fevereiro 2008


Outro dia, um rapaz saiu correndo apressado pelo meio da cidade. Em seu frenesi, perdeu as chaves de sua casa, pisou nos pés de algumas senhoras -e reparem no peso que essa palavra ganha hoje- as senhoras têm 60, 70 anos e as menores de 89 parecem rejeitar definitivamente tal alcunha. Ser uma Senhora é quase ofensivo- tudo porque pensava que sua mulher, grávida, estava em vias de ter o rebento. Sim, em vias de dar à luz, o momento mais sagrado da humanidade.

No entanto, já chegando em casa, quando buzinava insistentemente a campainha, o rapaz se deu conta de que sua pequena não estava grávida. Pior, lembrou-se de que não tinha uma esposa. Mais trágico, teve a terrível visão de que não possuía sequer uma namorada. E, então, sentiu que quase havia causado o apocalipse por nada. E chorou.

Do jogo de domingo entre Flamengo e Botafogo, o jogo é o que importa menos a essa altura. Este é o dado trágico da semana, e ainda assim, ninguém fica muito preocupado, ninguém parece se importar. Incrível, teatral, espetacularmente estrondosa é esta situação. O jogo não importa.

A dramática mis-en-scene armada pela diretoria, comissão técnica e pelos próprios jogadores do Botafogo foi digna de um time que treme, que chacoalha suas pernas diante de qualquer jogo considerado decisivo. A visão do jogo é nada menos do que esta simples análise: o Botafogo não pode ganhar, porque simplesmente está além de suas capacidades. E estas capacidades estão além de minha compreensão- ou mesmo da de Freud.

Cuca monta times extremamente agradáveis, principalmente porque tratam o futebol não como uma mera busca pela não-derrota, e sim porque buscam o encanto da vitória. É claro que no futebol, como na vida, a busca do encanto constante não passa de uma falha e os transtornos que causam são dramáticos feito o diabo.

Cuca é mesmo trágico feito o diabo. O rosto de Cuca, após a derrota para o Once Caldas (nas semifinais da Libertadores) ou para o Figueirense e agora após o jogo contra o Flamengo é a perfeita expressão de um homem que não monta equipes para vencer campeonatos- ou pior, não consegue fazê-lo.

Alguém argumenta, de forma canibal, em meu juízo, que Cuca erra ao pôr o time para vencer quando, com 1 jogador a menos, deveria buscar os pênaltis. Ora, esta é a maior qualidade do time dele, é o destemor. Ainda não acredito que a derrota do Botafogo tenha sido causada pelo ataque, mas sim pelo desespero– o puro e simples e vital desespero. A jogada do gol assassino, na qual Tardelli sobra sozinho, após uma saída desastrada de seu marcador é a prova de que o que faltava ali não era marcação- e sim, calma, sangue-frio- e um pouco de psicopatia, essencial para viver.

A mis-en-scene é a concretização do desespero- não me venham falar da arbitragem, porque pretendo retirar o pentacampeonato da Canarinho, bastando lembrar do jogo contra a Bélgica,certo? A própria versão dos botafoguenses não se sustenta. Túlio diz que não tem nada a ver com o Flamengo, Montenegro diz que trabalha no Ibope e sabe da quantidade de flamenguista que existe no mundo e a torcida diz que os rubro-negros são sempre beneficiados (uma meia-verdade, mas que não é relevante para explicar a derrota).

Não foi o juiz que perdeu os gols nos últimos minutos, não foi o juiz que deixou o flamenguista Tardelli desmarcado, não foi o juiz que puxou a camisa de Fábio Luciano de forma acintosa e pueril. Foram botafoguenses, assim como foram alvinegros o rapaz que acertou a canela de Reasco e o que chutou a bola em Leandro ou o que tomou o gol do Figueirense ou ainda o que fez pênalti no jogador do Atlético Mineiro (ah, esse o juiz não marcou).

Acusar a conspiração é a forma evidente de desespero, e eu não conheço um homem que não esteja destemperado a cuspir tragédias arquitetadas às suas costas. Não que a malandragem e a safadeza não existam- são intrínsecas ao ser humano- mas daí a dizer que os próprios erros são malandragem e safadeza, bem…

Mas por que escrevo tanto? O que é a Taça Guanabara? Qual o real sentido de se discutir a Taça Guanabara? Quem via os comentários de José Trajano a respeito dos clubes paulistas (medonhos, inclusive- falo dos times), e não assistiu aos jogos dos escretes cariocas, imaginaria que o Duque de Caxias, o Macaé, o Mesquita e mesmo o Vasco da Gama ou o Flamengo jogavam um futebol digno do nome. Pelas minhas contas, o Campeonato do Estado do Rio de Janeiro teve 2 ou 3 jogos. É verdade que o Paulista não teve nenhum ainda.

Mas é tudo água. Por que falar tanto sobre a gravidez que não existe?

Cena 1: Ronaldo sai da arquibancada, com a camisa azul-grená, dribla meia torcida, seu próprio goleiro e todos os outros 20 jogadores em campo, parece que dribla a si próprio e faz o gol num 5 a 2 sobre o Compostela. O gol não foi bem assim, mas em minha memória infantil é exatamente deste modo que Ronaldinho aparecia. Ou melhor, ele já tinha aparecido antes daquela jogada espetacular, ainda que seus dribles não fossem os mais belos do mundo, o estilo da arrancada, a incapacidade dos zagueiros em freá-lo, transformaram aquele gol em um dos mais interessantes dos cantos de minha mente.

Cena 2: Bahia e Cruzeiro enfrentam-se no Mineirão. Alguém chuta a bola, o goleiro uruguaio Rodolfo Rodriguez segura a bola. Distraído, deixa a bola no chão. Um menino magro, muito magro, com dentes avantajados, puxa a bola e marca o gol. Pobre Bahia, goleado.

Ali, tinha aparecido de vez o rapaz para o mundo. Nestes dois lances, um de 93 e outro de 97 (incrível, tenho outrora inimagináveis memórias de 15 anos) estão sintetizadas as maiores virtudes do centroavante: o oportunismo e a arrancada.

Por incrível que pareça, a carreira de Ronaldo é uma decepção para mim, que o tive num pedestal na minha infância, para mim que cresci acompanhando sua carreira- e torcendo para que ele ultrapassasse Pelé- o que hoje me parece impossível, pois Pelé mais do que um jogador, virou uma história.

E eu guardava as melhores expectativas, as mais deslumbradas utopias para quando Ronaldo fosse equiparado e coroado por todos, como “aquele que superou Pelé”. Era evidente que isso ocorreria, esta a conclusão de quem acompanhava o rapaz nos seus primeiros anos de carreira. Ele chegou muito rápido no topo, e mais rápido do que uma bala, poderia driblar o topo, poderia driblar Pelé e marcar o gol da História.

Entendam-me: Meu desejo de ver um homem maior do que Pelé era o desejo de assistir a história gigante e grandiosa, a História que se vê em livros na centena de anos passadas. Era preciso ter as memórias milenares e grandiosas. Mas os times em que Ronaldinho jogou não foram exatamente sinônimo de vitória absoluta: ele ainda não tinha ganhado um campeonato nacional (embora tenha conquistado três copas nacionais) até 2002.

Sua atuação na Internazionale deve ter sido uma grande tristeza para os negro-azuis italianos: A conquista da Copa da UEFA parecia, ou melhor, certamente era, muito menos do que Ronaldinho nos entregava no sonhos. Mas então começaram os problemas.

O estrondo silencioso da Copa de 98: O acontecimento histórico e inexplicado ocorrido antes da final acabou por apagar a boa Copa que o centroavante fez. E então a contusão absurda, contra a Lazio. Pronto, ali meus sonhos haviam sido destruídos-Pelé era história, Ronaldo era mais real. A sua carreira, porém, teria maior destaque.

A espetacular superação de Ronaldo na Copa seguinte quase reconstruiu minhas esperanças de um novo Pelé. Após aquele 2002, Ronaldo não teria mais grande destaque, nem sequer conseguiu encetar uma seqüência decente de jogos. Sua atuação em 2006 foi indecente e obesamente, adiposamente acintosa com as boas lembranças e o gol do Compostela que jamais foi apagado de minha memória. Agora, com mais uma contusão, ninguém sabe o que o futuro reserva. Há quem guarde a utopia, os herdeiros da minha esperança, de que ele há de retornar para um fim triunfal. Outros asseveram que o fim triunfou. Eu já não sei mais.

O maior jogador de quem acompanhei a carreira. A maior decepção que tive. A mais espetacular volta após uma série de contusões, no cúmula da superação. No momento após, o cúmulo da displicência. Este é Ronaldo.

A Copa do Mundo de 2006 não me irritou por causa do Brasil. O time era tão descomprometido, tão absurdo, que não havia como maldizer aquilo tudo- bastava torcer inconscientemente para o time adversário, pois uma hora o desmoronamento haveria de chegar. O Mundial de 2006 foi desgastante mesmo para quem assistiu aos jogos da Costa do Marfim. Domínio absoluto de boa parte dos jogos, pressão total, e uma incapacidade assombrosa de converter a substância em gols. O resultado todos conhecemos- aliás, os Elefantes mais uma vez decepcionaram na CAN- só que desta feita, não me irritei- não assisti aos jogos.

Devo falar, porém, do chamado grande jogo das oitavas de final da Liga dos Campeões. Arsenal e Milan confrontaram-se no Emirates. Mas um desinformado poderia achar que o jogo era entre o Leônico e a Hungria de Puskas. Em alguns momentos, a disparidade de forças era tamanha que fazia corar o mais rubro-negro dos italianos. E, no entanto, a partida seguia sem gols. Em Glasgow, um time com o qual simpatizo efetivamente, talvez pela ruindade intrínseca do seu futebol (muito embora a paixão da torcida compense de quando em quando), parecia querer surpreender. Em Londres, porém, os gols não surgiam. Mas o massacre era evidente.

Certamente o prefeito de Londres teve inveja da atuação milanesa. A inauguração da Avenida Paolo Maldini e sua ligação com a Avenida Andrea Pirlo foi tão imediata que as empreiteiras de todo o mundo tremeram ante a tão competente concorrência. Seedorf estava tão pálido que tive vontade de pegar um avião para lhe dar algum remédio. Kaká sofria, ou pela marcação ou pela indisposição (são coisas da vida e acontecem).

Ah, sim, e o garoto Pato. Por um momento, pensei que o rapaz era refugiado da Somália ou da Etiópia, tamanha era sua fome e ojeriza a compartilhar a bola com outros companheiros. No instante seguinte, já imaginava que ele tinha 13 ou 14 anos para cometer uma falta tão desnecessária, ganhando de brinde um McLanche cartão amarelo.

E o Arsenal corria. E Adebayor, o togolês, não conseguia acertar. O desespero do Arsenal era quase silencioso. Era o nervosismo do medo ou da vontade excessiva. O time corria, corria, corria e corria. Mas o passe final, o chute ao gol, nada disso parecia palpável. Sorte do Kalac ( e quando eu falo em Kalac, só consigo pensar no Dida, contudido sem nem sequer jogar).

O nervosismo dos ingleses (ou melhor, dos não ingleses) era tanto, que o Milan chegou a ter alguma oportunidade- sim, mesmo o Leônico pode ter oportunidades, e isso é o futebol. O futebol é tão magnífico que mesmo um massacre pode resultar em nenhuma baixa de guerra.

Desde o sorteio, se alguém me dissesse que o favorito era o Arsenal, eu trataria de arrumar-lhe uma vaga no Juliano Moreira, o manicômico soteropolitano. Jamais duvidei da capacidade de times “copeiros” – conceito que merece ser destrinchado. Jamais duvidei da capacidade do meio de campo do Milan. Mas os últimos eventos, com Ronaldo e Dida, até pareciam querer demonstrar que os italianos (ou nem tanto) não venceriam. É verdade que a temporada toda do Milan soava como presságio do caos- mas até aí, as finais da LC e do Mundial de 2007 comprovavam justamente a capacidade de o time rubro-negro surpreender. O jogo de hoje é enigmático justamente no sentido de que mostra um Milan com meio de campo horrível e uma defesa não exatamente a melhor do mundo, mas deixa claro que o Arsenal precisa de um algo mais para a classificação.

Torço (pelo bem do futebol) que sejam os ares italianos- ou o nhoque e a lasanha.

Precisei acompanhar a batalha entre Liverpool e Inter de Milão por dever profissional. Dependesse da minha escolha, assistiria, contente que só, o embate entre Roma e Real Madrid. Já comecei contrariado. O jogo na Inglaterra corria, corria – e, fora a expulsão do truculento Materazzi, antes dos trinta minutos de jogo, nada de interessante acontecia no gramado. A esférica sofria, sendo atirada para todos os lados.

Enquanto isso, Roma e Real Madrid faziam gols. E, vejam vocês, hoje, lá pelas seis e vinte da manhã, levantei da cama e falei, para mim mesmo: “Hoje eu quero ver gol!” Quando notei que o jogo sob minha responsabilidade seria o dito cujo, desanimei. É sabido que o Liverpool passa por uma fase negra, embora eu não tenha acompanhado o time nas últimas rodadas (justamente por isso). Quanto à esquadra italiana, nutro por ela uma mania quase quixotesca, lédio-carmonesca: é campeã, é líder, não perde pra ninguém mas, ainda assim, eu não a aceito. Posso ser desmentido pelos números e pelos fatos, mas a Inter só me parece um time envelhecido, previsível.

Hoje eu tinha razão. A Inter foi previsível – até bisonha, eu diria. Ao perder um zagueiro, armou uma retranca quase intransponível e desistiu de jogar. Lutou para segurar o empate e, como sempre acontece desde que Jesus apitou a primeira pelada em Nazaré, o time com mais ímpeto furou o bloqueio e venceu o jogo. O Liverpool não foi brilhante, mas a Inter foi medíocre – e uma liga de campeões não perdoa os medíocres. Enquanto Roma e Real Madrid faziam gols, eu bocejava ternamente, embalado pelo belo e melancólico canto da torcida inglesa.

Ao fim do jogo, fui recompensado com dois gols em seqüência. Gols merecidos, catárticos e decisivos. Talvez em casa a Inter recupere-se e livre-se da covardia que apresentou hoje. Ainda assim, terá um longo caminho a percorrer para roubar a vaga do Liverpool – que, por mais fraco e perdido que esteja, parece estar sempre pronto a conquistar títulos.

 Se a raça humana não perecer na próxima centena de anos, Thiago Neves será citado como o homem que fez três gols num só Fla-Flu. Com o devido tempo corrido e as devidas nuances apagadas, restará apenas a sigla, o número e o nome. Mas como o clássico foi semana passada, a gente ainda lembra que a partida não valia nada, o Flamengo só tinha reservas e os três gols de Neves tiveram importância nula.

Ainda assim, o rapaz resolveu tirar a semana para falar. E falar. E falar que já pensava na final contra o próprio Flamengo e em mais três gols e em título. Deixou o pessoal do Flamengo nervoso e os botafoguenses, naturalmente, sentiram-se menosprezados, diminuídos. Mas é claro que a ida do Fluminense à final só existia na mente pouco clara de Neves: quem acompanhou a Taça Guanabara sabia, desde a primeira rodada, que o Botafogo estava muito mais bem armado e era muito mais competente do que o tricolor. O Neves, após os três gols no Fla-Flu, esqueceu.

Lembrou-se ontem. Num resultado clássico de dois a zero, com direito a gol de pênalti e atuação apagada do nosso personagem, o Botafogo garantiu-se na final. Assim sendo, Neves (que, sim, tem o direito de dançar nas comemorações, de provocar quem quer que seja, mas não deveria ter o direito de assinar contratos diversos de uma só vez e depois, quando questionado a respeito em entrevista, dar gargalhadas) deu mais motivos para que os clichês do futebol fossem reforçados.

Teremos agora, por fim, uma semana inteira em que lições serão dadas na televisão, em que a humildade será pregada, o respeito ao adversário relembrado, o ditado de quem ri por último ri melhor citado por dois jogadores e quatro comentaristas, a responsabilidade do futebolista nas questões da violência entre torcidas será considerada. Tolices, mas verdades. Agüentemos, portanto, cientes de que a única falha de Neves foi, sim, a falta de humildade tricolor (estimulada pela insanidade de Renato Gaúcho). Neves não é jogador para o Flu. Kleber Leite que lhe faça uma proposta.

Dirigir é das cinco tarefas mais difíceis de serem executadas por um ser humano. Olhar para esquerda, direita e centro ao mesmo tempo em que se presta atenção em marchas e pedais, ocupando todo o corpo humano é obra de engenhosidade fabulosa. Que uma razoável parcela de homo sapiens sapiens consiga isso, é prova de que a humanidade não é tão desgraçada assim.

Outro dia, eu me arriscava em tal difícil empreitada. Conversava com meu avô, quando, sem prestar atenção a uma moça que parava seu carro logo à frente do meu, acabei atingindo seu veículo, que permaneceu intacto, enquanto o que eu guiava acabou mal. Neste dia, aprendi uma lição: É preciso saber a hora de parar.

Romário é um dos grandes atacantes do futebol mundial e houve um tempo em que seu nome emanava respeito. Bastava avisar “Romário está perto da área” e os beques tremiam, ainda que o “Baixinho” lá não estivesse. E quando estava, aprontava misérias em defesas alheias, salgando todo o terreno e estufando redes. Foi assim no Vasco, no PSV e no Barcelona (ok, havia festas. Mas se fosse por isso, Garrincha não seria o Mané). E foi assim em 94.

Tal qual Puskas em 54, Pelé em 58, Garrincha em 62, Cruyff em 74, Quiroga em 78, Paolo Rossi em 82 e Maradona em 86, Romário foi a metonímia perfeita da Copa de 94. Entre junho e julho daquele ano, nada, nem a altura dos zagueiros suecos, nem a barba de Lalas, nem a camisa que a Umbro preparou para a seleção, nada poderia deter Romário. Predestinado ao título, Romário fez uma grande dupla com Bebeto e marcou de vez seu nome na História do Futebol.

Após isso, imagino ser conhecida sua biografia: A formação do ataque cardíaco no Flamengo, com Sávio e Edmundo, lesões, (que causaram) as tentativas frustradas de ir para as Copas de 98 e 02, o bar temático em que Zagalo ocupava lugar de honra na porta do sanitário, partidas memoráveis pelo Vasco, o espetacular 4 a 3 no Parque Antártica, um passeio no Fluminense, a volta ao Vasco e após isso tudo, quando todos já pensavam no fim da carreira, principalmente ele, que anunciou este fim e se despediu (ora do futebol, ora da seleção, ora das partidas oficiais, ora de qualquer coisa), Romário continuou.

A despedida da Canarinho foi numa triste partida, contra a Guatemala, num jogo em que a Globo mais se preocupava com a câmera áerea (OLHA A CÂMERA AÉREA!!). No fim do ano, Romário acabou artilheiro do Brasileiro. No auge, Romário pararia. Não havia pedal no meio, porém.

Em uma obsessão quase sexual pelo suposto milésimo gol, Romário zanzou pelo Miami numa subliga americana, pelo Adelaide United da Austrália (que em termos de futebol é Vanuatu) e tentou voltar para o Tupi, de Minas Gerais. Peço desculpas por ter de relembrar esses momentos de uma carreira que até há pouco, parecia excepcional.

E Romário não parou. 2007 foi o ano em que o Clube de Regatas Vasco da Gama mudou de nome: era o time do Romário. O time submeteu seus objetivos ao milésimo gol. Sorte do Gama, que não teve conhecimento e eliminou o clube da Copa do Brasil. Demorou algum tempo, algumas derrotas para o Botafogo, mas o tal gol saiu. E o Vasco voltou a ser Vasco. Mas Romário estava lá. No fim do ano, após a volta à normalidade (i.e., um time ruim comandado por Celso Roth e gerido de forma pitoresca por Eurico Miranda passou a perder), Romário acabou técnico por um jogo.

E em 2008, virou co-técnico. Até que demorou muito, quando Romário, supostamente irritado com a ingerência daquele que tanto ingeriu no time um ano antes, em busca do milésimo gol, decidiu abandonar o cargo. E o Vasco. Quer dizer, talvez. Assim como em 2006, as afirmações de ontem são diferentes das de hoje e estas certamente serão contraditórias se comparadas às de amanhã. Enquanto a maioria das pessoas se esforça para não acompanhar a notícia e tenta guardar os momentos bons de Romário em campo (Amaral até hoje procura a bola depois de um elástico sofrido), o jogador-técnico insiste em chocar seu carro ao do incauto espectador.

Ele não aprendeu ainda uma grande lição: É preciso saber a hora de parar.

Caminho os olhos pelas notícias do futebol. Brigas, confusão, derrota dos pequenos no Carioca, vergonha dos grandes no Paulista, recuperação do Bravo Touro do Sertão, Egito goleando a Costa do Marfim. Sempre interessante.

Mas uma notícia corriqueira, quase banal – e um repórter morre ao saber que sua notícia é quase banal. O sonho de todo repórter é emplacar manchetes, notícias bombásticas, por mais que ele negue. A notícia é curiosa. Gilberto Silva.

Antes, relembro de um rapaz, um tanto quanto quixotesco- sei que isto não é necessariamente um elogio, muito menos um xingamento. O rapaz, após ter defendido o esquema tático de Dunga, afirmado que Júlio Baptista merecia ser titular em lugar de Kaká , sendo vítima de escárnio em decorrência de seus comentários, implorava por um reconhecimento público de que entedia de futebol. Enquanto implorava, quase gritava: – Eu assisto jogos, eu li jornais, eu entendo! Inócuo, porém.

Gilberto Silva é o assunto. O rapaz não é mau jogador. É verdade que participou da Canarinho de 2006, verdadeira vergonha nacional. Jogadores de futebol eram estrelas de reportagens pornográficas em que pernas depiladas e o feijão de Não sei onde pareciam mais relevantes que o adversário do próximo jogo. Todos sabem o resultado, mas Gilberto Silva até que não fez um mau papel. Estou sendo injusto, ele fez um bom papel na Copa, ao lado de Zé Roberto, Lúcio e Juan. De todo o elenco, apenas estes pareciam se salvar. E no Arsenal garantia a segurança de um time extremamente rápido, inclusive ajudando a distribuir a bola no meio de campo.

Contudo, a roda gira, e cá estamos em 2008. Gilberto Silva queixa-se da má sorte. Mais do que isso, queixa-se do treinador. Reclama reconhecimento. Berra ter feito uma boa temporada ano passado, afirma que o técnico o faz se sentir inútil e ameaça com uma futura saída.

Gilberto Silva joga no Arsenal, time que pratica um dos melhores futebóis do mundo, principalmente porque não é dependente de jogadores que falham em momentos cruciais. Não que não perca, perde e algumas vezes joga mal- mas não é um time que falha em momentos decisivos- sim, estou provocando quem prefere o Manchester United. Mas ele ameaça.

Do alto de seu bom futebol até 2006, Gilberto grita não ver motivos para estar alijado do time principal. Compreende-se. Gilberto não assiste seus próprios jogos. Quem viu o volante em campo, tanto no Arsenal quanto na seleção brasileira durante o ano de 2007 e já neste 2008, certamente sente-se envergonhado da afirmação do jogador. É um tipo de pleito naturalmente absurdo, tal qual soou a de nosso amigo de parágrafos acima. O futebol do jogador é apático, a marcação é deficiente, dando ensejo a falhas grotescas, e mesmo a qualidade do passe tem sido péssima.

É normal que um jogador queira participar efetivamente de seu time e, em tempos de justificada valorização daqueles que concretizam a arte, é bastante rotineiro que reclamem de seus respectivos técnicos. Como é mais do que normal e justo, que as pessoas peçam o impossível – não há nada mais saudável do que a liberdade. É, porém, constrangedor para os leitores, para o jornalista e até para o jogador que pretende participar do espetáculo, quando só contribui para prejudicá-lo.

São coisas da vida.

PS: A melhor afirmação é a complementar. “Um brasileiro triste não é algo bom”. Talvez um francês, um angolano ou cingalês tristes possa ser alguma coisa saudável. Certamente um inglês triste. Um brasileiro não. Não mesmo.

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