janeiro 2009


“Ó Bahia, quão dessemelhante/Pobre de minha mãe/que me pariu nesta terra”. (Anônimo)

O futebol é a alegria do povo, e todos sabemos muito bem disso, não sendo por acaso a existência deste blog. Dada essa centralidade que o esporte mitológico, ou melhor, que esta arte assumiu em nossas vidas, não deixa de ser encarado com certa naturalidade que o Estado construa templos dedicados à prática da arte futebolística. É o que ocorre aqui, no Paquistão, na Itália ou nas Ilhas Faroe.

Mas é preciso estar atento aos tempos. Antes, como clubes amadores ou semi-profissionais poderiam construir obras magníficas? Era difícil. Ainda que não fosse o mais moral dos atos (há algumas coisas mais urgentes a se gastar o dinheiro que nos é tomado mês a mês, dia a dia), era algo racionalmente explicável- não justificável, mas, enfim, era um gasto a se fazer- um tanto mais digno do que sustentar sinecuras ou lobistas esfaimados.

Hoje, o que justifica o gasto com monumentais estádios? Pergunte-me, leitor, pergunte-se, amigo. O quê? Não sei. Ainda mais com os dirigentes que temos no futebol, o que justifica alimentá-los tais quais gatos que nos darão a morte por toxoplasmose?

Penso em Pituaçu, o Estádio Roberto Santos, reformado pelo Governo do Estado da Bahia, nesta cidade do Salvador. A história é conhecida. Da tragédia da Fonte Nova resultou uma apatia do governo, administrador do estádio e da direção do clube que o usava para mandar suas partidas, o Bahia.

O que fazer? Implodir a Fonte Nova e construir alguma “arena” (o pessoal adora esse termo que lembra, sabe-se lá, coliseus monumentais) em outro lugar? Implodir a Fonte Nova e construir um novo estádio? Fazer um novo estádio? Todo santo dia surgia uma hipótese. O curioso é que não surgia hipótese do que fazer com o Bahia.

Os dirigentes do Bahia fiaram-se no governo do Estado, que, por sua vez, fiou-se na Santíssima Providência (não, não falo do governo federal). Ora, o Bahia mandaria seus jogos no interior até esta nova obra. E então veio a iluminação! Ah, há um estádio de futebol na cidade. Não é o Campo da Graça ou do Rio Vermelho, não é o Parque Santiago, não é a Vila Canária! É o Estádio de Pituaçu! O Bahia até já mandou jogos lá! Ora, solução fácil! Basta reformar o  templo e, pronto, o Bahia teria nova casa, num aluguel cômodo para todos.

Só que aí eu lembro da história de um fulano. Fulano morava com a mãe. Um dia teve uma discussão centenária com a senhora e decidiu sair de casa. Moraria num antigo imóvel que seu pai havia lhe deixado. Só que o imóvel era somente escombros, uma vez que ninguém o tinha conservado desde a morte do velho.

Ora, o de Pituaçu era o imóvel da historieta aí de cima. O estádio havia sido esquecido, e diz-se que servia de arena universitária. A verdade, no entanto, era uma hecatombe.

Graças aos céus, políticos são mágicos e tiveram início as obras de Pituaçu. Não discuto a legalidade da obra, nem seus valores. Deixo isso para quem de direito. Nem entro neste mérito para que não me acusem de leviano. Quanto à questão ambiental, ora suscitada, sei tanto de meio ambiente quanto sei jogar futebol gaélico.

Mas o que me incomoda na história toda é a moralidade da situação. Ou a falta de, no caso. Por que gastar um bom dinheiro recuperando um estádio somente para que um clube dele se aposse, sem as devidas responsabilidades? Para que torrar o meu, o seu, o dinheiro de quem telefona ou usa energia elétrica, p.ex., para construir um estádio que, no curtíssimo prazo, será debelado por outro, o tal estádio no lugar da Fonte Nova, que serviria de sede da Copa de 2014?

É, o Bahia pode virar concessionário do estádio. E o que seria feito com a Fonte Nova? O Bahia viraria concessionário de dois estádios? Caros, caros, caríssimos colegas, com a qualidade histórica dos dirigentes do clube, o risco é de os dois campos virarem ruínas, pó.

Em nenhum momento desta obra, discutiu-se a viabilidade deste ou daquele gasto, a sustentabilidade do investimento estatal. A única missão era construir, construir. As paralisações havidas disseram respeito a questões administrativas ou meramente burocráticas. Não se ouviu um ai, nessa Bahia de meu Deus, Maria Quitéria, Joana Angélica e Ana Néri, um ui não se ouviu das autoridades governamentais que transpirasse responsabilidade.

E, contudo, todavia, e por que não dizer?, entretantos, o estádio está lá. Uma vez que, está claro, o Governo desta Bahia dessemelhante não se preocupa tanto com gastos e gastos em favor de bens culturais e históricos do futebol baiano, como não deixa de ser o E. C. Bahia, deixo minha sugestão, singela, simpática e amável: Governador e autoridades, dêem dinheiro ao Galícia, ao Ypiranga e ao Botafogo, reavivem definitivamente estes clubes e entreguem Pituaçu a eles.

Como diz o promotor, é “questão de lídima justiça”.

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Uma gritaria intensa, uma zoada frenética, um barulho espetacular. Como em um show musical animado ou numa orgia furiosa, nas quais os instrumentos não fazem som e o cantor é mudo e os participantes são eunucos, a energia produzida é inferior ao mínimo aceitável para que se chame a atenção de qualquer um- mas a propaganda já atordoou a mente de todos e agora é tarde.

De certo modo, essa é a história da transferência de Kaká para o Manchester City, ora finda, segundo anunciam os órgãos de mídia (não impressa, ainda não deu tempo). Sinal dos tempos, a transferência de Kaká foi cantada em prosa, verso, reverso, anteverso e até em poema épico. Faltou somente uma câmera nas negociações – fica a sugestão para Berlusconi e seus canais de tevê numa próxima.

Claro que chama a atenção no melodrama o monte de dinheiro discutido. Essa espécie de negociação tem um lado positivo, pois nos mostra quanta moeda pode-se acumular no mundo. Vejam só, que hoje descobri o salário de Lewis Hamilton, de professores norte-americanos, do presidente dos EUA, do premiê britânico, em contraste com o especulado que seria pago a Kaká.

Mas a maior atenção fica em questões, digamos, verbais. O futuro do pretérito foi a tônica dessas tratativas entre Kaká e o time de Manchester. O dramático da história, claro, mora também nas limusines com jacaré e cascatas que o dinheiro envolvido compraria (se bem que, até aí, o dinheiro pago pelo Milan já é babilônico para meus bolsos inocentes), mas reside, sobretudo, no aspecto de show que foi imposto ao tema, especialmente pelo clube britânico, que parecia contar com o apoio do picadeiro para trazer Kaká aos seus gramados- e também pelo clube italiano, que mostrou o que é o desespero de um time endividado, sem tomar as injeções da heroína Liga dos Campeões.

O maior disparate de todo o circo armado, repito e reitero, não foi a oferta a Kaká em si, mas a inexistência (ao menos em declarações ao público) de um projeto de time para o City, que permanece irregular e aloucado nos seus jogos da Premier League.

No fim das contas, o resultado final (definitivo?) da novela árabe-ítalo-britânica talvez tenha sido melhor para o time dos irmãos Gallagher. Vai que os sheiks invocam-se, tomam-se de brios e passam a montar um time vencedor? Esta seria uma notícia alvissareira aos apoiadores do MCFC.

De resto, tudo como dantes no quartel de Abrantes. Esperemos pela próxima dos nossos amigos triliardários, petroquniqüilhardários dos EAU.

A fábula é conhecida. Se não é, invento para vocês agora. Um leão, selvagem, porém errático, saariano, subsaariano, pós-saariano,  das savanas, tem seu valor no meio da fauna, estando longe, porém de ser rei. Sendo da espécie do rei das selvas, mas menosprezado, o pobre leão segue de canto em canto, mas sempre no centro das florestas leoninas, na África mitológica e essencial.

Este leão lembra-me muito Júlio Baptista. Começado no São Paulo, transferido para Sevilla, Real Madrid, Arsenal e agora, Roma, o jogador não esteve menos do que numa equipe média do futebol internacional (e reparem que o Sevilla é ascendente). Mas mesmo assim, todos o olham com desdém, mas nunca com desprezo. É como se ele fosse um brinquedo de estimação, uma curiosidade do futebol brasileiro. E não deixam de estar certos.

No entanto, é preciso reconhecer, Baptista é um leão. Sem a compleição física longilínea, atraiu a atenção de Arsene Wenger, o druida do Arsenal. Sem a ginga malemolente de um Robinho, de um, vá lá, vá lá, Denilson, Baptista já desenvolveu gols soberbos, de driblar meio time adversário. Ora, um selvagem, certamente. Um bom selvagem.

Sempre me agradou o estilo do rapaz. Não vou dizer que eu era um aficcionado vibrante por seu futebol, até porque o mesmo não é a maior brisa para os olhos. Mas sempre gostei do seu esforço, de sua dedicação e de sua eficácia. Porque sim, Baptista é um eficaz. Não há animal na selva que não tema, por mais que aquele não seja o chefe dinástico da floresta ou o líder de bando algum, não há, não há, amigos, animal na selva que não tema um leão.

Ele sempre pode acertar uma plástica e improvável bicicleta no último minuto da partida, como fez contra o Torino neste domingo no qual a Roma deu 1 a 0.  E é por isso que Júlio Baptista é o personagem da semana.

A notícia caiu como uma bomba nas  redações,  departamentos desportivos, campos de várzea, nos babas e peladas, nas mesas de totó e bolsas de apostas de todo o mundo. Não poderia ser diferente. Os sheiks dos Emirados Árabes ofereceram 100 milhões de libras para terem Kaká no Manchester City. Sim, são 1, 2, 3, 4, 100 milhões de libras, um dinheiro incontável, inimaginável, nababesco e até babilônico.

O engraçado é que quase eu acreditava na história sobre um redimensionamento das despesas do mundo do futebol nestes novos tempos de crise financeira, o mundo em desalinho e, que nada, os sheiks surgem com esse narguilé da manga! 100 milhões! E todos gritam, fascinados. 1 milhão de reais por semana, é o que vi falar, seria a quantia paga ao mês pelo futebol de Kaká.

Vale, não vale? Claro que a discussão não é mais essa. Quem determina o valor é quem deseja pagar, então tudo vale se o credor pode suportar as dores dos gastos.  Chama a atenção, para além da negociação ordinária que está ocorrendo (e está), a postura deste time, o Manchester City FC.

Primeiro, adquirido pelo premiê tailandês, fugido após um golpe militar. Agora, comprado por um fundo árabe, de bilionários petrodólares. Mas olho os jornais, folheio-os virtualmente e tenho a notícia de que um dos condutores da transação é Kia Joorabichian, aquele mesmo suspeito na época do Corinthians-MSI, um iraniano-russo com ares de dândi picareta.

Não encaro com ojeriza a participação de milionários, bilionários e triliardários no futebol. Reformulo. Até encaro com ojeriza se o objetivo é a lavagem de dinheiro ou a ocultação de crimes , mas reconheço como uma coisa da vida, pois se existem triliardários (mesmo os do submundo), é normal que existam no futebol- que nunca foi um campo sagrado. Os agentes da lei que tratem de defendê-la.

Contudo, a postura dos dirigentes do time mancuniano é das coisas mais pitorescas do futebol. A negociaçao de Robinho foi um exemplo e a de Kaká mostra-se mais uma vez neste sentido. Os sheiks (e o tailandês também parecia se comportar assim) parecem imaginar que basta injetar grana, grana e grana, contratar estrelas e o problema do futebol está resolvido.

O City só voltará a ser grande quando tiver uma equipe de verdade e não algumas estrelas num time desequilibrado. A conduta de seus dirigentes até o presente momento é um engano tão óbvio que só resta aos amantes do futebol torcer para que esses investidores quebrem a cara, possibilitando, sadicamente, a todos nós, um espetáculo de “nós já sabíamos, aprendam a lição”, que se não aniquilará esta espécie de conduta, ao menos demonstrará sua falha essencial- se um bom jogador como Kaká puder ser poupado do vexame, melhor para ele. Se, por outra mão, o City começar a montar um time decente a partir de Kaká, melhor para os seus torcedores.

Não nos esqueçamos, claro, dos velhos ricos de hábitos similares (Real Madrid), manifestados no deslumbre de se preocupar menos com o futebol e mais com as luzes e a celebrização da história. Torçamos contra eles, pelo bem do futebol.

O prêmio de “melhor do mundo” nasce equivocado desde o princípio, seja na versão da France Football, seja na versão da FIFA. Sim, trato da questão territorial. Por mais que aqui e ali sejam indicados jogadores que não façam dos campos europeus seu local de trabalho, todos sabemos que é na Europa, ou melhor, na Inglaterra, na Alemanha, na Itália e na Espanha de que se trata (sim, falo da Bundesliga com uma deferência ao acirramento do campeonato e a seu desenvolvimento financeiro, olhando quase nada para sua história, porém).

Mas até ultrapasso a questão- a escolha do “melhor” é sempre arbitrária, sempre limitada (ninguém conseguirá ver todos os jogos) e é até necessária como celebração futebolística- mas até aí já adentro uma faceta utilitária que não é de meu feitio- e que poderia levar a FIFA a premiar alguém da Oceania só para tentar desenvolver o futebol por aquelas bandas. O fundamental mesmo é o alcance de divulgação do evento e isso em importância para o jogo jogado… Lá vou eu divagando.

Mas, volto. Cristiano Ronaldo venceu a disputa. Justo, e eu diria até: Justíssimo. Não sou o maior fã do futebol do gajo, mas reconheço sua superioridade no ano que passou. Na temporada européia, corrijo-me. Falaram em Kaká e Messi, o que só poderia ser uma piada de péssimo gosto. Ah, mas abstratamente os sul-americanos em questão são melhores que o português. Pergunto: A escolha é de melhor da temporada ou de melhor da história? Sim, não duvido que geneticamente, fenotipicamente, filosoficamente, possa haver fulano, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Pelé ou sicrano melhores que os três acima citados. Pode até ser assim (nem sei realmente se é).

Entrementes, não se trata disso. A escolha é simplesmente do melhor jogador da temporada. O rapaz, então, é artilheiro do melhor campeonato do mundo (não tenho isenção suficiente e por isso afasto o Brasileiro dessa lista imaginária de melhores), destaca-se na Liga dos Campeões (embora com uma final tímida, fazendo gol, é verdade, mas tímida) com um time que é o mais eficiente do globo terrestre e não merece o prêmio? E quem há de merecer é um argentino que, se parece um cracaço, ou melhor, se já demonstra ser um excelente jogador, ainda não atingiu o ápice no futebol, que é ajudar na elevação de seu clube a um patamar superior (sim, títulos, títulos)- ou um brasileiro que fez uma temporada mediana com um time beirando o medíocre?

Não, isso não dá para aceitar. Não dá para aceitar certo vira-latismo que rejeita as manhas de C. Ronaldo (manhas de celebridade num espetáculo em que se criam e alimentam celebridades a minuto , que por sua vez, faturam  milhões em átimos), mas adula a das estrelas brasileiras (e não só, pois baba nas calças de um Riquelme, p.ex.).  Não dá para aceitar o deslumbramento com Messi (do mesmo modo lamentável da torcida belo-horizontina), já que é preciso mostrar onde e como ele apresentou-se em melhor forma que o português.

Naturalmente, a unanimidade não convence nem o rei dos asnos e é bom que cada um apresente sua opinião. Agora, estas precisam de alguns fundamentos táticos, técnicos, sensíveis, antropomórficos ou transliterários que sejam, sob pena de vermos o futebol reduzido a um show de objetividade inobjetiva.

Há quem organize o seu com base no movimento lunar. Outros o fazem com base no movimento do Astro-Rei. Papas e revoluções já os  modificaram- e não me espantaria se alguém me dissesse que um dirigente de futebol brasileiro tentou aplicar uma nova lógica a seu funcionamento. Falo, como já devem ter percebido, dos calendários.

Lembro-me de alguma coisa recorrente do passado que, no meu caso, era de pouco contato visual com as partidas e mais com os relatos do que ocorria nos campos europeus. Um destaque sempre vinha aos calendários. Ah, ali sim, respeitava-se o jogador, não se lhe exigia que jogue a ponto de morrer, ali era possível uma vida decente, pois nesse El Dorado reverso não se permitiam partidas em competições esdrúxulas ou inadaptadas. E eu olhava a tabela dos pontos corridos e o calendário começado em setembro e só podia concordar. Claro, claro, era tudo melhor.

Só que hoje, mais ranzinza e problemático, olho para a Europa e não vislumbro salubridade na ordenação dos jogos. Na Inglaterra, são 3 competições nacionais (Copa da FA, Copa da Liga e a Liga Nacional), afora as internacionais para os clubes  que as disputam. Mas não, a Inglaterra é um exagero, o comum são 2 competições (Copa e Liga).

Ainda assim, no caso, não há discrepância entre o número de jogos ocorridos lá e na América do Sul- embora seja bem verdade que o Brasil tenha operado uma redução drástica nos campeonatos estaduais e um esvaziamento da Copa nacional. O problema do calendário europeu está menos na forma e mais no conteúdo.

A questão é que, hoje, na Europa, está-se em um processo de reformulação das estruturas, sendo que o sintoma mais flagrante de tudo são as prioridades conforme a escolha dos próprios clubes. Este processo, como todos, não nasce da noite para o dia, e no caso europeu teve início com o aumento da Liga dos Campeões.

Ora, o campeonato continental, por sua vocação titânica e cosmopolita, ganhou uma centralidade espetacular para os grandes clubes da Europa. Primeiro, do ponto de vista financeiro. O aumento das despesas levou ao imperativo de  desenvolver novas e melhores fontes de receita. Sim, é preciso dinheiro para fazer dinheiro, e os clubes europeus precisavam daquele charme titânico para puxar receitas publicitárias, p.ex.

Depois (ou mesmo antes, a escolha é do freguês), há o potencial desportivo dos conflitos continentais. Para que estes ocorressem, porém, era preciso que muitos participassem da festa. Muitos, mas não tantos e no caso se os muitos aqueles 14, 15 gigantes da Europa, já estaríamos muito bem. Para garantir as tais vagas, foi preciso aumentar o campeonato continental.

Neste ciclo cósmico, a Europa passou a ter maior importância do que os campeonatos que, afinal, sustentam a estrutura cotidiana, que são os nacionais. Exagero, claro. No caso, não é que os maiores clubes europeus desdenharam as competições nacionais. O problema é que a disparidade de receitas gerada pela Liga dos Campeões levou àquela disparidade entre os país a níveis maiores. E os clubes de menores posses estão tolhidos ou limitados na participação nos torneios.

Os grandes, por sua vez, dão maior importância à Europa e à Liga, deixando as Copas (no caso da Inglaterra) para times B. Resultado: A importância desportiva da competição é reduzida. Se é fabuloso que a FA Cup seja o campeonato de futebol mais antigo do mundo, não deixa de ser notável que o tropeço do Manchester United (ou do Arsenal) no torneio não seja tão lamentado, já que há a Liga dos Campeões, há a Premier League, enfim, há outras prioridades.

E assim se vão acumulando partidas senão desinteressadas, partidas que são mornas, sem o élan, sem a vibração, a tônica. E percebemos, então, que a segunda competição continental da Europa, a Copa da Uefa, é menosprezada, restando como obrigação-consolo aos gigantes que tropeçam (Bayern ontem, Milan hoje, times holandeses há muito). Se os maiores da Europa estão lá no outro campeonato, para que serve esta Copa da Uefa?

A Uefa, então, se vê enredada num problema que já conhecemos há muito na América do Sul: A anemia da segunda competição continental. E, mesmo que por outros caminhos, os países europeus vêem suas copas nacionais meio anêmicas, se não irrelevantes, pouco apaixonáveis.

Realmente, o futebol europeu continua de vento em popa, enchendo as burras de muitos e muitos (ou esvaziando a de alguns bilionários que gostem de torrar dinheiro- ou de enxagua-los devidamente, com sabonete clubístico), e os torcedores, ao menos da TV, parecem bastante animados.

Talvez isto tudo seja um exagero de alguém a um oceano de distância dos fatos. Por outro lado, nas próximas discussões, prefiro estar precavido de empolgações com o calendário europeu, pois da última vez que fiz isso, quebrei a cara, entediado e estatelado como um jogo da Copa da Uefa.

Desde os tempos antediluvianos, sabemos que o mytho é o nada que é tudo, etc, etc. Em regra, boa parte dos mitos são gestados, engendrados e compatibilizados por quem analisa teoricamente certos fenômenos. Assim, mitos políticos são gerados por intelectuais e militantes e fetiches são produzidos por empresários do sexo.

Ora, no caso de nosso esporte bretão, os analistas são os cronistas desportivos e os jornalistas- aliás, guardo a impressão de que com a propagação dos meios de divulgação, cada vez mais o setorista é considerado grande analista- não à toa, cada passo dado em campo parece mitológico.

Uma fantasia recorrente alimentada pela mídia desportiva é a de que o bom cartola, o competente, que traria ganhos fabulosos ao clube seria o reto, o honesto, alguma coisa próxima do mendigo de anedota, que, achando uma maleta contendo 1 milhão de dólares ao seu lado, prefere devolvê-la a seu dono (ou melhor, entregá-la à diligente polícia que ontem lhe dava tapas), continuando sua vida na rua, porém com a dignidade moral intacta.

E era esse dirigente, com a moralidade de anedota, o epítome do cartola da imprensa. Se os jornalistas falam pensando em tipos ideais ou não, isso é algo que se deve questionar nas faculdades de comunicação Brasil adentro, mas claro mesmo está que aquilo não passava mesmo de devaneios gestados em redações. Infelizmente, digo, antes que o leitor compare-me a um canalha típico.

Penso no Corinthians. Ora, Alberto Dualib saiu considerado um facínora. E, no entanto, em sua gestão, o Corinthians venceu três de seus quatro campeonatos brasileiros- e encontrou uma de suas melhores fases, em termos de vitórias campais. Sim, encontrou o rebaixamento, claro. E uma desorganização de bordel (sem ofensas aos cafetões e cafetinas de nosso país) nas bandas do Parque São Jorge.

Não se ressintam, corinthianos. Penso também no Vasco da Gama. E no Bahia. Ora, quem não falava cobras e lagartos de Osório, Maracajá e Eurico Miranda? Certo. E a tal gloriosa e garbosa história da qual se gaba os tricolores soteropolitanos vem de onde? Não foi em pleno mandato de Maracajá que o Bahia conquistou seu título de 88? E o Vasco não se sagrou campeão da Taça Libertadores, da Mercosul, do Brasileiro, tudo isso na dinastia de Eurico?

Vimos, inclusive, no luso clube da colina carioca, algumas indecisões, alguma afobação nos gestos da nova diretoria (para citar uma polêmica menos urgente, verifiquemos o episódio das novas  camisas da Champs), comandada por um grande ex-jogador,  promissor em sua nova carreira, ao menos por seu passado de oposição na política vascaína.

Entendam, amigos. Vejo unanimidade nos comentários que bradam: “Ah, os clubes se ressintiram posteriormente das gestões desastrosas, da orgia administrativa, do descado técnico, tático, antropológico, econômico e psicossomático!”.

E, contudo, porém, todavia, entrementes, indago aos torcedores: Devolveriam seus títulos em prol da organização, p. ex., de um São Paulo, do mesmo período?

Pergunto aos torcedores organizados (certamente, outra categoria no futebol): Devolveriam as facilidades conseguidas com diretorias mambembes? Devolveriam os ingressos, os tíquetes, as tintas para bandeira e camisa, os sanduíches, a ajuda de combustível para ida a jogos?

Sei bem, que esse não é um dilema a ser resolvido na base do facão, do oito ou oitenta (até porque há características estranhas no fim dos anos 90 pelos lados do Morumbi).

Reformulo, pois,  minha questão: Os jornalistas e analistas trocariam o entusiasmo pelos times de então, montados de forma desorganizada, ofensiva aos costumes financeiros e morais por equipes miúdas e pacíficas?

A resposta, claro, também deve ser retórica. Só explicito aqui, a respeito da moralidade, por mais desagradável que isso possa parecer, é que os desvios éticos só incomodam mesmo quando dizem respeito ao alheio.

À medida em que participamos do espetáculo, tornamo-nos cegos aos defeitos. Por outra: Conquanto não sejamos de todos culpados (é óbvio que me incluo, caro leitor, nesta catarse), é chegada a hora de reconhecermos que ninguém é de todo inocente.

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