
Esquentai vossos pandeiros
Preciso falar de obviedades. São as situações corriqueiras, certas, que evitam que o homem comum atire-se à loucura, que nos tempos modernos, é o suicídio. O cidadão não se joga do viaduto ou à frente de carros simplesmente porque ele sabe que em casa há o pão com ovo, o café com leite e que seus filhos o pedirão um brinquedo caro e difícil de comprar.
Nosso João hipotético (se eu fosse romano, ele seria um Mévio) também terá a certeza de que no dia do jogo da seleção brasileira, ele arrancará seus cabelos, enfeitiçará com as piores palavras os atletas e vilipendiará os antepassados de todos: do juiz, dos jogadores, da comissão técnica e dos dirigentes da seleção.
Por isso, vos digo, amigos: Não assisti a Equador 1 X 1 Brasil, nos altivos altiplanos de Quito. Sendo eu um Mévio irresignado, não mais do que 5 minutos foram necessários para que eu tomasse o jogo como irrelevante. A cada momento que passa, fico mais entediado com a seleção. Mas isso é muito de uma ranzinzice minha- e eu tinha de falar do jogo. Isto eu não posso bem fazer, e prefiro falar do clima de nosso selecionado.
Claro, relatam-me que o Equador massacrou o Brasil, errou uns novecentos chutes e o Brasil quase venceu o jogo. Mas qual a surpresa nisso? Não foi isso que aconteceu com o Brasil inúmeras vezes, seja com Dunga no comando ou não?
Há dois vértices da insatisfação pátria com a seleção. Uma é a geração e a fase dos jogadores brasileiros, que não é das melhores- embora isso não signifique o Brasil não tenha um dos cinco melhores escretes do globo- com a honrosa exceção de um Júlio César. p.ex.
E o outro problema, vocês me perguntam? Bem, o ponto é a inexperiência de Dunga, que até é esforçado, mas evidentemente um técnico iniciante, e como tal, erra muito até acertar- nesse meio do caminho, compra briga com boa parte do mundo, bancando com pose e arrogância seu cargo- uma postura defensiva tão compreensível quanto irritante.
Assim, temos uma torcida distante dos seus jogadores, que se comportam como se estivessem em uma posição intocável que não estão, dirigidos por um técnico inexperiente e arrogante, como um bom adolescente, com uma imprensa ávida por notícia e doida para reclamar, como uma vizinha fofoqueira a insuflar aquela torcida…
Ainda bem que o óbvio contenta o Mévio brasileiro e o impede de se tornar entediado tanto quanto um escandinavo.



Se existe um sentimento para definir o caráter do São Paulo, este é a arrogância. É bem verdade que o sentimento de superioridade por tempos vem acompanhado de glórias proporcionais. Do mesmo modo, com o Corinthians, o que vale é o orgulho do sofrimento. Um corintiano típico e nato se orgulha de ter sofrido com seu time, mais até do que de ter vencido. O torcedor do Galo das Minas Gerais encontra seu prazer nas glórias inalcançadas. Parece mesmo que o maior orgulho do atleticano é dizer-se roubado.
Ah, em todos os tempos há e haverá aquela do repetitivo. O camarada todo dia chega num bar, conta a mesma troça, o próprio lero-lero, repetidas vezes, até o ponto em que todos chegam à beira da loucura- ou de um estágio muito próximo a isso, o tédio- por mais que a história contada- uma guerra por ele travada ou uma aventura pantaneira – tenha sido verdade.
Se há um time que pode impedir a vitória do Liverpool, ele está não na Catalunha, mas na própria Inglaterra, e é o Manchester United. É bem capaz de esta afirmação ser uma impropriedade, já que se há alguém a ser batido, são os diabos vermelhos mancunianos.
Lembrem-se de Mãe Dinah. De Madame Sadalla, Rogério de Ogum e de outros grandes videntes do cenário internacional. Claro, todos eles tiveram seus grandes fracassos, o que significa em boa parte das vezes, a sobrevivência de uns tantos e a boa saúde de outros. Se dar uma opinião é pôr em risco a própria reputação, estipular uma previsão é pôr em risco a reputação e o futuro alheio. Sendo um jogo de risco zero, como bom covarde que sou, arriscarei meu palpite.