

Outro dia, um companheiro de jornada, desesperadamente bradou para mim, com ar de independência: “Você é um consumidor! Você não torce para um time de futebol, você apenas consome um produto”. E eu quase o vi babar pela camiseta.
Ora, ele dizia, “não existe isso de torcer para um time de fora da Bahia! Baiano é assim mesmo, não dá valor às coisas da terra”. Foi então que eu tive uma catarse. O apelo telúrico do torcedor do Sport Club Victoria da Bahia trouxe à tona todo um processo cognoscivo que me paralisou por boas horas. Afinal, eu seria o menos baiano dos baianos por não respeitar uma instituição da terra, seria quase um baiano anti-acarajé, um sacrílego, um assassino dos alfaiates, um contra-malê, um destruidor da Colina- tudo isso porque visto as cores do São Paulo Futebol Clube.
Sabemos, claro, que o conjunto de atos que leva alguém a torcer por um time não é um processo racional ou direcionado. Por outra: Não é o torcedor que escolhe o time, e muito mais próxima a verdade está do contrário. Todo o processo inconsciente, de formação do ego, do superego, do anti-ego, do pós-ego e até mesmo do superduperego, os traumas e glórias de infância, o processo educacional familiar e escolar, os doces devorados na mercearia do Seu Joaquim, tudo isso desemboca na relação final entre alguém e o time de sua admiração.
E, no entanto, isso é inaceitável para muitas pessoas. Vejo aqui na região Nordeste, inúmeros reclamarem da subserviência ao Sul (leia-se Sudeste, incluso). Isto, é claro, tem raízes profundas no ressentimento causado pela ascensão econômica e pela proeminência política especialmente de São Paulo, Rio de Janeiro e, vá lá, Minas Gerais e na própria decadência que tomou as terras que se estendem de Teresina e Picos (ou São Luís, algo amazônico) a Salvador (ou Teixeira de Freitas), desde uns 200 anos.
Reclamam também meus conterrâneos da imprensa sulista, que trataria com certo desdém todo o time que não aqueles 12 (4 de São Paulo, 4 do Rio, 2 do Rio Grande do Sul e 2 das Gerais) e do domínio existente nas federações, conselhos de arbitragem, museus, livros e qualquer coisa que inclua futebol e discursos sobre o mesmo.
Assistindo um noticiário produzido no Rio ou em São Paulo, só posso concordar com meus colegas. Por maior que seja a boa vontade com que um grande do jornalismo esportivo, Juca Kfouri, trate o Esporte Clube Bahia, por exemplo, sinto que o olhar presente é a de alguma coisa exótica, excentricamente deslumbrante. É o que se nota nos comentários sobre a torcida, ou melhor, todas as torcidas do Nordeste. Mesmo o elogio, em relação à fidelidade das mesmas, acaba resvalando num maravilhamento com o pitoresco, com o algo mágico da região.
Isso quando não cai na desinformação ou na informação prejudicada pela distância mesmo. É o caso do trivela.com.br afirmando o Victoria da Bahia como um time inferior ao Paraná Clube ou qualificando o trabalho (mediano) de Vadão como esgotado (quando o que se notava era um péssimo time, formado de maneira estranha e esquisita pela diretoria) no momento de problemas do Campeonato Estadual .
Ok, aceito o argumento- e mesmo aquele que constata a decisão dos juízes a favor de alguns times quando na dúvida. É uma generalização, claro, e comporta torrentes de exceções.
Só que eu lembro, não nasci em Salvador, Recife ou Fortaleza. Nasci em uma cidade com pouca tradição futebolística e com um time, que se já fez um bom papel aqui ou ali, hoje enfrenta dificuldades tremendas. Como já disse, sou sensível ao apelo telúrico, e desde pequeno, acompanho a trajetória do Bravo Touro Pioneiro, o Fluminense de Feira. Não posso dizer que sou um torcedor, até porque, claro, isto não é um processo consciente, deliberado. Mas sempre guardei a simpatia. E guardo nas memórias profundas e coletivas, as histórias de mutretas contra times do interior. E, vejam só!, os personagens vilânicos da história são as vítimas dos primeiros parágrafos. Bahia e Victoria aparecem como aqueles que ajudaram a retardar o desenvolvimento alheio no Estado.
Ligo a TV num noticiário esportivo local, e uma nova catarse me leva ao desmaio. Acordo, mudo de canal duas vezes e quedo catatônico. O noticiário estadual fala de Bahia e Vitória em proporções desiguais, tempestuosas, quando comparados a outros times. Sim, se isso é bem verdade quando a maioria dos clubes do Estado está em recesso, também é quando os times estão em atividade. Claro, os campeonatos estaduais servem mesmo para o entusiasmo e a pré-temporada dos grandes (ou dos pequenos que se querem enormes).
Parece-me claro que sempre haverá insatisfação com o espaço dado. Parece-me claro que sempre alguns times chamarão mais atenção que outros (e que hoje a mídia paulista, carioca, gaúcha ou roraimense teme mais o Victoria ou Sport Club do Recife do que o Atlético Mineiro).
E mais cristalino do que água ou do que o próprio cristal, posso asseverar que o ressentimento é uma arma que só serve para esconder fraquezas e proteger estruturas ridículas- como certas diretorias e federações.