fevereiro 2009


djalmaFalam-me de Djalma Santos. Octagenário, guardando ainda o aspecto de craque, sobretudo a elegância. Falam-me de Djalma Santos e a única coisa que sinto é um temor reverencial e profundo, em minha alma. Sim, eu tenho medo de Djalma Santos.

Por outro lado, um programa de televisão lembra do Cafu. E questiona-se quem foi melhor, se Cafu ou Djalma Santos. Retificam o tempo verbal, pois Cafu ainda está na ativa e  não teria ido para o Santos por opção do treinador. E então, passo a meditar.

Rememoro Djalma Santos e com ele outros, antológicos, magistrais. Nilton Santos, Pelé, Ademir da Guia, Zizinho, Julinho Botelho, Garrincha e outros e outros tais, numa lista que só me causa medo, o medo fatal diante de alguma coisa tão ou mais absoluta que a essência da própria discussão. Em minha cabeça, são todos eles maiores que o próprio futebol.

E vem à minha cabeça novamente o rapaz do Jardim Irene, Marcus Evangelista de Moraes. Trajetória espetacular, desde o São Paulo arrasador do início dos anos 90 até a Europa, sempre abocanhando títulos, inclusive pela seleção. Certamente não era o maior especialista em cruzamentos do planeta Bola. Um vencedor indiscutível e um grande jogador, sem sombra de dúvida. E penso: É possível comparar? Não sei.

Coçando a cabeça, penso em Djalma Santos jogando. Ou melhor, flanando, com fraque, cartola e girando um guarda-chuva.  Ele avança diante do adversário, saracoteia, derrotando e deslumbrando, a ele, adversário e a mim, espectador, ainda que um espectador imaginário, do mundo fantástico.

Lembro de Pelé, humilhando, destroçando, aniquilando defesas adversárias. E a pergunta, a fatal, a homicida, já martela minha pobre mente a ponto de destruí-la: Será possível um novo Pelé? Será possível que surja um jogador que suscite comparações com o Rei do Futebol, este que somente na Argentina não é unânime neste epíteto?

E eu mesmo respondo, desolado: Não sei, acho que não. E não é pela falta de grandeza ou potencial de jogadores. Este momento pelo qual passamos no futebol já não é mais aquele da “Era de Ouro”. Afinal de contas, os craques são analisados, examinados, prescrutados, tomografados, engabelados, psicanalizados a todo segundo e minuto.

São também festejados, barbarizados, amados, idolatrados, odiados, a cada ato ou gesto que sinalizam. A idéia de um craque, acima de todas as circunstâncias, que possa apagar – ou melhor, sublimar- seus mais infames momentos (a perda de pênaltis, a cotovelada num jogador, a presença em campo que não evita a humilhação da goleada) já não subsiste tanto nas almas dos torcedores, dos próprios jogadores e de todo o ambiente do futebol.

Estamos todos um pouco mais pobres no espírito, um pouco mais despidos do fraque, da cartola e da paixão. Se são circunstâncias da vida, que ao menos se preserve a imagem do mestre Djalma Santos, merecedor de todos os nossos parabéns.

Minha reverência, ao menos por um dia, está desacompanhada do temor, mas de somente um respeito tremendo.

E quem há de entender o mundo dos ricos, chiques, famosos e aristocratas? O mundo do luxo, do fausto, da riqueza desmedida, das maneiras contidas pero (ó, século XVI, que falta tuas expressões me fazem) cheia de significados, elementos e por que não, modos de vida? Eu que não hei de entender. Afinal, em meus gestos também há de se encontrar um trilhão de significados e, ao menos, não vou constranger ninguém a me imitar.

Mas por que falo tanto de assuntos que mais diriam respeito a um finado Ibrahim Sued, a uma Danuza Leão ou mesmo a um representante federal, Clodovil Hernandez? Não sei, eu pretendia falar de Superbowl, sim, da final da Liga de Futebol americano, passada no começo deste fevereiro que se termina. Em meus tempos de brutalidade e ignorância, eu encarava o futebol americano como exotismo de ricos. Não faz sentido algum, claro, mas esses eram meus tempos escuros.

Carnaval passado, curioso, decidi dar uma chance ao VT do Superbowl. Ora, havia algo de interessante ali. O lançamento de Manning mostrava a mim que alguma coisa eu poderia extrair daquele jogo, longo, um tanto assemelhado uma partida de jogo de tabuleiro, mas curioso, divertido. Animado, resolvi que assistiria a mais partidas de futebol americano. Claro, não assisti a nenhuma, acrescendo à minha lista de decisões não cumpridas mais esta cruz.

Outro dia, porém, assisti um jogo de Rugby. E, dentro daquela confusão toda, vi que havia algo de futebol ali. Resolvi assistir o Superbowl 2009. E esta foi uma decisão cumprida, da qual não tenho como me arrepender.

A magia de uma decisão, as incríveis reviravoltas (três, pelas minhas contas), uma jogada espetacular (um homem atravessou o campo com o vigor de um moleque brinca sua última picula), a sensação de que havia algo mais do que pontos em disputa, um evento central e animado, tudo isso, ainda que eu não entendesse todas as regras e mesmo que as infindáveis paradas levassem o jogo a quase 4 hora, levou-me a outra compreensão do futebol americano- que, ali, me soou melhor do que uma disputa de peteca, uma corrida de carros ou uma partida de vôlei.

Foi a oportunidade em que  entendi, que seja na postura de um aristocrata, ou na de um vira-lata, pode haver ou o comportamento excludente e isolacionista de um diabo ou a dignidade de duzentos mil reis.

p109724-lisbon-igreja_de_sao_vicente_de_foraE foi começada a fase final da Liga dos Campeões, que seria algo como um complemento especial ao maior produto gastronômico do futebol mundial. Os conoisseurs, do Kiribati ao Butão, da Palestina à Alemanha, aguardavam ansiosamente pelo dia das oitavas da LC. Perguntem-me, então, que pergunto a vocês: E aí, como foram os jogos?

Respondo:  Olhem os resultados. Haverá, claro, quem me olhe indignado, e brade que em futebol os resultados nada significam, afinal, há sempre o imponderável, o imprevisível, o inenarrável, o que é visto e o que não é visto, a rebimboca da parafuseta, etc. Ao que eu retruco: Tédio. Sim, concordo com o argumento, mas poucas vezes os resultados expessaram tanto o que realmente aconteceu em campos de futebol- e o que aconteceu foi tédio e apatia.

Jogos modorrentos, resolvidos pela diferença mínima (ou não resolvidos, como no caso de Internazionale e Manchester) foram a tônica da rodada. Com exceção de um sacode que o Bayern enfiou no Sporting lisboeta, o que se viu foram times acuados, com medo de si mesmo e da própria sombra, a despeito de contarem com elencos estelares e, segundo dizem, magníficos. Mas a quem estou querendo enganar?

Também no jogo do Alvalade o que se via era alguma coisa esquisita, embora mais franca do que em Stamford Bridge ou no Lyon X Barcelona do dia anterior. E então, eu até me pergunto, de mim para mim, por que ainda acompanho futebol. Somente este questionamento assombrava-me durante as exibições modorrentas que acompanhei na LC. Ora, se este é o melhor torneio do mundo, que diabos é o pior torneio? Estaria eu ficando velho, ranzinza, problemático?

E, então, vêm a mim recordações das três últimas finais da Liga. Vá lá, estou bondoso, e esquecerei a vitória por 2 a 1 do Barcelona sobre o Arsenal (que segurou um resultado heroicamente por quase todo o jogo e foi derrubado por Juliano Haus Belletti, o que é digno de nota). Lembremos somente do Milan e Liverpool (2 a 1) e do United e Chelsea (1 a 1, decidido nos pênaltis). Estes jogos representavam o ápice do futebol mundial? Desculpem-me, amigos, mas se este é o ápice, o topo não passa de uma banalidade fundamental. Uma banalidade preocupante.

E por que eu assisto o jogo e acompanho? Na madrugada, Chivas e Everton duelavam pela Libertadores. Primeiro tempo, 4 a 0. Assustado, não consegui dormir e decidir encarar o que se afigurava um massacre. Ora, o massacre não veio. Em dois minutos, o chileno Everton conseguiu 2 tentos. E eu pensava: ora, aí está o jogo, ou melhor, aí está a reação furiosa que há de reavivar minha fé na Arte!

Mais uma vez, ledo engano.  O jogo esfriou, as Chivas de Guadalajara meteram mais 2 gols e terminaram com aquele 6 a 2 de almanaque.

Tudo bem, eu espero. Não é a primeira vez e não será a última que o tédio tenta se apossar dos amantes do futebol- ou melhor, só de mim. Talvez eu nem seja tão amante assim. Meu caso é de um fiel, devoto e interessado, que há de acompanhar todos os momentos em busca de um átimo de epifania. A graça está nesta busca. E possivelmente a própria Graça por aí esteja.

O susto do homem comum é o bilhete azul. A tragédia do homem contemporâneo é a demissão, a baixa na carteira de trabalho, correndo o risco de lhe ter extirpada a dignidade, o orgulho de sustentar a si e aos seus (inclusive seus vícios, diria o filósofo). Daí a insana corrida aos concursos públicos, a utopia da sinecura que alimentaria uma vida de plena felicidade, de delicatessens charmosas em bairros arborizados, de ruas bem calçadas e poodles singelos.

Mas Luiz Felipe Scolari não é um homem ordinário. Sem dúvida, é um fora de série, em seus resultados futebolísticos. Se não fosse seu histórico no Brasil, a dispensar apresentações, o cidadão levou a seleção de Portugal a uma final de Eurocopa e a uma semi-final de Copa do Mundo! E não se esqueçam: O centroavante era Pauleta! Penso que Felipão não convivia com o fracasso há tanto tempo que me lembra a história de um triliardário tão acostumado à boa ventura que um dia, ao ganhar  em um jogo da loteria, teria chorado compulsivamente, desesperado por não ter ganhado antes.

E, no entanto, o futebol bretão derrubou Felipão. Os resultados do Chelsea não foram medíocres, o time está com um aproveitamento razoável em um campeonato encarniçado. Se é verdade que neste fim de semana a equipe acabou na quarta posição da tabela, também é verdade que há um inacreditável Manchester United que não toma gols, não perde e incrivelmente é 1 a 0, 1 a 0 e 1 a o, o próprio “boring United”. Há também um promissor Aston Villa e um Liverpool com muita vontade.

Contudo, também é fato que o futebol apresentado pelo time londrino era próximo do bisonho. Culpa também dos jogadores, claro. Não sendo possível, porém, demitir todo um plantel, a corda rompe do lado onde tenhamos menos pessoas. Que não se isentem as responsabilidades do técnico. Ele sabia onde estava se envolvendo quando aceitou o cargo e a demissão de Mourinho temporada passada era o sinal evidente de que o Chelsea não era exatamente administrado.

Donde encontramos o principal problema dos azuis de Londres. Imagine Abrahmovic como uma criança mimada. Imagine o Chelsea como um enorme palco Lego e os torcedores como os pais da criança, atados por um amor eterno e não escolhido, mas constrangidos pelas peripércias do infante. Claro, há sempre as glórias da paternidade e um sorriso do menino (seja num Campeonato Inglês, seja espancando um poderoso Barcelona) faz valer todo o sacrifício e esforço humano e sobreumano desempenhado na criação do garoto.

Há uma hora, porém, em que a criança cresce, a fonte de seu sustento seca um tanto e todas aqueles gracejos de jogar peças de brinquedos pela janela ou no vaso sanitário tornam-se todos irritantes.

E aí, meu nego, ou a criança toma juízo ou o brinquedo vai para o inferno.