abril 2009


personalidades-governantes-cuba-fidel-castro-discursando-20071A vida de quem acompanha futebol é difícil e sacrificante. Vejam vocês o meu caso. Passo dias,  noites e madrugadas elucubrando acerca do mundo da bola, criando teses, dissertando, perorando às muriçocas desta primeira capital do Brasil sobre isso e aquilo. Aí me pergunto: Tudo isso para quê? Para quê, se na semana seguinte, ou melhor, no jogo seguinte, todo o discurso, toda a cantiga será derrubada, tal qual uma águia mítica do oeste americano- ou uma arara-azul do oeste brasileiro.

E digo isso em termos abstratos, teóricos, amalucados? Não, não. Digo isso porque aconteceu comigo. Vejam só, bom peregrino que sou, já me preparava para pedir desculpas a Mano Menezes e reconhecer seu mérito na formação do Corinthians- um time de futebol eficiente, aplicado, bem distribuído em campo e tentando soar simpático,  quer dizer, menos antipático que o Grêmio de Mano Menezes, mas ainda assim um tanto antipático.

Pois então, eu já declamava meu canto, quando percebo o placar parcial na Arena da Baixada: 3 a 0. Geninho era o maestro do sacode e Rafael Moura o centroavante-chefe do CAP. Ora, senhores, meu discurso ia por água abaixo, esvaia-se feito a água da Pedra do Cavalo em tempos de El Niño.

Preferi acompanhar, então, a jornada sofrida do Palmeiras, com um a menos, fora de casa, etc.,  e era a hora de criar o texto dos apesares- o Colo-Colo ganharia, apesar de covarde. O Palmeiras perderia, apesar de ter sido considerado o melhor time da galáxia no começo do campeonato paulista. (Paro e penso como  é engraçado como esses jogos da última rodada da Libertadores vêm sendo levados em banho-maria- ou num ritmo normal- até os minutos finais, quando uma verdadeira coqueluche toma o mundo. Vejam só o pobre Universitario de Lima que contente com seus 2 licuris que tomava do San Lorenzo morreu ao tomar notícia do gol do San Luís nos estertores da partida contra o Libertad).

Quando o texto dos apesares estava pronto e algumas muriçocas já vibravam de emoção- pude sentir isso na pele- Cleiton Xavier me acerta um pombo sem asa e transforma os colo-colinos como nem Augusto Pinochet faria.  Minutos antes, o Corinthians encontrava 2 gols e aniquilava  minhas pretensões de seguir falando mal dos times de Mano Menezes- teria de voltar ao tema de antes do jogo.

Mais cedo, no continente em que o mais reles ladrilho tem 4000 anos de estrada, Manchester United e Arsenal pareciam fazer um jogo frenético e matador, e a se tomar pelos primeiros 15 minutos teríamos um duelo épico, de fazer Cecil B. de Mile gritar nas catacumbas. Pois não foi o que aconteceu. Traindo mais uma vez este feitor de teses que vos fala, o jogo foi de gato contra rato. Um Arsenal acuado somente sentia o domínio do United- e é incrível como Almunia foi um goleiro gigantesco ontem. E traindo qualquer obviedade textual, semântica ou gramatical, terminou em 1 a 0, mirrado, mirrado.

É bem verdade que este 1 a 0 foi melhor do que o placar vazio do dia anterior em Barcelona, no qual o Chelsea jogou como um time da sétima divisão inglesa, envergonhando o mais escroque de seus torcedores, ao passo que os culés não conseguiam desenvolver maiores qualidades redacionais- e Messi parecia um caudilho com um esforço descomunal para uma atuação inócua.

Há dois tipos de pessoas. Existem as reflexivas, que meditam milhares de anos e pode-se dizer até que elas ruminam seus atos, que acabam por se concretizar lentamente, embora com um grau de perfeição não tão próximo àquele esperado, ao divino.

De outro lado, há aqueles dados a ação. Um comunista diria e expeliria seus perdigotos revolucionários de uma outra maneira: Ação direta. E referendada, talvez. Este cidadão, ativo, está menos preocupado com filosofias (ou filôzufias, como diria um soteropolitano da gema, i.e., de uma época anterior à tentativa de transformar Salvador em uma sub-São Paulo), e mais dedicado à prática, às coisas concretas da vida.

Claro, a divisão não é estanque. Claro, o prático sempre há de teorizar alguma coisa, afinal, ele não é uma barata. E isto já é dito há tempos, desde um Anaximandro, um Anáxagoras, um Plato, um Ari.

Porém, contudo, todavia e entretanto, divago, derivo e quase degenero. Tenho de falar do São Paulo Futebol Clube. Há dois jogos-chave na temporada tricolor para definir o que vem acontecendo pelas bandas do Morumbi, ambos contra o Corinthians. O primeiro, o empate em 1 a 1, válido pela primeira fase do Campeonato Paulista. Ali, a despeito do resultado, o São Paulo apresentava-se numa jornada aparentemente promissora. Ora, um time reserva, indicativo da suposta missão deste 2009, que era a priorização da Taça Libertadores, num clássico, jogando melhor, com alguma variação tática e técnica, todos esses aspectos mostravam que uma bela temporada se avizinhava ao clube.

Muricy e Telê discutindo esquemas táticos

Muricy e Telê discutindo esquemas táticos

Vejam que o São Paulo de Muricy (ao menos, desde 2007 e numa constante evolução no mesmo sentido) é um time que inspira mais pela educação rochosa, pela disciplina dos jogadores, pelo empenho físico, tático, antropoludopédico, pelo afinco com que ensaia jogadas, com que executa cruzamentos, enfim, é um time aristotélico. Ou, para seus detratores, é um time de escola técnica. Ou, ainda pior, um time de apertadores de parafuso num cenário em que o ideal seria o sonho.

Ah, o sonho. O sonho de que pintaria um grande São Paulo no primeiro semestre foi caindo e derretendo ao longo dos dias. Aqueles reservas promissores tomaram um sacode inexplicável do Mogi-Mirim, o que fez Muricy repensar sua estratégia de prioridades.

Como diz o outro, e ele está todo errado? Não, não está, se a diretoria não lhe deu segurança-e se os próprios reservas não deram demonstração de que iriam além, pois do contrário, seria o pescoço do sr. Ramalho que estaria em risco. É só olhar o que aconteceu com o Grêmio nas bandas do Rio Grande meridional. Ah, mas tricampeonato brasileiro, pererê, pão-duro, etc., vocês dirão.

E eu responderei: justo, justíssimo. Mas isso não é suficiente, não para o São Paulo, e é só ver as declarações de um Leco, os comentários de torcedores internet afora, para saber que em futebol, sempre se quer mais- mesmo que para isso, sejam utilizados meios inequivocamente piores e que não levarão a planícies mais belas.

Nesse embalo, o São Paulo deste começo de ano vem apresentando um futebol tristonho, agravado pelos problemas defensivos, o que culminou em uma derrota cruel no domingo passado, contra o mesmo Corinthians. Não que o time de Muricy não buscasse o jogo, buscava sim. A questão é que não achava jogo algum. E nisso, o time de Mano Menezes foi muito competente, executando os gols quando puderam ser executados.

São esses próximos 15 dias entre o jogo de domingo passado e a Libertadores, já nas oitavas, que mostrarão até onde as ambições são-paulinas podem chegar no primeiro semestre: se ao céu ou à terra.

Ps: Desculpas pela demora em atualizar, mas alguns perrengues impossibilitaram que este texto (da semana passada) viesse ao ar.

Por increça que parível, como diz o poeta, já estou mais do que acostumado com autocratas incorrigíveis. Sim, colegas, e isto acontece nestes tempos democráticos, de paz, amor e ódio (ao menos declarado) ao arbítrio e à violência, o hábito de conviver com gigantes descomunalmente esmagadores tais quais morimbundos, digo, marimbondos maranhenses, formigas tornadas pobres vítimas e homens ordinários bravos, porém derrotados.

Vejam só o caso dos Estaduais. Sabemos que, desde os tempos ancestrais, tais torneios acabam por servir à lógica da humilhação do vintém pelo milhão, do esforço pela qualidade, etc, etc. E, no entanto, como dois e dois são quatro, a época de suas semifinais ganha uma relevância fabulosa. Claro, o clássico assassino, as eliminatórias tensas e cruéis, isso ganha uma dimensão extratática, extratécnica e, quem sabe até, escalafobética. E nessa toada, todos nós gritamos, nos mobilizamos e esquecemos dos regulamentos ridículos, que obrigam clubes a jogarem 19, 20, 25 jogos em 2, 3 meses.

Mas não podemos ser estraga-prazeres.As batalhas deste domingo, seja a travada entre Corinthians e São Paulo, Botafogo e Flamengo ou Fluminense de Feira e Bahia, todas elas trazem consigo a potencialidade cósmica que os grandes momentos de decisão possuem. E é nisso que devemos nos fiarmos para acompanhar estes jogos, mesmo que o duelo do Morumbi prometa mais defesas trancadas e bolas paradas do que futebol genuíno ou que no Maracanã possamos ter mais momentos engraçados na arquibancada do que um tratamento respeitoso à senhora pelota.  caxumba1

Claro, estes jogos não consertarão o nó do desenvolvimento futebolístico do país, i.e., dar sentido e permitir que os times pequenos e/ou do interior continuem a existir e evoluam de forma mais ou menos pujante. Aliás, a contradição essencial dos Estaduais é esta: única possibilidade de existência e atividade da maioria dos times do interior ou do Brasil profundo, não se apresentam como saída viável, tanto do ponto de vista financeiro, como do ponto de vista da saúde desportiva.

Se num Estado classe A do futebol como São Paulo, o Guarantiguetá outrora sensação torna-se um fracasso no ano seguinte, num Estado classe média (baixa?) como a Bahia, a atuação dos times do interior é uma incógnita a cada ano, a depender de investimentos aleatórios, enquanto nas fronteiras do mundo da bola brasileiro (pense num Espírito Santo, num Mato Grosso do Sul), os vencedores de ontem (Desportiva, Comercial) hoje não passam de pálida sombra ou fracasso evidente.

Esse mal-estar há de ser esquecido amanhã e nos próximos finais de semana decisivos. Mas há de perdurar durante todo o resto do ano, como um fantasma ou uma caxumba, a nos oprimir o cérebro, o queixo e nossas partes pudendas.

Leia também: Para que servem os Estaduais?

Preciso lembrar de usar personagem no seu gênero correto, o feminino. Preciso lembrar de adequar uma semana certa do ano ao personagem da semana. E preciso comprar o pão. O leite. As frutas. Imaginem vocês, amigos, que isso é a opressão do dia-a-dia. E é esta opressão diária, rotineira, contumaz e cruel que acabará por ocupar inevitavelmente a mente de Rogério Ceni, nossa personagem da semana.

Claro, vocês vão me dizer, diligentes e toda prosa, que Rogério vive o São Paulo 24 horas por minuto, 30 dias por semana. E não discordarei. Acompanho Rogério desde o Expressinho que venceu a Conmebol, desde o seu primeiro gol contra o União São João de Araras. E paro aqui para saudar o União São João de Araras e  o estádio que mandava seus jogos, o Hermínio Ometto. Às vezes, tenho a impressão de que o Hermínio Ometto é o primeiro resquício de memória do futebol que tenho. Saudação feita, volto a Rogério.

rc-verticalFalava da argumentação de vocês, que Rogério irá se dedicar a todo momento ao seu retorno, triunfal, majestático,  ao tapete verde. Claro, isso é verdade. Mas é inevitável o pensamento da rotina opressiva. A hora e meia que Rogério passaria pensando em chutes, possibilidades de jogada, a hora e meia anterior, a hora e meia posterior, integralmente dedicadas ao jogo, numa espécie de cerimonial profissional, isso não será possível a Rogério Ceni.

Ao longo de talvez 4 ,talvez 6 meses, a mente do arqueiro será ocupada de forma indelével, pela rotina, pelas coisas ordinárias da vida. Sim, porque o gramado cruel há de machucá-lo pela lembrança da distância de não estar naquele mundo apartado de sonhos que é o futebol, e nesse minuto, será inevitável a Ceni inundar seus pensamentos com qualquer opressão menos dolorosa: o pão, o leite, o problema com o chaveiro, etc.

Não mais as cobranças de faltas e pênaltis, não mais as defesas espetaculares, não mais a preocupação (que na semana passada foi freqüente) com a granja indesejável ou mesmo a gozação dos rivais e a crítica dos jornalistas por essas falhas. Ao menos por meio ano.

Pela dor do afastamento, que é uma contingência da vida de todo atleta e por sua semana curiosamente macabra, Rogério Ceni é o personagem da semana.

Napoleão contra a Santa Aliança?

Napoleão contra a Santa Aliança?

Diz a lenda que a moça que passava por Waterloo, não fazia idéia de que ali se travava uma batalha de manuais de História. Tampouco que a criança faminta que gritava numa Paris mitológica sabia que estava participando de uma Revolução.

Parece que a consciência da história só vem com o século XX e com a televisão. Numa inversão hilária, tudo se torna história. Assim, a morte de uma barata  ganha uma dimensão, uma dramaticidade e uma força que antigamente nem os funerais dos melhores imperadores e profetas gozavam. Ok, talvez menos. Talvez eu esteja exagerando na emoção. Sintoma do tempo.

Aliás, emocionados, estupefatos e até meio doidivanas ficaram aqueles que assistiram ao duelo entre Liverpool e Chelsea. Vejam vocês que o locutor da ESPN agradecia até à rainha e acho que o ouvi agradecer às tribos normandas e anglo-saxônicas que ocuparam aquela ilha do Norte.

O sentimento de surpresa, e por que não dizer?, de enlouquecimento não foi gerado apenas pelo placar, um 4 a 4 magnífico, espetacular e ,é possível dizer, tremendo. Lembro de uma época, em meados dos anos 90, em que um 4 a 4 era mais raro do que a ararinha-azul ou um mamute de Spielberg. Ok, é verdade, hoje continua sendo tão raro quanto, porém, é preciso destacar, sublinhar e grifar com caneta dourada o espetáculo passado nas bandas da Rainha.

Não, não. O jogo foi espetacular (supimpa, diria Erasmo Carlos) pela quantidade de alternativas oferecidas. E isso só foi possível porque os times mostraram-se o tempo todo dispostos a atacar e mais do que isso, os escretes estavam dispostos a jogar futebol, mostrando que a teoria do progenitor não era tão descabida assim.

Por outro lado, minha expectativa de que o Liverpool pintasse como campeão foi por água abaixo no jogo anterior. Do mesmo modo, o Manchester United demonstra a força de uma espécie de futebol de resultados implantada por Fergunson nas últimas temporadas.

Sobre o Arsenal, Wenger, o druida, parece estar usando muito de sua poção gaulesa nessa reta final e o time parece num avanço promissor, o que só será posto à prova mesmo contra o United, pois o Villareal não foi adversário suficiente. Do mesmo modo, o Bayern para o Barcelona, a vedete da imprensa brasileira. Correto, a linha de passe dos catalães é fabulosa. Não se sabe, porém, se suficiente para enfrentar todo o potencial armado pelos ingleses.

Que os próximos jogos não sejam mortes de insetos.

Adriano declarou semana passada que não mais jogaria futebol. Por enquanto, sua decisão é temporária, mas não há taxatividade no que afirma o jogador. Ora, a opção do atacante é mais interessante pelo que revela da alma das pessoas que circundam o futebol do que propriamente pela questão individual.

É improvável que se tenha alguma linha na imprensa condenando Adriano com veemência. O momento agora é de piedade, comoção condoída ou de, no máximo, uma resignação razoável. Todos tentam encarar a situação dentro de uma possível normalidade burocrática da análise, por mais que as manchetes berrem a anormalidade da situação.

No fundo, reside uma busca por motivos, escutada nas ruas e certamente não sendo mero sussurro: são as drogas, licítas, ilícitas ou prescritas pelo médico, a depressão, uma doença moral, a preguiça, etc, etc. etc.

E, no entanto, a causa é irrelevante para que constatemos o óbvio. Tal qual um profeta digno, devo declará-lo, pois. O evidente, o cristalino, é que a posição do atacante revelado no Flamengo ofende a todos, na medida em que desafia o nosso padrão, a rotina miúda do comum, das pequenas coisas que nos acalentam e consolam.

Dizer não a uma bela casa em Milão, a um conforto medíocre na Internazionale, ao fingir jogar, sendo muitíssimo bem remunerado por esta representação teatral, ao mesmo tempo em que, infeliz, pratica os pequenos desastres a que todos estamos sujeitos em momentos cruéis, isso não pode ser muito bem equacionado a todos os que lutam a cada dia para manter a sanidade, mesmo com todo os problemas de cada dia.

Ainda que numa condição financeira certamente mais confortável, milhares de euros mais confortável, do que a maioria dos comuns mortais, Adriano demonstra coragem por decidir ignorar o rumo ordinário das coisas. Não se torna, claro, um herói por isso, já que ninguém merece ser mitificado por simplesmente escolher um caminho desviado do comum.

Independente do que tenha motivado suas escolhas, mesmo se realizando-as em detrimento de qualquer bem julgado valioso pelos outros, ou a saúde, ou a plenitude física e até o esporte que nos anima a cada semana, Adriano merece respeito por lembrar a cada um de nós que mais do que o padrão, o comum, o costume, o hábito, temos de valorizar a liberdade de cada um e a responsabilidade de se arcar com as conseqüências de nossos atos, conquanto desagradem a fulano, sicrano ou beltrano. Não são eles que sentem o peso da consciência a cada noite.

Já disse aqui e insisto: o aficcionado, o espectador de futebol, ele é sobretudo um apaixonado pelo passado e por uma mitologia de símbolos e tradições. Seja na poltrona diante da TV, seja no assento nos estádios, o torcedor vibra mesmo é com a memória imaginária de um passado estelar.

Olhem os casos dos placares. Antigamente havia sim times superiores, e eu diria que eles eram considerados moralmente superiores, mais do que simplesmente esquadrões desportivos ou escretes afamados. Tomem o Santos de Pelé. Ou o América decacampeão mineiro. Tais times gozavam de uma reputação tal, que cada jogo deles, todos sabiam, haveriam de entrar num almanaque dourado, de folhas produzidas com a melhor celulose paquistanesa (ou birmanesa). E, ainda assim, havia uma ou outra derrota.

Só que as derrotas de antigamente eram monumentais. O Botafogo de Garrincha poderia dar uma sova de 6 a 0 no Olaria e, num relaxamento transcendental, tomava 7 a 2 do Bangu. E não pensem que isso ocorria somente em jogos desimportantes. Havia uma final de campeonato, p.ex. Era comum a regra dos três pontos na final. Assim, se o time ganhasse um jogo, tinha de ao menos empatar o outro para vibrar com a taça. Caso perdesse, tanto fazia se de 1 ou de 1 milhão a zero. Pois bem. Era possível, então, um time magnânimo enfiar 6 a 0 na ida, tomar 7 a 1 na volta e na negra, fuzilar o outro com outro 5 a 1, levando a taça com uma desfaçatez defensiva de fazer corar um retranqueiro feliz.

Mas por que falo disso? Para que tanta divagação alucinada? Tenho de falar da Liga dos Campeões europeus. Quer dizer, dos campeões, vices, etc, etc. Na terça, p.ex, vi um choque de quarto lugares, Arsenal e Villareal. O primeiro continua sendo um time imprevisível, capaz de encantar e enraivar o torcedor em fração de segundos. O placar desse jogo, porém, foi um típico escore moderno, 1 a 1, com direito a gols bonitos, alguma correria, troca de passes e definição deixada para a volta.

Esse, no entanto, foi o jogo incomum das quartas-de-final. Sim, porque exatamente naquele momento, tínhamos um Manchester United, outrora considerado imbatível e inatrasável, tal qual o Big Ben, sofrendo horrores e pavores para empatar com o Porto em plena terra da rainha.  Sim, amigos, mesmo que vocês considerem a circunstância de ter havido uma virada no marcador que deixava o United com 2 a 1, a 5 minutos do fim, é mister encarar o fator Bruno Alves.  O zagueiro portista tratou de me enfiar uma bola nos pés de Rooney e tratou de (não) marcar Tévez, ajudando de forma incrível Fergunson e seus asseclas.

No outro dia, o confronto de dois times alucinados, Barcelona e Bayern, contrapondo a Catalunha e  a Bavária em todo seu aspecto ofensivo, desbravador- se eu fosse comunista, eu ainda aplicaria um “burguês” aos times. Isto significa hoje, times que só se preocupam em atacar e terminam por defender de maneira torta (o Barcelona um pouco menos, é verdade), tal qual um fiscal de aplicações financeiras em derivativos, resultando, pois, num massacre de primeiro tempo e num segundo tempo morno, não fosse algumas jogadas da excelente linha de frente catalã (digo, franco-camaronesa-portenha).

E ainda tivemos um Liverpool chocho contra um Chelsea determinadíssimo, que infligiu um 3 a 1 em pleno Anfield Road. No entanto, vocês hão de perguntar a minha pessoa, o que de comum reuniu as partidas na Europa. E eu hei de responder: o passado.

chelseaxx_682x400_777223a

É nesta aparente religação com o passado, na qual o time imbatível acaba sucumbindo num jogo aparentemente normal (United), na qual o time que despontava como o melhor do fim de temporada (Liverpool) perde aflitivamente e na qual um time, que havia goleado o Sporting de Lisboa por 12 a 1 no resultado somado das duas partidas de oitavas, toma um vareio de bola, que todos os embates se assemelham. Assim, uma equipe pode dar 4 a 0 no Real Madrid e perder de 3 a 1 para outra que até outro dia, sofria com o Barnley.

Portanto, é difícil prever alguma coisa para as finais, ainda que tenham despontado Chelsea e Barcelona como os melhores desta semana- ressuscitando um grau de imponderabilidade que somente os melhores nostálgicos hão de guardar em suas memórias, conquanto fictícias, tal qual naquele momento em que o Leônico arrancava um improvável marcador contra o Victoria da Bahia…

Próxima Página »