O personagem da semana que decidiu a Taça Libertadores do Ano da Graça de 2008 poderia ser o Waldir Peres equatoriano, o rapaz de 38 anos chamado Cevallos, que além de ter gerenciado boa parte do tempo em favor de seu tempo, ainda foi magistral na cobrança de pênalis. Sim, magistral e não há outra palavra para sua atuação. Mas não se pode premiá-lo com mais nada, afinal, o arqueiro já é campeão da Libertadores, e o que mais há de querer neste ano?

Poderia ser também nossa personagem o Sr. Baldassi, a quem é difícil qualificar. Ora soa como um juiz de Mil novecentos e antigamente, que sentia prazer em prejudicar times, em outros momentos parece que é incompetência colossal mesmo. Mas não, ele não. E longe deste QueméaBola? ter fobia de argentinos, como o Presidente “pó-de-arroz”.

Não, não, não, amigos. O personagem cabal, irretratável, irrenunciável é Renato Gaúcho. Sim, o Portaluppi ídolo dos gremistas de há muito, ídolo dos cervejeiros desde 1995 e dos churrasqueiros desde 1992-3 e técnico desde 1996 (ainda interino).

Sim, ele é o personagem, principalmente por algumas injustiças que têm sido ditas. É preciso dizer primeiro: Ele é a ponta de antipatia no Fluminense, isso é um fato escandaloso. Vejam só, parceiros deste blog, que o Glorioso Timinho, contra o qual é impossível torcer caso não se seja flamenguista, teve muita gente o detestando, e tudo por causa de Gaúcho. Eu mesmo confesso que não gosto e devo muito isso a minha convicção inabalável (mesmo que os fatos me ataquem) de que só a humildade excessiva é gloriosa. Sei que isso não é verdade, e dou glórias aos Céus que todos não pensem comigo, mas ainda assim, instintivamente, de modo genético ou mesmo religioso, mantenho esse desgosto de quem é auto-confiante. Ainda assim, não posso coadunar com as críticas que vêm sido feitas.

Ora, mesmo quando o Fluminense vencia São Paulo e Boca Juniors, fomos os primeiros a afirmar que o time era muito exposto e que ainda falta muito para que Renato seja considerado um grande estrategista. É de ver que os dois laterais do Fluminense são pontas, que os dois meias armadores marcam muito mais pela vontade ou de acordo com o ritmo  e empolgação da partida do que por disposições táticas- e todos vimos a tentativa infrutífera de se escalar 3 centroavantes com o uniforme titular do Tricolor carioca. No entanto, parte da imprensa parece ter despertado para esse detalhe somente agora, com a derrota.

É certo que é inglória a missão de um jornalista do futebol. Ele tem de se equilibrar na corda do agrado ao torcedor e na visão fática. Pior, ele ainda deve estar atento ao extrafático, ao sobrenatural que permeia os gramados mundiais. É inglória e até vã essa faina. Contudo, é preciso ser fiel ao que acontece (e ao que não acontece, mas se insinua). É chato e aborrecido ver agora reclamarem de Gaúcho nessa sua limitação, que pode ser superada, mas não é algo que se altere da noite para o dia.

Agora, o que não dá para aceitar, o que é irritante, indigno e por outra, é de um descaro húnico, digno dos piores inimigos da Roma caída, é a insurgência contra o perfil motivador do técnico. Amigos, amigas e respectivos animais de estimação: o Fluminense só chegou aonde chegou porque Renato Gaúcho gritava que era possível. Sim, faltou o principal, que era o título, sim, faltou o essencial mesmo, mas convenhamos: Como Renato, mesmo se fosse um César, um Napoleão, um Elizabeth, um Felipe II, se portaria diante das vitórias sobre São Paulo e Boca, do jeito que ocorreram? Como se comportar diante da euforia de uma torcida que, vamos, venhamos e convenhamos quatro vezes, passou por perrengues terríveis na última década e só agora alcançara os píncaros?

Vos digo a todos: Era a maior das missões. E era impossível para alguém do perfil de Renato Gaúcho. De ele para ele, era contra sua natureza, levantar e falar:  “Meninos, rapazolas, garotada, turma! Olha só, vencemos o maior campeão americano da década, o time imbatível da América que amedronta a todos no continente de Bolívar, San Martin e Frei Caneca,  vencemos o brasileiro mais bem sucedido em competições internacionais que há e agora, vejam só, agora ainda temos mais 2 jogos! E ainda podemos perder!”.

Analisem. Ele seria desmoralizado, tripudiado, perderia toda a autoridade, cairia na auto-contradição, total e assassina. Companheiros de jornada, pobre Renato. Tal qual o rei da anedota, o rei do almanaque, aquilo que fez sua grandeza e a de seu time, o fez perder no fim. Não tanto pelo jogo do Rio (quando mais uma vez, a motivação um tanto arrogante, um tanto só confiante deu alento a um time que havia sido esmigalhado), mas pela partida desastrada de Quito.

A quem amaldiçoa Portaluppi por não ter mexido no ataque, penso no que não diriam, caso o time perdesse com Tartá em campo. Seriam chuvas e trovoadas de reclamações e impropérios.

A quem culpa Renato por ter poupado o time, etc, basta alguém ter acompanhado os jogos do Fluminense no Brasileiro. Com exceção do segundo tempo contra o Sport, o time todo (inclusive os titulares contra o Santos) jogava com a cabeça em Marte, Júpiter, na Lua, ao lado de São Jorge ou não sei mais onde. Era um time desconcentrado e quase em festa. Ele não tinha muito o que fazer- e a entrevista que ele deu após a partida contra o time do litoral paulista foi a prova de que ali estava chegado um limite à magia do Fluminense.

E somente porque o futebol é cruel, dando e tirando a magia e a estrela com tamanha intensidade, é que Renato Portaluppi é o personagem da semana passada.

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