julho 2008


 

 

 

 

 

Outro dia, um companheiro de jornada, desesperadamente bradou para mim, com ar de independência: “Você é um consumidor! Você não torce para um time de futebol, você apenas consome um produto”. E eu quase o vi babar pela camiseta.

Ora, ele dizia, “não existe isso de torcer para um time de fora da Bahia! Baiano é assim mesmo, não dá valor às coisas da terra”. Foi então que eu tive uma catarse. O apelo telúrico do torcedor do Sport Club Victoria da Bahia trouxe à tona todo um processo cognoscivo que me paralisou por boas horas. Afinal, eu seria o menos baiano dos baianos por não respeitar uma instituição da terra, seria quase um baiano anti-acarajé, um sacrílego, um assassino dos alfaiates, um contra-malê, um destruidor da Colina- tudo isso porque visto as cores do São Paulo Futebol Clube.

Sabemos, claro, que o conjunto de atos que leva alguém a torcer por um time não é um processo racional ou direcionado. Por outra: Não é o torcedor que escolhe o time, e muito mais próxima  a verdade está do contrário. Todo o processo inconsciente, de formação do ego, do superego, do anti-ego, do pós-ego e até mesmo do superduperego, os traumas e glórias de infância, o processo educacional familiar e escolar, os doces devorados na mercearia do Seu Joaquim, tudo isso desemboca na relação final entre alguém e o time de sua admiração.

E, no entanto, isso é inaceitável para muitas pessoas. Vejo aqui na região Nordeste, inúmeros reclamarem da subserviência ao Sul (leia-se Sudeste, incluso). Isto, é claro, tem raízes profundas no ressentimento causado pela ascensão econômica e pela proeminência política especialmente de São Paulo, Rio de Janeiro e, vá lá, Minas Gerais e na própria decadência que tomou as terras que se estendem de Teresina e Picos (ou São Luís, algo amazônico) a Salvador (ou Teixeira de Freitas), desde uns 200 anos.

Reclamam também meus conterrâneos da imprensa sulista, que trataria com certo desdém todo o time que não aqueles 12 (4 de São Paulo, 4 do Rio, 2 do Rio Grande do Sul e 2 das Gerais) e do domínio existente nas federações, conselhos de arbitragem, museus, livros e qualquer coisa que inclua futebol e discursos sobre o mesmo.

Assistindo um noticiário produzido no Rio ou em São Paulo, só posso concordar com meus colegas. Por maior que seja a boa vontade com que um grande do jornalismo esportivo, Juca Kfouri, trate o Esporte Clube Bahia, por exemplo, sinto que o olhar presente é a de alguma coisa exótica, excentricamente deslumbrante. É o que se nota nos comentários sobre a torcida, ou melhor, todas as torcidas do Nordeste. Mesmo o elogio, em relação à fidelidade das mesmas, acaba resvalando num maravilhamento com o pitoresco, com o algo mágico da região.

Isso quando não cai na desinformação ou na informação prejudicada pela distância mesmo. É o caso do trivela.com.br afirmando o Victoria da Bahia como um time inferior ao Paraná Clube ou qualificando o trabalho (mediano) de Vadão como esgotado (quando o que se notava era um péssimo time, formado de maneira estranha e esquisita pela diretoria) no momento de problemas do Campeonato Estadual .

Ok, aceito o argumento- e mesmo aquele que constata a decisão dos juízes a favor de alguns times quando na dúvida. É uma generalização, claro, e comporta torrentes de exceções.

Só que eu lembro, não nasci em Salvador, Recife ou Fortaleza. Nasci em uma cidade com pouca tradição futebolística e com um time, que se já fez um bom papel aqui ou ali, hoje enfrenta dificuldades tremendas. Como já disse, sou sensível ao apelo telúrico, e desde pequeno, acompanho a trajetória do Bravo Touro Pioneiro, o Fluminense de Feira. Não posso dizer que sou um torcedor, até porque, claro, isto não é um processo consciente, deliberado. Mas sempre guardei a simpatia. E guardo nas memórias profundas e coletivas, as histórias de mutretas contra times do interior. E, vejam só!, os personagens vilânicos da história são as vítimas dos primeiros parágrafos. Bahia e Victoria aparecem como aqueles que ajudaram a retardar o desenvolvimento alheio no Estado.

Ligo a TV num noticiário esportivo local, e uma nova catarse me leva ao desmaio. Acordo, mudo de canal duas vezes e quedo catatônico. O noticiário estadual fala de Bahia e Vitória em proporções desiguais, tempestuosas, quando comparados a outros times. Sim, se isso é bem verdade quando a maioria dos clubes do Estado está em recesso, também é quando os times estão em atividade. Claro, os campeonatos estaduais servem mesmo para o entusiasmo e a pré-temporada dos grandes (ou dos pequenos que se querem enormes).

Parece-me claro que sempre haverá insatisfação com o espaço dado. Parece-me claro que sempre alguns times chamarão mais atenção que outros (e que hoje a mídia paulista, carioca, gaúcha ou roraimense teme mais o Victoria ou Sport Club do Recife do que o Atlético Mineiro).
E mais cristalino do que água ou do que o próprio cristal, posso asseverar que o ressentimento é uma arma que só serve para esconder fraquezas e proteger estruturas ridículas- como certas diretorias e federações.

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Antes do confronto com o Fluminense, ontem, no Maracanã, meu pai perguntou-me, enfático:

– Com 40 pontos um time tá livre do rebaixamento?

Como não decoro números, fiz uma breve pesquisa e vi que o Goiás, ano passado, permaneceu na série A, no sufoco, com 45 pontos. Com 44, o Corinthians caiu. Passei-lhe a informação e ele, meio aliviado, disse:

– Então já estamos quase na metade, meu filho!

O torcedor do Vitória, no geral, comporta-se dessa forma. Que importa os resultados recentes, a bela campanha, o treinador competente e sensato, Marquinhos voando em campo ou Marcelo Cordeiro comendo grama na lateral esquerda? O histórico de fracassos rubro-negro não pode ser facilmente superado – por isso, meu pai pensa no rebaixamento.

Assim como eu pensava até as últimas cinco ou seis rodadas. Minha preocupação, porém, não vinha do pessimismo onde viceja cada torcedor do Vitória, mas da campanha no estadual e do ridículo título obtido. O elenco, envelhecido e ruim, não inspirava confiança. Mas lá está o rubro-negro, num ponto quase extremo da tabela – goleando, vencendo Internacional, conseguindo pontos fora de casa.

Perdeu, ontem, para o Flu – que trata de se recuperar com mais humildade. Não foi um resultado anormal, ninguém se desesperou: no planejamento do Vitória, sejamos francos, o máximo que se sonhou foi uma Sulamericana. Vai, então, acumulando pontos que – no momento em que Marquinhos ou Williams ou Anderson Martins forem vendidos e Mancini sumariamente expulso de São Salvador pelos radialistas – muita importância terão para a permanência na Série A ou, quem sabe, uma participação num torneio continental de menos brilho que a Libertadores, mas ainda assim com seu valor.

A bela trajetória do Vitória, no mais, serve para dar alento e graça ao moribundo futebol baiano – mesmo que seja efêmera, a boa fase enobrece e leva o povo aos estádios. Assim como torna o jogo mais importante do meio de semana este que será disputado no Barradão – Vitória e São Paulo enfrentam-se e têm todos os olhos para eles voltados.

A Bahia, em meio à sua falência, ousa um suspiro derradeiro.

O personagem da semana que decidiu a Taça Libertadores do Ano da Graça de 2008 poderia ser o Waldir Peres equatoriano, o rapaz de 38 anos chamado Cevallos, que além de ter gerenciado boa parte do tempo em favor de seu tempo, ainda foi magistral na cobrança de pênalis. Sim, magistral e não há outra palavra para sua atuação. Mas não se pode premiá-lo com mais nada, afinal, o arqueiro já é campeão da Libertadores, e o que mais há de querer neste ano?

Poderia ser também nossa personagem o Sr. Baldassi, a quem é difícil qualificar. Ora soa como um juiz de Mil novecentos e antigamente, que sentia prazer em prejudicar times, em outros momentos parece que é incompetência colossal mesmo. Mas não, ele não. E longe deste QueméaBola? ter fobia de argentinos, como o Presidente “pó-de-arroz”.

Não, não, não, amigos. O personagem cabal, irretratável, irrenunciável é Renato Gaúcho. Sim, o Portaluppi ídolo dos gremistas de há muito, ídolo dos cervejeiros desde 1995 e dos churrasqueiros desde 1992-3 e técnico desde 1996 (ainda interino).

Sim, ele é o personagem, principalmente por algumas injustiças que têm sido ditas. É preciso dizer primeiro: Ele é a ponta de antipatia no Fluminense, isso é um fato escandaloso. Vejam só, parceiros deste blog, que o Glorioso Timinho, contra o qual é impossível torcer caso não se seja flamenguista, teve muita gente o detestando, e tudo por causa de Gaúcho. Eu mesmo confesso que não gosto e devo muito isso a minha convicção inabalável (mesmo que os fatos me ataquem) de que só a humildade excessiva é gloriosa. Sei que isso não é verdade, e dou glórias aos Céus que todos não pensem comigo, mas ainda assim, instintivamente, de modo genético ou mesmo religioso, mantenho esse desgosto de quem é auto-confiante. Ainda assim, não posso coadunar com as críticas que vêm sido feitas.

Ora, mesmo quando o Fluminense vencia São Paulo e Boca Juniors, fomos os primeiros a afirmar que o time era muito exposto e que ainda falta muito para que Renato seja considerado um grande estrategista. É de ver que os dois laterais do Fluminense são pontas, que os dois meias armadores marcam muito mais pela vontade ou de acordo com o ritmo  e empolgação da partida do que por disposições táticas- e todos vimos a tentativa infrutífera de se escalar 3 centroavantes com o uniforme titular do Tricolor carioca. No entanto, parte da imprensa parece ter despertado para esse detalhe somente agora, com a derrota.

É certo que é inglória a missão de um jornalista do futebol. Ele tem de se equilibrar na corda do agrado ao torcedor e na visão fática. Pior, ele ainda deve estar atento ao extrafático, ao sobrenatural que permeia os gramados mundiais. É inglória e até vã essa faina. Contudo, é preciso ser fiel ao que acontece (e ao que não acontece, mas se insinua). É chato e aborrecido ver agora reclamarem de Gaúcho nessa sua limitação, que pode ser superada, mas não é algo que se altere da noite para o dia.

Agora, o que não dá para aceitar, o que é irritante, indigno e por outra, é de um descaro húnico, digno dos piores inimigos da Roma caída, é a insurgência contra o perfil motivador do técnico. Amigos, amigas e respectivos animais de estimação: o Fluminense só chegou aonde chegou porque Renato Gaúcho gritava que era possível. Sim, faltou o principal, que era o título, sim, faltou o essencial mesmo, mas convenhamos: Como Renato, mesmo se fosse um César, um Napoleão, um Elizabeth, um Felipe II, se portaria diante das vitórias sobre São Paulo e Boca, do jeito que ocorreram? Como se comportar diante da euforia de uma torcida que, vamos, venhamos e convenhamos quatro vezes, passou por perrengues terríveis na última década e só agora alcançara os píncaros?

Vos digo a todos: Era a maior das missões. E era impossível para alguém do perfil de Renato Gaúcho. De ele para ele, era contra sua natureza, levantar e falar:  “Meninos, rapazolas, garotada, turma! Olha só, vencemos o maior campeão americano da década, o time imbatível da América que amedronta a todos no continente de Bolívar, San Martin e Frei Caneca,  vencemos o brasileiro mais bem sucedido em competições internacionais que há e agora, vejam só, agora ainda temos mais 2 jogos! E ainda podemos perder!”.

Analisem. Ele seria desmoralizado, tripudiado, perderia toda a autoridade, cairia na auto-contradição, total e assassina. Companheiros de jornada, pobre Renato. Tal qual o rei da anedota, o rei do almanaque, aquilo que fez sua grandeza e a de seu time, o fez perder no fim. Não tanto pelo jogo do Rio (quando mais uma vez, a motivação um tanto arrogante, um tanto só confiante deu alento a um time que havia sido esmigalhado), mas pela partida desastrada de Quito.

A quem amaldiçoa Portaluppi por não ter mexido no ataque, penso no que não diriam, caso o time perdesse com Tartá em campo. Seriam chuvas e trovoadas de reclamações e impropérios.

A quem culpa Renato por ter poupado o time, etc, basta alguém ter acompanhado os jogos do Fluminense no Brasileiro. Com exceção do segundo tempo contra o Sport, o time todo (inclusive os titulares contra o Santos) jogava com a cabeça em Marte, Júpiter, na Lua, ao lado de São Jorge ou não sei mais onde. Era um time desconcentrado e quase em festa. Ele não tinha muito o que fazer- e a entrevista que ele deu após a partida contra o time do litoral paulista foi a prova de que ali estava chegado um limite à magia do Fluminense.

E somente porque o futebol é cruel, dando e tirando a magia e a estrela com tamanha intensidade, é que Renato Portaluppi é o personagem da semana passada.

Todos sabíamos que a decisão da Libertadores da América seria dada em termos extrafutebolísticos, extraterrenos, e digo mais: extrafáticos. Sabíamos também que havia algo de especial no Fluminense que fulminou o São Paulo no apagar das luzes do Maracanã (após uma artilharia intensa durante parte do jogo) e que esmigalhou o Boca Juniors, que pareceu um time chileno ou equatoriano comum da Libertadores.

Veja bem, eu falei em time comum equatoriano. Quando falam em futebol no Equador, alguns riem, outros fazem piadas e há uma terceira fatia de pessoas que nega haver futebol no país, ou que se há, pertence ao Exército, ou ainda, que nem mesmo existe um país com o nome do meridiano. Estão todos errados e de uma forma retumbante, crassa, avassaladora, guerronesca, eu diria.

Esse time da LDU não foi considerado por ninguém. Eu mesmo dei por favas contadas o título tricolor. Até digo de novo que a Liga de Quito é mediana e não mais que isso. Os jogadores também contavam com a Taça e era possível ver o sorriso no rosto “pó-de-arroz”, mesmo quando perdia no Brasileiro. O recheio da bolacha estaria guardado para o 2 de julho. E os jogadores pareciam corretíssimos, dada a Estrela que alcançava o Flu. A questão foi ter encontrado os Brancos num dia da mais pura felicidade futebolística.

Foi com a ajuda dessa magia da bola que os equatorianos conseguiram, de uma bela maneira, a vitória de ontem/hoje.  Por isso, falemos do jogo, por ora, não em termos óbvios, pois todo mundo já viu e reviu e treviu o que aconteceu. Thiago Neves calou minha boca. O jogador apagado dos confrontos contra o São Paulo chegou ao ápice da possibilidade de um grande jogador da bola latino-americana, marcando 3 tentos na Final. Todavia, o problema do Fluminense foi a apatia e o nervosismo que tomou boa parte do time. E os defeitos, visíveis ao longo da campanha, mostraram-se claros: O time não tem meio-de-campo defensivo, resumindo-se o esquema tático a um defesa-ataque. A sobrecarga dada a boa zaga da equipe (um beque é excelente, o outro bom e identificado com a equipe) mostrou-se complicadíssima- o que, aliado à necessidade de marcar 2 (e logo após 5 minutos, 3) gols, tornou tudo mais grave.

Mas T. Neves explodiu as redes 3 vezes. E a última aos 12 da segunda etapa regular. Ou seja, foi possível vencer, mesmo com o descaro do juiz e de seus auxiliares no primeiro tempo (pelo segundo tempo, não tive a impressão de ter sido nada premeditado, uma vez que a LDU foi prejudicada. O chega pra lá que Branco deu no Sr. Baldassi, porém, mantém as suspeitas de que o rapaz age mais do que por incompetência própria, pelo total e doloso impudor de roubar, independente de que para que lado seja).

Pois, o time das Laranjeiras teve 30 (e depois mais 30) minutos para fazer um gol- não conseguiu. Ainda tomou calores da LDU, deixando arrepiadas as 80 mil almas que vibravam no Mário Filho. E, claro, era evidente que a partida era extratática, extratécnica, extrafutebolística. Um pouco porque na América do Sul a tática ainda é algo que se valoriza menos que o gol, o puro e simples gol (uma característica problemática, mas não necessariamente negativa) e a outra porque numa final de Libertadores, todos os espíritos rebeldes e profundos acompanham de perto o espetáculo- transformando pessoas, que em um dia cantavam de galo e no outro choravam feito crianças.

Falam-me de Cevallos. “Canalha! Fez cera! Cadê o juiz?” Vejam bem, o goleiro fez o que devia para conseguir a Taça, só agindo no limite da irresponsabilidade quando da cobrança de T. Neves (poderia ter sido expulso ali). No mais, a partida não pode ser explicada pela malandragem. Está claro que foi o futebol, em todos seus aspectos, e principalmente nos seus contra-aspectos que fez da Liga Deportiva de Quito a vencedora do 2, do 3 e do mês de julho.

PS: Ah, sim, o oba-oba. Não foram as declarações de Renato Portaluppi o sintoma de que algo trágico poderia acontecer, até porque o argentino que dirige a LDU também aparecia com um discurso entusiasmado às escâncaras.  Mais do que isso, foi a própria atitude (deveras compreensível, confesso) do time, que ao passar Boca e São Paulo, acreditou que o objetivo já estava alcançado. O comandante do escrete pode ter alguma responsabilidade, mas não é o culpado. O time é o que é e o que todas suas peças (incluindo massagista, roupeiro, macaco de auditório, mulher do dirigente) fazem dele.

Soube que um conhecido meu, assim terminado o Campeonato Europeu de Seleções, berrou a todos os cantos: “Os bascos danaram-se!”, “Adeus, Galiza”, “Chore, Catalunha!”. Naturalmente, o rapaz exagerava. Certamente não eram todos os habitantes de fora de Castela que vibravam com a vitória espanhola.

Paro e penso. A Espanha venceu. Repeti isso três vezes no domingo e cinqüenta vezes na segunda-feira, mas ainda não me dei conta totalmente. A Espanha venceu. Mais que isso. O escrete do Reino de Espanha jogou de forma incisiva nos três jogos fatais, não fraquejando em nenhum momento. Sim, amigos, isso é notável. Desde que nasci, o destino do selecionado espanhol era a derrota, e o que é pior, a derrota nas mais pitorescas circunstâncias, pela mais desagradável chacota futebolística. Eram bolas debaixo das pernas, juízes atacando de forma inusitada, cotoveladas e de quando em quando goleadas vexatórias, que mais do que eliminar, punham o time como alvo do escárnio geral. Nem a mais inocente alma acreditava na Espanha em competições internacionais. Todos sabiam que o time passaria. Todos sabiam que a Espanha perderia nas oitavas ou nas quartas.

E tudo mudou, porém. O time fez belíssimas atuações (com Fábregas no banco, cidadãos! Fábregas estava no banco!), ofensivas, com certa consistência defensiva (com Puyol e Sérgio Ramos na zaga, colegas!) e com um Marcos Senna inspiradíssimo. Sérgio Aragonés conseguiu aquilo que ninguém (eu sou um desses) acreditava fosse possível a ele alcançar. Sucumbiram helênicos, russos (por duas vezes, para desespero do mais rasputiniano dos espectadores), suecos, italianos e os pobres alemães, que possuem a esquadra mais ofensiva desde pelo menos 1994, mas andam sem sorte nos confrontos decisivos em que triunfaram nas décadas passadas.

Belo time, bela esquadra, ótimos Villa, Torres e companheiros, que fizeram, mesmo que por um tênue segundo, por um frágil e instável átimo, um Reino fragmentado parecer-se com uma Nação vitoriosa.

Mas não posso deixar de falar do restante da Eurocopa. Começo pela impressão que tive dos times. Simplesmente embasbacante a disposição dos jogadores. Falaram-me de um ou outro (especialmente os turcos) que saiam do jogo com ganas de guerra. Confesso, tive medo, que rompesse ali, a qualquer momento, mais uma Batalha em solo europeu. Acamalvam-me, contudo, as moças sorridentes, os senhores e senhoras de famílias acenando para a câmera de TV, todos contentes com os belíssimos espetáculos que viam. Mesmo os horríveis e pavorosos escretes da Áustria, Suíça e Grécia soavam interessantes ou ao menos comprometidos com a estética. Eram, pode-se dizer, renascentistas todos os que disputaram a competição. De todo modo, ainda estou curioso e nervoso: Por que os jogos da Eurocopa foram tão melhores que boa parte dos jogos de 2006? Não culpemos os não-europeus. Foram os times do Velho Mundo responsáveis por boa parte do desânimo e da apatia da Copa na Germânia. Então, o que explica? Fica a pergunta.

Falo ainda da Holanda, de quem não vi os jogos, com exceção da eliminação para a Rússia, time agradável e não surpreendente para quem acompanha a trajetória do, p.ex., Zenith, de São Petersburgo.

Não poderia a minha pessoa deixar de mencionar a belíssima e enfurecida Turquia, minha insatisfação de não ter assistido Alemanha X Portugal (agradeço ao trabalho por isso) e os meus risos com mais atuações ruins do time italiano. Um outro conhecido teima em dizer que o futebol italiano, em qualidade de jogadores, é comparável ao brasileiro, sendo o catenaccio o grande responsável pelo horror que o jogo da Azurra causa a nossas vistas. Estaria certo meu bom rapaz, caso não fosse a cultura, claro, algo de mais essencial do que qualquer propensão inata ao futebol. Afinal, de nada adianta meu dom de falar com extraterrestres, se eu não conheço um mísero marciano ou jupiterino.

Isso é assunto para outra hora, porém. Fiquemos com a lembrança dos bons momentos de ótimo futebol na Euro. Que sirva de exemplo para os próximos campeonatos.

Tenho pensado demais em Dunga. Posso dizer que não consegui escrever desde o Brasil vs Argentina e um dos motivos é o técnico do escrete. Digo escrete, e nem sei se posso chamar os 15, 20, 60 jogadores utilizados pelo capitão de 94 de um escrete na acepção mesma do termo. Vá lá, chamemos de escrete todo time que veste a Canarinha. Mas eu falava de minha insônia.

Perco noites e mais noites, madrugadas e mais madrugadas, inclusive essas juninas em que o quentão e o licor substituem qualquer ânimo desportista nas plagas nordestinas, pensando e refletindo acerca de Dunga. Lembro bem dos jogos da seleção: Dunga não é técnico, não entende de tática e como motivador é tão bom quanto um carrasco medieval, daqueles de fantasia,  era em garantir esperanças de vida a sua vítima. Lembro também que ele foi comentarista da Bandeirantes por um breve tempo. E que ele afirmou que o  Chile jogava de um jeito que não jogava (créditos a PVC, que naquele momento, libertou-se da prisão numerística, estatística, objetivista e eu quase dizia anti-futebolistíca para mostrar a relevância das informações concretas).

Sabemos, porém, que o futebol não é só tática, não é só técnica e não é só motivação. Há alguma coisa a mais, rondando as quatro linhas e foi esse algo a mais que garantiu a Copa América e algumas apresentações razoáveis do time de Dunga. Para não ser canalha, é preciso afirmar que Dunga acertou com Elano e Daniel Alves (mas para lembrar de Daniel Alves, é preciso lembrar que ele escala Maicon e Gilberto de titulares- o que anula seus acertos). E que a missão do treinador do Brasil hoje é inglória. Porque, sim, se Wagner Love e Afonso Alves não tem estirpe para encamparem a 9, hoje não existe a unanimidade. Assim como R. Gaúcho não ocupa mais nem o sonho dos leitores de seu gibi, o mesmo podendo-se falar de boa parte das onze camisetas. Sendo a tarefa hercúlea, está clara que nosso treinador não é grego, não é um César e não é um Asterix. Portanto, não lhe cabe a função entregue pelos donos da bola, ou melhor, pelo dono da CBF.

Porém, contudo, todavia, entretanto, eu venho sentindo-me cada vez mais solidário a Dunga. Até sua arrogância homicida e indiscreta pareceu-me mais simpática na última coletiva em Minas. Primeiro, pela palhaçada montada pelo governador das Penhas. Não pelos espetáculos musicais ou pela presença de Pelé, mas pelo metier político que ali se fazia. No entanto, convenhamos, não foi o primeiro e nem será o último político a se aproveitar do esporte bretão, nem aqui nem no estrangeiro. Aceitemos.

Mas a torcida mineira, que é sim a torcida brasileira, refletindo-a em altíssimo grau, aprontou-me uma daquelas, que realmente não me agrada. É até normal chamar o técnico de burro. Eu disse normal e acrescento: Em alguns momentos, é desejável, em outros, é imperativo. A discordância, o mau humor, muitas vezes são combustíveis necessários para o sucesso.

Já me senti irritado quando a massa começou a gritar “Adeus, Dunga”. Ora, o mineiro é um povo sabido e como tal, tem plena noção e consciência de que Dunga é um mero aparato. Dunga, na CBF, não tem condições de apertar um parafuso sem que seja vigiado e carimbado. Se tem (ou parece ter) autonomia em alguns momentos, isso deve-se muito ao descaso com que a Confederação Brasileira de Futebol parece tratar a seleção, tendo 2014 em vista somente. De qualquer forma, naquele jogo contra a Argentina (e na patuscada contra o Paraguai), mais do que Dunga, o ânimo da canarinha era o trato com que a CBF tratou a seleção- e como trata a organização do campeonato brasileiro. Fora e é , aliás, sintoma evidente, cabal e crucial de  como os dirigentes brasileiros tratam os clubes e a organização do futebol brasileiro.

Naquele momento, Dunga era tão culpado quanto uma formiga é por todo o incômodo que o formigueiro possa causar. E, no entanto, os mineiros queriam guilhotiná-lo. Tal como a principal emissora de TV do país agora entra em queda-de-braço aberta com o treinador, quando foi conivente e complacente com a tragicomédia de 2006.

Mas o mais chato de tudo aquilo (ok, menos chato do que o péssimo jogo, que dispensa comentários) foram os aplausos ao excelente Lionel Messi. Não pelos aplausos em si, mas pela interpretação que deles foi feita. O rapaz é um jogador excelente, verdade. Mas o que ele ali fazia para merecer os apupos e aplausos entusiásticos? É patético que boas pessoas da imprensa e da internet tenham encarado aquilo como ato de civilidade do torcedor. Não foi. Foi um gesto de provocação aos brasileiros.

Agora, por que disfarçar? É preciso ler os fatos de forma clara (o que não quer dizer de forma pálida). Ademais, o time da Argentina não jogou bem e eu posso dizer que os dois mereceram sair derrotados daquele jogo. Se Messi foi esforçado, houve figuras no Brasil que também foram. E não receberam aplausos.

Já peço perdão aos que vaiaram o Brasil e aplaudiram a Argentina ou Messi. Não me irrito com aquilo em si. É toda a situação e a leitura que me incomoda. E que as pessoas não consigam perceber que o problema maior desse time não é de nosso personagem da quinzena, que é sim um péssimo treinador, mas é uma formiga diante de tudo. E mesmo que o Brasil tivesse enfiado 6 no Paraguai e uma dúzia de gols na Argentina, tudo ainda estaria aborrecidamente irritante- tal qual um formigueiro eterno, a organização de nosso futebol.