maio 2009


O homem é o mais obcecado dos seres. Preso na sua teia de divagações e sentimentalidades, o pobre homo sapiens sapiens não consegue ir daqui ali sem pensar, hesitar, refletir, rememorar traumas ancestrais, sofrer com a infância perdida e temer a morte. Podem reparar, o mais comezinho dos atos, seja uma mera ida à padaria ou  simples compra de cigarros, é precedido de uma filosofia milenar e problemática.

E não negando a natureza, que isso é coisa de pulhas, sou um neurótico com minhas obsessões. Em futebol, a principal das obsessões é a humilhação. Não uma qualquer humilhação, mas uma humilhação definitiva de tão canhestra. A humilhação é a redução da dignidade, a anulação do outro- situação acintosamente flagrada no relacionamento entre grandes e pequenos. Refiro-me, claro, não aos atletas, mas às equipes, aos esquadrões.

Ora, a definição do pequeno é , digamos assim, relativa, ainda mais num país continental, monumental e pandeiro, como é nossa  Ilha de Vera Cruz. O Davi nacional é um Leviatã regional, podendo ser um freguês caloteiro no terreno municipal. E nesse dia-a-dia, nessa rotina malemolente é que uns clubes tentam afundar os outros.

Primeiro, é preciso (ou mister, como diria um estagiário de Direito) lembrar que se trata de uma situação global. Desde a aniquilação do glorioso Central de Manchester, a história do futebol é o canibalismo: É time comendo time e nego comendo gente até as horas da madrugada. Normal, diria o profeta. E acrescentaria: Normalíssimo.

Segundo (ou segundamente), temos de encarar o fenômeno com a tristeza do bardo. Ainda que normal, parece inevitável que o sentimento de superioridade e esmagamento domine no futebol. Não falo da rivalidade tradicional, entre Bahia e Vitória, Grêmio e Internacional, Everton e Liverpool ou Sampdoria e Genoa, mas de uma situação distinta: É o conflito entre um time do interior e o do capital no Brasil, é o caso de um grande time inglês e um time geórgio, armênio ou bielorusso- está claro quem é o grande, está claro quem é o pequeno, a disparidade de forças, orçamentos, conquistas, etc.- e ainda assim, há toda uma vontade de esmigalhamento.

Mas estou desviando do que  deveria falar, da Libertadores da América, de Sport e Palmeiras. Nesse jogo, disputaram teses acerca da grandeza de um time, tanto do ressentimento orgulhoso dos nordestinos, como da maior tradição em vitórias palmeirense.

Curiosa, porém, foi a postura do time paulista na Ilha. Fechado, buscando o 0 a 0 a todo custo, o Palmeiras fez as vezes do pequeno- ainda que o Sport não mostrasse condições de se comportar como um vitorioso. O herói inesperado acabou perdendo os tiros da marca da cal-estes, consagram, mais uma vez o grande Marcos.

Findo o jogo, tem-se a sensação de que não há esmagados, nem a sensação da vitória triunfante.

O tempo desperta um temor reverencial em todos nós. Assim, os feitos do passado ganham uma dimensão que, se realizados hoje, jamais teriam. Tornam-se gloriosos, fabulosos, épicos, dignos da velha Hollywood. E, como o tempo, também é com a distância. Talvez eu deva retificar o que ia falando, pois o tempo somente nos causa respeito somente por ser ele mesmo de uma distância atroz. E é a distância esta senhora severa, definitiva, mágica e cabal que nos faz prostrar e prestar salamaleques genuflexivos, morais.

Vejam o caso da Liga dos Campeões da Europa e da Libertadores da América. Dia sim, dia também, alguém brada o desnível existente entre as duas competições, a diferença técnica, tática, antropológica e tenho medo do dia em que se gritará alguma distinção ética entre o futebol de clubes rebelde e profundo e aquele outro, aparelhado de museus e históriacortez_3_lg

De um lado, apresentam-se os argumentos a favor do campeonato europeu: os grandes craques, as equipes organizadas, com sócios e proprietários cuja soma de bens ultrapassa qualquer realidade tátil, os estádios deslumbrantes, os grandes embates. De outro, um torneio com a tradição brasileira, argentina e, no máximo, uruguaia. Argumentam os rapazes que times como Universidad San Martín de Porreas, Boyacá Chicó e mesmo um Colo Colo ou até um Nacional de Montevidéu são timecos, fraquíssimos, indignos de exercer qualquer barreira contra os brasileiros ou o Boca Juniors- são indignos até de fazer uma grande exibição.

Não posso deixar de me contrariar com e de contrariar essas afirmações, tão enfáticas, quanto mal-informadas.  São hipóteses alimentadas por um sentimento sempre presente e sempre detestável no futebol: o centralismo, um elitismo de quinta categoria.

Basta uma vista rápida para descobrirmos que a Liga dos Campeões não é tão grandiosa assim e que não somente os times dos maiores centros de futebol estão lá. Mais, é preciso perceber que os times dos maiores, mais ricos e mais desenvolvidos centros de futebol não são exatamente o melhor exemplo de grande futebol- e que, sim, os clubes menores podem ter seu papel.

Só nesta última edição (2008/9) da LC da UEFA,  tivemos Basel, Cluj, Anorthosis Famagusta, Panathinaikos e BATE Borisov . De outra mão, tivemos papéis medíocres exercidos pelo Celtic, Sporting (times que não são das maiores ligas, mas são tradicionais), Werder Bremen, para não falar do futebol mais ou menos praticado por boa parte dos outros clubes. Reparem que o Arsenal jogou mal e feio quase todas as partidas, o Real Madrid não convence ninguém na Europa há umas duas temporadas e que a Internazionale passou por uma pendenga daquelas para passar de fase num grupo em que Werder Bremen, Anorthosis Famagusta e Panathinaikos certamente não gastavam metade da folha salarial dos milaneses.

Claro, é mais improvável que um time de fora do G-14 ganhe o título, mas a presença de Villareal nas quartas deste ano e na final de 05/06,  do Leeds, do La Coruña e de outros clubes aqui e ali não são tão desprezíveis assim. E, claro, nem sempre é possível contar com um grande e pintoso futebol nessas ascenções. Se um Once Caldas retranqueiro é algo que pode constranger os mais pudicos, não podemos esquecer um papel melancólico encarnado pelos já citados Real Madrid e Internazionale neste ano.

Não discordo que a Libertadores de 2009 tem decepcionado em qualidade dos jogos, pois contamos com argentinos, mexicanos e colombianos enfraquecidos. Desprezar o esforço de um San Martin (clube universitário fundado em 2004), uma certa melhora dos times da antiga Província Cisplatina, mal comparando-os com um continente de histórico futebolístico e com níveis de riqueza nitidamente superiores é pôr a questão em pratos quebrados.

Esta situação toda é um reflexo de vira-latismo e deslumbre, e ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser, é uma afirmação tacanha de superioridade. Ao diminuir a Libertadores, aumentamos nosso tamanho e podemos, assim, nos imaginarmos mais pertos de um mundo mais rico e menos bagunçado do futebol. Que isso seja uma ilusão para consumo interno, faz parte da enganação nossa de cada dia. Que se dê ao custo da desvalorização de um torneio que é justamente a hipótese próxima de incrementar o futebol em toda a América Latina, é lamentável e deprimente.

O homem atual é guiado pelo resultado, não é dado a contemplações, banalidades reflexivas ou, como diria um amigo, não é cheio de nove-horas. Tal qual em uma comunidade de galinhas, na qual pouco importa as habilidades em ciscar ou a sapiência no uso da moela, o que determina o homem hoje é o resultado, o produto final, o ovo. Sem pôr seus ovos regularmente, industrialmente, o homem não é nada.

E isso também é verdade no futebol. Mais: Isso é uma verdade superior no futebol, mais verdadeira do que no resto da existência. Para os treinadores, então, o resultadismo é uma doxa inabalável, a doutrina dos milênios e dos seiscentos. Como diz o outro, o jogo é jogado e há aqueles que conseguem sobreviver em meio à granja do dia-a-dia. É o caso do neerlandês Guss Hidink.

Os trabalhos deste rapaz dos Países Baixos chamam alguma atenção: Austrália, Coréia e Holanda nas últimas Copas do Mundo, a Rússia deste pré-2010, PSV nos píncaros da Europa, enfim, enfim, o homem é dono de resultados de respeito. Fosse uma galinha, seria de ovos dourados ou melhor, seria uma galinha que põe ovos de Fabergé.

E não à toa, Hiddink parou no Chelsea pós-Scolari. A atuação do time nas partidas contra o Barcelona demonstraram as bases da atuação do treinador: Pragmatismo até a medula, até o limite extremo. Na Catalunha, isso implicou um time acuado, apertado pelas circunstâncias de um time ofensivo, porém estéril. O Chelsea desistiu do jogo no Camp Nou e quase arrancou uma vitória num vacilo da zaga culé.

Em Londres, porém, a estratégia já não era a do ferrolho. Era alguma coisa arriscada também, ainda mais quando Essien abriu o placar num pombo sem asa fundamental logo no início do jogo.  Hiddink armou um Chelsea com contra-ataques insinuantes, mas que ao mesmo tempo abria seu campo ao jogo do Barcelona. Era uma estratégia, digamos assim, malandra. Enquanto o time inglês conseguisse permitir que o domínio blaugraná fosse inócuo, pouco efetivo, estava tudo ótimo. Ainda mais se o time acertasse alguns contra-ataques, que dariam a chance de encerrar a partida.

Havia um problema nesse esquema, porém. Primeiro, se faltasse alguma coisa aos contra-ataques. E faltaram. Drogba e Anelka sempre erravam alguma coisa no momento final. Segunda questão, se o juiz fosse um parvo. E era. Ao menos dois pênaltis não foram marcados- o que explica o ocorrido, pois não se anula a expulsão ridícula de um defensor do Barcelona que parecia a ruína do time. E, por fim, se aquela inefetividade ofensiva catalã acertasse uma única vez que fosse. Iniesta cumpriu essa parte, no finzinho da partida.

Em futebol, um minuto é suficiente para que ouro vire gema. E o pior, gema velha e estragada. Em dois confrontos que entregaram menos do que nossa mente idealista poderia imaginar, um lance fortuito arruinou a estratégia de uma senhora galinha, digo, de um senhor treinador. E Avram Grant continua sendo aquele que mais perto chegou do sonho de Abrahmovic.

Balaço nos ovos de Fabergé

Balaço nos ovos de Fabergé

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Por falar em promessas, profecias e decepções, nada pode ser mais triste do que o confronto entre Arsenal e United, também pelas semifinais da LC. Não pelos comandados de Fergunson, que voltaram a demonstrar a efetividade suíça, digna dos melhores relojoeiros do globo, com uma atuação suprema de Cristiano Ronaldo, rapaz que vem destruindo minhas últimas resistências em relação a seu poder de decisão, mas sim pelo time londrino.

Está claro que o druida Arsene precisa fortalecer o time para o próximo ano. Sim, o escrete continua agradável e faceiro, mas é preciso mais do que jogo bonito para avançar. Se antes havia Pires, Henry, Vieira e mesmo Gilberto Silva, hoje o time parece ressentir-se de algumas peças que permitam a evolução que todos esperamos. Ano passado, o time demonstrava mais ímpeto ofensivo e um caos na defesa. Hoje, o time perdeu um pouco daquela vocação (muito embora Arshavin indique potencial para mais), sem recompor a proteção da mesma maneira.