março 2009


Esquentai vossos pandeiros

Esquentai vossos pandeiros

Preciso falar de obviedades. São as situações corriqueiras, certas, que evitam que o homem comum atire-se à loucura, que nos tempos modernos, é o suicídio. O cidadão não se joga do viaduto ou à frente de carros simplesmente porque ele sabe que em casa há o pão com ovo, o café com leite e que seus filhos o pedirão um brinquedo caro e difícil de comprar.

Nosso João hipotético (se eu fosse romano, ele seria um Mévio) também terá a certeza de que no dia do jogo da seleção brasileira, ele arrancará seus cabelos, enfeitiçará com as piores palavras os atletas e vilipendiará os antepassados de todos: do juiz, dos jogadores, da comissão técnica e dos dirigentes da seleção.

Por isso, vos digo, amigos: Não assisti a Equador 1 X 1 Brasil, nos altivos altiplanos de Quito. Sendo eu um Mévio irresignado, não mais do que 5 minutos foram necessários para que eu tomasse o jogo como irrelevante. A cada momento que passa, fico mais entediado com a seleção. Mas isso é muito de uma ranzinzice minha- e eu tinha de falar do jogo. Isto eu não posso bem fazer, e prefiro falar do clima de nosso selecionado.

Claro, relatam-me que o Equador massacrou o Brasil, errou uns novecentos chutes e o Brasil quase venceu o jogo. Mas qual a surpresa nisso? Não foi isso que aconteceu com o Brasil inúmeras vezes, seja com Dunga no comando ou não?

Há dois vértices da insatisfação pátria com a seleção. Uma é a geração e a fase dos jogadores brasileiros, que não é das melhores- embora isso não signifique o Brasil não tenha um dos cinco melhores escretes do globo- com a honrosa exceção de um Júlio César. p.ex.

E o outro problema, vocês me perguntam? Bem, o ponto é a inexperiência de Dunga, que até é esforçado, mas evidentemente  um técnico iniciante, e como tal, erra muito até acertar- nesse meio do caminho, compra briga com boa parte do mundo, bancando com pose e arrogância seu cargo- uma postura defensiva tão compreensível quanto irritante.

Assim, temos uma torcida distante dos seus jogadores, que se comportam como se estivessem em uma posição intocável que não estão, dirigidos por um técnico inexperiente e arrogante, como um bom adolescente, com uma imprensa ávida por notícia e doida para reclamar, como uma vizinha fofoqueira a insuflar aquela torcida…

Ainda bem que o óbvio contenta o Mévio brasileiro e o impede de se tornar entediado tanto quanto um escandinavo.

Dos personagens que  não são protagonistas do futebol, dois se destacam: são o repórter e o juiz. O primeiro adquire sua importância na perspectiva que se tem o jogo, na influência que exerce no modo de ver a partida. O segundo, por sua vez, embora seja o sujeito passivo das quatro linhas (afinal, o futebol é definido como uma partida de 11 contra 11 jogadores), por essa mesma condição, ele se torna  o intruso em campo. O juiz de futebol é a presença indesejada.

E os juizes, os próprios juízes, constrangem-se de sua condição, digamos, nefasta. Pedem que sejam chamados de árbitros, afinal, a palavra juiz impõe-lhes um aspecto desagradável, como se fossem representantes do Leviatã nos gramados.  Vestidos de preto (ou de violeta, cor de marca-texto, rosa, verde e branco), estão sempre sob suspeita, ameaçados de xingamentos ou de cadeias, tendo sua filiação ofendida.

Ainda, os juízes destoam no campo, a ponto de a regra considerar que a bola desviada em um deles é como se desviasse em um elemento neutro. Sim, o juiz é uma trave. É uma trave cerebral, porém, que com um apito pode determinar o andar de uma partida. Então, se o repórter ajuda-nos a interpretar os acontecimentos, o juiz ajuda os acontecimentos a acontecerem ou não.

Mas, por que razão divago e quase filosofo? Penso no jogo de ontem, Flamengo 0 X 2 Vasco, mas não só no jogo, do qual só apreendi os lances considerados capitais pelos programas de TV. Penso no jogo de ontem, porém, de um modo mais amplo e vejo na disputa entre imprensa e arbitragem uma tensão essencial, ora, por que não dizer?, fulcral, do futebol.

Vejamos o caso de nosso amigo de ontem, o árbitro Luís Antônio Silva dos Santos. Ele expulsou 5 jogadores em campo, 3 do Vasco e 2 do Flamengo. Dir-se-ia, então: Influenciou de modo grotesco o espetáculo. Ou por outra: Matou o jogo! E nos parece que não, pois a equipe cruzmaltina só alcançou a vantagem quando já não contava com um de seus jogadores, enquanto o segundo gol somente surgiu após nova igualdade de condições em campo (9 contra 9). Poderiam os rubro-negros alegar algum euriquismo (melhor dizendo, dinamitismo) no homem de preto (ou de azul, não me lembro bem)?  Não, pois se o juiz não expulsou o goleiro Bruno, após o golpe de Krav-Magá aplicado nas orelhas de um pobre vascaíno, mal-intencionado certamente ele não estava.

Então, note-se que 10 entre 10 comentaristas, nossos queridos repórteres de antigamente,  concordam em reprimir uma suposta atuação “aparecida” do árbitro. Então começam a bradar que o árbitro complicou o jogo e que uma participação mais discreta evitaria os comentários na imprensa sobre a arbitragem e aumentaria a atenção no jogo.

Ao que vos digo, solene e pomposamente: Isso é uma deslavada bobagem. Notem os lances dos cartões vermelhos. Em todos (com a possível exceção da sapatada de Bruno), há sérias divergências e em todos a posição do árbitro é justificável. Claro, talvez tenha havido rigor demais no segundo amarelo e conseqüente expulsão de Carlos Alberto ou tenha faltado no lance do goleiro rubro-negro, mas também não cabe aos jogadores um pouco mais de cautela, para não dar carrinhos como o de Léo Moura ou cotoveladas como a  de Tite?

"Ou eu me expulso ou eu não sobrevivo"

"Ou me expulso ou não sobrevivo"

Não que os juízes não errem. É óbvio que erram e há aqueles que acintosamente expulsam até a si mesmos em embates homéricos e camonianos. Há aqueles que querem aparecer tanto que, confundindo a si mesmos com Madonnas ou Michael Jacksons, pretendem tomar a centralidade do espetáculo. Todavia, é preciso que se atente à atuação daqueles que nos contam a história, uma vez que sempre há a possibilidade do exagero. Toda narrativa, meus caros, é uma colagem de exageros e padronizações que buscam prender a atenção do interlocutor.

Pois, amigos, mesmo em jogos em que não há expulsão, sempre há reclamação da arbitragem. Noticiam-me que na Espanha, boa parte das mesas-redondas são ocupadas por debates sobre impedimentos, cartões e bandeirinhas. E, tenho impressão, de que mesmo num jogo calmo e cálido, tépido como as águas do Jacuípe numa noite de verão, um 0 a 0 morno e fatal, haverá quem excomunque o juiz. Afinal de contas, o juiz não tem fãs, não é estrela do espetáculo  e não passa mesmo de uma trave.

E se ele, não importa o nome que você lhe atribua, se juiz, árbitro ou filho de alguma coisa, é uma trave, conquanto incômoda quando não marca os nossos pênaltis, é o caso de oferecer-lhes a singela homenagem de personagem da semana.

O aficcionado pelo futebol é, acima de tudo e de todas as coisas, um nostálgico. Mais do que vibrar pelo drible, pelo craque e pelo gol de hoje, o torcedor assenta-se na tradição e frui um gol de Pelé, uma jogada de Puskas ou Cruyff e sofre nas mãos de Obdúlio Varela e Ghiggia como se fossem momentos mais presentes do que a própria atualidade. E é assim que o fanático vibra pelos tempos bons e pelos campeonatos de antigamente, quando o dinheiro não prevalecia tanto e os times pequenos podiam aprontar para cima dos grandes. Sempre há aquele que lembrará a goleada inapelável que o Canto do Rio aplicou no Flamengo ou aquela vitória sofrida, num grande espetáculo terminado em 4 a 3 (ou 6 a 5, 11 a 10) no qual o Atlanta destroçou o Bahia- ou, num âmbito outro, o Bahia destroçou o Santos de Pelé.

Eu diria que a nostalgia é componente essencial da própria mitologia futebolística. Eu diria mais: A nostalgia é como a argamassa da tradição. Ou de uma maneira tautológica: A tradição é composta e construída pelo respeito aos vultos do passado. E sem esse respeito, não há progresso. E sem esse respeito, o futebol não teria se tornado o que é, os times não teriam construídos suas histórias, os torcedores não seriam os devotos que são, e sim meros torcedores de bandinha de carnaval.

Não vos nego, eu mesmo sou um desses nostálgicos e saudosistas essenciais. Tenho em mim a saudade de 70 verões desde o nascimento e tenho estádios lotados em minha mente, além de claras memórias sobre o que não vi, nem vivi e mal ouvi sobre. Por outro lado, há fatos corriqueiros, atuais, urgentes, dos quais não guardo a menor lembrança ou vontade de memória. Mas aqui já estou em devaneios, em luas asiáticas. Por que falo tanto da nostalgia?

É que nesta semana, uma notícia chama a atenção. Ao passo em que ainda sonho com o Nottingham Forest, a Uefa já passa a considerar a possibilidade de ser criada uma Superliga européia, com três divisões. Atentem para a voz passiva, queridos. Imagino que nem o nosso amigo Platini saiba se a Uefa dirigiria o processo, dada a existência de um supergrupo europeu.

A verdade, amigos, é que a dimensão global do futebol e as fronteiras mais próximas da Europa possibilitam uma certa revolução na sua, na minha e na concepção deles de fronteiras nacionais. Mais do que atos de escritório dos burocratas de Bruxelas, podemos presenciar a consolidação de identidade mais nos clubes do que nos países.

Até aí, boa parte dos embates entre seleções já nos vêm mostrando isso. Aí é que entra o nosso perrépis, como diria o outro. Pelas nossas contas, três divisões européias comportam no máximo 70 clubes. Mais algumas contas rápidas e podemos estar a presenciar no futuro a aniquilação de boa parte dos pequenos clubes e da engrenagem miúda que mais do que tudo, deu substância, ou sustança, como diria aquele outro colega, vitamina e sais minerais para que o futebol se tornasse o que é hoje.

De modo ainda curioso, é um fenômeno notável e bem similar ao que acontece nas bandas do único país continental no qual o futebol vingou e vinga como esporte primordial: sim, o nosso Brasil varonil. Por cá, os times pequenos dos estados (ou mesmo qualquer time de alguns estados, como Espírito Santo, para não citar jovens unidades da Federação, como Acre ou Tocantins) encontram dificuldades abissais, gigantescas e fabulares para continuarem vivos. Isso, num país minimamente coeso em termos culturais, com um só idioma como meio de comunicação e com conflitos regionais relativamente apaziguados (ou abafados, a depender do seu grau de cabanagismo, balaísmo ou sabinadismo).

Imaginem, então, os problemas numa Europa com ene clubes em diversas províncias, autarquias, condados ? Não sei, realmente não sei. Até pode ser que nada ocorra, as pessoas entendam que a Terra está girando e girando, e que em 2080 estejam a memoriar gloriosa e saudosamente um tempo em que os jogos eram bons mesmos quando travados dentro de um mesmo país.

Leia também: Calendários, desgaste e confusão e o modelo ideal

Aderir ou não aderir à Superliga?

Aderir ou não aderir à Superliga?

Existe aqueles que me chamam de pirracento. E eu não lhes agravo. Ao contrário, tento fazer com que minha personalidade faça jus à reputação que arrebato com as cinco ou seis pessoas que me conhecem. E é assim na escolha de um personagem da semana que passou. Poderia eu escolher Riquelme, o menino birrento da Boca ou Maradona, uma espécie de mistura entre a divindade e o bom pregador do futebol argentino, com toda a devoção excessiva que carrega tal fama.img550x572_20090226120104copa_2014___orlando_silva_jr_ministro_dos_esportes1

Mas, não. Sou teimoso e escolho nosso Ministro, nosso bom e dedicado Ministro dos Esportes, o Sr. Orlando Silva. Passadas semanas das confusões já habituais do futebol brasileiro (envolvendo policiais militares na Bahia e em São Paulo, envolvendo  assassinos em Minas Gerais), o Governo Federal nos traz uma proposta, singela, pacata e burocrática. Depois de o Ministério Público ter proposto a incrível separação de torcidas em estádios, o nosso querido e amado Poder Executivo Federal nos traz um midiático pacote, o qual contém a proposta de um cadastro nacional de torcedores, com carteirinha e tudo.

Sim, meus amigos, minhas caras, meus camaradinhas. Não bastasse RG, CPF, CTPS, CIC, PIS, Certificado de Reservista, CNH, mais um documento a ser agregado nas carteiras dos aficcionados do futebol: a Carteirinha de Torcedor.

Na lógica do Ministro, um cadastro impediria que marginais travestidos de torcedores tomassem parte nas arquibancadas brasileiras. Ou algo assim. Bem, também estão nas propostas a criminalização de algumas condutas de estádio de futebol, etc.

Queridos, queridas. Queridíssimos. O Brasil é um país da lei. Sempre que há alguma coisa, os políticos inventam uma lei, que quase sempre é desnecessária e uma jogada para a torcida.  O cadastro é uma estupidez porque não é ser registrado ou não que impede problemas no estádio. Ou o cadastro de torcedores evitaria que um Policial Militar apontasse armas para torcedores como fez aquele senhor em Madre de Deus, aqui nesta impossível Bahia? Ou impediria a bagunça e a desorganização na saída dos corintianos no Morumbi?

A criminalização de condutas como “bagunça”, “arruaça no estádio”, “brigar com outra torcida” não faz sentido porque, em regra, as condutas já estão tipificadas no ordenamento brasileiro (até ontem, pelo menos, matar , causar desordem generalizada e bater em outras pessoas eram crimes, independente de serem praticados dentro ou fora de um estádio de futebol).

Também não faz sentido aumentar a pena de um crime porque ocorrido em um estádio, e talvez o caso seja mais de efetividade da punição, mais fiscalização, maior treinamento dos policiais e demais responsáveis pela segurança do evento. Enfim, mais ação e menos pacote.

No entanto, pacotes, e programas têm maior apelo e maior divulgação. Se é de divulgação que essas propostas precisam, pois aqui elas têm o devido espaço. Por isso, o nosso personagem da semana é o Ministro da Copa do Mundo, Propaganda e Esporte, Sr. Orlando Silva.

obinacriedSe existe um sentimento para definir o caráter do São Paulo, este é a arrogância. É bem verdade que o sentimento de superioridade por tempos vem acompanhado de glórias proporcionais. Do mesmo modo, com o Corinthians, o que vale é o orgulho do sofrimento. Um corintiano típico e nato se orgulha de ter sofrido com seu time, mais até do que de ter vencido. O torcedor do Galo das Minas Gerais encontra seu prazer nas glórias inalcançadas. Parece mesmo que o maior orgulho do atleticano é dizer-se roubado.

Do mesmo modo como ocorre com todas as equipes, há um sentimento essencial ao flamenguismo:  É o entusiasmo, o auto-júbilo de declarar-se rubro-negro, cósmico, megalomaníaco. É um sentimento que às vezes até se confunde com a arrogância são-paulina, mas é mais engraçado, e não sendo tão levado a sério encontra sua definição idiomática no termo “oba-oba“. Sim, amigos, o Flamengo é o time do oba-oba.

E, assim, a diretoria do Flamengo espelha o seu sentimento essencial. Desde muito tempo, os senhores Kléber Leite e Márcio Braga estampam em suas faces e ternos o aspecto flamenguista de suas personalidades.

Não é preciso ser tão antigo para rememorar o time dos sonhos de 95: Edmundo, Sávio e Romário (então o vencedor do prêmio Fifa, estrela da copa de 94) no ataque e um quase-rebaixamento com um radialista no banco dos treinadores. E assim também os inúmeros destaques que o clube obteve, seja com Gamarra, Petkovic, Juan, Júlio César e outras estrelas que não levaram o clube além do título estadual ou de torneios classificatórios para  a Libertadores.

E, então, houve um momento em que o Flamengo emergia com certa fúria. Final da Copa do Brasil, contra o Santo André. Resultado final: A derrota do oba-oba. Momento seguinte, o Flamengo chega à final contra o Vasco, e finalmente volta à Libertadores. Uma arrancada no Brasileiro de 2007 dava a impressão de que o Flamengo havia voltado finalmente a ser temido.

Impressão confirmada por duas primeiras fases excelentes. Mesmo com adversários fracos, é improvável o clube não perder alguns pontos bobos. O Flamengo parecia não vacilar. E, então, pensei comigo mesmo (com o auxílio do silêncio da imprensa que abafa os problemas do Flamengo quando o time vai bem no campo, da mesma maneira que amplifica quando a equipe vai mal) e cheguei a externar o pensamento: O Flamengo agora se organizou! Agora, o time é temível e digo mais, impossível de ser batido! Ao que me responderam: Mas esta diretoria não é a mesma de pouco antes?

E, nessa toada, o Flamengo foi eliminado pelo Defensor Sporting e pelo América do México, com dois 3 a 0, um no Uruguai e um em pleno Maracanã. Em duas partidas, óbvio, o time já pensava em festas e na vitória do título. Do mesmo modo, uma casa lotada presenciou a sacola de 3 a 0 aplicada pelo Atlético Mineiro.

E o time conseguiu não passar a Libertadores ao perder para um fraco Atlético do Paraná. Então as notícias de salários atrasados, cotas de TV de anos futuros adiantadas, problemas quanto ao local de treinamento, desdém dos jogadores em relação aos treinamentos, ao mesmo tempo em que o time perdia para o Resende, tudo isso estourou. E ainda estoura.

Chega-se ao ponto em que o sentimento essencial do flamenguismo corre o risco de rebaixá-lo a um patamar inferior. Como na fábula, o excesso de felicidade vira drama. E para que a princesa fique bonita, um mínimo de organização na caixa de maquiagem é bem-vinda. Ou, por outra: Para que o sapo torne a ser príncipe, é preciso que ele não esteja imerso todo o dia na lagoa a se distrair com moscas serelepes.

E o Flamengo, do jeito que é gerido e levado, inclusive por sua torcida, está preso em uma nuvem de insetos, que podem matar o sapo.

Ps:  No link que segue, um gráfico do Lance! sobre os problemas financeiros fo Flamengo:  http://www.lancenet.com.br/infograficos/fla-raio-x-da-crise2/

ohiggins_bernardoAh, em todos os tempos há e haverá aquela do repetitivo. O camarada todo dia chega num bar, conta a mesma troça, o próprio lero-lero, repetidas vezes, até o ponto em que todos chegam à beira da loucura- ou de um estágio muito próximo a isso, o tédio- por mais que a história contada- uma guerra por ele travada ou uma aventura pantaneira – tenha sido verdade.

Algo semelhante acontece com a Libertadores da América. Ano sim, ano também e ano de novo, a mesma narrativa acerca dos desafios, altitudes, catimbas e peculiaridades do futebol sul-americano (há o dinheiro dos times mexicanos também!) toma as ruas para no fim todos concordarem que os favoritos são argentinos e brasileiros- podendo, sempre, é claro, haver alguma zebra.

Já se chega a quase-metade da fase de grupos, e o que temos? Bem, primeiro temos um calendário bagunçado. Enquanto alguns grupos avançam à quarta rodada (Chivas e Caracas semana passada, Lanús e Everton hoje), outros só terão concluído a terceira em abril (caso do Sport e Palmeiras). Isso quando não há distinção dentro do grupo, como é o caso de Independiente de Medellin e América de Cali, Defensor Sporting e São Paulo.

Ora, se já houve quem reclamasse do calendário do ano passado (Ubiratan Leal, do Trivela), por incompatibilidades de horário, o que dizer do deste ano? Ao contrário, o calendário passado, com 3 jogos por dia, toda terça, quarta e quinta, permitia que todos os jogos fossem televisionados.  Televisão, aliás, lembra a péssima cobertura que o Sportv vem fazendo, esquecendo alguns jogos, passando VT de outros e negligenciando o maior campeonato da América em troca de jogos da Copa do Brasil transmitidos em TV aberta. Mas, divago e já não falo mais de futebol, mas do que fazem com ele.

Voltando à Taça, este ano temos mais equilíbrio. Se os atuais campeão e vice brasileiro mostravam no papel possuirem elencos melhores que os do ano passado, na prática o que se vê são times hesitantes. O São Paulo depende de espaços para atuar, como os que encontrou em Cali. Isso traz problemas com times que jogam retrancados e pode complicar a situação do time como em 2007 e mesmo em 2008- muito embora, na temporada passada, o time se apresentasse menos criativo e tenha sido eliminado por um time bastante ofensivo e que dava muito espaço.

O Grêmio tem problemas de insatisfação com o treinador, com os centroavantes e até a diretoria reclamou de um defensivismo extremo para o time. Sim, amigos, consta que um italiano reclamou da macarronada de uma sua tia matrona e que desde então foi excomungado pela própria família, tornando-se um pária napolitano.

De outro lado, temos um Sport, que é visto como sensação e com um misto de deslumbre e constrangimento por todos. Constrangimento que é a tônica da interpretação que se faz do Palmeiras. Como um time que tem um esplendoroso centroavante e alguns bons talentos, além de uma grande campanha no Estadual não faz bom papel?

Se a resposta ao “dilema de Pernambuco” está num time médio com determinação, a reposta do Palmeiras encontra-se na péssima defesa que o time possui. Ora, o nível de qualquer campeonato estadual não vale para medir um time. A verdade, amigos, é que um campeonato estadual vale tanto quanto a quinta divisão do Brasil. Hoje, o Estadual é uma série E enxertada com times de prefeitura ou de empresários e equipes da série A, que sem a motivação adequada e em ritmo de pré-temporada, são equivalentes a times de outras divisões. Esta é a dura realidade.

Não é à toa que a virada que o Palmeiras conseguiu contra o São Caetano tenha se dado de maneira tão escalafobética. As defesas do jogo pareciam peneiras dilaceradas ou pias com vazamentos amazônicos. E, no entanto, o que se exaltava era a beleza dos gols do Palmeiras.

Por fim, temos um Cruzeiro que, pelo terceiro ano consecutivo, não consegue passar confiança em seu vigor e capacidade de prosseguimento na competição. A imaturidade e destempero do bom Kléber não ajudam um escrete jovem, com grandes jogadores (em minha opinião, segundo elenco do Brasil, atrás do são-paulino), a passar outra imagem senão a de um clube que porá a perder tudo no minuto seguinte, graças a uma expulsão inconseqüente. O segundo turno, com dois jogos no Mineirão, há de determinar aonde o time mineiro pode chegar. Controlados os nervos, há grandes chances de um belo papel na competição.

Belo papel que pode ser concretizado por qualquer dos clubes brasileiros no momento, inclusive pelo instante trepidante pelo qual passam os clubes argentinos, pela fraqueza dos mexicanos (exceção feita às Chivas) e pela incerteza que ronda todos os outros que almejam chegar ao patamar de um San Martín, de um Bolívar, de um O´Higgins ou de um Pedro I.

fergiedm2303_468x5501Se há um time que pode impedir a vitória do Liverpool, ele está não na Catalunha, mas na própria Inglaterra, e é o Manchester United. É bem capaz de esta afirmação ser uma impropriedade, já que se há alguém a ser batido, são os diabos vermelhos mancunianos.

Se nos anos 90, o time já liderado por Ferguson, tendo como destaque Ryan Giggs e Dwight Yorke, entre outros, já causava espécie na Liga Inglesa por faturar a maioria dos títulos, hoje, a equipe de C. Ronaldo, Ryan Giggs e sir Ferguson, entre outros (dentre os quais também e ainda se encontram Neville e Scholes) causa espanto e a própria admiração daqueles que parecem se consagrar imbatíveis.

O recorde de não sei quantos jogos sem perder na LC, de não sei quantos minutos sem tomar gol no Campeonato Inglês, isso interessa não pela curiosidade de almanaque que desperta, mas pelas características mais profundas que revela: regularidade, eficácia e determinação. Sim, amigos, o M. United joga como um relógio.

Correto, aplicado, regular, este é o modo como toda a equipe, em especial a defesa e o goleiro comportam-se em todos os jogos, seja contra  Derby County (se eu não me engano, a última equipe a bater os diabos em uma partida),  Sunderland, Liverpool ou Internazionale.

Não, amigos, o M. United não traz o comportamento excessivamente burocrático dos ponteiros de um relógio. Não é a equipe de uma jogada só, nem de um craque só na armação das jogadas. Se não inspira sempre pela beleza dos versos, se não chega a ser um Yeats ou um Coleridge, traz uma abundância e uma diversidade de posicionamento, ataques, variações, opções de jogadores e de determinação tática que assusta- e faz um jogador como Park-Ji-Sung soar como algo que nunca soaria se jogasse num time dependente de espaço e do joga bonito como é o Barcelona ou que espera que o adversário seja totalmente leal e cortês, como o Arsenal.

Realmente, é irritante e assustador ao mesmo tempo assistir ou torcer contra o United. Eu já desisti. Tentei secá-los quando julgava que o Arsenal detinha o melhor e mais injustiçado futebol da Europa, em vão, em vão e por nada. Tentei torcer para um título que não vem há 19 anos para o Liverpool, mas não será dessa vez que uma banda da cidade que um dia fez fama pelo porto no terrível tráfico de escravos triunfará no Campeonato Inglês. É ineficaz. O Manchester United, como um relógio, com precisão assustadora, ontem, marcou 2 gols, os dois de cabeça, ambos aos 4 minutos, um da primeira etapa, cabeçada de Vidic, outro da segunda etapa, com Cristiano Ronaldo.

Mesmo com a Internazionale dando sinais de que poderia conseguir o empate ao fim da segunda etapa, nada abalava a fleuma dos jogadores de vermelho. Eles trabalhavam com a precisão de um relógio e com a determinação e a certeza de cavaleiros daquela Idade Média que só parece existir em nossas mentes: homens sérios, portando escudos e capacetes, atacando somente quando necessário e neste momento oportuno, fazendo a vitória desejada.

E, assim, como uma Mãe Dinah que precisa de variáveis, vos digo: Somente uma falha dos paladinos do Sir Ferguson permitirá que a profecia do Liverpool se cumpra.

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