maio 2008


Ainda não me recuperei. Aos 47 do segundo tempo, é marcada uma falta na boca da meia-lua. Axel pula na barreira, a bola passa entre suas pernas (ou um pouco abaixo, isso não é relevante) e o Cruzeiro marca o gol do título da Copa do Brasil. Até o segundo passado, o São Paulo era campeão- e agora estava tudo acabado. Eram os idos do Ano Dois Mil. E até hoje não me recuperei.

Os anos passaram, alguns títulos, outras derrotas, mas a mancha persiste na cabeça dos são-paulinos. Neste 2008, quem acompanha nossas elocubrações sobre a Bola e o Mundo sabe que temos um juízo complicado sobre o São Paulo de 2008. Foram jogos chatos, jogos enervantes, jogos verdadeiramente cardíacos e pouquíssimos jogos efetivamente futebolísiticos. Podemos dizer que o São Paulo conseguiu uns 5 jogos de futebol no ano. Uns dois contra o Palmeiras, um contra o Nacional e os dois de agora contra o Fluminense.

Renato Gaúcho começou de forma inteligente o duelo do Maracanã, atazanando a defesa paulistana com jogadas rápidas e vindas de trás. O excelente Conca e o mediano Thiago Neves esmigalhavam o time do Morumbi. O verdadeiro massacre (similar ao perpetrado pelo São Paulo no Morumbi) terminou com o destino óbvio- A meta. De uma forma meio esquisita, Washington marcava 1 a 0. O Fluminense fez um bom primeiro tempo, mais tarde equilibrado,  mas não tinha conseguido ampliar a vantagem.

Pois a segunda etapa não se mostrava tão promissora para o time do Rio. Renato Gaúcho ousou e errou de forma flagrante, ao tirar Arouca e pôr Dodô, perdendo o meio de campo e tornando muito mais complicada a missão do excelente Thiago Silva, ao passo que Muricy Ramalho foi preciso ao trocar o inoperante Jancarlos por Joílson e ao trocar outro inoperante Dagoberto por Aloísio. A participação deste último foi um show à parte e motivo de orgulho para os são-paulinos seria, não fossem as trágicas circunstâncias da partida.

O empate são-paulino, o gol esquisito de Dodô, o terceiro gol do Fluminense aos 47 da segunda etapa, a magia que estava implícita e inerente a tudo isso. Não preciso contar mais nada a vocês, irmãos leitores, nada que não vá ampliar minha dor de cabeça que desde a madrugada de quinta-feira compartilhei com todos os vermelho, branco e pretos do Brasil. É preciso dizer, porém, que o maior erro daquela noite foi o deslumbre e a impaciência do São Paulo que não soube matar o Fluminense no meio de campo, quando conseguiu o empate. Dificilmente os cariocas teriam forças com 15 minutos para o fim em buscar dois gols.

Isso, no entanto, é desespero de derrotado e de nada vale. Parabéns aos pó-de-arroz, parabéns ao meu pai, a Washington e sua iluminação inequívoca (que, claro, têm sim chances de passar o Boca Juniors) e que meu time tenha sorte melhor na próxima.

A última : Se a diretoria do São Paulo despedir Muricy, merece ser destituída, tal qual um rei bárbaro do século XIII.

É verdade que todos sabemos que o campeão da Europa é o Arsenal. Assim como é verdade que sabemos que o melhor futebol da temporada européia foi do Arsenal e que o elenco dos atiradores não é tão pior que o do Manchester United (é isso ou considerar Park Ji-Sung uma excelente opção de elenco). Certo, sabemos disso tudo, mas sabemos também que a zaga e a inexperiência do Arsenal subverteram a realidade, a ponto de o Manchester United ter levado todas as glórias acima citadas. Mas, divago.

Evidente que como brasileiro que sou, jamais posso ter em meu sangue a torcida apriorística por times que não agridam constantemente. E, claro, nutri certa simpatia pelo United nesta temporada. Todavia, confesso que torci pelo Chelsea na final da quarta-feira.

Primeiro, por algum pedaço da imprensa, que na sua cruzada mezzo moralista, ataca o russo dono do Chelsea e seus suspeitos milhões bilhões de libras, rublos, euros e chocolates suíços, opondo, de um lado a tradição dos diabos vermelhos ao deslumbro novo-rico dos moscovita-londrinos.

Como o Queméabola? já demonstrou- e ainda insiste- tradição em Inglaterra trata-se de pré-condição de existência. Por outra, na Inglaterra, quem não tem tradição, não se estabelece. Ou ainda: alguém que repudie a tradição na Inglaterra toma tapas e pescoções da Rainha ela mesma.

Que o dinheiro que transborda no Tâmisa é complicado, todos estamos carecas de saber. Só retiramos nosso próprio escalpo, porém, é quando não se percebe que as mudanças no futebol da rainha ultrapassam a simples observação sobre a casta de milionários que foi tomando o esporte.

Já observamos o caso de Manchester, mas vale relembrar a revolta de uns torcedores quando da compra das ações do time pelos americanos. Sim, amigos, os ianques compraram o United, que já é uma empresa há um bom tempo. É essa empresa, que ganhou 10 títulos em 16 Premieres League disputadas, que supostamente representaria a suposta essência, a magia do futebol que não seria só o time comandado pelo ter. Pode rir, eu espero.

Eu ainda torci pelo Chelsea por Avram Grant, o improvável. Motivo de chacota, desdenhado pelos jogadores, o rapaz nem sequer treinava o Chelsea. E, no entanto, comprovando o improvável do futebol, chegou às finais da LC. Sim, camaradas, ele só não ganhou o maior título europeu por um escorregão.

De outra mão, havia ainda Fergunson, com a arrogância que não se ajustava aos fatos. Enquanto o time se batia para derrotar um Barcelona ridículo, Fergunson sorria. Enquanto o Chelsea tinha tirado toda a diferença para o United (e sim, era um Chelsea sem técnico, era um Chelsea sem tática, era um Chelsea que jogava pela inércia e com uma vontade curiosa), Fergunson gargalhava os títulos que, é verdade, acabou conquistando- mas esteve perto de perder.

E havia Cristiano Ronaldo, que não mostrou ser o jogador decisivo que o melhor do mundo deve ser. O pênalti cobrado por ele na quarta só comprova que a máscara ainda o impede de desenvolver o melhor potencial. O pênalti estragou sua razoável partida (especialmente no primeiro tempo, já que na última etapa, o Manchester mostrou desmerecer qualquer título esse ano) e pôs uma mancha no currículo de melhor do mundo.

No entanto, a crueldade do mundo permitiu que Terry escorregasse de uma maneira tétrica. E que Belleti só entrasse para bater pênalti, num erro crasso do israelita- ora, somente Belleti pode ser fatal numa partida de Liga dos Campeões nas circunstâncias do jogo. O israelense ainda permitiu que Anelka (sim, Anelka, eu tinha esquecido desse rapaz) decidisse o futuro do Chelsea.

Pensando bem, e esquecendo toda a imprensa, todo o Fergunson, o Ronaldo e tudo o mais, não havia condições de o Chelsea ganhar. Não pelo russo, não por uma palpável lavanderia de dinheiro londrina, não pela mal entendida influência do dinheiro no futebol.

O Chelsea tinha depositado todas suas esperanças em Anelka. Isto sim a bola não pôde perdoar.

Há quem consiga acompanhar uma partida sem torcer para nenhum time. São os cadáveres adiados. Impotentes de sentimento, passam ao largo dos turbilhões emocionais que qualquer apaixonado pela pelota experimenta diante do futebol – e, veja bem, não falamos de Copa do Mundo, de clássico: nenhum de nós passa imune à mais ordinária pelada.

O nosso subdesenvolvimento ou a nossa fundamentação cristã nos faz ter simpatia, quase sempre, pelo clube de menor estatura ou aquele que vive um momento mais duro. Tendemos a sentir uma monotonia milenar no clube vencedor – o futebolista acostumado à vitória nos parece carregar um tédio de seis séculos sobre os ombros.

Na final da Liga dos Campeões, contudo, essa lógica foi subvertida. O time pequeno, até pouco tempo atrás inexpressivo e relegado ao segundo escalão da Inglaterra e terceiro ou quarto da Europa, o Chelsea, tornou-se símbolo do que os apaixonados mais detestam no futebol moderno: a ostentação, a voz poderosa da grana, a ausência de tradições sólidas e erguidas desde a lama.

Já me manifestei, aqui mesmo, a respeito dessa tendência a desconsiderar camisas. Nenhum clube tem mais de 100 anos impunemente. Aliás, para passar a dura barreira de um século há que se ter algo de forte – seja a beleza ou a hediondez: não é por acaso que raríssimas pessoas têm esse privilégio. E o Chelsea foi fundado em 1905.

A súbita injeção de dinheiro no clube fez com que nos posicionássemos quase todos contra ele. E assim o foi na quarta-feira. Para além disso, considerou-se que torcer para o Manchester seria torcer para o futebol. Isso, justificam-se, pelo fato do clube de Ferguson praticar um jogo mais ofensivo e teoricamente de melhor qualidade. Tolices: o Chelsea tem qualidade comparável e, apesar de ter passado por situações complicadas no meio da temporada, como a troca de treinador e a liberação de um caminhão de jogadores para a Copa Africana de Nações, conseguiu terminar a Premier apenas dois pontos atrás do mágico Manchester. Com um meio-campo conduzido discretamente por Lampard e um ataque encabeçado por um Drogba não tão brilhante quanto nas temporadas anteriores, mas ainda assim decisivo, o Chelsea pode ser tranquilamente equiparado ao Manchester em qualidade futebolística.

O outro argumento seria o fato do Red Devils ter uma tradição, coisa que o Chelsea supostamente não possui – e, portanto, todo o seu prestígio recente está diretamente relacionado ao poder da grana de Abramovich. Mas e de onde vem todo o prestígio também recente do Manchester? Não pretendo dar uma de estatístico ou de idiota da objetividade, mas o clube passou mais de duas décadas sem conseguir um único título no Campeonato Inglês (de 1967 até 1993), voltando a conquistá-lo justamente quando conseguiu profissionalizar e capitalizar a sua tradição local, espalhando-a pelo planeta com uma força midiática impressionante. Desde 93, venceu o maior campeonato do país mais 10 vezes (desde o seu primeiro título, na temporada 1907/1908, até o início do jejum em 66/67, o clube vencera 7).

Há muito mais a se considerar nessa discussão. A nossa visão é sempre curta e a memória sempre escassa: em cerca de dez anos, o Manchester tornou-se unanimidade em certos aspectos. Nessa questão de tempo, o investimento e a propaganda do Chelsea são muito mais recentes e, portanto, ainda são atacados, ainda não foram totalmente digeridos. A verdade é que tanto a ascensão do Manchester quanto a provável estratificação do Chelsea como um grande clube no futuro dizem muito sobre o quanto os mecanismos e as tradições do futebol ainda podem ser maleáveis na Inglaterra e, ao contrário, o quanto isso é impossível de acontecer no Brasil.

E o que dizer da partida de quarta-feira? As análises táticas e técnicas já jorraram e todos já conhecem cada minuto passado em campo. Difícil acrescentar algo a esse respeito. O Chelsea apático do primeiro tempo transformou-se no grande time do segundo. A trave foi salvadora para o Manchester. Cristiano Ronaldo brilhava sozinho no ataque do time vermelho – Tevez e Rooney ofuscados. Goleiros fundamentais. Os gols: Ronaldo certeiro e a jogada sobrenatural que resultou no gol de Lampard (jogada que começou lenta e, subitamente, alcançou velocidade assustadora até a finalização).

Dos pênaltis, nada há que se comentar. Num esporte essencialmente injusto, a decisão por pênaltis beira a insânia – nada mais ingrato, estafante e arbitrário. Mas foi justamente nesse final que tudo alcançou níveis épicos: ao perderem as suas cobranças, Ronaldo e Terry personificavam a trágica condição humana. Exagero e explico-me – Aristóteles escreveu qualquer coisa sobre o fato de não importar idéias ou sentimentos: o destino do homem está condicionado apenas às suas ações. Ronaldo fora brilhante durante toda a temporada, mas que importaria se fosse sua a responsabilidade pela derrota final? Terry, líder e um dos grandes zagueiros do mundo, conseguiu ofuscar até mesmo o erro derradeiro e fatal de Anelka – que não possuía a grandeza de Terry e nem escorregou.

Escorregar foi fundamental. Toda a tragédia humana resume-se a isso: a grama molhada, o pé entortando, a bola espalhando a chuva e indo parar na arquibancada.

O profissionalismo é regra deste QueméaBola?, e é justamente por essa razão, é que é preciso ignorar o começo de Brasileirão com a maior cara de meio de temporada, sob pena de ferir você, raro leitor, ou mesmo ferir as nossas próprias vistas.

Muricy Ramalho foi criticado aqui e elogiado acolá por mandar seus reservas (e no caso do time são-paulino, reserva significa juvenis em alguns casos) a Arena da Baixada. Parece que um pitoresco dirigente falou alguma coisa próxima a “se é para perder, que percamos com os reservas”. Pois não é que o São Paulo reserva surpreendeu a todos, inclusive a mim, que esperava um 0 a 2, com tranqüilidade para o Atlético do Paraná?

É verdade que o goleiro Bosco falhou de forma abissal, o que é justificável a se considerar que ele não joga há meses (e que ano passado deve ter jogado, no máximo, oito partidas) e é verdade que os garotos algumas vezes falhavam. Mas até aí, no Paulista o time falhava bastante e sem rapazes de 17 anos para servir de bode expiatório.

E, no entanto, os meninotes comportaram-se como se estivessem prontos a calar qualquer doidivanas que questionava a economia de titulares para a Batalha do Maracanã. O São Paulo Jr. ( e curiosamente dois dos mais experientes na partida eram Junior- numa interessante atuação- e Juninho) enfrentou o Atlético na Baixada, como se fosse ele mesmo o time titular. Mais: Vi jogadas com a bola no chão que os titulares ainda não fizeram neste 2008.

Demorou demais o gol, porém, só saindo faltando 10 minutos para a etapa final. Joilson e Juninho fizeram uma boa partida, apesar de que o último insiste em carrinhos na área e em carrinhos frontais que a malícia de um beque de 13 anos já o impede de fazer. Afora isso, o Atlético conseguiu bons ataques empurrado por sua torcida (que detesta o São Paulo) e também teve a chance de marcar.

Um bom jogo para um torneio Início ou amistoso. Oxalá que o campeonato engrene.


Nunca se chorou tanto no futebol brasileiro. Desde que General Severiano começou a verter águas, o choro tornou-se tema central das conversas ludopédicas nos trópicos. Goleadores comemoram ironizando o choro alheio ou as acusações contra eles mesmos. Quem tripudia diante da tristeza alheia durante o fim de semana, como fez o Flamengo, sai de campo aos prantos na quarta-feira.

Dentre todos os sentimentos, o choro mais contundente, contudo, foi o de Denilson. Durante a coletiva após o embate do Palmeiras contra o Internacional, no qual o referido atacante marcou um gol importante, pudemos observar a emoção do homem que se diz agora realizado. Assistir o pranto alheio é um gesto quase obsceno: ver um marmanjo chorar é mais ou menos como vê-lo em seus afazeres mais condenáveis, aqueles que ele realiza na mais profunda e íntima alcova.

E lá estava Denilson, babando. Ninguém chora bonito: os espasmos transformam tudo num ritual tétrico. Mas lá estava Denilson, tremendo. Lembro que, em 2006, vi uma entrevista sua e, a certa altura, ele disse que ainda iria à Copa – naquela ocasião era eu, era o Brasil que tremia e babava, mas rindo. Era óbvia a sandice: Denilson jamais fora nada, absolutamente nada além de uma frase de Galvão:

Pra dentro deles, Denilson!

E Denilson era isso: uma frase. Fosse Ricardinho ou Kleberson num arroubo de individualismo e insuspeita habilidade, Galvão gritaria a mesma frase

Pra dentro deles, Denilson!

E lá ia o Brasil, sem saber quem era Denilson. No máximo, achava que era uma figura do futebol amador que se transformara em sinônimo de jogador impetuoso – era, para a habilidade, o que Moderato é para a raça e Carlos Alberto para a anedota clubística do Fluminense. Era muito provável que, com os avanços tecnológicos, descobríssemos que aquela figura acossada pelos turcos não era Denilson. E só agora, quando Denilson tornou-se, como diria Nelson Rodrigues, o anti-Denilson, ele nasceu – e nasceu, como todo mundo, chorando. Diria um fanfarrão com ares de Shakespeare que ele chorou ao nascer por adentrar o hediondo mundo que é o Palestra e ver Luxemburgo ao seu lado.

Mas Denilson, de frase, passa a jogador e pode passar a exemplo – para dezenas de jovens cheios de brilhantismo técnico e obscurantismo tático e humanístico. Para ficar num nome conhecido e reconhecido, que o siga Robinho – que, ainda hoje, tantos anos após seu surgimento, periga estratificar-se também como frase

Pedala, Robinho!

Mas já se percebe a tentativa de se tornar um futebolista do Real Madrid. Na seleção, contudo, ele ainda apresenta espasmos de frase – Robinho ainda procura ser não um soneto de Vinícius, mas um grito de Galvão e de humoristas nacionais. Ainda não vimos o choro de Robinho, mas ele, sem dúvidas, precisa passar por essa provação que é o pranto público e escancarado, diante dos microfones e das câmeras.

É Denilson, o responsável pelo choro mais exemplar e louvável das gramas auriverdes, o nosso merecido personagem da semana.

Sport x Vitória

Alguns falaram de clássico nordestino. Bobagem. O único clássico que o Vitória joga é contra o Bahia. Não se pode banalizar algo tão especial quanto um derby. Portanto, tenhamos respeito e consideremos o jogo como se fosse um jogo qualquer. Ou nem tanto: foi um jogo entre o semi-finalista da Copa do Brasil e surpreendente Sport e o previamente rebaixado Vitória – os dois campeões nos estados de futebol mais forte do Nordeste.

Pode-se dizer que o Sport dominou a primeira etapa e que o Vitória se safou por conta do goleiro Viáfara. Claro, isso é verdade – mas não significa absolutamente nada: se o Sport foi incapaz de converter um mísero gol, isso depõe tanto a favor de Viáfara quanto contra Bala, Romerito e os outros que arriscaram chutes e cabeçadas ao gol.

É verdade também que o Vitória soube crescer na segunda etapa e mostrar que todos, inclusive eu, talvez tenham sido precipitados em decretar um rebaixamento sumário na primeira rodada: o time mostrou consistência na defesa (coisa que não existia até o último jogo e que, justamente por isso, não pode ser considerada como definitiva) e um ataque levemente insinuante (sobretudo por conta de Marquinhos, rapaz veloz, habilidoso, mas que não sabe chutar a gol). Todo o problema, veja você, se concentrou no ancião meio de campo com Ramon e Jackson. Aliás, não se pode ignorar a responsabilidade de Mancini no crescimento do time – difícil é deixar o homem trabalhar, já que nas místicas e sensuais terras de Bahia técnico cai tanto quanto cacau atacado pela vassoura de bruxa. 

Para o Vitória, o resultado pode soar pequeno por conta da derrota na rodada passada, mas que não se distorça: o empate fora de casa, num momento em que o adversário estaria supostamente embaladíssimo pelo desempenho na competição paralela, foi realmente louvável.

América x Bahia


A certa altura do primeiro tempo, o jogo parou. Tentando entender o motivo, considerei todas as possibilidades possíveis: alguém se machucara, uma batida de cabeças, uma substituição ou expulsão sendo ignoradas pelas câmeras, invasão de campo de algum desesperado com o futebol que se jogava. Aqui parou minha capacidade imaginativa – ela não concebia um buraco de vinte centímetros no gramado.

Tenho sérios problemas com jogos em gramados ruins. Sou tomado por uma angústia hamletiana quando percebo a bola saltitando num toque leve e rasteiro. Qualquer lírico da bola sabe que a grama lisa, ainda orvalhada, é primordial para a prática do bom futebol – não se pode fazer grande coisa num terreno acidentado: jogar no Machadão, pelo que vimos hoje, é o mesmo que bater um baba na ladeira. Precisamos de gramados de sonetos.

Ah, sim, esqueço-me de quem jogava: o Bahia vencia o América de Natal num jogo desinteressante e recheado de momentos grotescos. O time potiguar dá sinais claros de que só pretende aparar a queda já na terceira divisão – já perdeu duas e nem é por isso. O problema é que o time é realmente muito ruim, talvez pior do que o inesquecível escrete de 2007. O tricolor, por sua vez, pode não estar numa situação tão escabrosa e irreversível, mas já deixou bem claro que não tem time suficiente para subir – sem dúvidas fica atrás de Corinthians e Ponte Preta (os únicos que vi jogar, até agora) e provavelmente perca em poder para Fortaleza, ABC e mais algum time do interior paulista. Considerando  a qualidade inexistente do adversário, o resultado tricolor acaba se equivalendo ao rubro-negro.

Mais simbólica e importante, contudo, é a notícia de que o clube pretende contratar Sorato, um homem de 41 anos que atualmente defende o Vasco da Gama no Brasileirão de showbol. Recuso-me a continuar comentando porque sei que todos se recusam a continuar lendo.

A Copa de 2006 ficará marcada na Eterna História e ainda será narrada em Epopéias Gregas como um dos eventos mais pitorescos da humanidade. Ou mesmo, da não humanidade. Por outra, nem uma perseguição desastrada de um Tiranossauro Rex por um inseto pré-histórico foi tão desastrada quanto aquela Copa do Mundo. Melhor, desastrada não a Copa em si, mas a atuação da Canarinho.

As reportagens com pernas depiladas, o descompromisso, as risadas constantes, mesmo com péssimas atuações em campo, a obesidade, tudo aquilo está gravado na alma de vira-lata que alguns dos brasileiros ainda insistem em manter em homenagem àquele passado cachorro que foi nada menos que a base para todas as glórias do país. Sim, amigos, podem anotar: O Brasil só vai para frente quando nos sentimos pequenos.

O Brasil Gigante só deve fazer sentido como aspiração longínqua, quase religiosa, do contrário, se a anunciam no presente, pode escrever: Estamos enrascados, colegas.

Um dos maiores personagens da referida derrocada foi Adriano. O Imperador, aquele que dizimou a Argentina em duas partidas fulcrais (quando dizimar a Argentina parecia algo menos factível), responsáveis por aumentar em níveis colossais a crença do brasileiro em nossa esquadra, junto aos Ronaldos, foram a imagem e a semelhança dos problemas daquele time: se desleixo, doença ou diarréia não nos cabe dizer- até porque a bola já tratou o escrete com a devida reverência que então merecia.

Pois, Adriano. Desde 2006, a vida do jogador parecia uma constante derrocada. Só se falava em mulheres, carros batidos, cigarros, álcool. Já ninguém mais rememorava seus tempos de Flamengo, quando, ao garantir um título (de Copa dos Campeões ou de Estadual, já não recordo), fora estrela de reportagem lépida e faceira na Vênus Platinada, mergulhando no belo mar fluminense.

Parecia mesmo que ao título real já não fazia mais jus Adriano. E então foi ao meu São Paulo Futebol Clube, onde teria sua última chance. Ora, um Imperador jamais tem últimas chances, mas este teria, o que colocava em dúvida seu cargo. Pois então, o rapaz começou a meter gols. Não em proporções amazônicas, não em proporções devastadoras, mas ainda assim, metia seus gols. Curiosamente, os melhores jogos de Adriano foram aqueles mais difíceis: A derrota por 1 a 4 para o Palmeiras, a vitória por 2 a 1 (com seu gol de mão) e as partidas duríssimas, complicadíssimas, terroríssimas, amaríssimas da Libertadores- que culminaram num chamado do Sr. Carlos Caetano Bledorn Verri.

E então Adriano chega à quarta-feira contra o Fluminense. Sim, é preciso dizer. Os 45 primeiros minutos são-paulinos contra os tricolores cariocas foram excepcionais. Adriano esteve como há certamente dois anos nunca esteve. A disposição, o vigor, o raciocínio rápido, até uma certa malandragem, tudo aquilo de melhor que o jogador demonstrou algum dia reavivaram-se naquele período de jogo. É verdade que na etapa final o ânimo esmoreceu, não o suficiente para apagar o primeiro tempo de Adriano e do São Paulo (que aos trancos e barrancos, parece se acertar).

Jogada marcante da partida: No pique e numa trombada estupenda, Adriano empurra Roger para as grades do Morumbi. Fosse eu um juiz, certamente teria apitado e repreendido o atacante. A câmara e o comentarista da televisão mostraram-me errado. O rapaz conseguiu iludir minhas vistas. Talvez seu apelido não tenha sido tão exagerado, como é típico de nossos tempos- mas isso, só as próximas partidas irão dizer de forma clara.

No mais, é preciso dizer: O pó-de-arroz é um bom plantel. O jogo no Maracanã será equilibrado. Aguardemos.

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