março 2008


Peço a devida vênia aos mui leais e fiéis e parcos leitores deste blog, porque alguma gripe, aliada à chamada “mofina” vem impedindo a atualização do Quem é a Bola. Nada que esta semana não possa resolver.
Agradecido,

Anúncios

Posso gabar-me de, pelo menos, uma previsão correta nas prévias da Libertadores. Após um bisonho empate com o Bolognesi e uma atuação patética diante do Nacional mais fraco dos últimos dois ou três anos, está claro que só o Maracanã salva. A esquadra rubro-negra deposita no estádio a mesma confiança que o Real Potosí e outros times das alturas depositam na montanha. Quando relembrei que a última vitória flamenga fora de casa havia sido contra o América, em Natal, não pude conter uma sensação de estranhamento, um tenebroso sentimento de que o Flamengo, afinal, era menos, bem menos do que elocubrávamos.

Pior ainda: contra o Cienciano, em pleno verão carioca, o time de Joel Santana penou para vencer. Muitos já diagnosticaram a falta de bons atacantes como o maior problema para a disputa da Libertadores. Não há como negar: Souza é uma piada, sempre foi uma piada; Obina é uma figura, sempre foi uma figura; Tardelli é uma promessa, sempre será uma promessa. O veloz Marcinho possui lá a sua determinação e a sua competência, mas ainda não se mostrou digno da titularidade. O veloz Maxi, que ensaiou um mito, uma idolatria, vai se apagando, esquecido pela torcida e por Joel. O maior vazio na equipe, contudo, parece localizar-se no meio-campo. Sabemos todos da competência de Ibson para armar duas ou três boas jogadas que resultam em chances claras de gol, mas sabemos todos que Ibson é, e se diverte em sê-lo, um volante. Não há meia no Flamengo – só eu notei? Anotem: não decreto que o Flamengo é um time ruim – longe isso, é bom e já o demonstrou desde o ano passado, mas é bom quando tudo conspira a seu favor, inclusive juízes, gandulas, bandeirinhas e torcida.

Óbvio que as expulsões de Toró (insana) e Léo Moura (estúpida) contribuíram para a queda desta quinta-feira – mas, ao contrário do que Júnior Capacete afirmava ao longo do primeiro tempo, o Flamengo não jogava bem e a ruindade, tão forte, parecia ser milenar, vir de eras desconhecidas pelo homem, sobrevivido ao dilúvio na Arca de Noé, entre gansos e girafas, como se o Flamengo jamais houvesse sido bom. Se não era ameaçado pelo Nacional, isso se devia à incompetência oriental. Com dois a menos, tornou-se impossível a repressão ao ímpeto dos uruguaios. Com erros de Bruno, o sonho de um empate desfazia-se. Com os olhos dos jogadores correndo o estádio e estranhando aquele sítio pequeno, coberto por três cores estranhas, cheio de cantos em castelhano, o Flamengo deparou-se com uma verdade dolorida: não irá ganhar a Libertadores, não assim.

Lembro de um rapaz imaginário, que após perder uma causa na Justiça, uma indenização ou algo sobre propriedade, saiu aos prantos, berrando: “Isso tudo aí não existe! Justiça não existe! O que existe é o dinheiro, o que existe é a miséria!”. E saiu desesperado. É bem possível que o rapaz tivesse razão- e não é pequena a parcela das pessoas com mais de 11 anos de idade que acreditam que tudo mais é estrume.

Assim que cheguei em casa hoje, aos 18 minutos do segundo tempo, um comentarista afirmava a supremacia do Arsenal. A câmera filmava Pato. Belo cabelo, o rosto com ar de maquiado- chamam isso de pancake?- parece que o rapaz se ambientou bem à Europa.

Kaká, o gigante de outrora, encontrou a contenção devida. O time mais bonito do mundo não poderia perder esse jogo. Senti isso aos 18 minutos do segundo tempo de hoje. O massacre da outra partida se repetia- desta vez na Itália e, espero, sem que a imprensa esportiva engula a mosca, proferindo insanidades a respeito da qualidade (Jesus, houve quem afirmou isso) do sistema defensivo milanês. Sim, porque a imprensa teve medo de afirmar o óbvio (a superioridade do Arsenal), possivelmente com receio de ser surpreendida pelo Milan- quando a afirmação do óbvio jamais poderia negar a verdade fundamental do futebol, que é a chance do pequeno contra o gigante, do medíocre contra o esplendoroso, do retranqueiro contra o brilhantemente ofensivo.

Eu tinha certeza da vitória do Arsenal, mas temia a verdade fundamental do futebol. Uma análise racional diria, porém, que não havia motivos para o medo, porque Kaká não conseguia nada e Gillardino estava em campo.

Mas eu pensava no mundo. A injustiça é dado fundamental de tudo em que se envolve o homem. Não seria a primeira vez que isso poderia acontecer. Mesmo com a certeza da vitória, eu já me resignava em caso da derrota dos ingleses ( digo, não-ingleses) de Wenger.

E eis que exsurgiu Cesc Fábregas. Quando tocou na bola no meio-campo, antevi o gol. Eu já comemorava quando o tiro certeiro fuzilou Kalac. E então eu lembrei de toda a temporada do Milan- das atuações medonhas e patéticas do Italiano, da derrota para o Celtic com a encenação genial de Dida e do excesso de confiança que as pessoas depositavam neste time. E pensei em Têmis.

Paro e penso naqueles que desejariam um recuo- e se há neste mundo quem desejasse um recuo do Arsenal quando estava 0 a 0 para garantir uma prorrogação, certamente o mundo é um hospício pela mera existência deste alguém. O Arsenal não recuou- e a Avenida Paolo Maldini deu frutos.

Pronto, a Justiça havia sido feita no mundo. O time que joga o futebol mais bonito do planeta (Manchester United? Vamos rir todos dessa piada!) mostrava que maior do que o peso da camisa era o peso da idade e da auto-confiança exagerada.

Os romanos diziam que um dos princípios elementares da Justiça era “dar a cada um o que é seu”. Hoje, os rapazes de Wenger seguiram tal lição à risca.