vai desabar

Há quem diga que, apesar de filha do diabo ( ou, talvez, em razão disso), a mentira seria prova da maturidade de alguém. Por outra: Criança não mente. Ou numa pior, adulto que não mente é infantil ou débil mental, donde se poderia inferir que o local para as filosofias de Immanuel Kant seria uma espécie de hospício. Todavia, quem conhece o choro ladino de alguns pivetes, sabe que a banda não toca para este lado.

Mas por que falo da mentira? O que a mentira, o cinismo, a desfaçatez tem a ver com o esporte bretão. Bem, é justamente da Ilha que vem a recente polêmica envolvendo o croata-brasileiro Eduardo da Silva e uma simulação diante do Celtic, nas preliminares da Liga dos Campeões. Vocês podem ver aqui que o atacante não é tocado e apesar disso, desaba na área, motivo suficiente para que o juiz marcasse o pênalti.

Dizem que na repetição do lance, a torcida gritou de decepção, lamentando que o pênalti não tivesse sido justo. E logo começou a recriminação. John Terry, zagueiro do Chelsea, acusou um excesso de malícia dos jogadores estrangeiros, até porque desacostumados em relação ao ritmo do jogo inglês, ao tempo em que, de certa maneira, lamentava que os compatriotas não fossem daquele jeito. Digo de certa maneira e já me corrijo. Em verdade, a lamentação era uma reprimenda marota, com direito a piscadela e tudo mais, aos estrangeiros, que incorreriam em desonestidade tremenda.

Ora, resultou que o jogador foi punido com dois jogos de suspensão, pela simulação. E, no entanto, vos reclamo e conclamo, sim, conclamo, a pensar sobre o assunto. É possível medir o grau de malandragem de um jogador em campo? Não sei e tenho minhas dúvidas- assim como tenho minhas dúvidas em relação a uma suposta moralidade dos jogadores de tal ou qual país.

Será possível medir o quanto é cera de um goleiro, o quanto um zagueiro provoca um jogador, etc, etc? Não acho. A não ser que instalássemos câmeras em cada cerebelo (e bulbo) alheios, com direito a transcrição pictográfica e legendada das atitudes e intenções de cada um, não vejo possível que uma excessiva regulação do futebol jogado possa nos levar a mais e não menos diversão em campo.

Parece-me mais adequado um melhor treinamento dos árbitros e um esforço para que as influências políticas apitem menos na determinação dos episódios de campo. De resto, esforços no sentido de uma super-formatação só vão tornar o futebol mais chato e menos futebol. Chegará o dia em que os amantes do futebol somente poderão assistir o contra-futebol, o anti-futebol e até mesmo o pós-futebol.

Lembremos, amigos, que o futebol nasce como esporte de lordes e cavalheiros e vislumbro aqui uma bela partida dos estudantes de Cambridge (imaginemos a Turma A contra a Turma B ou melhor, os com-cartola versus os com-fraque). O pouco que há de regras disciplinares vem do espírito de um tempo em que (ao menos, em tese) as emoções e impulsos disparatados do corpo e da alma eram mais ou menos controlados. Como todos os esportes cavalheirescos, o futebol surge como uma forma de o corpo controlar a alma.

Nossos tempos, porém, são outros. As almas mostram-se incontroláveis, os corpos descontrolados e, mais do que isso, há um orgulho no descontrole. Sem maiores lamúrias, temos de reconhecer isso. O futebol é um jogo de cavalheiros que não é jogado por cavalheiros. Precisamos aceitar essa realidade e nos divertir com ela, evitando que passemos a ser brutos praticando um jogo de burocratas entediados e entendiantes.

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