Outro dia, eu estava comovido feito o diabo, e não sabia direito o motivo- sabia que estava comovido, sentia alguma agonia, mas não conseguia precisar o motivo. De qualquer forma, passou- e eu sei que vai voltar, é a vida.

Confesso que não vi mais que 15 minutos do Brasil e Argentina. Ok, talvez eu tenha visto uns 25 minutos, de maneira intermitente. Não gosto de futebol com limitações de idade- mas um Brasil e Argentina é sempre um Brasil e Argentina, diria o sábio profeta da vênus platinada. Do que vi, é evidente que notei o que qualquer pessoa sensata nota ao assistir um jogo dessa Seleção Brasileira. O time não tem tática, a técnica é obnubildada por algum mistério insondável (só aparecendo em esparsos e inesperados momentos), etc.

Já posso ver o clamor indignado pela cabeça do Capitão de 94, que ocupa hoje oficialmente o cargo de treinador da CBF. ” Adeus, Dunga”, “Fora, desgraçado”, “Saia antes que nós derrubemos o mundo”, isso é o mínimo que se pode registrar do  sentimento médio do torcedor brasileiro. Com alguma razão, mas peço perdão, não endosso o que parte dos meus compatriotas grita de forma alucinada.

Repito, a seleção é terrível, não tem tática ou técnica. A escalação de Dunga não foi ruim, talvez T. Neves no lugar de Diego e T. Silva em lugar de Breno (sem ritmo de jogo e de bola, o que já vem retirando seu nome construído durante sua sensacional temporada de 2007), mas tudo o mais constante, não se havia muito o que mudar.

Por outro lado, a lentidão, o desencontro entre os jogadores, tudo isso poderia ter sido ajustado- com um tempo de treino que o Brasil até teve nessa tal preparação olímpica. Não se pode exigir que os rapazes que estão na China tenham um entrosamento fabuloso, mas que possuam a mínima agilidade na saída de bola, o mínimo elã ao tocá-la e a mínima vergonha na cara ao chutá-la ou cruzá-la, isso todos têm de ter- e se há um responsável por incutir nos jogadores a atividade dos respectivos superegos, esse alguém é o treinador. Se ele não faz isso, a nau afunda, isso é tão certo como 2 e 2 são quatro.

Sim, não é preciso aprofundar análise acerca dos defeitos de Dunga. Notei, porém, uma qualidade mínima, que não havia em Parreira- ele saca um jogador, independente do que se grite- e talvez tivesse feito um bem a um ainda verde Pato, caso Dunga gozasse do mínimo prestígio perante seus comandados.

Certo, não notei outra qualidade para além dessa e de alguma alteração que funciona em momento oportuno (final da Copa América), mas, leitores amigos, confesso-lhes de coração aberto: Não torço para a queda de Dunga.

O treinador hoje é apenas um leve e incômodo pedregulho no futebol nacional e nem de longe faz sombra à maior das ameaças, que é a própria Confederação Brasileira de Futebol, sua diretoria e toda a estrutura que a sustenta- especialmente as Federações Estaduais. A mistura pornográfica de compadrio, incompetência e descaro puro e absoluto traz hoje ao futebol brasileiro conseqüências tão ou mais nefastas que a Peste para a Europa Medieval.

Ora, amigos, basta olhar o estado do campeonato brasileiro. Embora os dirigentes dos clubes guardem parcela espetacular de culpa na penúria pátria, é preciso e mais do que isso, é obrigatório, necessário, imprescindível e eu diria mesmo, mister, afirmar, reiterar e vituperar que é a CBF que (des)organiza o Campeonato Nacional. É a CBF que recebe tubos de dólares para que o Brasil realize amistosos em Wembley e  investe pouco vezes quase nada no desenvolvimento do esporte. Não é à toa que hoje qualquer time europeu (noves fora o investimento de milionários suspeitos ou irreverentes) pegue os principais jogadores do Brasil, além dos medíocres, dos problemáticos e de grande parte dos ruins, restando à Liga Nacional aqueles ainda não percebidos, os que não deram certo por lá (de maneira alguma, depois de 2, 3 ou 4 tentativas) e os veteranos em vias de aposentadoria (sempre protelada pela escassez de qualidade no mercado).

Sim, amigos, é essa CBF o principal problema do Brasil futebolístico. A Copa de 2014, apesar de obsessão, há de ser rateada com o eterno michê (e cafetão) nacional, que é o governo e tudo aquilo que se diz público. Mais uma sangria, mais uma orgia com o dinheiro de todo mundo e mais um tempo de futebol mediano, que só é alimentado pela qualidade essencial do futebol brasileiro (vale uma discussão futura sobre um assunto, uma vez que há um colega que discorda ), pela paixão aos clubes (o grande e eterno charme do futebol) e pela magia própria do esporte, sempre assombrada, assustada e desesperada pela fúria titânica da CBF.

Dunga significa apenas um efeito colateral na degradação causada pela CBF- só sendo possível falar em involução, em termos relativos,  se tomarmos em comparação a Europa (ou mesmo a Ásia), já que os dirigentes tétricos amedrontam o brasileiro desde os tempos de um Moderato.

O mal-estar, a apatia, a azia moral do futebol brasileiro é a CBF e as Federações que a mantêm. Enquanto os brasileiros continuarem a esquecer e só relembrar ocasionalmente esse dado fundamental, continuaremos todos comovidos e assassinados.

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