rebelde e profundo


A última quarta-feira foi um dia mitológico para o futebol. E digo mais: Um dia transcendental. Ora, perguntariam a mim: Mas, poeta, um novo Pelé surgiu na relva? Um escrete de sonho com o mágiar de 54, o canarinho de 58 ou os asseclas de Orange de 74? E eu digo, não, não. Nem um São Cristóvão de 1919 surgiu neste último dia. Mais uma vez, contudo, o futebol mostrou sua magnanimidade, à qual me curvo.

Quando a Irlanda vencia uma descarada, horrenda, trágica, medonha, e por que não dizer?, apoplética França, uma França que envergonharia o mais colaboracionista dos ladrilhos de Vichy, eu pensava: algo de interessante pode surgir daí. A Irlanda é um time que espelha o país: resistente, esquisito e com um futebol rígido. É um time de luta- o que pode significar um jogo ridículo, seguido de um momento mágico de superação. E esse Eire, tão dúplice, encurralou os comandados (ou assim diz a lenda) de Domenech, de uma forma cabal. Não conseguiram o 2 a 0 e tiveram sua resposta da pior forma: numa condução circense, Henry levou a bola aos pés de seu compatriota e causou mais um episódio constrangedor na história do futebol: O time maior roubando o menor, com uma indignidade de arena.

Ali, pensei: O futebol acabou. E fui dar andamento a algum afazer, que redundou em assistir (ou tentar fazê-lo) o embate entre Obina e Maurício, digo, entre Palmeiras e Grêmio, ao mesmo tempo em que Cerro Porteño e Fluminense digladiavam-se por uma vaga na final da Sul-Americana.

A chatice do primeiro jogo deixou-me no Maracanã (se o narrador da Globo não vai ao estádio, na maioria das vezes, por que eu não me sentiria lá?), onde o Fluminense perdia, mas lutava para sufocar o time dos jogadores de pedras de Assunção.

Dos lances, ataques e contra-ataques, todos já sabem, não interessa muito. O que importa são os episódios gregos de  então. Obina e Maurício trocaram sopapos, dignos de enciclopédia. Um deu socos de jogador de futebol, socos no ar, enquanto o outro deu socos de rinha de galo, socos do mais puro acarajé. Desta batalha partiu o maior destempero: o afastamento dos jogadores do grupo palmeirense, de imediato. Ora, todos sabemos que a diretoria alviverde jogou para a torcida, num momento do mais puro desespero e da mais pura indecisão, motivada pela dúvida acerca do que fazer diante da perda de um título imperdível? (Ainda volto à impossibilidade que o Palmeiras se colocou neste 2009).

E a virada do Fluminense foi épica, fabulosa, magistral, digna de registro nos anais do Congresso, fosse aquela casa mais do que o que é.  A vontade com que o tricolor carioca se atira em campo espelha o futebol no seu momento mais sublime, a despeito de presidentes insanos, diretorias confusas, patrocinadores mandões e contusões inexplicadas. É o futebol superando a lógica, é o futebol superando o pessimismo.

PS:  O Fluminense não venceu nada, ainda corre um bom risco de ser rebaixado, blá, blá, blá. Não elogiar um momento por isso é a tragédia do suposto racionalismo futebolístico, parente do chatismo.

O homem é o mais obcecado dos seres. Preso na sua teia de divagações e sentimentalidades, o pobre homo sapiens sapiens não consegue ir daqui ali sem pensar, hesitar, refletir, rememorar traumas ancestrais, sofrer com a infância perdida e temer a morte. Podem reparar, o mais comezinho dos atos, seja uma mera ida à padaria ou  simples compra de cigarros, é precedido de uma filosofia milenar e problemática.

E não negando a natureza, que isso é coisa de pulhas, sou um neurótico com minhas obsessões. Em futebol, a principal das obsessões é a humilhação. Não uma qualquer humilhação, mas uma humilhação definitiva de tão canhestra. A humilhação é a redução da dignidade, a anulação do outro- situação acintosamente flagrada no relacionamento entre grandes e pequenos. Refiro-me, claro, não aos atletas, mas às equipes, aos esquadrões.

Ora, a definição do pequeno é , digamos assim, relativa, ainda mais num país continental, monumental e pandeiro, como é nossa  Ilha de Vera Cruz. O Davi nacional é um Leviatã regional, podendo ser um freguês caloteiro no terreno municipal. E nesse dia-a-dia, nessa rotina malemolente é que uns clubes tentam afundar os outros.

Primeiro, é preciso (ou mister, como diria um estagiário de Direito) lembrar que se trata de uma situação global. Desde a aniquilação do glorioso Central de Manchester, a história do futebol é o canibalismo: É time comendo time e nego comendo gente até as horas da madrugada. Normal, diria o profeta. E acrescentaria: Normalíssimo.

Segundo (ou segundamente), temos de encarar o fenômeno com a tristeza do bardo. Ainda que normal, parece inevitável que o sentimento de superioridade e esmagamento domine no futebol. Não falo da rivalidade tradicional, entre Bahia e Vitória, Grêmio e Internacional, Everton e Liverpool ou Sampdoria e Genoa, mas de uma situação distinta: É o conflito entre um time do interior e o do capital no Brasil, é o caso de um grande time inglês e um time geórgio, armênio ou bielorusso- está claro quem é o grande, está claro quem é o pequeno, a disparidade de forças, orçamentos, conquistas, etc.- e ainda assim, há toda uma vontade de esmigalhamento.

Mas estou desviando do que  deveria falar, da Libertadores da América, de Sport e Palmeiras. Nesse jogo, disputaram teses acerca da grandeza de um time, tanto do ressentimento orgulhoso dos nordestinos, como da maior tradição em vitórias palmeirense.

Curiosa, porém, foi a postura do time paulista na Ilha. Fechado, buscando o 0 a 0 a todo custo, o Palmeiras fez as vezes do pequeno- ainda que o Sport não mostrasse condições de se comportar como um vitorioso. O herói inesperado acabou perdendo os tiros da marca da cal-estes, consagram, mais uma vez o grande Marcos.

Findo o jogo, tem-se a sensação de que não há esmagados, nem a sensação da vitória triunfante.

O tempo desperta um temor reverencial em todos nós. Assim, os feitos do passado ganham uma dimensão que, se realizados hoje, jamais teriam. Tornam-se gloriosos, fabulosos, épicos, dignos da velha Hollywood. E, como o tempo, também é com a distância. Talvez eu deva retificar o que ia falando, pois o tempo somente nos causa respeito somente por ser ele mesmo de uma distância atroz. E é a distância esta senhora severa, definitiva, mágica e cabal que nos faz prostrar e prestar salamaleques genuflexivos, morais.

Vejam o caso da Liga dos Campeões da Europa e da Libertadores da América. Dia sim, dia também, alguém brada o desnível existente entre as duas competições, a diferença técnica, tática, antropológica e tenho medo do dia em que se gritará alguma distinção ética entre o futebol de clubes rebelde e profundo e aquele outro, aparelhado de museus e históriacortez_3_lg

De um lado, apresentam-se os argumentos a favor do campeonato europeu: os grandes craques, as equipes organizadas, com sócios e proprietários cuja soma de bens ultrapassa qualquer realidade tátil, os estádios deslumbrantes, os grandes embates. De outro, um torneio com a tradição brasileira, argentina e, no máximo, uruguaia. Argumentam os rapazes que times como Universidad San Martín de Porreas, Boyacá Chicó e mesmo um Colo Colo ou até um Nacional de Montevidéu são timecos, fraquíssimos, indignos de exercer qualquer barreira contra os brasileiros ou o Boca Juniors- são indignos até de fazer uma grande exibição.

Não posso deixar de me contrariar com e de contrariar essas afirmações, tão enfáticas, quanto mal-informadas.  São hipóteses alimentadas por um sentimento sempre presente e sempre detestável no futebol: o centralismo, um elitismo de quinta categoria.

Basta uma vista rápida para descobrirmos que a Liga dos Campeões não é tão grandiosa assim e que não somente os times dos maiores centros de futebol estão lá. Mais, é preciso perceber que os times dos maiores, mais ricos e mais desenvolvidos centros de futebol não são exatamente o melhor exemplo de grande futebol- e que, sim, os clubes menores podem ter seu papel.

Só nesta última edição (2008/9) da LC da UEFA,  tivemos Basel, Cluj, Anorthosis Famagusta, Panathinaikos e BATE Borisov . De outra mão, tivemos papéis medíocres exercidos pelo Celtic, Sporting (times que não são das maiores ligas, mas são tradicionais), Werder Bremen, para não falar do futebol mais ou menos praticado por boa parte dos outros clubes. Reparem que o Arsenal jogou mal e feio quase todas as partidas, o Real Madrid não convence ninguém na Europa há umas duas temporadas e que a Internazionale passou por uma pendenga daquelas para passar de fase num grupo em que Werder Bremen, Anorthosis Famagusta e Panathinaikos certamente não gastavam metade da folha salarial dos milaneses.

Claro, é mais improvável que um time de fora do G-14 ganhe o título, mas a presença de Villareal nas quartas deste ano e na final de 05/06,  do Leeds, do La Coruña e de outros clubes aqui e ali não são tão desprezíveis assim. E, claro, nem sempre é possível contar com um grande e pintoso futebol nessas ascenções. Se um Once Caldas retranqueiro é algo que pode constranger os mais pudicos, não podemos esquecer um papel melancólico encarnado pelos já citados Real Madrid e Internazionale neste ano.

Não discordo que a Libertadores de 2009 tem decepcionado em qualidade dos jogos, pois contamos com argentinos, mexicanos e colombianos enfraquecidos. Desprezar o esforço de um San Martin (clube universitário fundado em 2004), uma certa melhora dos times da antiga Província Cisplatina, mal comparando-os com um continente de histórico futebolístico e com níveis de riqueza nitidamente superiores é pôr a questão em pratos quebrados.

Esta situação toda é um reflexo de vira-latismo e deslumbre, e ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser, é uma afirmação tacanha de superioridade. Ao diminuir a Libertadores, aumentamos nosso tamanho e podemos, assim, nos imaginarmos mais pertos de um mundo mais rico e menos bagunçado do futebol. Que isso seja uma ilusão para consumo interno, faz parte da enganação nossa de cada dia. Que se dê ao custo da desvalorização de um torneio que é justamente a hipótese próxima de incrementar o futebol em toda a América Latina, é lamentável e deprimente.

A hipoglicemia é um estado crítico. Explico: baixada a quantidade de açúcar no sangue de uma pessoa, o cidadão mais lorde, de casaca e cartola, transforma-se num animal irracional, a gritar e se irritar por um pedaço de comida. Assim temos que a mais nobre racionalidade de modos padece diante das circunstâncias naturais e instintivas.

Toco y me voy?

Toco y me voy?

Do mesmo modo acontece com o futebol. O time mais inteligente, mais esperto, mais habilidoso, mais sensacional, pode encontrar alguma barreira, natural ou psicológica, momentânea ou duradoura, que faça cair por terra a imagem daquele- e esse foi o caso da Argentina.

Vejam as notícias e estará lá inabalável, autêntico, demolidor, o placar do embate em La Paz: 6 a 1 Bolívia. Sim, repito aos que não estão acompanhando a tabela das eliminatórias. Bolívia 6. Argentina 1.

Perguntam-me por Messi, Tévez. Estavam lá, fizeram uma linda tabela, inclusive. Quer dizer, eu acho que estavam lá. Eu acho que o time argentino entrou em campo hoje. Mas eu preciso dizer e tenho de falar que por mais fatais e audaciosos que sejam, os três mil e seiscentos e tantos metros de altura bolivianos não são capazes de transformar um time naquilo que era a Argentina hoje. Era um time sobretudo hipoglicêmico, derrubado.

Claro, o começo de jogo foi normal. A Bolívia melhor, com uma empolgação curiosa (não a toa, 4 jogadores da própria Bolívia foram poupados na rodada anterior para que se aclimatassem aos céus pacenhos),e uma Argentina altiva,  encarando dentro de suas possibilidades o time e o clima. No entanto, alguma coisa entre o segundo e o terceiro gol e mais o intervalo, alguma fatalidade tétrica aconteceu que assassinou o ânimo argentino.

Vão dizer que foi a preparação equivocada, de chegar hora e meia antes do embate. E eu digo, sem convicção: até pode ser, mas não havia tempo útil para a Argentina aclimatar-se, então o melhor não era isso mesmo?

Amigos, vou-lhes dizer que a façanha derribadora da Argentina nesta tarde de 1° de Abril foi a queda de uma ilusão ou em termos mais apropriados ao dia, a queda de uma mentira: a de que Maradona estaria montando um time imbatível, um time sensacional, infinitamente superior a qualquer outro na América do Sul, etc e tal. Sim, amigos, uma Bolívia determinada e algumas condições físicas alteradas foram capazes de destroçar um dos selecionados do Rio da Prata (lembrem-se, claro, que ninguém tomou 6 a 1 desta Bolívia- logo, a altitude não há de explicar tudo).  Foram capazes também de derrubar certa presunção, a de que basta a Argentina jogar com uma inspiração de Miguel Ângelo e é possível alçar aos céus com uma facilidade inenarrável.

Não, não é possível, porque em futebol há sempre um elemento imponderável. E nem sempre este é a inspiração de um gênio da bola como é Messi- podendo ser até uma vontade canina e fabulosa de um time visivelmente inferior. Por isso, há de se ter cuidado nos julgamentos cabais e definitivos, seja do escrete deles, seja do nosso.

ohiggins_bernardoAh, em todos os tempos há e haverá aquela do repetitivo. O camarada todo dia chega num bar, conta a mesma troça, o próprio lero-lero, repetidas vezes, até o ponto em que todos chegam à beira da loucura- ou de um estágio muito próximo a isso, o tédio- por mais que a história contada- uma guerra por ele travada ou uma aventura pantaneira – tenha sido verdade.

Algo semelhante acontece com a Libertadores da América. Ano sim, ano também e ano de novo, a mesma narrativa acerca dos desafios, altitudes, catimbas e peculiaridades do futebol sul-americano (há o dinheiro dos times mexicanos também!) toma as ruas para no fim todos concordarem que os favoritos são argentinos e brasileiros- podendo, sempre, é claro, haver alguma zebra.

Já se chega a quase-metade da fase de grupos, e o que temos? Bem, primeiro temos um calendário bagunçado. Enquanto alguns grupos avançam à quarta rodada (Chivas e Caracas semana passada, Lanús e Everton hoje), outros só terão concluído a terceira em abril (caso do Sport e Palmeiras). Isso quando não há distinção dentro do grupo, como é o caso de Independiente de Medellin e América de Cali, Defensor Sporting e São Paulo.

Ora, se já houve quem reclamasse do calendário do ano passado (Ubiratan Leal, do Trivela), por incompatibilidades de horário, o que dizer do deste ano? Ao contrário, o calendário passado, com 3 jogos por dia, toda terça, quarta e quinta, permitia que todos os jogos fossem televisionados.  Televisão, aliás, lembra a péssima cobertura que o Sportv vem fazendo, esquecendo alguns jogos, passando VT de outros e negligenciando o maior campeonato da América em troca de jogos da Copa do Brasil transmitidos em TV aberta. Mas, divago e já não falo mais de futebol, mas do que fazem com ele.

Voltando à Taça, este ano temos mais equilíbrio. Se os atuais campeão e vice brasileiro mostravam no papel possuirem elencos melhores que os do ano passado, na prática o que se vê são times hesitantes. O São Paulo depende de espaços para atuar, como os que encontrou em Cali. Isso traz problemas com times que jogam retrancados e pode complicar a situação do time como em 2007 e mesmo em 2008- muito embora, na temporada passada, o time se apresentasse menos criativo e tenha sido eliminado por um time bastante ofensivo e que dava muito espaço.

O Grêmio tem problemas de insatisfação com o treinador, com os centroavantes e até a diretoria reclamou de um defensivismo extremo para o time. Sim, amigos, consta que um italiano reclamou da macarronada de uma sua tia matrona e que desde então foi excomungado pela própria família, tornando-se um pária napolitano.

De outro lado, temos um Sport, que é visto como sensação e com um misto de deslumbre e constrangimento por todos. Constrangimento que é a tônica da interpretação que se faz do Palmeiras. Como um time que tem um esplendoroso centroavante e alguns bons talentos, além de uma grande campanha no Estadual não faz bom papel?

Se a resposta ao “dilema de Pernambuco” está num time médio com determinação, a reposta do Palmeiras encontra-se na péssima defesa que o time possui. Ora, o nível de qualquer campeonato estadual não vale para medir um time. A verdade, amigos, é que um campeonato estadual vale tanto quanto a quinta divisão do Brasil. Hoje, o Estadual é uma série E enxertada com times de prefeitura ou de empresários e equipes da série A, que sem a motivação adequada e em ritmo de pré-temporada, são equivalentes a times de outras divisões. Esta é a dura realidade.

Não é à toa que a virada que o Palmeiras conseguiu contra o São Caetano tenha se dado de maneira tão escalafobética. As defesas do jogo pareciam peneiras dilaceradas ou pias com vazamentos amazônicos. E, no entanto, o que se exaltava era a beleza dos gols do Palmeiras.

Por fim, temos um Cruzeiro que, pelo terceiro ano consecutivo, não consegue passar confiança em seu vigor e capacidade de prosseguimento na competição. A imaturidade e destempero do bom Kléber não ajudam um escrete jovem, com grandes jogadores (em minha opinião, segundo elenco do Brasil, atrás do são-paulino), a passar outra imagem senão a de um clube que porá a perder tudo no minuto seguinte, graças a uma expulsão inconseqüente. O segundo turno, com dois jogos no Mineirão, há de determinar aonde o time mineiro pode chegar. Controlados os nervos, há grandes chances de um belo papel na competição.

Belo papel que pode ser concretizado por qualquer dos clubes brasileiros no momento, inclusive pelo instante trepidante pelo qual passam os clubes argentinos, pela fraqueza dos mexicanos (exceção feita às Chivas) e pela incerteza que ronda todos os outros que almejam chegar ao patamar de um San Martín, de um Bolívar, de um O´Higgins ou de um Pedro I.

p109724-lisbon-igreja_de_sao_vicente_de_foraE foi começada a fase final da Liga dos Campeões, que seria algo como um complemento especial ao maior produto gastronômico do futebol mundial. Os conoisseurs, do Kiribati ao Butão, da Palestina à Alemanha, aguardavam ansiosamente pelo dia das oitavas da LC. Perguntem-me, então, que pergunto a vocês: E aí, como foram os jogos?

Respondo:  Olhem os resultados. Haverá, claro, quem me olhe indignado, e brade que em futebol os resultados nada significam, afinal, há sempre o imponderável, o imprevisível, o inenarrável, o que é visto e o que não é visto, a rebimboca da parafuseta, etc. Ao que eu retruco: Tédio. Sim, concordo com o argumento, mas poucas vezes os resultados expessaram tanto o que realmente aconteceu em campos de futebol- e o que aconteceu foi tédio e apatia.

Jogos modorrentos, resolvidos pela diferença mínima (ou não resolvidos, como no caso de Internazionale e Manchester) foram a tônica da rodada. Com exceção de um sacode que o Bayern enfiou no Sporting lisboeta, o que se viu foram times acuados, com medo de si mesmo e da própria sombra, a despeito de contarem com elencos estelares e, segundo dizem, magníficos. Mas a quem estou querendo enganar?

Também no jogo do Alvalade o que se via era alguma coisa esquisita, embora mais franca do que em Stamford Bridge ou no Lyon X Barcelona do dia anterior. E então, eu até me pergunto, de mim para mim, por que ainda acompanho futebol. Somente este questionamento assombrava-me durante as exibições modorrentas que acompanhei na LC. Ora, se este é o melhor torneio do mundo, que diabos é o pior torneio? Estaria eu ficando velho, ranzinza, problemático?

E, então, vêm a mim recordações das três últimas finais da Liga. Vá lá, estou bondoso, e esquecerei a vitória por 2 a 1 do Barcelona sobre o Arsenal (que segurou um resultado heroicamente por quase todo o jogo e foi derrubado por Juliano Haus Belletti, o que é digno de nota). Lembremos somente do Milan e Liverpool (2 a 1) e do United e Chelsea (1 a 1, decidido nos pênaltis). Estes jogos representavam o ápice do futebol mundial? Desculpem-me, amigos, mas se este é o ápice, o topo não passa de uma banalidade fundamental. Uma banalidade preocupante.

E por que eu assisto o jogo e acompanho? Na madrugada, Chivas e Everton duelavam pela Libertadores. Primeiro tempo, 4 a 0. Assustado, não consegui dormir e decidir encarar o que se afigurava um massacre. Ora, o massacre não veio. Em dois minutos, o chileno Everton conseguiu 2 tentos. E eu pensava: ora, aí está o jogo, ou melhor, aí está a reação furiosa que há de reavivar minha fé na Arte!

Mais uma vez, ledo engano.  O jogo esfriou, as Chivas de Guadalajara meteram mais 2 gols e terminaram com aquele 6 a 2 de almanaque.

Tudo bem, eu espero. Não é a primeira vez e não será a última que o tédio tenta se apossar dos amantes do futebol- ou melhor, só de mim. Talvez eu nem seja tão amante assim. Meu caso é de um fiel, devoto e interessado, que há de acompanhar todos os momentos em busca de um átimo de epifania. A graça está nesta busca. E possivelmente a própria Graça por aí esteja.

O personagem da semana que decidiu a Taça Libertadores do Ano da Graça de 2008 poderia ser o Waldir Peres equatoriano, o rapaz de 38 anos chamado Cevallos, que além de ter gerenciado boa parte do tempo em favor de seu tempo, ainda foi magistral na cobrança de pênalis. Sim, magistral e não há outra palavra para sua atuação. Mas não se pode premiá-lo com mais nada, afinal, o arqueiro já é campeão da Libertadores, e o que mais há de querer neste ano?

Poderia ser também nossa personagem o Sr. Baldassi, a quem é difícil qualificar. Ora soa como um juiz de Mil novecentos e antigamente, que sentia prazer em prejudicar times, em outros momentos parece que é incompetência colossal mesmo. Mas não, ele não. E longe deste QueméaBola? ter fobia de argentinos, como o Presidente “pó-de-arroz”.

Não, não, não, amigos. O personagem cabal, irretratável, irrenunciável é Renato Gaúcho. Sim, o Portaluppi ídolo dos gremistas de há muito, ídolo dos cervejeiros desde 1995 e dos churrasqueiros desde 1992-3 e técnico desde 1996 (ainda interino).

Sim, ele é o personagem, principalmente por algumas injustiças que têm sido ditas. É preciso dizer primeiro: Ele é a ponta de antipatia no Fluminense, isso é um fato escandaloso. Vejam só, parceiros deste blog, que o Glorioso Timinho, contra o qual é impossível torcer caso não se seja flamenguista, teve muita gente o detestando, e tudo por causa de Gaúcho. Eu mesmo confesso que não gosto e devo muito isso a minha convicção inabalável (mesmo que os fatos me ataquem) de que só a humildade excessiva é gloriosa. Sei que isso não é verdade, e dou glórias aos Céus que todos não pensem comigo, mas ainda assim, instintivamente, de modo genético ou mesmo religioso, mantenho esse desgosto de quem é auto-confiante. Ainda assim, não posso coadunar com as críticas que vêm sido feitas.

Ora, mesmo quando o Fluminense vencia São Paulo e Boca Juniors, fomos os primeiros a afirmar que o time era muito exposto e que ainda falta muito para que Renato seja considerado um grande estrategista. É de ver que os dois laterais do Fluminense são pontas, que os dois meias armadores marcam muito mais pela vontade ou de acordo com o ritmo  e empolgação da partida do que por disposições táticas- e todos vimos a tentativa infrutífera de se escalar 3 centroavantes com o uniforme titular do Tricolor carioca. No entanto, parte da imprensa parece ter despertado para esse detalhe somente agora, com a derrota.

É certo que é inglória a missão de um jornalista do futebol. Ele tem de se equilibrar na corda do agrado ao torcedor e na visão fática. Pior, ele ainda deve estar atento ao extrafático, ao sobrenatural que permeia os gramados mundiais. É inglória e até vã essa faina. Contudo, é preciso ser fiel ao que acontece (e ao que não acontece, mas se insinua). É chato e aborrecido ver agora reclamarem de Gaúcho nessa sua limitação, que pode ser superada, mas não é algo que se altere da noite para o dia.

Agora, o que não dá para aceitar, o que é irritante, indigno e por outra, é de um descaro húnico, digno dos piores inimigos da Roma caída, é a insurgência contra o perfil motivador do técnico. Amigos, amigas e respectivos animais de estimação: o Fluminense só chegou aonde chegou porque Renato Gaúcho gritava que era possível. Sim, faltou o principal, que era o título, sim, faltou o essencial mesmo, mas convenhamos: Como Renato, mesmo se fosse um César, um Napoleão, um Elizabeth, um Felipe II, se portaria diante das vitórias sobre São Paulo e Boca, do jeito que ocorreram? Como se comportar diante da euforia de uma torcida que, vamos, venhamos e convenhamos quatro vezes, passou por perrengues terríveis na última década e só agora alcançara os píncaros?

Vos digo a todos: Era a maior das missões. E era impossível para alguém do perfil de Renato Gaúcho. De ele para ele, era contra sua natureza, levantar e falar:  “Meninos, rapazolas, garotada, turma! Olha só, vencemos o maior campeão americano da década, o time imbatível da América que amedronta a todos no continente de Bolívar, San Martin e Frei Caneca,  vencemos o brasileiro mais bem sucedido em competições internacionais que há e agora, vejam só, agora ainda temos mais 2 jogos! E ainda podemos perder!”.

Analisem. Ele seria desmoralizado, tripudiado, perderia toda a autoridade, cairia na auto-contradição, total e assassina. Companheiros de jornada, pobre Renato. Tal qual o rei da anedota, o rei do almanaque, aquilo que fez sua grandeza e a de seu time, o fez perder no fim. Não tanto pelo jogo do Rio (quando mais uma vez, a motivação um tanto arrogante, um tanto só confiante deu alento a um time que havia sido esmigalhado), mas pela partida desastrada de Quito.

A quem amaldiçoa Portaluppi por não ter mexido no ataque, penso no que não diriam, caso o time perdesse com Tartá em campo. Seriam chuvas e trovoadas de reclamações e impropérios.

A quem culpa Renato por ter poupado o time, etc, basta alguém ter acompanhado os jogos do Fluminense no Brasileiro. Com exceção do segundo tempo contra o Sport, o time todo (inclusive os titulares contra o Santos) jogava com a cabeça em Marte, Júpiter, na Lua, ao lado de São Jorge ou não sei mais onde. Era um time desconcentrado e quase em festa. Ele não tinha muito o que fazer- e a entrevista que ele deu após a partida contra o time do litoral paulista foi a prova de que ali estava chegado um limite à magia do Fluminense.

E somente porque o futebol é cruel, dando e tirando a magia e a estrela com tamanha intensidade, é que Renato Portaluppi é o personagem da semana passada.

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