Falam-me de Djalma Santos. Octagenário, guardando ainda o aspecto de craque, sobretudo a elegância. Falam-me de Djalma Santos e a única coisa que sinto é um temor reverencial e profundo, em minha alma. Sim, eu tenho medo de Djalma Santos.
Por outro lado, um programa de televisão lembra do Cafu. E questiona-se quem foi melhor, se Cafu ou Djalma Santos. Retificam o tempo verbal, pois Cafu ainda está na ativa e não teria ido para o Santos por opção do treinador. E então, passo a meditar.
Rememoro Djalma Santos e com ele outros, antológicos, magistrais. Nilton Santos, Pelé, Ademir da Guia, Zizinho, Julinho Botelho, Garrincha e outros e outros tais, numa lista que só me causa medo, o medo fatal diante de alguma coisa tão ou mais absoluta que a essência da própria discussão. Em minha cabeça, são todos eles maiores que o próprio futebol.
E vem à minha cabeça novamente o rapaz do Jardim Irene, Marcus Evangelista de Moraes. Trajetória espetacular, desde o São Paulo arrasador do início dos anos 90 até a Europa, sempre abocanhando títulos, inclusive pela seleção. Certamente não era o maior especialista em cruzamentos do planeta Bola. Um vencedor indiscutível e um grande jogador, sem sombra de dúvida. E penso: É possível comparar? Não sei.
Coçando a cabeça, penso em Djalma Santos jogando. Ou melhor, flanando, com fraque, cartola e girando um guarda-chuva. Ele avança diante do adversário, saracoteia, derrotando e deslumbrando, a ele, adversário e a mim, espectador, ainda que um espectador imaginário, do mundo fantástico.
Lembro de Pelé, humilhando, destroçando, aniquilando defesas adversárias. E a pergunta, a fatal, a homicida, já martela minha pobre mente a ponto de destruí-la: Será possível um novo Pelé? Será possível que surja um jogador que suscite comparações com o Rei do Futebol, este que somente na Argentina não é unânime neste epíteto?
E eu mesmo respondo, desolado: Não sei, acho que não. E não é pela falta de grandeza ou potencial de jogadores. Este momento pelo qual passamos no futebol já não é mais aquele da “Era de Ouro”. Afinal de contas, os craques são analisados, examinados, prescrutados, tomografados, engabelados, psicanalizados a todo segundo e minuto.
São também festejados, barbarizados, amados, idolatrados, odiados, a cada ato ou gesto que sinalizam. A idéia de um craque, acima de todas as circunstâncias, que possa apagar – ou melhor, sublimar- seus mais infames momentos (a perda de pênaltis, a cotovelada num jogador, a presença em campo que não evita a humilhação da goleada) já não subsiste tanto nas almas dos torcedores, dos próprios jogadores e de todo o ambiente do futebol.
Estamos todos um pouco mais pobres no espírito, um pouco mais despidos do fraque, da cartola e da paixão. Se são circunstâncias da vida, que ao menos se preserve a imagem do mestre Djalma Santos, merecedor de todos os nossos parabéns.
Minha reverência, ao menos por um dia, está desacompanhada do temor, mas de somente um respeito tremendo.
E foi começada a fase final da Liga dos Campeões, que seria algo como um complemento especial ao maior produto gastronômico do futebol mundial. Os conoisseurs, do Kiribati ao Butão, da Palestina à Alemanha, aguardavam ansiosamente pelo dia das oitavas da LC. Perguntem-me, então, que pergunto a vocês: E aí, como foram os jogos?