junho 2008



Todos os meus três leitores são brasileiros. E, só porque todo brasileiro é íntimo um do outro, ousarei falar da Seleção. Sim, só na intimidade pátria podemos nos sentir a vontade o suficiente para falar de tamanha vergonha. Por mais que a infâmia seja de conhecimento mundial, o homem consegue ser velado o suficiente para só debater sua humilhação na alcova, cercado por dois ou três amigos, um familiar que não irá rir, mas compadecer-se e sofrer junto.

Vivesse eu na Inglaterra, fosse eu lido por colombianos, calaria de forma retumbante e partiria para o convívio social como se o ocorrido ontem no Paraguai não houvesse, de fato, ocorrido. Mas estou na Bahia e sejamos francos. Vamos nos auto-depreciar.

Não chegarei ao extremo de afirmar que este é o pior selecionado de todos os tempos. Durante os anos 90 e começo dos 00, houve momentos em que só a fé extrema nas roupas e nas armas de Jorge conseguiu dar esperanças ao povo brasileiro. Esse grupo, considerando os 22, é razoável. Claro: pode-se argumentar que os laterais titulares são fraquíssimos (com o que eu concordo), que Diego já teve chances demais (com o que eu concordo), que Josué, Mineiro e Gilberto Silva – que sequer se firmam como titulares em seus respectivos times – só merecem uma vaga de titular na cabeça delirante de Dunga (com o que, acima de tudo o mais, eu concordo), mas lá está muita gente pela qual o povo clama: Júlio Cesar, Juan, Lúcio (o povo; eu, não), Adriano, Pato, Anderson… Faz-se uma seleção razoável com tal material.

Mas uma Seleção não é um baba de recreio. O baba de recreio, vocês sabem, se escolhe no zerinho-ou-um e joga horrores, devastando tudo com tabelas, esquema tático perfeito, sincronia absoluta de movimentos. A Seleção, não – sobretudo porque não joga contra um baba de recreio (fator fundamental para que o adversário, na escola, soe como a Laranja Mecânica).

Tento evitar as frases sobre a inexperiência de Dunga. Tudo bem: o homem consegue armar um time que perde para a Venezuela, mas não nos esqueçamos que havia um time em campo e que Dunga (graças a deus) não jogou. Mas e como se negar a ver o ridículo que ele passou hoje em Assunção, durante o segundo tempo, no qual fez substituições de um desespero cômico? A Seleção está nas mãos, nos bolsos e nos pés errados. Crucificar Dunga, sozinho, não dá jeito – embora pareça ser o passo seguinte, visto que até o Galvão já tomou sua posição contrária ao técnico. É preciso que um dilúvio purifique a CBF.

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O bom homem do interior antigo tinha especial respeito, um temor reverencial mesmo, deferência absoluta ao Profeta. Todavia, o Profeta era uma figura típica de tempos remotos e hoje em dia aquele que vê o futuro, o antevisor, é visto com um descaso e um escárnio digno dos piores marginais da história da humanidade. É considerado um Átila, um Gêngis Khan, ou pior, um vilão de história em quadrinhos.

Vejamos o caso de Carlinhos Bala, que é nosso personagem da semana, inclusive. O rapaz disse com toda a sabedoria que lhe é peculiar e com todas as letras do alfabeto: “Seremos campeões. Enilton fez o gol do título. Eu falei com Deus e tenho certeza”.

Minha primeira reação foi a típica dos piores canalhas- e eu sou bem magro, podem acreditar. Eu tratei a afirmação de Carlinhos Bala com desprezo, muito embora eu torcesse com forças e corações maiores que o mundo para que o pequeno Carlos estivesse correto. No entanto, sua audácia me incomodava. “Falar com Deus? Ora, mas ele não tem barba, nem é do Oriente Médio, como poderia?”

Sim, amigos, o desprezo, o escárnio, a ironia trombeteante é o sintoma medíocre dos nossos tempos. Hoje, o mais vagabundo dos cachorros detém um arsenal de tiradas sarcásticas, de sorrisos cínicos, que conquistam qualquer platéia. Hoje não há mais espaço para a seriedade, para alguém que acredite em si mesmo. Carlinhos cria em si e seus companheiros- e por isso, terminou feliz.

No jogo da última quarta-feira, a festa estava preparada para os paulistanos. Quer dizer, a televisão preparara a festa e mostrava um Parque São Jorge repleto de corinthianos, e pôs até um microfone de modo constrangedor nos 1000 entusiastas do Corinthians, de modo que iludia os pobres espectadores que assistíamos ao jogo, dando a impressão de que a torcida do Sport não fazia tanto barulho assim.

Mano Menezes, esse gênio tático de nossos tempos (ou seja, um treinador mediano, razoável, burocrático) armou o Corinthians como se fosse enfrentar um Mirassol e jogasse pelo empate com um humilde time do interior de São Paulo. Era indisfarçável que o Corinthians já se considerava campeão, e mais uma vez demonstrava-se irritado, ou em outros termos, avexado, com esse fardo que é se desgastar por mais 90 minutos para se asseverar a óbvia e já decantada vitória.

Pois se o Sport Club do Recife não fazia um bom papel e não agredia o alvinegro paulistano, este fazia ruborescer o mais roxo de seus adeptos. Um jogo insosso, anódino, parente próximo do chuchu sem tempero achava que levaria o título desse modo, num banho-maria torpe.

E então o nosso Profeta, o homem que fala línguas diferentes, achou uma brecha, uma verdadeira rodovia na zaga adversária, penetrou-a com uma arrancada digna de seu nome e estufou as redes da Ilha. Um a zero.

O abatimento corinthiano foi total. Por um instante, os alvinegros derem-se conta do espetáculo vexatório que encenavam. Envergonharam-se  e deles para eles, somente pensavam: “Que horror, que horror”. Enquanto pensavam, os auri-rubro-negros aproveitaram e sacolejaram as redes mais uma vez. A essa altura, Enilton, um profeta menor e de grande importância, já havia entrado em campo, numa substituição bem feita de Nelsinho Baptista (compensando, de certo modo, seu erro do início da partida).

Dois a zero. Aliás, o narrador do canal que eu assistia o jogo demorou cerca de 100 horas para anunciar o segundo gol. E senti vergonha de toda a situação, até pelo time paulista. O Corinthians, assim como seu primo, Flamengo, sofre de um defeito terrível. Apesar de sua enorme torcida, e até mesmo por causa dela, não consegue ter sua imagem arranhada, sem desabar. É o tipo de esquadra que tem que jogar o tempo todo com uma confiança extraordinária, que ultrapassa mesmo os limites da realidade. Quando esses times quixotescos deparam-se com a realidade, inglória e absurda em alguns momentos, dura e rochosa a todo o tempo, a catedral rui como se fosse uma choupana pré-cambriana.

E assim o time de Mano Menezes caiu, medíocre e neandertálico. As expulsões nervosíssimas, e mesmo algumas chances de gol surgidas (a de Acosta, por exemplo) serviram apenas para sacramentar a atitude derrotada de um time que entrou não para conquistar um título, nem mesmo para empatar, mas simplesmente para não perder- ao contrário do Sport, que ainda limitado, em toda a Copa do Brasil jogou em seus domínios como se fosse o realmente o Rei da Selva que é seu mascote.

E sabemos, colegas, que quem entra para não perder já abdicou de conquistar qualquer coisa. E a bola, essa pantera, ela sempre pune.

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Só não pune e nem pode punir aqueles que mesmo por um átimo falam com o Superior. Esses alcançam as glórias.

Vejam bem, amigos, que tempos cachorros são os nossos. Nos tempos de um Júlio César, de um Constantino  e mesmo nos tempos de um Guilherme de Orange, o sortudo era um iluminado. Por outra, ter sorte era melhor e mais recompensado do que ser competente, do que ter um harém ou ter a dentição completa antes da disseminação do bicarbonato de sódio e do flúor. Alguém de sorte passava pelos mercados e era cumprimentado, reverenciado, era, enfim um Bom. Hoje, a sorte é mal vista, na verdade, é realmente invejada, e se você, incauto e romano, qualifica alguém de sortudo, não passa o minuto seguinte sem ter em si pespegada a pecha de invejoso, canalha ou debilóide.

O Fluminense mesmo. É o time mais sortudo do Brasil hoje. Eu diria do mundo. Não digo da galáxia, porque não consigo captar a existência de inteligências nos confins do universo, mas é possível dizer que o Fluminense hoje tem tanta sorte quanto um velhinho contumaz vencedor de loterias.

No jogo de ontem, o time do Rio fazia medíocre exibição, dominado por um Boca Juniors senhor de si e que, embora com uma defesa ruim e com um goleiro propriamente medonho, nem sequer havia sido realmente ameaçado pelo mandante de um espetáculo que contava com 85 mil almas vivas.  Reparem que o dito craque do time, o Senhor Juan Roman Riquelme, não fez uma partida digna de prova final. Seria reprovado em qualquer escolinha de futebol da Prata com o futebol que deu ontem. Exagero, naturalmente, uma vez que o rapaz sempre acerta alguns passes notáveis, mas ainda assim o exagero parece-me mui aceitável. Se é um craque que me prometem, é um craque que pretendo ver em campo, e sem constipação intestinal. Um craque precisa, além de tudo o mais, todo o mérito, precisa de Estrela. Riquelme nem sempre a tem (e olhe que somente o tem com a camisa xeneize).

Pois então, o Fluminense era alvejado, era um time sem meio de campo, com um dito craque que só o é na cobrança de bolas paradas, tendo seu melhor jogador num pequeno argentino e num grandalhão desengoçado, pero goleador, batalhador (eu dizia em outro momento  o rapaz ser um proletário da bola) e acima de tudo: Estrelado.

Quando Palermo meteu o primeiro, todos pensaram: “Já deu. Acabou. Sem meio de campo e com Dodô em campo não dá”. Momento seguinte, Dodô (correndo de forma irreconhecível) sofre a falta. E o rapaz do parágrafo anterior, o Coração Valente, espanca as redes com uma boa cobrança de falta. (Não falemos do guarda-redes argentino. Preservemos sua dor).

Pensei: É a Estrela. Sem ela, dizia o Mestre, é impossível até atravessar a rua sem ser atropelado por uma carrocinha de picolé. Eu acrescento que há competentes que, não estrelados, não conseguem sair de casa, numa loucura pânica, num medo irracional do que possa acontecer. Isso não acomete o mais inpeto, o mais troglodita, o mais insultante dos Estrelados. E Washington é um estrelado com boa dose de competência. Assim como é Renato Gaúcho, que mais uma vez perdeu o meio de campo em casa e mais uma vez conseguiu vencer de maneira que não podemos falar outra coisa que não dar-lhe os parabéns.

A bola desviada do segundo gol só confirma a tese da Estrela. O último gol já no desespero não confirma, nem ratifica nada, só o riso esplendoroso e merecido dos que compareceram ao Maracanã, ainda que por meio de um aparelho televisivo, guiados por comentaristas sobrenaturais, que a tudo, menos ao jogo, parecem enxergar.

Desta feita, provou o Boca Juniors do mal que tanto fez aos outros: tomar não sei quantos ataques, amortizá-los e transformar tudo em força para vitórias inacreditáveis, soberanas. A soberania agora não esteve ao lado dos portenhos

Restam os universitários de Quito. As chances tricolores de desfraldar sua bandeira no topo das Américas são enormes. Do tamanho das constelações que abençoam o Pó-de-Arroz. Com a Estrela que o Fluminense encampa neste momento, é possível escalar o  Everest  correndo despido e voltar com a maior das Saúdes, disposto a um novo desafio.

E eu só posso dizer que invejo positivamente, ou melhor, admiro mesmo e até consagro quem possui tal atributo.

Estamos na quarta rodada. Melhor, passamos a quarta rodada, e ninguém, nem uma mísera alma penada comenta sobre os jogos. É até patético o modo como o Campeonato Brasileiro deste Ano da Graça de 2008 se desenrola aos olhos de toda a Nação. Até agora nem um mísero traço digno de nota nos campos deste país. Por outra: Até agora, o campeonato realmente não começou e estamos todos torcendo para o Sport (como o QueméaBola?) ou Corinthians, na Copa do Brasil, nossa Copinha ou pelo Fluminense ou Boca Juniors na Libertadores da América, que são os verdadeiros campeonatos brasileiros deste meio de ano.

Naturalmente, a CBF parece pouco interessada em relação a esse marasmo. Afinal, o grande interesse da mequetrefe Confederação (e de seus asseclas ao redor dos Estados, as Federações) é vender amistosos Mundo afora (leia-se Eua, Europa, Arábias ou qualquer lugar que ofereça dinheiro e jogos terríveis de monte) e tratar dos negócios de 2014. Enfim, nem cabe mais falar da CBF, falemos do campeonato.

Ora, mas é impossível falar deste campeonato sem falar da cebêefe. Tentemos. A quantidade de mudanças de técnicos, a recentíssima venda de Marcelo Moreno para a Ucrânia, o patético de times que foram tratados por jornalistas (os bons, diga-se) como sensação e que agora demonstram não passar de arremedos de clubes, tudo isso contribui para a impressão generalizada de que tudo está perdido.

Calma, amigos, eu vos peço. Ok, Santos e São Paulo doeu em nossos olhos. O Fluminense ainda não leva o campeonato a sério (e o Segundo Turno é o que importa, dizem). Grêmio e Vasco fazem partida de um nível de série Y. Mas tenhamos calma.

É importante dizer certas coisas, para além da CBF: ainda que o calendário brasileiro seja muito ruim (e é), e que, conquanto seja uma insanidade não explorar o produto para a televisão de forma mais rentável, muito dos problemas, técnicos, táticos, antropológicos e metafísicos do nosso futebol deve-se aos próprios clubes. São eles que não valorizam o espetáculo, que anuem com o calendário, a tevê, alguns campos de futebol lamentáveis, entre outras coisas.

Não é de se desesperar, todavia. Há muito a fazer e hoje depende muito mais dos clubes do que da Confederação ou das Federações de Futebol. Então, meu caro, tenha esperança.

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Preciso comentar o entrevero entre Náutico e Botafogo. E o farei de forma simples: Ridículo por parte da polícia, que se supera a cada dia em cada Estado deste país. Estranho por parte da torcida, que num arroubo de moralidade, indignou-se com dedos médios fálicos em riste. Lamentável por parte do jogador, André Luís, tresloucado, desesperado em campo (No episódio policial, sua reação foi, certo modo, compreensível).

E, sim, Bebeto de Freitas me pareceu digno. Preferiu responder por ora o processo. Ainda que desista disso logo amanhã, gostei do seu ato, quixotesco como sua figura, que acaba produzindo declarações nem sempre felizes, mesmo quando correta. No entanto, penso que precisamos de uns 20 Bebetos de Freitas na série A. Só assim teremos um Campeonato Brasileiro que não seja caso de polícia.