O brasileiro é o ser mais definível do mundo. Explico. Não há cidadão do planeta que esteja mais perto do conceito que se lhe faz do que o que aquele nascido no Brasil. Por outra: O brasileiro de anedota é o mesmo brasileiro da carne e do osso.

Pois então, eu mesmo. Sou um brasileiro nato. E como tal, fiz jus à fama de acomodado e não escrevi neste blog por mais de mês. Vocês, quatro ou cinco (ou até dez, a glória suprema!) leitores, por sua vez, são tão acomodados e resignados quanto eu, e nem sequer passaram aqui desde o segundo dia sem atualização. Uma forma delicada de evitar novas e até entediantes leituras.

Há ainda a seleção brasileira de futebol. Quem viu os 3 a 0 aplicados sobre a esquadra chilena, pensou tratar-se de uma distorção do espaço-tempo. Como um time treinado e escalado por Dunga era fluido, fazia gols e mostrava um brio inacreditável para com a canarinha desde, pelo menos, vejamos, desde um Chicão, o Bruto?

E o motivo, no entanto, residia límpido, cristalino, brilhante e solar- foi a honra ofendida. O brasileiro só se sente desafiado diante da ofensa, do espancamento facial. Ou nossos vizinhos essenciais não são aqueles que só decidem procurar emprego após um tapa na cara esplêndido e monumental infligido pelo companheiro de relacionamento, varão ou moça de atitude?

E isso acontecia com a seleção à altura daquele jogo em Santiago. Todos vilipendiavam o Brasil. Até a imprensa mais chapa-branca mostrava-se anos luz à oposição do estado de coisas verde e amarelo. Mesmo o mais cebefista dos comentaristas e narradores hesitava em bradar um ‘Avante, Brasil!’. Até o Mandatário-mor da nação, Presidente eleito por 150 % dos votos e gozando de popularidade e aprovação de mais de 348% dos eleitores, exibia e vangloriava-se de seu escárnio diante dos brasileiros e ensaiava um elogio (inexplicável, conforme veremos em breve) à seleção argentina?

É isso, amigos. A ofensa, o tapa na cara, o chute no olho, o quebra-espinha que o selecionado tomava de todos, isso despertou o brio dos homens que estavam em campo. Com exceção do Gaúcho, certamente alvo de um feitiço traiçoeiro, de uma praga egípicia nefasta, de um encosto desamarrado, todos suavam, senão sangue, suor mesmo- coisa que às vezes parece incomum em jogos de seleções- quem assistiu a Copa do Mundo de 2006 sabe que não são só os brasileiros os esnobes da história.

Estou sendo injusto com o Gaúcho. Ele mesmo suava, corria, ainda que fora do peso, lutava contra sua humana condição. O problema é que o encosto, a praga, o feitiço eram maiores- como se viu na penalidade desperdiçada.

Ora, passado o turbilhão, o belo 3 a 0, chegada era a hora da facilidade. Bolívia, no Rio de Janeiro, horário após a novela, nem tanta torcida que vaiasse de maneira abundante e um pouco desvairada… Que mais queriam os brasileiros para aplicar sonoros 17 a 1, 90 a 0 ou alguma goleada semelhante?

E eu vos respondo. Em tempos de bonança, de quietude, o brasileiro senta e devora o céu de brigadeiros que se apresenta à sua frente. Ora, é um docinho gostoso, com bastante chocolate e o granulado dá um toque especial. Devorado o brigadeiro, a bonança, a ventura, ela é toda passada para trás. O brasileiro não consegue conviver com um estado eufórico de muito tempo. São as alterações entre passividade, derrotas, bofetadas e glórias magistrais os traços característicos da pátria.

E, cá para nós, ainda que estivéssemos em tempos de glórias magistrais, qual a grandeza resistiria à CBF?