a burrice aparelhada de museus


A última quarta-feira foi um dia mitológico para o futebol. E digo mais: Um dia transcendental. Ora, perguntariam a mim: Mas, poeta, um novo Pelé surgiu na relva? Um escrete de sonho com o mágiar de 54, o canarinho de 58 ou os asseclas de Orange de 74? E eu digo, não, não. Nem um São Cristóvão de 1919 surgiu neste último dia. Mais uma vez, contudo, o futebol mostrou sua magnanimidade, à qual me curvo.

Quando a Irlanda vencia uma descarada, horrenda, trágica, medonha, e por que não dizer?, apoplética França, uma França que envergonharia o mais colaboracionista dos ladrilhos de Vichy, eu pensava: algo de interessante pode surgir daí. A Irlanda é um time que espelha o país: resistente, esquisito e com um futebol rígido. É um time de luta- o que pode significar um jogo ridículo, seguido de um momento mágico de superação. E esse Eire, tão dúplice, encurralou os comandados (ou assim diz a lenda) de Domenech, de uma forma cabal. Não conseguiram o 2 a 0 e tiveram sua resposta da pior forma: numa condução circense, Henry levou a bola aos pés de seu compatriota e causou mais um episódio constrangedor na história do futebol: O time maior roubando o menor, com uma indignidade de arena.

Ali, pensei: O futebol acabou. E fui dar andamento a algum afazer, que redundou em assistir (ou tentar fazê-lo) o embate entre Obina e Maurício, digo, entre Palmeiras e Grêmio, ao mesmo tempo em que Cerro Porteño e Fluminense digladiavam-se por uma vaga na final da Sul-Americana.

A chatice do primeiro jogo deixou-me no Maracanã (se o narrador da Globo não vai ao estádio, na maioria das vezes, por que eu não me sentiria lá?), onde o Fluminense perdia, mas lutava para sufocar o time dos jogadores de pedras de Assunção.

Dos lances, ataques e contra-ataques, todos já sabem, não interessa muito. O que importa são os episódios gregos de  então. Obina e Maurício trocaram sopapos, dignos de enciclopédia. Um deu socos de jogador de futebol, socos no ar, enquanto o outro deu socos de rinha de galo, socos do mais puro acarajé. Desta batalha partiu o maior destempero: o afastamento dos jogadores do grupo palmeirense, de imediato. Ora, todos sabemos que a diretoria alviverde jogou para a torcida, num momento do mais puro desespero e da mais pura indecisão, motivada pela dúvida acerca do que fazer diante da perda de um título imperdível? (Ainda volto à impossibilidade que o Palmeiras se colocou neste 2009).

E a virada do Fluminense foi épica, fabulosa, magistral, digna de registro nos anais do Congresso, fosse aquela casa mais do que o que é.  A vontade com que o tricolor carioca se atira em campo espelha o futebol no seu momento mais sublime, a despeito de presidentes insanos, diretorias confusas, patrocinadores mandões e contusões inexplicadas. É o futebol superando a lógica, é o futebol superando o pessimismo.

PS:  O Fluminense não venceu nada, ainda corre um bom risco de ser rebaixado, blá, blá, blá. Não elogiar um momento por isso é a tragédia do suposto racionalismo futebolístico, parente do chatismo.

vai desabar

Há quem diga que, apesar de filha do diabo ( ou, talvez, em razão disso), a mentira seria prova da maturidade de alguém. Por outra: Criança não mente. Ou numa pior, adulto que não mente é infantil ou débil mental, donde se poderia inferir que o local para as filosofias de Immanuel Kant seria uma espécie de hospício. Todavia, quem conhece o choro ladino de alguns pivetes, sabe que a banda não toca para este lado.

Mas por que falo da mentira? O que a mentira, o cinismo, a desfaçatez tem a ver com o esporte bretão. Bem, é justamente da Ilha que vem a recente polêmica envolvendo o croata-brasileiro Eduardo da Silva e uma simulação diante do Celtic, nas preliminares da Liga dos Campeões. Vocês podem ver aqui que o atacante não é tocado e apesar disso, desaba na área, motivo suficiente para que o juiz marcasse o pênalti.

Dizem que na repetição do lance, a torcida gritou de decepção, lamentando que o pênalti não tivesse sido justo. E logo começou a recriminação. John Terry, zagueiro do Chelsea, acusou um excesso de malícia dos jogadores estrangeiros, até porque desacostumados em relação ao ritmo do jogo inglês, ao tempo em que, de certa maneira, lamentava que os compatriotas não fossem daquele jeito. Digo de certa maneira e já me corrijo. Em verdade, a lamentação era uma reprimenda marota, com direito a piscadela e tudo mais, aos estrangeiros, que incorreriam em desonestidade tremenda.

Ora, resultou que o jogador foi punido com dois jogos de suspensão, pela simulação. E, no entanto, vos reclamo e conclamo, sim, conclamo, a pensar sobre o assunto. É possível medir o grau de malandragem de um jogador em campo? Não sei e tenho minhas dúvidas- assim como tenho minhas dúvidas em relação a uma suposta moralidade dos jogadores de tal ou qual país.

Será possível medir o quanto é cera de um goleiro, o quanto um zagueiro provoca um jogador, etc, etc? Não acho. A não ser que instalássemos câmeras em cada cerebelo (e bulbo) alheios, com direito a transcrição pictográfica e legendada das atitudes e intenções de cada um, não vejo possível que uma excessiva regulação do futebol jogado possa nos levar a mais e não menos diversão em campo.

Parece-me mais adequado um melhor treinamento dos árbitros e um esforço para que as influências políticas apitem menos na determinação dos episódios de campo. De resto, esforços no sentido de uma super-formatação só vão tornar o futebol mais chato e menos futebol. Chegará o dia em que os amantes do futebol somente poderão assistir o contra-futebol, o anti-futebol e até mesmo o pós-futebol.

Lembremos, amigos, que o futebol nasce como esporte de lordes e cavalheiros e vislumbro aqui uma bela partida dos estudantes de Cambridge (imaginemos a Turma A contra a Turma B ou melhor, os com-cartola versus os com-fraque). O pouco que há de regras disciplinares vem do espírito de um tempo em que (ao menos, em tese) as emoções e impulsos disparatados do corpo e da alma eram mais ou menos controlados. Como todos os esportes cavalheirescos, o futebol surge como uma forma de o corpo controlar a alma.

Nossos tempos, porém, são outros. As almas mostram-se incontroláveis, os corpos descontrolados e, mais do que isso, há um orgulho no descontrole. Sem maiores lamúrias, temos de reconhecer isso. O futebol é um jogo de cavalheiros que não é jogado por cavalheiros. Precisamos aceitar essa realidade e nos divertir com ela, evitando que passemos a ser brutos praticando um jogo de burocratas entediados e entendiantes.

debordOutro dia, vi um sujeito gritando na rua, desesperado, parece-me que ninguém concordava com suas afirmações e ele era quase um solitário. Eu era sua companhia. Olhei no espelho e vi que esse sujeito de minha companhia, na verdade, era eu mesmo.

Pois sim, sou um complexado, um problemático e um obsessivo. Eu quase falava e agora falo que sou um ranzinza nato e vitalício. Outro dia, conversando sobre os demônios da bola, um amigo disparou: – Mas também, para você, ninguém é craque!

Aquela afirmação cravou em meu peito como um punhal- até porque verdadeira, de certo modo. E eu comecei a rememorar meus comentários sobre os últimos craques- assim chamados mundo afora. Ibrahimovic? Um bom jogador, mas que não muda definitivamente o time. Sim, porque sim a Internazionale é tetracampeã italiana, decorrente de circunstâncias do destino e de um evidente enfraquecimento dos maiores clubes da bota. Na Suécia, Ibrahimovic pode conseguir manter o time na média, mas não tenho a impressão de que carrega nas costas- como um Hristo Stoichkov fazia com a Bulgária.

Kaká. Excepcional, forte, rápido, carregou um geriátrico Milan nas costas (com auxílio dos vovôs em momentos cruciais, é verrdade) por, pelo menos, 2 temporadas, até o momento crucial da estafa. Não me agrada em Kaká, porém, o excesso de força e o mínimo de magia. O drible de Kaká é seco, eficiente, objetivo. Claro, é uma beleza e evidentemente é ótimo que ele busque o gol, a meta primordial, não sendo uma enceradeira, uma foca ou uma bailarina de caixinha de música. Mas eu sinto e me ressinto da falta de magia.

Cristiano Ronaldo. O tuga é ótimo, mas ainda percebo que aqui e ali ele some. Não digo só em jogos decisivos (há os que ele aparece), mas em alguns momentos, parece que as firulas não são capazes de convencer a ninguém, nem a ele e seu ego transatlântico.

Sobra-nos Gerrard e Messi. Por incrível que pareça, há situações em que o inglês agrada-me mais que o argentino, muito embora o brilho esteja mais ao lado do jogador do Barcelona, que, no entanto, nem sempre corresponde às enormes, gigantescas e monstruosas expectativas que são erguidas em torno de seu futebol. Espero eu- e nisso acho que não estou só com meu reflexo- que surjam jogadores históricos a cada minuto, jogadores essenciais, donos da história – e nisso num tempo em que vemos (vírgula eu, que escolho poucos jogos para ver) todos os jogos de todos os jogadores, em videotaipes, câmeras lentas e tudo o mais a que o freguês tenha direito, inclusive os defeitos, as falhas, mínimas que sejam.

A esta superexposição que corresponde o sucesso absoluto do futebol no mundo, talvez esteja a grande contradição de nossos tempos: Quanto mais vemos, sentimos e discutimos uma coisa, mais nos sentimos decepcionados quando não, mais distantes.

O tempo desperta um temor reverencial em todos nós. Assim, os feitos do passado ganham uma dimensão que, se realizados hoje, jamais teriam. Tornam-se gloriosos, fabulosos, épicos, dignos da velha Hollywood. E, como o tempo, também é com a distância. Talvez eu deva retificar o que ia falando, pois o tempo somente nos causa respeito somente por ser ele mesmo de uma distância atroz. E é a distância esta senhora severa, definitiva, mágica e cabal que nos faz prostrar e prestar salamaleques genuflexivos, morais.

Vejam o caso da Liga dos Campeões da Europa e da Libertadores da América. Dia sim, dia também, alguém brada o desnível existente entre as duas competições, a diferença técnica, tática, antropológica e tenho medo do dia em que se gritará alguma distinção ética entre o futebol de clubes rebelde e profundo e aquele outro, aparelhado de museus e históriacortez_3_lg

De um lado, apresentam-se os argumentos a favor do campeonato europeu: os grandes craques, as equipes organizadas, com sócios e proprietários cuja soma de bens ultrapassa qualquer realidade tátil, os estádios deslumbrantes, os grandes embates. De outro, um torneio com a tradição brasileira, argentina e, no máximo, uruguaia. Argumentam os rapazes que times como Universidad San Martín de Porreas, Boyacá Chicó e mesmo um Colo Colo ou até um Nacional de Montevidéu são timecos, fraquíssimos, indignos de exercer qualquer barreira contra os brasileiros ou o Boca Juniors- são indignos até de fazer uma grande exibição.

Não posso deixar de me contrariar com e de contrariar essas afirmações, tão enfáticas, quanto mal-informadas.  São hipóteses alimentadas por um sentimento sempre presente e sempre detestável no futebol: o centralismo, um elitismo de quinta categoria.

Basta uma vista rápida para descobrirmos que a Liga dos Campeões não é tão grandiosa assim e que não somente os times dos maiores centros de futebol estão lá. Mais, é preciso perceber que os times dos maiores, mais ricos e mais desenvolvidos centros de futebol não são exatamente o melhor exemplo de grande futebol- e que, sim, os clubes menores podem ter seu papel.

Só nesta última edição (2008/9) da LC da UEFA,  tivemos Basel, Cluj, Anorthosis Famagusta, Panathinaikos e BATE Borisov . De outra mão, tivemos papéis medíocres exercidos pelo Celtic, Sporting (times que não são das maiores ligas, mas são tradicionais), Werder Bremen, para não falar do futebol mais ou menos praticado por boa parte dos outros clubes. Reparem que o Arsenal jogou mal e feio quase todas as partidas, o Real Madrid não convence ninguém na Europa há umas duas temporadas e que a Internazionale passou por uma pendenga daquelas para passar de fase num grupo em que Werder Bremen, Anorthosis Famagusta e Panathinaikos certamente não gastavam metade da folha salarial dos milaneses.

Claro, é mais improvável que um time de fora do G-14 ganhe o título, mas a presença de Villareal nas quartas deste ano e na final de 05/06,  do Leeds, do La Coruña e de outros clubes aqui e ali não são tão desprezíveis assim. E, claro, nem sempre é possível contar com um grande e pintoso futebol nessas ascenções. Se um Once Caldas retranqueiro é algo que pode constranger os mais pudicos, não podemos esquecer um papel melancólico encarnado pelos já citados Real Madrid e Internazionale neste ano.

Não discordo que a Libertadores de 2009 tem decepcionado em qualidade dos jogos, pois contamos com argentinos, mexicanos e colombianos enfraquecidos. Desprezar o esforço de um San Martin (clube universitário fundado em 2004), uma certa melhora dos times da antiga Província Cisplatina, mal comparando-os com um continente de histórico futebolístico e com níveis de riqueza nitidamente superiores é pôr a questão em pratos quebrados.

Esta situação toda é um reflexo de vira-latismo e deslumbre, e ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser, é uma afirmação tacanha de superioridade. Ao diminuir a Libertadores, aumentamos nosso tamanho e podemos, assim, nos imaginarmos mais pertos de um mundo mais rico e menos bagunçado do futebol. Que isso seja uma ilusão para consumo interno, faz parte da enganação nossa de cada dia. Que se dê ao custo da desvalorização de um torneio que é justamente a hipótese próxima de incrementar o futebol em toda a América Latina, é lamentável e deprimente.

O homem atual é guiado pelo resultado, não é dado a contemplações, banalidades reflexivas ou, como diria um amigo, não é cheio de nove-horas. Tal qual em uma comunidade de galinhas, na qual pouco importa as habilidades em ciscar ou a sapiência no uso da moela, o que determina o homem hoje é o resultado, o produto final, o ovo. Sem pôr seus ovos regularmente, industrialmente, o homem não é nada.

E isso também é verdade no futebol. Mais: Isso é uma verdade superior no futebol, mais verdadeira do que no resto da existência. Para os treinadores, então, o resultadismo é uma doxa inabalável, a doutrina dos milênios e dos seiscentos. Como diz o outro, o jogo é jogado e há aqueles que conseguem sobreviver em meio à granja do dia-a-dia. É o caso do neerlandês Guss Hidink.

Os trabalhos deste rapaz dos Países Baixos chamam alguma atenção: Austrália, Coréia e Holanda nas últimas Copas do Mundo, a Rússia deste pré-2010, PSV nos píncaros da Europa, enfim, enfim, o homem é dono de resultados de respeito. Fosse uma galinha, seria de ovos dourados ou melhor, seria uma galinha que põe ovos de Fabergé.

E não à toa, Hiddink parou no Chelsea pós-Scolari. A atuação do time nas partidas contra o Barcelona demonstraram as bases da atuação do treinador: Pragmatismo até a medula, até o limite extremo. Na Catalunha, isso implicou um time acuado, apertado pelas circunstâncias de um time ofensivo, porém estéril. O Chelsea desistiu do jogo no Camp Nou e quase arrancou uma vitória num vacilo da zaga culé.

Em Londres, porém, a estratégia já não era a do ferrolho. Era alguma coisa arriscada também, ainda mais quando Essien abriu o placar num pombo sem asa fundamental logo no início do jogo.  Hiddink armou um Chelsea com contra-ataques insinuantes, mas que ao mesmo tempo abria seu campo ao jogo do Barcelona. Era uma estratégia, digamos assim, malandra. Enquanto o time inglês conseguisse permitir que o domínio blaugraná fosse inócuo, pouco efetivo, estava tudo ótimo. Ainda mais se o time acertasse alguns contra-ataques, que dariam a chance de encerrar a partida.

Havia um problema nesse esquema, porém. Primeiro, se faltasse alguma coisa aos contra-ataques. E faltaram. Drogba e Anelka sempre erravam alguma coisa no momento final. Segunda questão, se o juiz fosse um parvo. E era. Ao menos dois pênaltis não foram marcados- o que explica o ocorrido, pois não se anula a expulsão ridícula de um defensor do Barcelona que parecia a ruína do time. E, por fim, se aquela inefetividade ofensiva catalã acertasse uma única vez que fosse. Iniesta cumpriu essa parte, no finzinho da partida.

Em futebol, um minuto é suficiente para que ouro vire gema. E o pior, gema velha e estragada. Em dois confrontos que entregaram menos do que nossa mente idealista poderia imaginar, um lance fortuito arruinou a estratégia de uma senhora galinha, digo, de um senhor treinador. E Avram Grant continua sendo aquele que mais perto chegou do sonho de Abrahmovic.

Balaço nos ovos de Fabergé

Balaço nos ovos de Fabergé

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Por falar em promessas, profecias e decepções, nada pode ser mais triste do que o confronto entre Arsenal e United, também pelas semifinais da LC. Não pelos comandados de Fergunson, que voltaram a demonstrar a efetividade suíça, digna dos melhores relojoeiros do globo, com uma atuação suprema de Cristiano Ronaldo, rapaz que vem destruindo minhas últimas resistências em relação a seu poder de decisão, mas sim pelo time londrino.

Está claro que o druida Arsene precisa fortalecer o time para o próximo ano. Sim, o escrete continua agradável e faceiro, mas é preciso mais do que jogo bonito para avançar. Se antes havia Pires, Henry, Vieira e mesmo Gilberto Silva, hoje o time parece ressentir-se de algumas peças que permitam a evolução que todos esperamos. Ano passado, o time demonstrava mais ímpeto ofensivo e um caos na defesa. Hoje, o time perdeu um pouco daquela vocação (muito embora Arshavin indique potencial para mais), sem recompor a proteção da mesma maneira.

personalidades-governantes-cuba-fidel-castro-discursando-20071A vida de quem acompanha futebol é difícil e sacrificante. Vejam vocês o meu caso. Passo dias,  noites e madrugadas elucubrando acerca do mundo da bola, criando teses, dissertando, perorando às muriçocas desta primeira capital do Brasil sobre isso e aquilo. Aí me pergunto: Tudo isso para quê? Para quê, se na semana seguinte, ou melhor, no jogo seguinte, todo o discurso, toda a cantiga será derrubada, tal qual uma águia mítica do oeste americano- ou uma arara-azul do oeste brasileiro.

E digo isso em termos abstratos, teóricos, amalucados? Não, não. Digo isso porque aconteceu comigo. Vejam só, bom peregrino que sou, já me preparava para pedir desculpas a Mano Menezes e reconhecer seu mérito na formação do Corinthians- um time de futebol eficiente, aplicado, bem distribuído em campo e tentando soar simpático,  quer dizer, menos antipático que o Grêmio de Mano Menezes, mas ainda assim um tanto antipático.

Pois então, eu já declamava meu canto, quando percebo o placar parcial na Arena da Baixada: 3 a 0. Geninho era o maestro do sacode e Rafael Moura o centroavante-chefe do CAP. Ora, senhores, meu discurso ia por água abaixo, esvaia-se feito a água da Pedra do Cavalo em tempos de El Niño.

Preferi acompanhar, então, a jornada sofrida do Palmeiras, com um a menos, fora de casa, etc.,  e era a hora de criar o texto dos apesares- o Colo-Colo ganharia, apesar de covarde. O Palmeiras perderia, apesar de ter sido considerado o melhor time da galáxia no começo do campeonato paulista. (Paro e penso como  é engraçado como esses jogos da última rodada da Libertadores vêm sendo levados em banho-maria- ou num ritmo normal- até os minutos finais, quando uma verdadeira coqueluche toma o mundo. Vejam só o pobre Universitario de Lima que contente com seus 2 licuris que tomava do San Lorenzo morreu ao tomar notícia do gol do San Luís nos estertores da partida contra o Libertad).

Quando o texto dos apesares estava pronto e algumas muriçocas já vibravam de emoção- pude sentir isso na pele- Cleiton Xavier me acerta um pombo sem asa e transforma os colo-colinos como nem Augusto Pinochet faria.  Minutos antes, o Corinthians encontrava 2 gols e aniquilava  minhas pretensões de seguir falando mal dos times de Mano Menezes- teria de voltar ao tema de antes do jogo.

Mais cedo, no continente em que o mais reles ladrilho tem 4000 anos de estrada, Manchester United e Arsenal pareciam fazer um jogo frenético e matador, e a se tomar pelos primeiros 15 minutos teríamos um duelo épico, de fazer Cecil B. de Mile gritar nas catacumbas. Pois não foi o que aconteceu. Traindo mais uma vez este feitor de teses que vos fala, o jogo foi de gato contra rato. Um Arsenal acuado somente sentia o domínio do United- e é incrível como Almunia foi um goleiro gigantesco ontem. E traindo qualquer obviedade textual, semântica ou gramatical, terminou em 1 a 0, mirrado, mirrado.

É bem verdade que este 1 a 0 foi melhor do que o placar vazio do dia anterior em Barcelona, no qual o Chelsea jogou como um time da sétima divisão inglesa, envergonhando o mais escroque de seus torcedores, ao passo que os culés não conseguiam desenvolver maiores qualidades redacionais- e Messi parecia um caudilho com um esforço descomunal para uma atuação inócua.

Napoleão contra a Santa Aliança?

Napoleão contra a Santa Aliança?

Diz a lenda que a moça que passava por Waterloo, não fazia idéia de que ali se travava uma batalha de manuais de História. Tampouco que a criança faminta que gritava numa Paris mitológica sabia que estava participando de uma Revolução.

Parece que a consciência da história só vem com o século XX e com a televisão. Numa inversão hilária, tudo se torna história. Assim, a morte de uma barata  ganha uma dimensão, uma dramaticidade e uma força que antigamente nem os funerais dos melhores imperadores e profetas gozavam. Ok, talvez menos. Talvez eu esteja exagerando na emoção. Sintoma do tempo.

Aliás, emocionados, estupefatos e até meio doidivanas ficaram aqueles que assistiram ao duelo entre Liverpool e Chelsea. Vejam vocês que o locutor da ESPN agradecia até à rainha e acho que o ouvi agradecer às tribos normandas e anglo-saxônicas que ocuparam aquela ilha do Norte.

O sentimento de surpresa, e por que não dizer?, de enlouquecimento não foi gerado apenas pelo placar, um 4 a 4 magnífico, espetacular e ,é possível dizer, tremendo. Lembro de uma época, em meados dos anos 90, em que um 4 a 4 era mais raro do que a ararinha-azul ou um mamute de Spielberg. Ok, é verdade, hoje continua sendo tão raro quanto, porém, é preciso destacar, sublinhar e grifar com caneta dourada o espetáculo passado nas bandas da Rainha.

Não, não. O jogo foi espetacular (supimpa, diria Erasmo Carlos) pela quantidade de alternativas oferecidas. E isso só foi possível porque os times mostraram-se o tempo todo dispostos a atacar e mais do que isso, os escretes estavam dispostos a jogar futebol, mostrando que a teoria do progenitor não era tão descabida assim.

Por outro lado, minha expectativa de que o Liverpool pintasse como campeão foi por água abaixo no jogo anterior. Do mesmo modo, o Manchester United demonstra a força de uma espécie de futebol de resultados implantada por Fergunson nas últimas temporadas.

Sobre o Arsenal, Wenger, o druida, parece estar usando muito de sua poção gaulesa nessa reta final e o time parece num avanço promissor, o que só será posto à prova mesmo contra o United, pois o Villareal não foi adversário suficiente. Do mesmo modo, o Bayern para o Barcelona, a vedete da imprensa brasileira. Correto, a linha de passe dos catalães é fabulosa. Não se sabe, porém, se suficiente para enfrentar todo o potencial armado pelos ingleses.

Que os próximos jogos não sejam mortes de insetos.

Já disse aqui e insisto: o aficcionado, o espectador de futebol, ele é sobretudo um apaixonado pelo passado e por uma mitologia de símbolos e tradições. Seja na poltrona diante da TV, seja no assento nos estádios, o torcedor vibra mesmo é com a memória imaginária de um passado estelar.

Olhem os casos dos placares. Antigamente havia sim times superiores, e eu diria que eles eram considerados moralmente superiores, mais do que simplesmente esquadrões desportivos ou escretes afamados. Tomem o Santos de Pelé. Ou o América decacampeão mineiro. Tais times gozavam de uma reputação tal, que cada jogo deles, todos sabiam, haveriam de entrar num almanaque dourado, de folhas produzidas com a melhor celulose paquistanesa (ou birmanesa). E, ainda assim, havia uma ou outra derrota.

Só que as derrotas de antigamente eram monumentais. O Botafogo de Garrincha poderia dar uma sova de 6 a 0 no Olaria e, num relaxamento transcendental, tomava 7 a 2 do Bangu. E não pensem que isso ocorria somente em jogos desimportantes. Havia uma final de campeonato, p.ex. Era comum a regra dos três pontos na final. Assim, se o time ganhasse um jogo, tinha de ao menos empatar o outro para vibrar com a taça. Caso perdesse, tanto fazia se de 1 ou de 1 milhão a zero. Pois bem. Era possível, então, um time magnânimo enfiar 6 a 0 na ida, tomar 7 a 1 na volta e na negra, fuzilar o outro com outro 5 a 1, levando a taça com uma desfaçatez defensiva de fazer corar um retranqueiro feliz.

Mas por que falo disso? Para que tanta divagação alucinada? Tenho de falar da Liga dos Campeões europeus. Quer dizer, dos campeões, vices, etc, etc. Na terça, p.ex, vi um choque de quarto lugares, Arsenal e Villareal. O primeiro continua sendo um time imprevisível, capaz de encantar e enraivar o torcedor em fração de segundos. O placar desse jogo, porém, foi um típico escore moderno, 1 a 1, com direito a gols bonitos, alguma correria, troca de passes e definição deixada para a volta.

Esse, no entanto, foi o jogo incomum das quartas-de-final. Sim, porque exatamente naquele momento, tínhamos um Manchester United, outrora considerado imbatível e inatrasável, tal qual o Big Ben, sofrendo horrores e pavores para empatar com o Porto em plena terra da rainha.  Sim, amigos, mesmo que vocês considerem a circunstância de ter havido uma virada no marcador que deixava o United com 2 a 1, a 5 minutos do fim, é mister encarar o fator Bruno Alves.  O zagueiro portista tratou de me enfiar uma bola nos pés de Rooney e tratou de (não) marcar Tévez, ajudando de forma incrível Fergunson e seus asseclas.

No outro dia, o confronto de dois times alucinados, Barcelona e Bayern, contrapondo a Catalunha e  a Bavária em todo seu aspecto ofensivo, desbravador- se eu fosse comunista, eu ainda aplicaria um “burguês” aos times. Isto significa hoje, times que só se preocupam em atacar e terminam por defender de maneira torta (o Barcelona um pouco menos, é verdade), tal qual um fiscal de aplicações financeiras em derivativos, resultando, pois, num massacre de primeiro tempo e num segundo tempo morno, não fosse algumas jogadas da excelente linha de frente catalã (digo, franco-camaronesa-portenha).

E ainda tivemos um Liverpool chocho contra um Chelsea determinadíssimo, que infligiu um 3 a 1 em pleno Anfield Road. No entanto, vocês hão de perguntar a minha pessoa, o que de comum reuniu as partidas na Europa. E eu hei de responder: o passado.

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É nesta aparente religação com o passado, na qual o time imbatível acaba sucumbindo num jogo aparentemente normal (United), na qual o time que despontava como o melhor do fim de temporada (Liverpool) perde aflitivamente e na qual um time, que havia goleado o Sporting de Lisboa por 12 a 1 no resultado somado das duas partidas de oitavas, toma um vareio de bola, que todos os embates se assemelham. Assim, uma equipe pode dar 4 a 0 no Real Madrid e perder de 3 a 1 para outra que até outro dia, sofria com o Barnley.

Portanto, é difícil prever alguma coisa para as finais, ainda que tenham despontado Chelsea e Barcelona como os melhores desta semana- ressuscitando um grau de imponderabilidade que somente os melhores nostálgicos hão de guardar em suas memórias, conquanto fictícias, tal qual naquele momento em que o Leônico arrancava um improvável marcador contra o Victoria da Bahia…

O aficcionado pelo futebol é, acima de tudo e de todas as coisas, um nostálgico. Mais do que vibrar pelo drible, pelo craque e pelo gol de hoje, o torcedor assenta-se na tradição e frui um gol de Pelé, uma jogada de Puskas ou Cruyff e sofre nas mãos de Obdúlio Varela e Ghiggia como se fossem momentos mais presentes do que a própria atualidade. E é assim que o fanático vibra pelos tempos bons e pelos campeonatos de antigamente, quando o dinheiro não prevalecia tanto e os times pequenos podiam aprontar para cima dos grandes. Sempre há aquele que lembrará a goleada inapelável que o Canto do Rio aplicou no Flamengo ou aquela vitória sofrida, num grande espetáculo terminado em 4 a 3 (ou 6 a 5, 11 a 10) no qual o Atlanta destroçou o Bahia- ou, num âmbito outro, o Bahia destroçou o Santos de Pelé.

Eu diria que a nostalgia é componente essencial da própria mitologia futebolística. Eu diria mais: A nostalgia é como a argamassa da tradição. Ou de uma maneira tautológica: A tradição é composta e construída pelo respeito aos vultos do passado. E sem esse respeito, não há progresso. E sem esse respeito, o futebol não teria se tornado o que é, os times não teriam construídos suas histórias, os torcedores não seriam os devotos que são, e sim meros torcedores de bandinha de carnaval.

Não vos nego, eu mesmo sou um desses nostálgicos e saudosistas essenciais. Tenho em mim a saudade de 70 verões desde o nascimento e tenho estádios lotados em minha mente, além de claras memórias sobre o que não vi, nem vivi e mal ouvi sobre. Por outro lado, há fatos corriqueiros, atuais, urgentes, dos quais não guardo a menor lembrança ou vontade de memória. Mas aqui já estou em devaneios, em luas asiáticas. Por que falo tanto da nostalgia?

É que nesta semana, uma notícia chama a atenção. Ao passo em que ainda sonho com o Nottingham Forest, a Uefa já passa a considerar a possibilidade de ser criada uma Superliga européia, com três divisões. Atentem para a voz passiva, queridos. Imagino que nem o nosso amigo Platini saiba se a Uefa dirigiria o processo, dada a existência de um supergrupo europeu.

A verdade, amigos, é que a dimensão global do futebol e as fronteiras mais próximas da Europa possibilitam uma certa revolução na sua, na minha e na concepção deles de fronteiras nacionais. Mais do que atos de escritório dos burocratas de Bruxelas, podemos presenciar a consolidação de identidade mais nos clubes do que nos países.

Até aí, boa parte dos embates entre seleções já nos vêm mostrando isso. Aí é que entra o nosso perrépis, como diria o outro. Pelas nossas contas, três divisões européias comportam no máximo 70 clubes. Mais algumas contas rápidas e podemos estar a presenciar no futuro a aniquilação de boa parte dos pequenos clubes e da engrenagem miúda que mais do que tudo, deu substância, ou sustança, como diria aquele outro colega, vitamina e sais minerais para que o futebol se tornasse o que é hoje.

De modo ainda curioso, é um fenômeno notável e bem similar ao que acontece nas bandas do único país continental no qual o futebol vingou e vinga como esporte primordial: sim, o nosso Brasil varonil. Por cá, os times pequenos dos estados (ou mesmo qualquer time de alguns estados, como Espírito Santo, para não citar jovens unidades da Federação, como Acre ou Tocantins) encontram dificuldades abissais, gigantescas e fabulares para continuarem vivos. Isso, num país minimamente coeso em termos culturais, com um só idioma como meio de comunicação e com conflitos regionais relativamente apaziguados (ou abafados, a depender do seu grau de cabanagismo, balaísmo ou sabinadismo).

Imaginem, então, os problemas numa Europa com ene clubes em diversas províncias, autarquias, condados ? Não sei, realmente não sei. Até pode ser que nada ocorra, as pessoas entendam que a Terra está girando e girando, e que em 2080 estejam a memoriar gloriosa e saudosamente um tempo em que os jogos eram bons mesmos quando travados dentro de um mesmo país.

Leia também: Calendários, desgaste e confusão e o modelo ideal

Aderir ou não aderir à Superliga?

Aderir ou não aderir à Superliga?

fergiedm2303_468x5501Se há um time que pode impedir a vitória do Liverpool, ele está não na Catalunha, mas na própria Inglaterra, e é o Manchester United. É bem capaz de esta afirmação ser uma impropriedade, já que se há alguém a ser batido, são os diabos vermelhos mancunianos.

Se nos anos 90, o time já liderado por Ferguson, tendo como destaque Ryan Giggs e Dwight Yorke, entre outros, já causava espécie na Liga Inglesa por faturar a maioria dos títulos, hoje, a equipe de C. Ronaldo, Ryan Giggs e sir Ferguson, entre outros (dentre os quais também e ainda se encontram Neville e Scholes) causa espanto e a própria admiração daqueles que parecem se consagrar imbatíveis.

O recorde de não sei quantos jogos sem perder na LC, de não sei quantos minutos sem tomar gol no Campeonato Inglês, isso interessa não pela curiosidade de almanaque que desperta, mas pelas características mais profundas que revela: regularidade, eficácia e determinação. Sim, amigos, o M. United joga como um relógio.

Correto, aplicado, regular, este é o modo como toda a equipe, em especial a defesa e o goleiro comportam-se em todos os jogos, seja contra  Derby County (se eu não me engano, a última equipe a bater os diabos em uma partida),  Sunderland, Liverpool ou Internazionale.

Não, amigos, o M. United não traz o comportamento excessivamente burocrático dos ponteiros de um relógio. Não é a equipe de uma jogada só, nem de um craque só na armação das jogadas. Se não inspira sempre pela beleza dos versos, se não chega a ser um Yeats ou um Coleridge, traz uma abundância e uma diversidade de posicionamento, ataques, variações, opções de jogadores e de determinação tática que assusta- e faz um jogador como Park-Ji-Sung soar como algo que nunca soaria se jogasse num time dependente de espaço e do joga bonito como é o Barcelona ou que espera que o adversário seja totalmente leal e cortês, como o Arsenal.

Realmente, é irritante e assustador ao mesmo tempo assistir ou torcer contra o United. Eu já desisti. Tentei secá-los quando julgava que o Arsenal detinha o melhor e mais injustiçado futebol da Europa, em vão, em vão e por nada. Tentei torcer para um título que não vem há 19 anos para o Liverpool, mas não será dessa vez que uma banda da cidade que um dia fez fama pelo porto no terrível tráfico de escravos triunfará no Campeonato Inglês. É ineficaz. O Manchester United, como um relógio, com precisão assustadora, ontem, marcou 2 gols, os dois de cabeça, ambos aos 4 minutos, um da primeira etapa, cabeçada de Vidic, outro da segunda etapa, com Cristiano Ronaldo.

Mesmo com a Internazionale dando sinais de que poderia conseguir o empate ao fim da segunda etapa, nada abalava a fleuma dos jogadores de vermelho. Eles trabalhavam com a precisão de um relógio e com a determinação e a certeza de cavaleiros daquela Idade Média que só parece existir em nossas mentes: homens sérios, portando escudos e capacetes, atacando somente quando necessário e neste momento oportuno, fazendo a vitória desejada.

E, assim, como uma Mãe Dinah que precisa de variáveis, vos digo: Somente uma falha dos paladinos do Sir Ferguson permitirá que a profecia do Liverpool se cumpra.

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