obinacriedSe existe um sentimento para definir o caráter do São Paulo, este é a arrogância. É bem verdade que o sentimento de superioridade por tempos vem acompanhado de glórias proporcionais. Do mesmo modo, com o Corinthians, o que vale é o orgulho do sofrimento. Um corintiano típico e nato se orgulha de ter sofrido com seu time, mais até do que de ter vencido. O torcedor do Galo das Minas Gerais encontra seu prazer nas glórias inalcançadas. Parece mesmo que o maior orgulho do atleticano é dizer-se roubado.

Do mesmo modo como ocorre com todas as equipes, há um sentimento essencial ao flamenguismo:  É o entusiasmo, o auto-júbilo de declarar-se rubro-negro, cósmico, megalomaníaco. É um sentimento que às vezes até se confunde com a arrogância são-paulina, mas é mais engraçado, e não sendo tão levado a sério encontra sua definição idiomática no termo “oba-oba“. Sim, amigos, o Flamengo é o time do oba-oba.

E, assim, a diretoria do Flamengo espelha o seu sentimento essencial. Desde muito tempo, os senhores Kléber Leite e Márcio Braga estampam em suas faces e ternos o aspecto flamenguista de suas personalidades.

Não é preciso ser tão antigo para rememorar o time dos sonhos de 95: Edmundo, Sávio e Romário (então o vencedor do prêmio Fifa, estrela da copa de 94) no ataque e um quase-rebaixamento com um radialista no banco dos treinadores. E assim também os inúmeros destaques que o clube obteve, seja com Gamarra, Petkovic, Juan, Júlio César e outras estrelas que não levaram o clube além do título estadual ou de torneios classificatórios para  a Libertadores.

E, então, houve um momento em que o Flamengo emergia com certa fúria. Final da Copa do Brasil, contra o Santo André. Resultado final: A derrota do oba-oba. Momento seguinte, o Flamengo chega à final contra o Vasco, e finalmente volta à Libertadores. Uma arrancada no Brasileiro de 2007 dava a impressão de que o Flamengo havia voltado finalmente a ser temido.

Impressão confirmada por duas primeiras fases excelentes. Mesmo com adversários fracos, é improvável o clube não perder alguns pontos bobos. O Flamengo parecia não vacilar. E, então, pensei comigo mesmo (com o auxílio do silêncio da imprensa que abafa os problemas do Flamengo quando o time vai bem no campo, da mesma maneira que amplifica quando a equipe vai mal) e cheguei a externar o pensamento: O Flamengo agora se organizou! Agora, o time é temível e digo mais, impossível de ser batido! Ao que me responderam: Mas esta diretoria não é a mesma de pouco antes?

E, nessa toada, o Flamengo foi eliminado pelo Defensor Sporting e pelo América do México, com dois 3 a 0, um no Uruguai e um em pleno Maracanã. Em duas partidas, óbvio, o time já pensava em festas e na vitória do título. Do mesmo modo, uma casa lotada presenciou a sacola de 3 a 0 aplicada pelo Atlético Mineiro.

E o time conseguiu não passar a Libertadores ao perder para um fraco Atlético do Paraná. Então as notícias de salários atrasados, cotas de TV de anos futuros adiantadas, problemas quanto ao local de treinamento, desdém dos jogadores em relação aos treinamentos, ao mesmo tempo em que o time perdia para o Resende, tudo isso estourou. E ainda estoura.

Chega-se ao ponto em que o sentimento essencial do flamenguismo corre o risco de rebaixá-lo a um patamar inferior. Como na fábula, o excesso de felicidade vira drama. E para que a princesa fique bonita, um mínimo de organização na caixa de maquiagem é bem-vinda. Ou, por outra: Para que o sapo torne a ser príncipe, é preciso que ele não esteja imerso todo o dia na lagoa a se distrair com moscas serelepes.

E o Flamengo, do jeito que é gerido e levado, inclusive por sua torcida, está preso em uma nuvem de insetos, que podem matar o sapo.

Ps:  No link que segue, um gráfico do Lance! sobre os problemas financeiros fo Flamengo:  http://www.lancenet.com.br/infograficos/fla-raio-x-da-crise2/