Uma gritaria intensa, uma zoada frenética, um barulho espetacular. Como em um show musical animado ou numa orgia furiosa, nas quais os instrumentos não fazem som e o cantor é mudo e os participantes são eunucos, a energia produzida é inferior ao mínimo aceitável para que se chame a atenção de qualquer um- mas a propaganda já atordoou a mente de todos e agora é tarde.

De certo modo, essa é a história da transferência de Kaká para o Manchester City, ora finda, segundo anunciam os órgãos de mídia (não impressa, ainda não deu tempo). Sinal dos tempos, a transferência de Kaká foi cantada em prosa, verso, reverso, anteverso e até em poema épico. Faltou somente uma câmera nas negociações – fica a sugestão para Berlusconi e seus canais de tevê numa próxima.

Claro que chama a atenção no melodrama o monte de dinheiro discutido. Essa espécie de negociação tem um lado positivo, pois nos mostra quanta moeda pode-se acumular no mundo. Vejam só, que hoje descobri o salário de Lewis Hamilton, de professores norte-americanos, do presidente dos EUA, do premiê britânico, em contraste com o especulado que seria pago a Kaká.

Mas a maior atenção fica em questões, digamos, verbais. O futuro do pretérito foi a tônica dessas tratativas entre Kaká e o time de Manchester. O dramático da história, claro, mora também nas limusines com jacaré e cascatas que o dinheiro envolvido compraria (se bem que, até aí, o dinheiro pago pelo Milan já é babilônico para meus bolsos inocentes), mas reside, sobretudo, no aspecto de show que foi imposto ao tema, especialmente pelo clube britânico, que parecia contar com o apoio do picadeiro para trazer Kaká aos seus gramados- e também pelo clube italiano, que mostrou o que é o desespero de um time endividado, sem tomar as injeções da heroína Liga dos Campeões.

O maior disparate de todo o circo armado, repito e reitero, não foi a oferta a Kaká em si, mas a inexistência (ao menos em declarações ao público) de um projeto de time para o City, que permanece irregular e aloucado nos seus jogos da Premier League.

No fim das contas, o resultado final (definitivo?) da novela árabe-ítalo-britânica talvez tenha sido melhor para o time dos irmãos Gallagher. Vai que os sheiks invocam-se, tomam-se de brios e passam a montar um time vencedor? Esta seria uma notícia alvissareira aos apoiadores do MCFC.

De resto, tudo como dantes no quartel de Abrantes. Esperemos pela próxima dos nossos amigos triliardários, petroquniqüilhardários dos EAU.