Luciano do Valle é o homem que me apresentou Porto de Galinhas. Em meus delírios pueris, antes que eu soubesse que ele era o número 1 da Globo na fatídica derrota de Sarriá, antes que eu imaginasse que havia algo além do “canal do esporte”, Luciano do Valle fazia-me sonhar com Porto de Galinhas. Em meio a um passe de Jura, uma tesoura de Júnior Baiano, um fundo de 100 ou 500 metros do Filho do Vento, Luciano vinha deslumbrar-me com a água transparente, os mergulhos inesquecíveis, a areia inusitada, o povo feliz, quando os gols tornavam-se irrelevantes, narrados no replay. O que era um gol diante de Porto de Galinhas?

Pois foi ele que me despertou mais uma vez nesta noite. Narrava o embate entre Sertãozinho e Corinthians, duas forças que naquele momento pareciam equivaler-se…Minto, o Sertãozinho parecia um gigante, parecia retirar o diminutivo de seu nome, enquanto o Corinthians de Mano Menezes soava tal um sertãozinho, escorado na desculpa de ter um homem a menos para de forma tão valente defender um empate. Está aí a definição do futebol sentado: buscar sempre o empate a todo custo. Mesmo goleando, buscar o empate.

Enfim, foi em meio a tão encruada disputa, que Luciano do Valle disse: “Os Estaduais são assim, essa magia. Não existe jogo ganho, o Fluminense passou sufoco contra aquele M… Mauá”.

Um repórter depois retificou, mas o mal já estava feito. Luciano levantou-me da inércia. Ele não sabia que o Macaé não era Mauá, mas isso não importa. Os Estaduais mantêm a rivalidade mesmo assim, são aquela coisa de inexplicável.

Mudei de canal e o inacreditável Vasco dava 5 a 1 no Resende. O Botafogo havia entupido o Mesquita de 6 a 2. O Flamengo já havia sacudido o Duque de Caxias pelos mesmos 5 a 1 lá de cima. E o pobre Cardoso Moreira não pôde resistir aos 4 a 1 do mesmo rubro-negro. Ora, até o Voltaço havia tombado ante o Fluminense: 5 a 1.

Não, não estou me referindo a parciais de jogos de tênis ou vôlei. Falo de futebol em primeiras rodadas, em times recém-chegados do Peru, da Sidra, das festas. E ainda assim, os Estaduais estariam acendendo a rivalidade. Claro, a rivalidade entre o Cardoso Moreira e o Mauá. Entre o Fluminense e o Duque.

Eis que desejo ver os resultados do campeonato do meu Estado. Sim, nutro um interesse cabalístico pelos resultados da Bahia. Jogos só posso ver o que a TV transmite e os resultados finais acabam não aparecendo. Desejo saber como andam os times de minha cidade. Desejo torcer ardorosamente contra os times de Salvador. De Salvador só o time do Negro Popó me agrada. Mas a Tv já acabou a transmissão. Quarta sim, domingo também, só há relevância para Bahia e Vitória.

Então eu tenho a iluminação evidente. Só a minha lentidão não percebeu. Os Estaduais são os campeonatos da capital. O interior de nada interessa. Não interessam os times pequenos. A justificativa romântica de preservar o pequeno é a balela elaborada pelo político na eleição. O pequeno de nada importa. O que é relevante no Estadual é a vitória do que chamam de “grande”. O que é relevante no Estadual é um time que comemora a retranca contra o Sertãozinho de Galeano. O que é supremo no Estadual é humilhar o Mesquita, o Resende, o Cardoso Moreira. É tripudiar do Poções.

A humilhação do pequeno e a afirmação de que medíocres são gigantes é a razão de viver dos Estaduais. Os Estaduais são a mais pura revelação da alma brasileira. Realmente, peço perdão por alguma opinião exaltada do passado. É impossível acabar com os Estaduais sem acabar com o Brasil.

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