Foi uma semana engraçada, essa da Libertadores. Passamos por situações cômicas e francamente ridículas entre terça e quarta. Senão vejamos: pálida xérox da equipe do ano passado, o Boca Juniors penou para dar três a zero no Maracaibo (que, junto ao Bolo, lutou pelas honras de pior esquadra da competição); um inexplicável Richarlysson, num inexplicável São Paulo, tentou dar uma bicicleta próximo à linha de fundo do seu próprio time e furou; o Colo-Colo, por quem torci bravamente, entregou a classificação em sua própria casa e, pecado imperdoável, para um clube mexicano; o Flamengo cogitava jogar com menos ímpeto para não golear o Bolo e precisar viajar ao México para o confronto com o América – e, supremo ridículo da semana, penou para dar dois a zero e, ainda assim, vai ter que viajar ao extremo-norte do mundo hispânico. Mas, companheiros, como não empolgar-se com as oitavas de final? Estamos a falar da maior competição de clubes dos dois hemisférios. Sim, todos nós sabemos que a Liga dos Campeões tem melhores times, maiores salários, maior organização e maior prestígio – mas tudo isso torna-se pó diante da grandeza, da magnitude e do desvario que é uma Libertadores. A sanha megalomaníaca da competição começa no próprio nome, poético e simbólico, digno de uma obra maior de Evaristo Carriego. Quando um clube argentino entra em campo pela Libertadores, é possível perceber, ao fundo, toda uma história de duelos de punhais, da vida criminosa dos criollos. O brasileiro vem ao gramado certo da sua superioridade futebolística e espiritual frente aos falantes de castelhano. O uruguaio, povo de nostalgias, só vem jogar porque precisa manter viva sua memória gloriosa. Na Libertadores, ninguém se importa com futebol. Borges, com todo o seu desprezo pelo futebol e por toda e qualquer forma de fruição rasteira, foi certeiro ao afirmar que “(…) al argentino no le gusta el fútbol. Le gusta ver ganar tal o cual cuadro. Fútbol así, no. Yo nunca he oído decir a la gente: “¡Caramba, yo soy de San Lorenzo de Almagro, pero qué bien ha ganado Boca! ¡Qué contento estoy!” Entonces el fútbol no les interesa.” Verdade: o futebol não interessa, sobretudo numa Libertadores – quando o que importa mesmo é uma auto-afirmação, a satisfação de mostrar-se grande ao mundo inteiro. Cremos piamente que a Europa preocupa-se com nosso futebol e, muitas vezes, queremos ser grandes para eles – humilhá-los em campo, mesmo distantes, provando que glória, fama e dinheiro, por maiores que sejam, jamais vão bater a alma.

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