O homem é o mais obcecado dos seres. Preso na sua teia de divagações e sentimentalidades, o pobre homo sapiens sapiens não consegue ir daqui ali sem pensar, hesitar, refletir, rememorar traumas ancestrais, sofrer com a infância perdida e temer a morte. Podem reparar, o mais comezinho dos atos, seja uma mera ida à padaria ou  simples compra de cigarros, é precedido de uma filosofia milenar e problemática.

E não negando a natureza, que isso é coisa de pulhas, sou um neurótico com minhas obsessões. Em futebol, a principal das obsessões é a humilhação. Não uma qualquer humilhação, mas uma humilhação definitiva de tão canhestra. A humilhação é a redução da dignidade, a anulação do outro- situação acintosamente flagrada no relacionamento entre grandes e pequenos. Refiro-me, claro, não aos atletas, mas às equipes, aos esquadrões.

Ora, a definição do pequeno é , digamos assim, relativa, ainda mais num país continental, monumental e pandeiro, como é nossa  Ilha de Vera Cruz. O Davi nacional é um Leviatã regional, podendo ser um freguês caloteiro no terreno municipal. E nesse dia-a-dia, nessa rotina malemolente é que uns clubes tentam afundar os outros.

Primeiro, é preciso (ou mister, como diria um estagiário de Direito) lembrar que se trata de uma situação global. Desde a aniquilação do glorioso Central de Manchester, a história do futebol é o canibalismo: É time comendo time e nego comendo gente até as horas da madrugada. Normal, diria o profeta. E acrescentaria: Normalíssimo.

Segundo (ou segundamente), temos de encarar o fenômeno com a tristeza do bardo. Ainda que normal, parece inevitável que o sentimento de superioridade e esmagamento domine no futebol. Não falo da rivalidade tradicional, entre Bahia e Vitória, Grêmio e Internacional, Everton e Liverpool ou Sampdoria e Genoa, mas de uma situação distinta: É o conflito entre um time do interior e o do capital no Brasil, é o caso de um grande time inglês e um time geórgio, armênio ou bielorusso- está claro quem é o grande, está claro quem é o pequeno, a disparidade de forças, orçamentos, conquistas, etc.- e ainda assim, há toda uma vontade de esmigalhamento.

Mas estou desviando do que  deveria falar, da Libertadores da América, de Sport e Palmeiras. Nesse jogo, disputaram teses acerca da grandeza de um time, tanto do ressentimento orgulhoso dos nordestinos, como da maior tradição em vitórias palmeirense.

Curiosa, porém, foi a postura do time paulista na Ilha. Fechado, buscando o 0 a 0 a todo custo, o Palmeiras fez as vezes do pequeno- ainda que o Sport não mostrasse condições de se comportar como um vitorioso. O herói inesperado acabou perdendo os tiros da marca da cal-estes, consagram, mais uma vez o grande Marcos.

Findo o jogo, tem-se a sensação de que não há esmagados, nem a sensação da vitória triunfante.

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