agosto 2008


Outro dia, eu estava comovido feito o diabo, e não sabia direito o motivo- sabia que estava comovido, sentia alguma agonia, mas não conseguia precisar o motivo. De qualquer forma, passou- e eu sei que vai voltar, é a vida.

Confesso que não vi mais que 15 minutos do Brasil e Argentina. Ok, talvez eu tenha visto uns 25 minutos, de maneira intermitente. Não gosto de futebol com limitações de idade- mas um Brasil e Argentina é sempre um Brasil e Argentina, diria o sábio profeta da vênus platinada. Do que vi, é evidente que notei o que qualquer pessoa sensata nota ao assistir um jogo dessa Seleção Brasileira. O time não tem tática, a técnica é obnubildada por algum mistério insondável (só aparecendo em esparsos e inesperados momentos), etc.

Já posso ver o clamor indignado pela cabeça do Capitão de 94, que ocupa hoje oficialmente o cargo de treinador da CBF. ” Adeus, Dunga”, “Fora, desgraçado”, “Saia antes que nós derrubemos o mundo”, isso é o mínimo que se pode registrar do  sentimento médio do torcedor brasileiro. Com alguma razão, mas peço perdão, não endosso o que parte dos meus compatriotas grita de forma alucinada.

Repito, a seleção é terrível, não tem tática ou técnica. A escalação de Dunga não foi ruim, talvez T. Neves no lugar de Diego e T. Silva em lugar de Breno (sem ritmo de jogo e de bola, o que já vem retirando seu nome construído durante sua sensacional temporada de 2007), mas tudo o mais constante, não se havia muito o que mudar.

Por outro lado, a lentidão, o desencontro entre os jogadores, tudo isso poderia ter sido ajustado- com um tempo de treino que o Brasil até teve nessa tal preparação olímpica. Não se pode exigir que os rapazes que estão na China tenham um entrosamento fabuloso, mas que possuam a mínima agilidade na saída de bola, o mínimo elã ao tocá-la e a mínima vergonha na cara ao chutá-la ou cruzá-la, isso todos têm de ter- e se há um responsável por incutir nos jogadores a atividade dos respectivos superegos, esse alguém é o treinador. Se ele não faz isso, a nau afunda, isso é tão certo como 2 e 2 são quatro.

Sim, não é preciso aprofundar análise acerca dos defeitos de Dunga. Notei, porém, uma qualidade mínima, que não havia em Parreira- ele saca um jogador, independente do que se grite- e talvez tivesse feito um bem a um ainda verde Pato, caso Dunga gozasse do mínimo prestígio perante seus comandados.

Certo, não notei outra qualidade para além dessa e de alguma alteração que funciona em momento oportuno (final da Copa América), mas, leitores amigos, confesso-lhes de coração aberto: Não torço para a queda de Dunga.

O treinador hoje é apenas um leve e incômodo pedregulho no futebol nacional e nem de longe faz sombra à maior das ameaças, que é a própria Confederação Brasileira de Futebol, sua diretoria e toda a estrutura que a sustenta- especialmente as Federações Estaduais. A mistura pornográfica de compadrio, incompetência e descaro puro e absoluto traz hoje ao futebol brasileiro conseqüências tão ou mais nefastas que a Peste para a Europa Medieval.

Ora, amigos, basta olhar o estado do campeonato brasileiro. Embora os dirigentes dos clubes guardem parcela espetacular de culpa na penúria pátria, é preciso e mais do que isso, é obrigatório, necessário, imprescindível e eu diria mesmo, mister, afirmar, reiterar e vituperar que é a CBF que (des)organiza o Campeonato Nacional. É a CBF que recebe tubos de dólares para que o Brasil realize amistosos em Wembley e  investe pouco vezes quase nada no desenvolvimento do esporte. Não é à toa que hoje qualquer time europeu (noves fora o investimento de milionários suspeitos ou irreverentes) pegue os principais jogadores do Brasil, além dos medíocres, dos problemáticos e de grande parte dos ruins, restando à Liga Nacional aqueles ainda não percebidos, os que não deram certo por lá (de maneira alguma, depois de 2, 3 ou 4 tentativas) e os veteranos em vias de aposentadoria (sempre protelada pela escassez de qualidade no mercado).

Sim, amigos, é essa CBF o principal problema do Brasil futebolístico. A Copa de 2014, apesar de obsessão, há de ser rateada com o eterno michê (e cafetão) nacional, que é o governo e tudo aquilo que se diz público. Mais uma sangria, mais uma orgia com o dinheiro de todo mundo e mais um tempo de futebol mediano, que só é alimentado pela qualidade essencial do futebol brasileiro (vale uma discussão futura sobre um assunto, uma vez que há um colega que discorda ), pela paixão aos clubes (o grande e eterno charme do futebol) e pela magia própria do esporte, sempre assombrada, assustada e desesperada pela fúria titânica da CBF.

Dunga significa apenas um efeito colateral na degradação causada pela CBF- só sendo possível falar em involução, em termos relativos,  se tomarmos em comparação a Europa (ou mesmo a Ásia), já que os dirigentes tétricos amedrontam o brasileiro desde os tempos de um Moderato.

O mal-estar, a apatia, a azia moral do futebol brasileiro é a CBF e as Federações que a mantêm. Enquanto os brasileiros continuarem a esquecer e só relembrar ocasionalmente esse dado fundamental, continuaremos todos comovidos e assassinados.

Inicialmente, é de se fazer apologético aos caros e parcos leitores deste veículo. Natural que a periodicidade prejudicada das postagens pode afastá-los, mas, amigos, peço que entendam- é melhor não falar nada a tripudiar de vosso tempo.

Ademais, as Olímpiadas têm ocupado meu tempo. Eu não diria exatamente meu tempo fático, o tempo como espectador dos jogos- até porque são tantas as modalidades, o horário é muitas vezes inconveniente e, claro, há muitas competições somente atraem por curiosidade- mórbida, talvez.

Estava eu a admirar os feitos de nadadores, judocas, esgrimistas, praticantes do badminton, tenistas de mesa, hoqueístas de grama, handebolistas e que tais, quando me dei conta e de mim para mim, passei a indagar a viabilidade de acompanhar, como humilde espectador, falido em dotes esportivos e com a boa vontade bonachona que caracteriza todo aquele desprovido de talento, mas milionário da sede pelo desforço e elegâncias humanas inerente aos esportes- o dia a dia, a rotina dos esportes olímpicos.

Imaginei-me acompanhando nadadores a quebrar recordes em Omaha ou Auburn ou  torneios de judô em Cubatão, Seul, Cruzeiro do Oeste, Jacobina, Tóquio, Florença ou Melbourne. Imaginei, imaginei, sonhei, deslumbrei-me com a possibilidade- que, na verdade, demonstra-se impossível.

Desculpem-me todos, porém não consigo compreender a motivação que leva alguém a acompanhar a rotina de boa parte dos esportes sem estar diretamente ligados a eles- como atletas, parentes ou, no mínimo, praticantes ocasionais.

É bem verdade que guardo rudeza e ignorância que me impedem de fruir competições que se distingam de futebol e talvez a isso esteja entranhada a força, malévola e eficaz, do hábito. Minha criação vendo, ouvindo, vibrando, sofrendo e respirando futebol teriam agido a embotar minha sensibilidade? É uma hipótese.

Não é a única, talvez. Afinal, como acompanhar com a mesma ênfase, provas em que não se pode ter perfeita noção do que ocorre ou na qual as situações são diretas, óbvias ou em que rareiam (e estou sendo generoso) as possibilidade de o pequeno ou o francamente pior superarem o gigante, o phelptico, o dreamteanesco?

De modo que é sensacional, é espetacular, mas de tempo em tempo, nos pegamos falando de estádios grandiosos, de ninhos de pássaro, cubos de água, piscinas de 3 metros de profundidade, cidades poluídas, crianças que dublam, fogos de holograma e tudo mais que complete um espetáculo- musical, teatral, cinematográfico, televisivo.

As Olímpiadas são um show de entretenimento espetacularmente divertido. Mas, peço o milésimo perdão, desta vez por falar em pleno curso do evento, jamais podem ser comparadas a eventos no qual o futebol é o centro das atenções.

Pretendia evocar Rui Barbosa. Não que o excelso Cabeça de Nós Todos tenha refletido e discorrido sobre o nobre esporte, a espontânea arte. Não: evoco o Águia em sua Oração aos Moços. Lá, o mais nobre paraninfo já conhecido pelo homem elenca as três coisas às quais devemos respeito e dedicação: Deus, a pátria, o trabalho (e que me perdoem se me equivoco na ordem).

Prezado Cabeção, que vem a ser a pátria? Como poderíamos servi-la? Diariamente, acompanho o serviço pátrio de lorpas, de crápulas e canalhas que se valem do estandarte e do hino para as suas atividades igualmente torpes. Bilac que me perdoe, mas que significa cantar o Hino Nacional vinte vezes seguidas ao se alistar obrigatoriamente junto ao exército brasileiro?

Mas deliro. Divago. Perco-me. Desejo escrever, em realidade, sobre o regionalismo. Porque, no futebol diário e corrente, este que comentamos nas ruas e pelo qual padecemos às quartas e domingos, a pátria é a região, é a cidade, é o bairro. O rival torna-se estrangeiro. Há alguns textos, o companheiro de labuta desportiva refletiu a condição do torcedor exilado. Mantendo um discurso moderno e liberal, realmente sensato e lógico, Rafael B. defende-se de um ataque insensível e cruel.

Compreendo a sua condição. E explico: todo baiano que torce para um time baiano sente-se superior a outro que vibra pelas conquistas de um clube estrangeiro. E assim também eu costumo fazer: eu saio às ruas ostentando o brasão vitoriano como se ele me desse direito – divino e inalienável – de ser respeitado e admirado. Um bolsão de resistência. Algo assim.

Sim, é um procedimento assaz estúpido e inexplicável. Mas futebol e pátria são assim – inexplicáveis, estúpidos. Há algum tempo que percebo o futebol extremamente ligado à terra. Reconheço e perigo de tal posicionamento me levar, quem sabe, à construção de um campo de concentração ou ao fechamento das fronteiras – mas são riscos que um homem precisa enfrentar e diante dos quais deve se manter impávido, são e digno. Nunca pretendi que a minha relação com o futebol e com o país fossem pacíficos: como não detestar o Brasil? Como não vociferar e cuspir nos gramados?

Mas deixemos de abstrações – sei que o leitor, propenso à metafísica, já se perde em meio a Platões e Agostinhos. Discordo do companheiro Rafael B. num único ponto, concordo em outro e relativizo em mais um.

Primeiro: não creio que a escolha de um time seja algo necessariamente inconsciente. Não me refiro, naturalmente, aos que seguem esquadras por moda – desprezemos tais vampiros. Mas há muita coisa outra envolvida na escolha de um time. E aqui, naturalmente, afirmo que pode haver uma “escolha”. Pode ser, por exemplo, uma questão ideológica – e a minha se aproxima disso: iniciou-se como uma virulenta e apaixonada revolta contra a imposição maciça de camisetas e troféus do Sudeste. Não exatamente ressentimento, mas um incômodo – porque pareciam rir de mim. E homem nenhum se presta a que os outros riam dele. Joel Santana, com sua Epistemologia da Palhaçadinha, que o diga.

Há, também, a escolha edipiana. Quantos filhos, em domingos sombrios (vejam as palmeiras balançando, as crianças silenciando – tudo sob o céu nebuloso), não assassinam os pais simbolicamente numa final de campeonato em que o Vasco, time do jovem, esmaga o Flamengo, time do velho? A Grécia evocada. Tolo quem acha que o futebol acontece dentro das quatro linhas.

Hei-de concordar, porém, noutra questão – demonstrando que meu ressentimento de subjugado não é tão poderoso. Não simpatizo com as reclamações contra a imprensa do Sudeste. Sendo do Sudeste, é natural que os jornalistas tratem dos times de lá. Não acompanham o trabalho diário de Vitória, Bahia, Sport ou Náutico – e, naturalmente, não o comentam. Quando o fazem, acabam por escorregar na macumba para turista ou na desinformação, como bem demonstrou Rafael B. Pergunto-me como sobreviveu por tanto tempo a lenda da paz nos estádios nordestinos. Ou a de que a paixão daqui é maior do que a de lá.

Não concordo, porém, com a transposição desse panorama para o contexto estadual. Há uma diferença numérica muito vasta para que não seja levada em conta – e, assim como a imprensa estadual, no cenário nacional, trata dos seus times, a imprensa local acompanha os times de menor expressão dentro do Estado. Tal acompanhamento, por sinal, é a fonte maior do anedotário da imprensa esportiva. Portanto, assim como compreendo a preferência da forte mídia do Sudeste pelos seus times, entendo a preferência dos jornalistas soteropolitanos por suas duas esquadras centrais.

O regionalismo, enfim, já é equivocado desde o nome. Só há regionalismo se há um centro que trata de fazer do outro um cidadão periférico – daí, então, a sua arte e o seu esporte tornam-se pitorescos, engraçados, curiosos. É natural, portanto, a reação diante de tal quadro – logo, o periférico percebe-se central e alheio, central e solitário, central e orgulhoso.

Outros clubes do futebol baiano podem ser mais ricos, mais prósperos, mais badalados pela imprensa, donos até de maior torcida e de maior números de títulos recentes. Nenhum de gloriosa tradição quanto o E.C.Ypiranga, o time de Popó, antigamente poderoso, milionário, invencível, supercampeão, hoje pobre e batido mas, em glórias quem se compara a ele?”  (Jorge Amado)

 

Sim, amigos, eu quero comprar o Ypiranga- e aceito parceiros. Vocês podem me indagar, atônitos, por que eu cometeria um ato desta natureza. Alguns, céticos e anti-crentes, desdenhariam da minha intenção, qualificando-a de absurda ou um disparate.

Por que não fazer um clube novo em Feira de Santana, minha terra natal? Ora, a alma profunda de Feira de Santana já tem o Fluminense, e é este time que lá deve ser alimentado. Infelizmente, nenhum time outro vingou na cidade, a exemplo do Bahia de Feira, Independente, Palmeiras-Nordeste- e mesmo o Fluminense não é lá um exemplo de vitórias. Já há muita gente em torno do clube, então não faz sentido comprá-lo.

É evidente que a cidade do Salvador não se sustenta na rivalidade Ba-Vi. Embora este seja um grande clássico, falta a uma considerável parcela da cidade a integração devida com o futebol. E isso só pode ocorrer com o retorno de uma força maior, força passada, mas portadora, em sua essência, da energia para o futuro.

O Galícia é dos galegos. O Leônico compôs um espetáculo pitoresco nos seus 0 a 10 em Guanambi, mas ainda assim teve um time profissional há pouco. O que me resta? O Botafogo da Bahia. O time alvirrubro, que fazia o antológico clássico do pote, com todo o respeito a suas glórias, dele já não se guarda mais memórias que não aquelas de livros. Um valor mais alto se alevanta. E ele veste as cores auri-negras, daquele que já foi o mais popular e daquele que, certamente, era um grande dos cinqüenta primeiros anos do futebol baiano.

O time que cativou todo o Campo da Graça, time de Apolinário Santana, o Popó, o arrasador artilheiro das décadas de 20 e 30, que despertou a simpatia do Anjo bom da Bahia, de Jorge Amado, das massas verdadeiras, time da mestiçagem, dos pretos e dos brancos e de todos aqueles que desejem o futebol, esse é o time que merece ser reavivado. E é uma ressucitação possível, porque ainda lembro de minha infância a existência de um time profissional do Ypiranga, jogando a segunda divisão do Baiano, passando vexames e definhando até o estágio atual.

Confesso que desconheço o ocorrido pelas bandas da Vila Canária, se diretorias incompetentes, se prejuízos causados pela Federação Baiana ou por qualquer outra coisa, se a falta de oxigênio decorrente das intensas mudanças no futebol. Não sei, nem me interessa.

O que interessa é que se a Bahia deseja ser alguma coisa no futuro, precisa reavivar seus laços com um passado brilhante e o Ypiranga é imprescindível para tal. Restabelecer um clube centenário, carregando a independência do Brasil em seu nome, este intento é o próximo Dois de Julho.