O susto do homem comum é o bilhete azul. A tragédia do homem contemporâneo é a demissão, a baixa na carteira de trabalho, correndo o risco de lhe ter extirpada a dignidade, o orgulho de sustentar a si e aos seus (inclusive seus vícios, diria o filósofo). Daí a insana corrida aos concursos públicos, a utopia da sinecura que alimentaria uma vida de plena felicidade, de delicatessens charmosas em bairros arborizados, de ruas bem calçadas e poodles singelos.
Mas Luiz Felipe Scolari não é um homem ordinário. Sem dúvida, é um fora de série, em seus resultados futebolísticos. Se não fosse seu histórico no Brasil, a dispensar apresentações, o cidadão levou a seleção de Portugal a uma final de Eurocopa e a uma semi-final de Copa do Mundo! E não se esqueçam: O centroavante era Pauleta! Penso que Felipão não convivia com o fracasso há tanto tempo que me lembra a história de um triliardário tão acostumado à boa ventura que um dia, ao ganhar em um jogo da loteria, teria chorado compulsivamente, desesperado por não ter ganhado antes.
E, no entanto, o futebol bretão derrubou Felipão. Os resultados do Chelsea não foram medíocres, o time está com um aproveitamento razoável em um campeonato encarniçado. Se é verdade que neste fim de semana a equipe acabou na quarta posição da tabela, também é verdade que há um inacreditável Manchester United que não toma gols, não perde e incrivelmente é 1 a 0, 1 a 0 e 1 a o, o próprio “boring United”. Há também um promissor Aston Villa e um Liverpool com muita vontade.
Contudo, também é fato que o futebol apresentado pelo time londrino era próximo do bisonho. Culpa também dos jogadores, claro. Não sendo possível, porém, demitir todo um plantel, a corda rompe do lado onde tenhamos menos pessoas. Que não se isentem as responsabilidades do técnico. Ele sabia onde estava se envolvendo quando aceitou o cargo e a demissão de Mourinho temporada passada era o sinal evidente de que o Chelsea não era exatamente administrado.
Donde encontramos o principal problema dos azuis de Londres. Imagine Abrahmovic como uma criança mimada. Imagine o Chelsea como um enorme palco Lego e os torcedores como os pais da criança, atados por um amor eterno e não escolhido, mas constrangidos pelas peripércias do infante. Claro, há sempre as glórias da paternidade e um sorriso do menino (seja num Campeonato Inglês, seja espancando um poderoso Barcelona) faz valer todo o sacrifício e esforço humano e sobreumano desempenhado na criação do garoto.
Há uma hora, porém, em que a criança cresce, a fonte de seu sustento seca um tanto e todas aqueles gracejos de jogar peças de brinquedos pela janela ou no vaso sanitário tornam-se todos irritantes.
E aí, meu nego, ou a criança toma juízo ou o brinquedo vai para o inferno.