A hipoglicemia é um estado crítico. Explico: baixada a quantidade de açúcar no sangue de uma pessoa, o cidadão mais lorde, de casaca e cartola, transforma-se num animal irracional, a gritar e se irritar por um pedaço de comida. Assim temos que a mais nobre racionalidade de modos padece diante das circunstâncias naturais e instintivas.

Toco y me voy?

Toco y me voy?

Do mesmo modo acontece com o futebol. O time mais inteligente, mais esperto, mais habilidoso, mais sensacional, pode encontrar alguma barreira, natural ou psicológica, momentânea ou duradoura, que faça cair por terra a imagem daquele- e esse foi o caso da Argentina.

Vejam as notícias e estará lá inabalável, autêntico, demolidor, o placar do embate em La Paz: 6 a 1 Bolívia. Sim, repito aos que não estão acompanhando a tabela das eliminatórias. Bolívia 6. Argentina 1.

Perguntam-me por Messi, Tévez. Estavam lá, fizeram uma linda tabela, inclusive. Quer dizer, eu acho que estavam lá. Eu acho que o time argentino entrou em campo hoje. Mas eu preciso dizer e tenho de falar que por mais fatais e audaciosos que sejam, os três mil e seiscentos e tantos metros de altura bolivianos não são capazes de transformar um time naquilo que era a Argentina hoje. Era um time sobretudo hipoglicêmico, derrubado.

Claro, o começo de jogo foi normal. A Bolívia melhor, com uma empolgação curiosa (não a toa, 4 jogadores da própria Bolívia foram poupados na rodada anterior para que se aclimatassem aos céus pacenhos),e uma Argentina altiva,  encarando dentro de suas possibilidades o time e o clima. No entanto, alguma coisa entre o segundo e o terceiro gol e mais o intervalo, alguma fatalidade tétrica aconteceu que assassinou o ânimo argentino.

Vão dizer que foi a preparação equivocada, de chegar hora e meia antes do embate. E eu digo, sem convicção: até pode ser, mas não havia tempo útil para a Argentina aclimatar-se, então o melhor não era isso mesmo?

Amigos, vou-lhes dizer que a façanha derribadora da Argentina nesta tarde de 1° de Abril foi a queda de uma ilusão ou em termos mais apropriados ao dia, a queda de uma mentira: a de que Maradona estaria montando um time imbatível, um time sensacional, infinitamente superior a qualquer outro na América do Sul, etc e tal. Sim, amigos, uma Bolívia determinada e algumas condições físicas alteradas foram capazes de destroçar um dos selecionados do Rio da Prata (lembrem-se, claro, que ninguém tomou 6 a 1 desta Bolívia- logo, a altitude não há de explicar tudo).  Foram capazes também de derrubar certa presunção, a de que basta a Argentina jogar com uma inspiração de Miguel Ângelo e é possível alçar aos céus com uma facilidade inenarrável.

Não, não é possível, porque em futebol há sempre um elemento imponderável. E nem sempre este é a inspiração de um gênio da bola como é Messi- podendo ser até uma vontade canina e fabulosa de um time visivelmente inferior. Por isso, há de se ter cuidado nos julgamentos cabais e definitivos, seja do escrete deles, seja do nosso.

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