abril 2008


Foi uma semana engraçada, essa da Libertadores. Passamos por situações cômicas e francamente ridículas entre terça e quarta. Senão vejamos: pálida xérox da equipe do ano passado, o Boca Juniors penou para dar três a zero no Maracaibo (que, junto ao Bolo, lutou pelas honras de pior esquadra da competição); um inexplicável Richarlysson, num inexplicável São Paulo, tentou dar uma bicicleta próximo à linha de fundo do seu próprio time e furou; o Colo-Colo, por quem torci bravamente, entregou a classificação em sua própria casa e, pecado imperdoável, para um clube mexicano; o Flamengo cogitava jogar com menos ímpeto para não golear o Bolo e precisar viajar ao México para o confronto com o América – e, supremo ridículo da semana, penou para dar dois a zero e, ainda assim, vai ter que viajar ao extremo-norte do mundo hispânico. Mas, companheiros, como não empolgar-se com as oitavas de final? Estamos a falar da maior competição de clubes dos dois hemisférios. Sim, todos nós sabemos que a Liga dos Campeões tem melhores times, maiores salários, maior organização e maior prestígio – mas tudo isso torna-se pó diante da grandeza, da magnitude e do desvario que é uma Libertadores. A sanha megalomaníaca da competição começa no próprio nome, poético e simbólico, digno de uma obra maior de Evaristo Carriego. Quando um clube argentino entra em campo pela Libertadores, é possível perceber, ao fundo, toda uma história de duelos de punhais, da vida criminosa dos criollos. O brasileiro vem ao gramado certo da sua superioridade futebolística e espiritual frente aos falantes de castelhano. O uruguaio, povo de nostalgias, só vem jogar porque precisa manter viva sua memória gloriosa. Na Libertadores, ninguém se importa com futebol. Borges, com todo o seu desprezo pelo futebol e por toda e qualquer forma de fruição rasteira, foi certeiro ao afirmar que “(…) al argentino no le gusta el fútbol. Le gusta ver ganar tal o cual cuadro. Fútbol así, no. Yo nunca he oído decir a la gente: “¡Caramba, yo soy de San Lorenzo de Almagro, pero qué bien ha ganado Boca! ¡Qué contento estoy!” Entonces el fútbol no les interesa.” Verdade: o futebol não interessa, sobretudo numa Libertadores – quando o que importa mesmo é uma auto-afirmação, a satisfação de mostrar-se grande ao mundo inteiro. Cremos piamente que a Europa preocupa-se com nosso futebol e, muitas vezes, queremos ser grandes para eles – humilhá-los em campo, mesmo distantes, provando que glória, fama e dinheiro, por maiores que sejam, jamais vão bater a alma.

Salvaram o mundo nas guerras. Deram-nos Shakespeare, Byron, Shelley, Keats. Ensinaram-nos o Liberalismo. Redigiram a Magna Carta. A lista de feitos notáveis do povo inglês é longa, talvez a maior deste lado de cá do mundo. Nada disso, naturalmente, compara-se à invenção do futebol. Na guerra, não estavam sós. Shakespeare e demais poetas sempre serão restritos. O Liberalismo não foi devidamente aprendido ou fracassou por completo, a depender do ponto de vista. A Magna Carta sequer sabemos o que vem a ser. O inglês nunca foi tão universal quando no momento em que inventou o futebol – num jogo grotesco em que corre-se atrás duma bola uma nação atingiu o seu ápice, teve a certeza de que o seu legado jamais seria superado.

Mas não nos enganemos: o futebol inglês sempre foi sinônimo de ruindade. Peladas tenebrosas, violentíssimas, quase um rúgbi quando visto por nós – nós, explico: os líricos da bola, gente criada na base de Garrinchas, Romários, Zicos e da Guias. Tempo corrido e agora, ao fim da década 00, a Inglaterra tem o melhor futebol do planeta. Naturalmente o número de ingleses diminuiu dentro de campo, mas pouco importa: ninguém resiste imune às tradições locais – o futebol de Cristiano Ronaldo ou de Fabregas é extremamente inglês.

Explico-me: o futebol inglês, atualmente, é veloz e contundente. Há algum tempo eu lia as crônicas futebolísticas de Nelson Rodrigues e, toda vez em que ele exaltava o poder de “penetração” de certas figuras, perguntava-me o que isso viria a ser. O futebol brasileiro atual, sabemos, é fraco (sim, sei que é o único que temos e ainda me divirto horrores com ele, mas não vamos nos iludir): não há um ímpeto que possamos classificar como poder de penetração – com toda a conotação homoerótica que o termo vem a ganhar dentro de um campo de futebol.

Manchester United e Arsenal enfrentaram-se hoje num jogo franco, veloz, rasgante. As defesas eram perfuradas pelos passes de Fabegras e as corridas de Adebayor, pelas arrancadas de Cristiano Ronaldo – que dispara com a sutileza e a força típica dos búfalos da Ilha de Marajó – e pelos chutes secos de Rooney ou Tevez. Com a vitória, os Red Devils praticamente asseguram mais um título nacional – coisa pequena quando comparada à maior possibilidade da temporada, que é o título continental. O Arsenal, que ganhou a simpatia de todo o staff do Quem é a Bola? demonstrou imaturidade, falta de elenco e tropeçou de vez, terminando mais uma temporada sem título algum.

A revolução ocorrida no futebol inglês também tem um lado obscuro. Os investidores, a “privatização” questionável de certos times e o excesso de grana geram desconfianças naturais – sobretudo se considerarmos a paixão dos ingleses pela aposta esportiva. Mas, enquanto nenhum escândalo é comprovado, não há pecado em deliciar-se com as partidas semanais na terra de Mr. Bean. Todo o espetáculo é cercado de uma plasticidade inegável: o campo de dimensões reduzidas, a falta de separação entre palco e público, os gramados verdes, os estádios quase sempre abarrotados e, sobretudo, a velocidade e a habilidade de quem corre em campo, sempre em direção ao gol.

“O Arsenal é o campeão da Liga dos Campeões de 2007/2008. Quem dissesse isso no começo da temporada, seria taxado de louco ou imbecil, quando não de animal. E, no entanto, isso ocorreu.”

Como eu gostaria que essa frase acima fosse verdadeira. Mais uma vez, o futebol prega de suas peças, mas agora não é tão dramático quanto possa parecer. Os 21 primeiros minutos da partida entre Liverpool e Arsenal em Anfield Road jamais podem ser descritos em palavras e, creio, que será difícil mesmo fazê-lo com as imagens da partida. Sufoco, asfixia, ofensividade excepcional, marcação perfeita, ataque incessante, passes de primeira, um-dois. Não se pode dizer que era um treino, porque o outro time se esforçava. Era sim um espetáculo, sem dúvida. E o gol logo surgiu, ao contrário dos pretéritos embates em que o Arsenal jamais conseguia abrir logo o marcador, apesar de sua superioridade. Desta feita, Diaby alimentava os sonhos de futebol.

Mas houve um equilíbrio. Mais tarde, Paulo Vinicíus Coelho chamaria aquilo de “espetáculo” (e no segundo seguinte, corrigiria “não é um espetáculo com a bola no pé, mas…). Espetáculo grotesco, certamente. O Liverpool é um time que quando joga de forma perfeita impede que exista um jogo de futebol. É como se o “You´ll Never Walk Alone” dos portões de Anfield fossem transmutados em “You´ll Never Play Soccer Here”. No caso, isso vale não só para os visitantes, mas para o próprio clube. Pois se fez o domínio dos Vermelhos desse modo. Não havia mais jogo de futebol, apenas restava o tédio. Pronto, este era o espetáculo que me levava ao sono ou a vontade de estar acompanhando o jogo do Fenerbahçe com o Chelsea- e era o que chamam de domínio num jogo de futebol.

Ora, pode-se dizer que isso é o que o Boca Juniors costuma fazer e que é foi a estratégia do São Paulo do ano que passou. Certamente, respondo, mas se você não nutre torcida pelo time ou se acredita que é possível uma equipe que gasta milhões e milhões e bilhões de euros jogar de forma mais agradável, não é possível encarar um jogo desse de forma não aborrecida.

Foi quando o jogo definitivamente ganhou um novo título: o Eslovaco e o Suíço. Philip Senderos, que já tinha incorrido em falha clamorosa no gol de Hyppia, deixando-o solto para fazer o gol enquanto ajeitava seu penteado, permitiu que Fernando Torres recebesse a bola, dominasse, girasse, fizesse um telefonema para seus pais em Madri, para seu fã em Amsterdã e para seu agente, estufando as redes londrinas.

Talvez eu esteja sendo um pouco injusto com o Suíço (como estou sendo com o Liverpool ao longo do texto), afinal, eram mais 2 jogadores do Arsenal nas proximidades. É impossível que um time jogue com uma zaga tão descoberta, penso. Contudo, reflito, aparece o Botafogo na minha mente e vejo que é possível sim- é até provável.

O eslovaco, Skrtel, razoável e jovem beque do Liverpool, a uma altura do jogo espana a bola de uma forma tão formidável quanto um zagueiro deve fazer. Senderos deve ter ficado amuado com seu oposto no outro time.

Mas nenhum zagueiro do leste Europeu é capaz de combater o Brilho. Wallcot arrancou de sua área, dribla até as almas de Lennon e Harrison que acompanhavam o clássico, passando a bola para Adebayor, que minutos antes havia perdido um quase-gol. 2 a 2.

Eu vibrava com meus botões, quando um pênalti atabalhoado destruia os sonhos. Eram 39 minutos da segunda etapa e Gerrard já comemorava sua bela cobrança, ao passo que eu não acreditava que tudo estava acabado. Após a belíssima jogada de Wallcot, não era possível que o Arsenal estivesse fora. Não, era mais do que o campo da possibilidade, era o campo da tragédia. Era trágico que o Arsenal estivesse fora. Era mais do que trágico, era propriamente uma hecatombe.

Os rapazes de Wenger sentiram o choque. Sentiram a torcida, a excelente, fiel e cantante torcida do Liverpool. E já não era mais possível. Tanto não era que Fábregas sozinho não deu conta de evitar o quarto gol. A essa altura, o Arsenal era só destroços.

Eu não prestava mais atenção ao resultado, no entanto. Eu lembrava dos 20 primeiros minutos da partida e do gol de Wallcot, digo, Adebayor. Eu pensava em Bendtner tirando a bola certa e do pênalti cometido por Kuyt e não marcado em Londres. Eu sonhava com o massacre de San Siro. Qual é a relevância do resto da Liga dos Campeões diante de tudo isso? A derrota do Arsenal era honrada. O jogo tinha acabado aos 38 da segunda etapa.

O Arsenal é o campeão da Liga dos Campeões de 07/08.

Eis que aos quarenta e tantos minutos do segundo tempo, o semblante de uma família são-paulina era o de mais puro horror. O horror máximo que se pode alcançar em termos futebolísticos é o absoluto tédio.

O treino da última noite entre São Paulo e os seus reservas paraguaios, também conhecido como um clube profissional da cidade de Luque, no Paraguai, lembrou outra partida tétrica do tricolor paulista. O inenarrável zero a zero com o Corinthians Paulista no Brasileiro de 2006, quando os alvinegros contavam com nove jogadores em campo. Simplesmente todos esses oito jogadores (hoje eram 10 os luqueños, com uniforme parecido com o dos canallas do Rosário Central) situavam-se na grande área, com excepcionais casos de arrojo e dinamismo ofensivo, a se postar na meia-lua.

Como em 2006 se praguejava contra Danilo, que não conseguia criar, neste 2008, não há contra quem praguejar. Simplesmente porque o São Paulo não tem alguém que efetivamente crie jogadas. Éder Luís parece alvissareiro, mas em alguns momentos somente. Carlos Alberto é no máximo esforçado (e se fosse alguém sem nome, não iria a lugar algum). Hernanes chuta de longe. Richarlysson até outro dia mais se preocupava em ser expulso.

Há o rapaz feirense, Jorge Wagner. Este é o criador do time. A principal jogada do São Paulo consiste em cruzamentos do baiano por meio de bola parada (em qualquer modalidade). Nesse desespero, Adriano tenta ajudar a criação, mas só piora as coisas. Como vimos hoje, ele é talentoso para arrematar bolas ao gol, não para criar.

Então, o São Paulo de hoje é isso. Sufoco, desespero, transpiração, esforço, alguma pose de seus jogadores (também conhecida como marra) e quando possível, a vitória. Por incrível que pareça, o panorama é mais otimista do que ano passado, quando as vitórias do começo de ano encobriam o péssimo futebol. Hoje, ao menos todos sabem: O time está jogando mal, mesmo quando vence, vence com grandes dificuldades. Esta é a chance de ativar o radar de alerta dos jogadores e é a chance que o São Paulo tem de se manter vivo nas competições.

Será duro, mas é possível (não certo, nem mesmo provável) que se chegue muito longe. O tricolor do Morumbi continua a maior das incógnitas deste começo de ano.

Existe algo superior no mundo. Ninguém pode saber o que é, e malucos travestidos de céticos podem achar que não somos nada mais que um amontoado de células, ácaros e bactérias, evoluídos de um sopão de elementos químicos. É tentador acreditar nisso, passa uma idéia de ilusão, de conhecimento pleno, de domínio sobre o mundo. É algo que se espalha no mundo feito ferimentos em pernas nas guerras de espada do São João.

A perda da noção de que existe algo superior no mundo é uma violação à própria humanidade. Não é outro o motivo do cansaço que abate a todos- Eu posso ver o rapaz na rua, fingindo aquela felicidade, mas por dentro ele é só destroços- isto é a vida de hoje.

Mas há algo superior. Ou talvez sejam algos. Uma dessas coisas inexplicáveis que possivelmente existam é a sina. Mais do que o destino, que é para o futuro, a sina é o desde o princípio o acompanhante-mor, o feroz escudeiro da vida de alguém, que pode ser uma pessoa ou mesmo um animal, uma instituição ou, sei lá, um ser inanimado mesmo. A sina é a sina.

O Botafogo tem uma sina inegável. É a sina da derrota. Ainda que vença, o aspecto é da pura derrota. O Botafogo enfiou 7 tentos no Milan? O aspecto que teremos é de um time abatido, que lamenta o erro do juiz num pênalti aos 50 do segundo tempo. Essa é a sina do Botafogo.

A sina do Arsenal, ao menos o desses tempos cachorros, é outra: É desafiar a minha paciência. Ou, sendo mais universal, é massacrar um adversário, mas não de uma forma sufocante, em forma de blitzkrieg . É uma espécie de Invencível Armada do Lugar Nenhum. E mesmo quando se chega a algum lugar, o que resta é um Bendtner de zagueiro, em posição irregular, atrapalhando tudo.

A sina do Liverpool é vencer. Ainda que jogue feito um Fluminense de Feira, o meu Fluminense de Feira, eternamente pequeno, eternamente vilipendiado, o Liverpool vence. Hoje mesmo em Londres, a maestria dos Vermelhos era marcar de uma forma irritante, com seus jogadores atrás do meio de campo, esperando o apito do juiz (nem que fosse um apito assaltante, que não marcou o pênalti escandaloso em Hleb)..

E é incrível como o Arsenal- e como boa parte dos times, conforme observa de forma genial meu genitor- não pensa em jogar pelas pontas do campo. O Arsenal queria ir pelo meio, achando que seu nome justificaria qualquer tentativa radioterapêutica. Em alguns momentos, alguns Atiradores sentiam-se mesmo parte da RAF, prestes a escalpelar Dresden. Quando, na verdade, não conseguiam nem acionar um teco-teco para voar do Cemitério de Highgate até Westminster (seja lá qual distância isso tenha na Londres real).

É evidente que as sinas podem ser quebradas, e isto é parte da espoleta do mundo- uma das razões, aliás, para crer com devota fidelidade no imponderável. O Arsenal pode levar tudo- e talvez eu não caminhe mais sozinho nos meus sonhos de time ofensivo, que se preocupe mais em ganhar do que em qualquer outro resultado- o que os últimos 5 empates e 1 derrota em 7 jogos não mostram ser muito crível.

No entanto, houve o 3 a 2 estabanado do fim de semana. E há sempre o imponderável. O inexplicável. A sina. O futebol.

Anfield que espere.