o que o futuro reserva. Há quem guarde a utopia, os herdeiros da minha esperança, de que ele há de retornar para um fim triunfal. Outros asseveram que o fim triunfou. Eu já não sei mais.

O maior jogador de quem acompanhei a carreira. A maior decepção que tive. A mais espetacular volta após uma série de contusões, no cúmula da superação. No momento após, o cúmulo da displicência. Este é Ronaldo.