Essa partida, reverberada pelas anedotas, epopéias e narrativas jornalísticas, ecoará através dos séculos. Muitas teorias serão engendradas – muitos mitos erguidos e destruídos. Aquilo que permanecerá incólume, contudo, será o placar – patético, exemplar, quase inacreditável. O América, em pleno Maracanã repleto de rubro-negros, eliminou o Flamengo com silenciosos três tentos.

Eu, naturalmente, fui um dos que cri impossível a derrota flamenga. Por tudo aquilo que já sabemos: histórico, camisa, momento. Mas, no início da transmissão da Globo, tudo cheirava a fiasco. Fiasco que se viesse, imaginei, seria o maior da história rubro-negra. A figura ostensiva de Márcio Braga procurando sair nas fotos e a presença grosseira de Kleber Leite no gramado fazem com que tudo perca a condição de tragédia e assuma um ar grotesco e cômico. Além disso, houve as imagens de líderes de torcidas organizadas presenteando um Joel falsamente constrangido. Luis Roberto prometendo a visita de Caio Jr. durante o intervalo. Mas, sobretudo, houve Fábio Luciano e Cristian fora da escalação titular.

Ouvi poucos comentários de especialistas, até o momento. Mas todos foram unânimes em apontar a soberba do time carioca. Não tenho audácia de contrariá-los. Até porque, confessemos, os especialistas acertaram dessa vez: o Flamengo jamais desceu do salto até tomar o terceiro gol e confrontar-se com verdades ingratas – a de que não é imensamente maior do que o América, a de que não é a mais poderosa camisa do mundo e, sobretudo, a de que, ainda que fosse tudo isso, não ganharia nem do Fluminense de Feira sem suar um pouco. Ou sem calibrar o pé – o que quer dizer o mesmo que “ou com o Souza”.

Não sou tolo de me estender em comentários futebolísticos num caso desses. Quem viu sabe o que aconteceu – caminhão de gols perdidos, certa competência e infinita sorte do América. E só. Merece análise, por outro lado, a soberba flamenga: após cerca de 15 anos de derrotas, o Flamengo formou um bom time e, pronto, passou a enxergar-se como imbatível. Via-se isso no semblante do diretor e do presidente – figuras que estiveram profundamente ligadas à crise e à decadência do clube, mas que agarraram-se aos sucessos recentes com uma intenção patética de apagar um passado inesquecível – e, hoje, naufragaram de forma bizarra, no maior vexame protagonizado pelo clube numa partida realizada no Maracanã.

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