Por increça que parível, como diz o poeta, já estou mais do que acostumado com autocratas incorrigíveis. Sim, colegas, e isto acontece nestes tempos democráticos, de paz, amor e ódio (ao menos declarado) ao arbítrio e à violência, o hábito de conviver com gigantes descomunalmente esmagadores tais quais morimbundos, digo, marimbondos maranhenses, formigas tornadas pobres vítimas e homens ordinários bravos, porém derrotados.

Vejam só o caso dos Estaduais. Sabemos que, desde os tempos ancestrais, tais torneios acabam por servir à lógica da humilhação do vintém pelo milhão, do esforço pela qualidade, etc, etc. E, no entanto, como dois e dois são quatro, a época de suas semifinais ganha uma relevância fabulosa. Claro, o clássico assassino, as eliminatórias tensas e cruéis, isso ganha uma dimensão extratática, extratécnica e, quem sabe até, escalafobética. E nessa toada, todos nós gritamos, nos mobilizamos e esquecemos dos regulamentos ridículos, que obrigam clubes a jogarem 19, 20, 25 jogos em 2, 3 meses.

Mas não podemos ser estraga-prazeres.As batalhas deste domingo, seja a travada entre Corinthians e São Paulo, Botafogo e Flamengo ou Fluminense de Feira e Bahia, todas elas trazem consigo a potencialidade cósmica que os grandes momentos de decisão possuem. E é nisso que devemos nos fiarmos para acompanhar estes jogos, mesmo que o duelo do Morumbi prometa mais defesas trancadas e bolas paradas do que futebol genuíno ou que no Maracanã possamos ter mais momentos engraçados na arquibancada do que um tratamento respeitoso à senhora pelota.  caxumba1

Claro, estes jogos não consertarão o nó do desenvolvimento futebolístico do país, i.e., dar sentido e permitir que os times pequenos e/ou do interior continuem a existir e evoluam de forma mais ou menos pujante. Aliás, a contradição essencial dos Estaduais é esta: única possibilidade de existência e atividade da maioria dos times do interior ou do Brasil profundo, não se apresentam como saída viável, tanto do ponto de vista financeiro, como do ponto de vista da saúde desportiva.

Se num Estado classe A do futebol como São Paulo, o Guarantiguetá outrora sensação torna-se um fracasso no ano seguinte, num Estado classe média (baixa?) como a Bahia, a atuação dos times do interior é uma incógnita a cada ano, a depender de investimentos aleatórios, enquanto nas fronteiras do mundo da bola brasileiro (pense num Espírito Santo, num Mato Grosso do Sul), os vencedores de ontem (Desportiva, Comercial) hoje não passam de pálida sombra ou fracasso evidente.

Esse mal-estar há de ser esquecido amanhã e nos próximos finais de semana decisivos. Mas há de perdurar durante todo o resto do ano, como um fantasma ou uma caxumba, a nos oprimir o cérebro, o queixo e nossas partes pudendas.

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