janeiro 2008


São admiráveis os torcedores de times pequenos. Refiro-me aos torcedores de fato. É muito natural e seguro sair pelas ruas sob um uniforme do Juventus, do São Christóvão, do Leônico, do Fluminense de Feira ou dos Américas: além de ostentar belas camisetas, há sempre a segurança de chegar em casa e acompanhar o seu amado time grande goleando um esquálido clube do interior – um daqueles em que todos os futebolistas ainda usam chuteiras negras.

No futebol europeu, o time perdedor é vital. Considerando que, na maioria dos países, de duas a quatro equipes disputam os títulos nacionais, necessita-se de uma legião de clubes derrotados  para que, afinal, haja a possibilidade do campeonato. É semelhante ao caso dos “nossos” Estaduais. No Brasileirão, contudo, a necessidade e a presença do pequeno é rara e, até mesmo, indesejável. Óbvio que clubes como Vitória, Figueirense, Goiás, Náutico e Portuguesa, para citar alguns, não são exatamente modelos vitoriosos no país, mas cada um deles possui uma considerável hegemonia em seus territórios (no caso da Lusa, bem menos). Portanto, não são os verdadeiros times pequenos.

Não são como o Fluminense de Feira, que não conquista o título baiano desde 1969 e que, na atual temporada, decidiu correr um sério risco de rebaixamento. O Touro do Sertão possui uma das tradições mais derrotadas do futebol mundial. Só para ilustrar, na decisão do Brasileirão da Série C, em 1992, o time chegou à final e, já passados os quarenta minutos, vencia a Tuna Lusa – que, em em poucos instantes, correndo por entre jogadores feirenses aos prantos, ajoelhados em agradecimento pela vitória já consagrada, virou o jogo e conquistou o título.

O time pequeno não consegue conviver com a possibilidade da vitória – se vence, ele pára de fazer sentido e sua torcida se perde numa crise de identidade que pode levar à extinção física ou espiritual do clube (a Bahia está repleta de casos de pequenos que ousaram vencer além do aconselhável e, em seguida, desapareceram do mapa ou agonizam nas divisões de acesso: Guarany, Galícia, Leônico). Naquele ano de 1992, na consagração do Flu de Feira como perdedor, ainda nem existia o direito de acesso à Série B, mas uma conquista nacional talvez servisse para macular a fama perdedora do clube.

João Cabral, poeta maior, compreendeu bem (e aceitou elegantemente, dedicando-se ao América F.C., de Recife) a sina do clube menor. No seu poema “O torcedor do América F.C.”, reproduzido a seguir, reúne em oitos versos não uma homenagem aos seus iguais, sofredores que seguem caninamente um time pequeno, mas uma explicação aos que, como eu (e provavelmente você), não entendem esta dedicação, esta euforia pela qual é acometido um homem que vê seu time simplesmente diminuir uma derrota que seria de dois a zero para dois a um, aos quarenta do segundo, última rodada do Estadual, já rebaixado e cumprindo tabela contra o campeão, o fútil e fácil time grande.

O torcedor do América F. C.
por
João Cabral de Melo Neto

O desábito de vencer
não cria o calo da vitória;
não dá à vitória o fio cego
nem lhe cansa as molas nervosas.
Guarda-a sem mofo: coisa fresca,
pele sensível, núbil, nova,
ácida à língua qual cajá,
salto do sol no Cais da Aurora. 

Luciano do Valle é o homem que me apresentou Porto de Galinhas. Em meus delírios pueris, antes que eu soubesse que ele era o número 1 da Globo na fatídica derrota de Sarriá, antes que eu imaginasse que havia algo além do “canal do esporte”, Luciano do Valle fazia-me sonhar com Porto de Galinhas. Em meio a um passe de Jura, uma tesoura de Júnior Baiano, um fundo de 100 ou 500 metros do Filho do Vento, Luciano vinha deslumbrar-me com a água transparente, os mergulhos inesquecíveis, a areia inusitada, o povo feliz, quando os gols tornavam-se irrelevantes, narrados no replay. O que era um gol diante de Porto de Galinhas?

Pois foi ele que me despertou mais uma vez nesta noite. Narrava o embate entre Sertãozinho e Corinthians, duas forças que naquele momento pareciam equivaler-se…Minto, o Sertãozinho parecia um gigante, parecia retirar o diminutivo de seu nome, enquanto o Corinthians de Mano Menezes soava tal um sertãozinho, escorado na desculpa de ter um homem a menos para de forma tão valente defender um empate. Está aí a definição do futebol sentado: buscar sempre o empate a todo custo. Mesmo goleando, buscar o empate.

Enfim, foi em meio a tão encruada disputa, que Luciano do Valle disse: “Os Estaduais são assim, essa magia. Não existe jogo ganho, o Fluminense passou sufoco contra aquele M… Mauá”.

Um repórter depois retificou, mas o mal já estava feito. Luciano levantou-me da inércia. Ele não sabia que o Macaé não era Mauá, mas isso não importa. Os Estaduais mantêm a rivalidade mesmo assim, são aquela coisa de inexplicável.

Mudei de canal e o inacreditável Vasco dava 5 a 1 no Resende. O Botafogo havia entupido o Mesquita de 6 a 2. O Flamengo já havia sacudido o Duque de Caxias pelos mesmos 5 a 1 lá de cima. E o pobre Cardoso Moreira não pôde resistir aos 4 a 1 do mesmo rubro-negro. Ora, até o Voltaço havia tombado ante o Fluminense: 5 a 1.

Não, não estou me referindo a parciais de jogos de tênis ou vôlei. Falo de futebol em primeiras rodadas, em times recém-chegados do Peru, da Sidra, das festas. E ainda assim, os Estaduais estariam acendendo a rivalidade. Claro, a rivalidade entre o Cardoso Moreira e o Mauá. Entre o Fluminense e o Duque.

Eis que desejo ver os resultados do campeonato do meu Estado. Sim, nutro um interesse cabalístico pelos resultados da Bahia. Jogos só posso ver o que a TV transmite e os resultados finais acabam não aparecendo. Desejo saber como andam os times de minha cidade. Desejo torcer ardorosamente contra os times de Salvador. De Salvador só o time do Negro Popó me agrada. Mas a Tv já acabou a transmissão. Quarta sim, domingo também, só há relevância para Bahia e Vitória.

Então eu tenho a iluminação evidente. Só a minha lentidão não percebeu. Os Estaduais são os campeonatos da capital. O interior de nada interessa. Não interessam os times pequenos. A justificativa romântica de preservar o pequeno é a balela elaborada pelo político na eleição. O pequeno de nada importa. O que é relevante no Estadual é a vitória do que chamam de “grande”. O que é relevante no Estadual é um time que comemora a retranca contra o Sertãozinho de Galeano. O que é supremo no Estadual é humilhar o Mesquita, o Resende, o Cardoso Moreira. É tripudiar do Poções.

A humilhação do pequeno e a afirmação de que medíocres são gigantes é a razão de viver dos Estaduais. Os Estaduais são a mais pura revelação da alma brasileira. Realmente, peço perdão por alguma opinião exaltada do passado. É impossível acabar com os Estaduais sem acabar com o Brasil.

Quando pode um homem, subitamente, parar de acompanhar uma partida do seu time numa Copa do Brasil e, em meio à multidão, perceber, clara e irreversivelmente, que aquela competição não vale de nada, que aqueles atletas se aniquilam por uma ninharia, que aquela taça, caso venha, será esquecida na semana seguinte ou – no máximo – no dia em que o vencedor do Campeonato Brasileiro esfregar na sua cara um troféu mais valioso e prova incontestável de que campeão do Brasil, ora, isso só tem um – e não é você?

Pode acontecer num encontro tenebroso entre Corinthians e Pirambu, um Atlético-MG e Flamengo com goleada e gol de Obina, um Vasco e Botafogo com menos de 40 mil presentes no Maracanã, no momento do gol do Internacional sobre o Baré de Roraima. A decadência da Copa do Brasil é nítida – e só se engana quem está muito imerso numa atmosfera passadista e se deixa enganar pelo “Brasil” no nome da competição. Não se trata de menosprezar os times pequenos: em geral, é muito saudável ver o Gama trucidando o Vasco que se preocupa com o gol 1000 de Romário, é agradável acompanhar um time desconhecido fazer uma bela Copa e ser desclassificado na Libertadores seguinte com zero ponto.

O empobrecimento da Copa vem basicamente do calendário – que obriga a exclusão dos times classificados para Libertadores (teoricamente, os mais fortes do país). Assim, já se foram cinco ou seis equipes. Claro que o interesse crescente em disputar a Libertadores fez com que os clubes se comprometam mais com a competição. Mas, convenhamos, é extremamente desagradável perceber que a Copa do Brasil é só uma preliminar para a disputa continental. Confessemos: somos todos românticos inveterados e gostaríamos que a Copa do Brasil nos desse um título, um prestígio verdadeiro.

Lembrem-se da edição passada: a multidão fluminense enlouquecida, Pedro Bial percorrendo o gramado de joelhos, Branco vertendo lágrimas pesadas – toda uma comovente reação pelo fato do clube, após mais de duas décadas, ter voltado a conquistar um título nacional. É óbvio que a comoção só aconteceu pelo longo hiato que existe desde o título brasileiro. Aquele foi um delírio coletivo até certo ponto aceitável. Se os tricolores, durante a comemoração, saíssem das Laranjeiras e decidissem derrubar o governo do Rio de Janeiro, eu compreenderia a atitude.

No ano anterior, o Flamengo – que completava apenas 14 anos desde o último título nacional – não provocou tantos acessos de paixão (e, lembremos do profeta: foi uma multidão como a flamenga que fez a Revolução Francesa). Agora imaginemos que, tal qual a minha previsão, o Inter seja o vencedor em 2008. O colorado foi campeão do mundo há pouco mais de um ano – que importância real teria o título da Copa do Brasil? Só a vaga importa.

Confesso, porém, que a competição está mais interessante neste ano. A busca continua sendo pela habilitação à Libertadores, mas certos times estão fortes e podem travar bons duelos. Como favoritos, ousaria apontar Botafogo, Palmeiras e, naturalmente, o Internacional. Por outro lado, o Atlético-PR dá pinta de que tem forças para derrubar gente maior do que ele e o Grêmio, bem, o Grêmio é “copeiro” (segundo me ensinaram, assim se classifica um time que pode dizer “perco mais do que ganho e ainda assim consigo ser campeão ou chegar até a final” – um colorado completaria com um “coisa que não funciona nos pontos corridos e por isso vivo sendo rebaixado”, mas eu nem sou gaúcho). Quem não tem poder ou interesse em modificar um calendário em completo descompasso com o do resto do mundo contenta-se em aceitá-lo e, claro, em buscar desesperadamente o título da grande Copa do Brasil.

Discute-se se os três atacantes do Fluminense, jogando juntos, darão resultado. Os debates são intermináveis, mas todos dão crédito à experiência, que pode durar até o dia do Fla-Flu – jogo no qual Renato Gaúcho terá que abdicar desta formação ultra-ofensiva para não ser goleado por Joel Santana. Amigos, adianto-me e, caso Renato Gaúcho venha a ler-me, peço que me dê ouvidos: não vai dar certo.

Sou entusiasta do futebol impetuoso, goleador. Gosto do time do Manchester United com Rooney, Tevez e Cristiano Ronaldo. Se treinador fosse, arriscaria uma temporada inteira com o ancião e antediluviano esquema 1-10, sem goleiro, praticado nas sombrias terras britânicas. Mas estamos a falar do Fluminense. Os verdadeiros torcedores do tricolor carioca vão me compreender, não vão se irritar com tal afirmação: o Fluminense precisa ser medíocre. Dizia Nelson Rodrigues que a grandeza do Flu se encontrava na capacidade de ser medíocre, sempre.

A história recente é prova disso: com Romário, com Petkovic, com Roger ou com Tuta (bem, ele era reforço de peso) o Fluminense naufragou com campanhas horrendas. Ano passado, Carlos Alberto quase põe tudo a perder, mas tratou de ser presença inconstante nos jogos. Vejamos, contudo, quem fez o gol do título na Copa do Brasil: Roger, um reserva que já contabilizava os seus 137 anos de carreira, esquecido, humilhado, medíocre como só um defensor decadente pode ser. E como o Fluminense fez um bom Brasileirão e chegou à zona da Libertadores? Na clandestinidade, quase despercebido.

Mais ilustrativo, contudo, é um fato que envolve o próprio Renato Gaúcho. Dispensado de um Flamengo cheio de patéticas estrelas, foi para um Fluminense desacreditado e, gordo, com fita na testa, fez um histórico gol de barriga. Humilde, ele tentou sair da rota da bola para não vencer um poderoso e centenário Flamengo. Foi recompensado com o gol insólito.

Portanto, já que a diretoria tricolor não conseguiu conter a megalomania na hora das contratações, é necessário que Renato Gaúcho se desfaça do seu incomparável ego, calce os chinelos franciscanos, ampare um passarinho no ombro direito e vá de três zagueiros para a Libertadores. Ele, mesmo que tenha sido um grande futebolista e desponte como um técnico competente, precisa parar com o discurso feroz de “lei da selva”, de “não ter pena” e respeitar a tradição de mediocridade e humildade do maior tricolor… do Rio de Janeiro.

Falam-me de Mano Menezes. “É uma revelação!” “Agora o Corinthians tem um time bem montado!” – e vibram como se estivessem a comemorar uma gravidez. E, no entanto, ele é um técnico comum.

Ora, ele chegou à semifinal da Copa do Brasil com O XV de Novembro de Campo Bom! É a raposa dos pampas, então! Certo, Péricles Chamusca também chegou com o Brasiliense – perdeu para o Corinthians – e com o Santo André – batendo o Flamengo e o XV de Mano Menezes. Vagner Mancini chegou com o Paulista e bateu o Fluminense, levando o time de Jundiaí à Libertadores. Mas eles não são Mano Menezes.

Pensam na “Batalha dos Aflitos”. Ora, ali, o Náutico não era mais um time. Era destroços, escombros. Era um time com medo, o medo de vencer que é o maior empecilho para qualquer coisa – já tentaram ganhar uma partida de esconde-esconde com medo de se esconder em um lugar escuro? Isto foi o Náutico naquele dia. Não haveria como o Náutico conseguir alguma coisa. Ainda que estivesse sozinho em campo, o Náutico perderia o jogo. Não que eu esteja a menosprezar o feito de um time que vence com 7 em campo, não é isso, mas ali o Náutico já não poderia fazer mais nada. Quando Anderson disparou na corrida, no meio-campo, os alvirubros já imaginaram a derrota, o fatídico gol. Não, antes disso até. No momento em que o pênalti foi perdido, os tricolores e rubro-negros da Veneza tropical já sorriam. Ali, toda a Boa Viagem já sabia: a derrota havia chegado. Porém, ainda falam de Mano Menezes.

O Grêmio ganhou o Campeonato Gaúcho depois de tantos anos! Certo, certo. Elogiemos Ferreirinha que devolveu o título ao interior da Bahia depois de 37 anos. Não, o nome dele não é Ferreirano Menezes.

O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense foi às finais da Libertadores com Tuta no ataque? Correto, isto sim é digno de nota. Tudo bem que o raquítico São Paulo do primeiro semestre de 2007 não foi uma barreira (o jogo do Olímpico entristeceu até corintianos – alguns -, que esperavam um jogo e não o arremedo que foi) e que o Santos (um time que nunca me convenceu nem com Zé Roberto – e certamente não convenceu o Caracas) só não passou de fase em decorrência de detalhes – bem, dou o braço a torcer, o Santos não conseguiu furar o Dique, a Barreira que Mano Menezes montou.

A grande qualidade de um time de Mano Menezes é aquele futebol truncado, um futebol sentado, que pode agradar americanos, mas não quem já tenha visto mais de 100 minutos de futebol na vida. Não deixa de ser um mérito conseguir algum resultado com isso, mas se a graça do futebol se resumisse a resultados, o jornal de segunda seria a loteria esportiva e a zebrinha seria a maior comentarista do país – e este é o mundo em que Mano Menezes é um “senhor técnico”.

PS: Como esquecer de uma cena fantástica? Aos 48 da segunda etapa de uma quarta rodada, vejam bem, quarta rodada do Campeonato Paulista – Mano Menezes desesperado, pedindo para acabar a partida. O que alguém poderia ver como fome de vitória – o jogo estava 0 a 0, mas há os zero-a-zeros que são superiores aos sete-a-dois, então pulemos esse detalhe – eu vejo como medo de vitória. O medo do Náutico.

PS2: Há partidas que por cavalheirismo não devem ser comentadas. Os confrontos entre Grêmio e Boca Juniors ano passado são duas delas.

 Jogadores caçados a pauladas, cantos incitando o linchamento, escudo policial para aparar pedras, futebolistas fraturados, arrastando-se em campo e, ainda assim, com forças para mirar seu soco inglês na nuca adversária. Em 1961, o Independiente de Santa Fe, da Colômbia, teve seus quatro defensores decapitados – e suas cabeças, a mando do Peñarol, percorreram a América sobre bandejas (uma clara tentativa de intimidação que, por sinal, lhe rendeu mais três ou quatro títulos).

Inicia-se hoje, portanto, mais uma edição da Libertadores da América. Claro: é ainda uma fase pré de uma competição que, a rigor, só empolga a partir das oitavas de final (salvo quando um grupo reúne esquadras fortes e tradicionais – caso de Inter, Velez e Nacional no ano passado). Amanhã é a estréia brasileira – o Cruzeiro enfrenta o Cerro Porteño, time que a imprensa adora classificar como “experiente”, “tradicional”, “chato” mas que, na realidade, tem o Tigre Ramirez como atacante (mas, ei, o Cruzeiro tem Fábio como goleiro!)

Esta edição tem tudo para seguir a mesma tendência que, desde 1992, só foi quebrada duas vezes: o título fica com Brasil ou Argentina (no mesmo período, o título da Liga dos Campeões rodou por cerca de sete países). Por mais que torcedores não-envolvidos na disputa (como os do Bahia ou do Santos) rezem pelo aparecimento de algo tão inexplicável quanto um Once Caldas ou por uma final tão insólita quanto um Olímpia x São Caetano, é muito difícil que uma zebra equatoriana derrube Boca Juniors ou São Paulo (o Fluminense é a provável vítima da temporada).

Recordem-se que, ano passado, um assombroso Cúcuta saiu do interior colombiano surpreendendo o continente, eliminando o Nacional, vencendo o Boca Juniors – mas, por fim, sendo eliminado no melhor jogo daquela edição: com Buenos Aires soterrada por uma névoa espessa, Riquelme liderou um concerto que, a certa altura, pela TV, era filmado na altura do chão, pela linha de fundo, sem visibilidade alguma – até que, do mais absoluto nada, surgiu a figura de Palermo dispersando a névoa da grande área com uma bicicleta digna de um hibridismo natural entre Leônidas e Dadá Maravilha. Naquele momento, Palermo foi quase um Mastroianni dirigido por Fellini.

Ainda que avacalhada na organização (vide o caso dos times mexicanos provocando constrangimentos e os jogos em que as equipes abdicam da saudável violência sulamericana – privando o torcedor, por exemplo, da “boa e salubre cabeçada brasileira” ou do rabo-de-arraia na versão uruguaia) e restrita basicamente a dois únicos países, a Libertadores da América preserva interesse, arte, charme e provoca uma volúpia no cidadão latino-americano que só encontramos semelhante no torcedor do Baré que segue o Roraimensão.

A maior tolice que se pode dizer acerca da paixão do torcedor pelo seu time de futebol é que há alguma territorialidade nisso. O futebol transcende qualquer divisão arbitrária e política criada por algum burocrata engravatado. Mais: O torcedor não escolhe seu time, o time é que escolhe seu torcedor. O único óbice real para o livre-arbítrio é a relação existente entre o torcedor e o seu time de futebol. A tradição, os mitos, a história de cada time, isto toma o cidadão de uma maneira tal que a ele já não é mais possível dizer se quer torcer para o time A ou B. Ele torce e ponto.

Poy, Dario Pereira, Dino Sani, Pedro Rocha, Bauer, Canhoteiro, Leônidas, Ceni, Zizinho, Raí, a grandiosidade medida em títulos, histórias e sofrimento, em Glórias e juras, em Vitórias e monas, em Gritos enfurecidos e dois pênaltis perdidos em um jogo só, nada disso pode ser comparado ou tomado em relação a um território, a um Estado.

O que é uma Unidade da Federação diante de um Time? Só mesmo um apego bárbaro à terra impede que se admire o futebol na essência do que realmente é: esporte universal, ou melhor dizendo, mais do que esporte, categoria à parte, Futebol. Se Futebol é esporte, então os outros ditos esportes não o são, são meras brincadeiras(e aqui incluem-se picula, esconde-esconde, natação, vôlei ou corrida de carros), ou então esporte é esse tipo de atividade(ginástica, atletismo, etc…) e Futebol é somente Futebol.

É impossível pensar o Futebol em termos de Estados, de cidades. Talvez seja impossível pensar o futebol em termos de países. O futebol é galáctico por natureza, é a síntese do que se possa pensar de razoável na humanidade. Não é à toa que seja realmente universal, a despeito da brutalidade de americanos, cubanos, venezuelanos e chineses. Estes tentam descobrir a magia, mas permanecem sem o dom. Talvez alcancem com o tempo.

Derrotas, fracassos, vitórias, estrondos, mesmo se acompanhados à distância por meio de um aparelho frio e impessoal, podem ser mais marcantes do que eventos que ocorram às vistas, a 2 metros de distância. A paixão pode brotar, ainda que não se domine a bola nos pés, ainda que se tropece na hora do chute, que a potência do pretenso tirambaço não ultrapasse a de uma formiga empurrando sua folha e sendo pisoteada no minuto seguinte.

O Futebol é a lupa. O Futebol é a cura para os ineptos.