Já disse aqui e insisto: o aficcionado, o espectador de futebol, ele é sobretudo um apaixonado pelo passado e por uma mitologia de símbolos e tradições. Seja na poltrona diante da TV, seja no assento nos estádios, o torcedor vibra mesmo é com a memória imaginária de um passado estelar.
Olhem os casos dos placares. Antigamente havia sim times superiores, e eu diria que eles eram considerados moralmente superiores, mais do que simplesmente esquadrões desportivos ou escretes afamados. Tomem o Santos de Pelé. Ou o América decacampeão mineiro. Tais times gozavam de uma reputação tal, que cada jogo deles, todos sabiam, haveriam de entrar num almanaque dourado, de folhas produzidas com a melhor celulose paquistanesa (ou birmanesa). E, ainda assim, havia uma ou outra derrota.
Só que as derrotas de antigamente eram monumentais. O Botafogo de Garrincha poderia dar uma sova de 6 a 0 no Olaria e, num relaxamento transcendental, tomava 7 a 2 do Bangu. E não pensem que isso ocorria somente em jogos desimportantes. Havia uma final de campeonato, p.ex. Era comum a regra dos três pontos na final. Assim, se o time ganhasse um jogo, tinha de ao menos empatar o outro para vibrar com a taça. Caso perdesse, tanto fazia se de 1 ou de 1 milhão a zero. Pois bem. Era possível, então, um time magnânimo enfiar 6 a 0 na ida, tomar 7 a 1 na volta e na negra, fuzilar o outro com outro 5 a 1, levando a taça com uma desfaçatez defensiva de fazer corar um retranqueiro feliz.
Mas por que falo disso? Para que tanta divagação alucinada? Tenho de falar da Liga dos Campeões europeus. Quer dizer, dos campeões, vices, etc, etc. Na terça, p.ex, vi um choque de quarto lugares, Arsenal e Villareal. O primeiro continua sendo um time imprevisível, capaz de encantar e enraivar o torcedor em fração de segundos. O placar desse jogo, porém, foi um típico escore moderno, 1 a 1, com direito a gols bonitos, alguma correria, troca de passes e definição deixada para a volta.
Esse, no entanto, foi o jogo incomum das quartas-de-final. Sim, porque exatamente naquele momento, tínhamos um Manchester United, outrora considerado imbatível e inatrasável, tal qual o Big Ben, sofrendo horrores e pavores para empatar com o Porto em plena terra da rainha. Sim, amigos, mesmo que vocês considerem a circunstância de ter havido uma virada no marcador que deixava o United com 2 a 1, a 5 minutos do fim, é mister encarar o fator Bruno Alves. O zagueiro portista tratou de me enfiar uma bola nos pés de Rooney e tratou de (não) marcar Tévez, ajudando de forma incrível Fergunson e seus asseclas.
No outro dia, o confronto de dois times alucinados, Barcelona e Bayern, contrapondo a Catalunha e a Bavária em todo seu aspecto ofensivo, desbravador- se eu fosse comunista, eu ainda aplicaria um “burguês” aos times. Isto significa hoje, times que só se preocupam em atacar e terminam por defender de maneira torta (o Barcelona um pouco menos, é verdade), tal qual um fiscal de aplicações financeiras em derivativos, resultando, pois, num massacre de primeiro tempo e num segundo tempo morno, não fosse algumas jogadas da excelente linha de frente catalã (digo, franco-camaronesa-portenha).
E ainda tivemos um Liverpool chocho contra um Chelsea determinadíssimo, que infligiu um 3 a 1 em pleno Anfield Road. No entanto, vocês hão de perguntar a minha pessoa, o que de comum reuniu as partidas na Europa. E eu hei de responder: o passado.

É nesta aparente religação com o passado, na qual o time imbatível acaba sucumbindo num jogo aparentemente normal (United), na qual o time que despontava como o melhor do fim de temporada (Liverpool) perde aflitivamente e na qual um time, que havia goleado o Sporting de Lisboa por 12 a 1 no resultado somado das duas partidas de oitavas, toma um vareio de bola, que todos os embates se assemelham. Assim, uma equipe pode dar 4 a 0 no Real Madrid e perder de 3 a 1 para outra que até outro dia, sofria com o Barnley.
Portanto, é difícil prever alguma coisa para as finais, ainda que tenham despontado Chelsea e Barcelona como os melhores desta semana- ressuscitando um grau de imponderabilidade que somente os melhores nostálgicos hão de guardar em suas memórias, conquanto fictícias, tal qual naquele momento em que o Leônico arrancava um improvável marcador contra o Victoria da Bahia…
16 Abril, 2009 at 8:40 pm
[...] a atacar e mais do que isso, os escretes estavam dispostos a jogar futebol, mostrando que a teoria do progenitor não era tão descabida [...]