A notícia caiu como uma bomba nas  redações,  departamentos desportivos, campos de várzea, nos babas e peladas, nas mesas de totó e bolsas de apostas de todo o mundo. Não poderia ser diferente. Os sheiks dos Emirados Árabes ofereceram 100 milhões de libras para terem Kaká no Manchester City. Sim, são 1, 2, 3, 4, 100 milhões de libras, um dinheiro incontável, inimaginável, nababesco e até babilônico.

O engraçado é que quase eu acreditava na história sobre um redimensionamento das despesas do mundo do futebol nestes novos tempos de crise financeira, o mundo em desalinho e, que nada, os sheiks surgem com esse narguilé da manga! 100 milhões! E todos gritam, fascinados. 1 milhão de reais por semana, é o que vi falar, seria a quantia paga ao mês pelo futebol de Kaká.

Vale, não vale? Claro que a discussão não é mais essa. Quem determina o valor é quem deseja pagar, então tudo vale se o credor pode suportar as dores dos gastos.  Chama a atenção, para além da negociação ordinária que está ocorrendo (e está), a postura deste time, o Manchester City FC.

Primeiro, adquirido pelo premiê tailandês, fugido após um golpe militar. Agora, comprado por um fundo árabe, de bilionários petrodólares. Mas olho os jornais, folheio-os virtualmente e tenho a notícia de que um dos condutores da transação é Kia Joorabichian, aquele mesmo suspeito na época do Corinthians-MSI, um iraniano-russo com ares de dândi picareta.

Não encaro com ojeriza a participação de milionários, bilionários e triliardários no futebol. Reformulo. Até encaro com ojeriza se o objetivo é a lavagem de dinheiro ou a ocultação de crimes , mas reconheço como uma coisa da vida, pois se existem triliardários (mesmo os do submundo), é normal que existam no futebol- que nunca foi um campo sagrado. Os agentes da lei que tratem de defendê-la.

Contudo, a postura dos dirigentes do time mancuniano é das coisas mais pitorescas do futebol. A negociaçao de Robinho foi um exemplo e a de Kaká mostra-se mais uma vez neste sentido. Os sheiks (e o tailandês também parecia se comportar assim) parecem imaginar que basta injetar grana, grana e grana, contratar estrelas e o problema do futebol está resolvido.

O City só voltará a ser grande quando tiver uma equipe de verdade e não algumas estrelas num time desequilibrado. A conduta de seus dirigentes até o presente momento é um engano tão óbvio que só resta aos amantes do futebol torcer para que esses investidores quebrem a cara, possibilitando, sadicamente, a todos nós, um espetáculo de “nós já sabíamos, aprendam a lição”, que se não aniquilará esta espécie de conduta, ao menos demonstrará sua falha essencial- se um bom jogador como Kaká puder ser poupado do vexame, melhor para ele. Se, por outra mão, o City começar a montar um time decente a partir de Kaká, melhor para os seus torcedores.

Não nos esqueçamos, claro, dos velhos ricos de hábitos similares (Real Madrid), manifestados no deslumbre de se preocupar menos com o futebol e mais com as luzes e a celebrização da história. Torçamos contra eles, pelo bem do futebol.