Um das situações (circunstâncias? evidências? Ah, eu estava para dizer um dos problemas) freqüentes e até essenciais da vida é a decepcionalidade. Está presente em qualquer aspecto da existência de um ser vivente e pode ser medida em uma espécie de índice crucial da mente de cada um.
Sempre há uma situação, desde a infância, em que escolhemos alguém, alguma coisa, algum símbolo para torcer e este ser ou objeto mitificado e divinizado há de nos decepcionar. Não se precisa de uma história futura para tanto. Você pode escolher, p.ex, os reis católicos escoceses da Inglaterra para torcer quando assiste as aulas de história. Ou por Tiradentes e os inconfidentes nas Minas Gerais ou pelas insurreições do Pernambuco. Ou por alguém que você considera um grande herói, um amigo fraterno e impoluto. Tomemos esse sujeito.
O amigo que você considera que nunca irá lhe trair tem um grau de decepcionabilidade baixo. E, no entanto, por uma lei irrevogável da humanidade, na medida em que suas expectativas por esse amigo aumentam, esse índice vai subir. Meteoricamente.
O futebol mesmo é mestre ladino em todas estas situações. Pego um jogo obscuro, no Jóia da Princesa, entre Fluminense de Feira e Itabuna. Princípio de jogo, pênalti para o Itabuna. O craque do time desperdiça nas mãos do goleiro- ou o goleiro voa nos pés do atacante. 0 a 0. O time da casa joga mal, o adversário abre o placar. E continua melhor. Segundo tempo, o sufoco continua.
No entanto, do nada, nos últimissímos minutos da partida, o Fluminense consegue um gol. Mesmo com um a menos, consegue. E todos só podem imaginar que a vitória sairá no último minuto. O time da casa avança, a torcida vibra, e o gol da vitória sai. Da vitória do Itabuna, naturalmente. Decepcionalidade em grau avançado.
(Claro, neste campeonato, curiosamente após essa partida, o Fluminense foi especialista na arte de reverter a decepcionalidade, não perdendo mais e conseguindo a vaga para a Série D. Mas isso é outra coisa, que não nos interessa por ora).
A rodada deste domingo, no entanto, foi fera, monstra, cruel, na arte da decepcionalidade. Vejam só o Campeonato Inglês. O United, de Manchester fazia um jogo parvo contra o Villa, de Birmingham, mas ainda assim, como um bom vencedor chato que é, conseguia o 1 a 0. Todavia, o Aston Villa ia tão bem que conseguiu virar. E eu sonhei com uma virada inesquecível do Liverpool que se avizinhava. E de tanto sonhar, não vi a virada dos diabos nos últimos minutos. Pronto, estava iniciada uma jornada de decepcionabilidade.
No Campeonato Paulista, o Palmeiras perdia para o Botafogo de Ribeirão, o São Paulo vencia o São Caetano, ficava em primeiro e enfrentaria a Portuguesa, que há 10 anos não sabe nem o que é uma semifinal de Campeonato Paulista. Enquanto isso, o Corinthians tomava côcos do Mirassol. O que mais eu poderia imaginar para acontecer?
Tudo, a reversão total das expectativas. Ou melhor, as coisas voltando ao normal. E é até bom um São Paulo e Corinthians nas semifinais que farão o Paulista valer alguma coisa como um campeonato de futebol e não como a atração sadomasoquista da vez que a Rede Globo direciona ao Brasil nos fins de semana.
Óbvio que há de se pôr termos em tudo- só à morte não se pode fazer isso. A minha decepcionalidade é o regozijo do outro, afinal a Coroa portuguesa ou o amigo traidor sempre estarão satisfeitos. E mesmo ontem, a decepcionalidade não foi completa- vejam só, repito, o Fluminense volta a uma competição nacional depois de anos a fio de sofrimento.
Ainda assim e até pela falta de maiores destaques, a personagem (preciso usar o vocábulo no feminino) da semana é a decepcionalidade.