Quinta-feira, Janeiro 15th, 2009


A notícia caiu como uma bomba nas  redações,  departamentos desportivos, campos de várzea, nos babas e peladas, nas mesas de totó e bolsas de apostas de todo o mundo. Não poderia ser diferente. Os sheiks dos Emirados Árabes ofereceram 100 milhões de libras para terem Kaká no Manchester City. Sim, são 1, 2, 3, 4, 100 milhões de libras, um dinheiro incontável, inimaginável, nababesco e até babilônico.

O engraçado é que quase eu acreditava na história sobre um redimensionamento das despesas do mundo do futebol nestes novos tempos de crise financeira, o mundo em desalinho e, que nada, os sheiks surgem com esse narguilé da manga! 100 milhões! E todos gritam, fascinados. 1 milhão de reais por semana, é o que vi falar, seria a quantia paga ao mês pelo futebol de Kaká.

Vale, não vale? Claro que a discussão não é mais essa. Quem determina o valor é quem deseja pagar, então tudo vale se o credor pode suportar as dores dos gastos.  Chama a atenção, para além da negociação ordinária que está ocorrendo (e está), a postura deste time, o Manchester City FC.

Primeiro, adquirido pelo premiê tailandês, fugido após um golpe militar. Agora, comprado por um fundo árabe, de bilionários petrodólares. Mas olho os jornais, folheio-os virtualmente e tenho a notícia de que um dos condutores da transação é Kia Joorabichian, aquele mesmo suspeito na época do Corinthians-MSI, um iraniano-russo com ares de dândi picareta.

Não encaro com ojeriza a participação de milionários, bilionários e triliardários no futebol. Reformulo. Até encaro com ojeriza se o objetivo é a lavagem de dinheiro ou a ocultação de crimes , mas reconheço como uma coisa da vida, pois se existem triliardários (mesmo os do submundo), é normal que existam no futebol- que nunca foi um campo sagrado. Os agentes da lei que tratem de defendê-la.

Contudo, a postura dos dirigentes do time mancuniano é das coisas mais pitorescas do futebol. A negociaçao de Robinho foi um exemplo e a de Kaká mostra-se mais uma vez neste sentido. Os sheiks (e o tailandês também parecia se comportar assim) parecem imaginar que basta injetar grana, grana e grana, contratar estrelas e o problema do futebol está resolvido.

O City só voltará a ser grande quando tiver uma equipe de verdade e não algumas estrelas num time desequilibrado. A conduta de seus dirigentes até o presente momento é um engano tão óbvio que só resta aos amantes do futebol torcer para que esses investidores quebrem a cara, possibilitando, sadicamente, a todos nós, um espetáculo de “nós já sabíamos, aprendam a lição”, que se não aniquilará esta espécie de conduta, ao menos demonstrará sua falha essencial- se um bom jogador como Kaká puder ser poupado do vexame, melhor para ele. Se, por outra mão, o City começar a montar um time decente a partir de Kaká, melhor para os seus torcedores.

Não nos esqueçamos, claro, dos velhos ricos de hábitos similares (Real Madrid), manifestados no deslumbre de se preocupar menos com o futebol e mais com as luzes e a celebrização da história. Torçamos contra eles, pelo bem do futebol.

O prêmio de “melhor do mundo” nasce equivocado desde o princípio, seja na versão da France Football, seja na versão da FIFA. Sim, trato da questão territorial. Por mais que aqui e ali sejam indicados jogadores que não façam dos campos europeus seu local de trabalho, todos sabemos que é na Europa, ou melhor, na Inglaterra, na Alemanha, na Itália e na Espanha de que se trata (sim, falo da Bundesliga com uma deferência ao acirramento do campeonato e a seu desenvolvimento financeiro, olhando quase nada para sua história, porém).

Mas até ultrapasso a questão- a escolha do “melhor” é sempre arbitrária, sempre limitada (ninguém conseguirá ver todos os jogos) e é até necessária como celebração futebolística- mas até aí já adentro uma faceta utilitária que não é de meu feitio- e que poderia levar a FIFA a premiar alguém da Oceania só para tentar desenvolver o futebol por aquelas bandas. O fundamental mesmo é o alcance de divulgação do evento e isso em importância para o jogo jogado… Lá vou eu divagando.

Mas, volto. Cristiano Ronaldo venceu a disputa. Justo, e eu diria até: Justíssimo. Não sou o maior fã do futebol do gajo, mas reconheço sua superioridade no ano que passou. Na temporada européia, corrijo-me. Falaram em Kaká e Messi, o que só poderia ser uma piada de péssimo gosto. Ah, mas abstratamente os sul-americanos em questão são melhores que o português. Pergunto: A escolha é de melhor da temporada ou de melhor da história? Sim, não duvido que geneticamente, fenotipicamente, filosoficamente, possa haver fulano, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Pelé ou sicrano melhores que os três acima citados. Pode até ser assim (nem sei realmente se é).

Entrementes, não se trata disso. A escolha é simplesmente do melhor jogador da temporada. O rapaz, então, é artilheiro do melhor campeonato do mundo (não tenho isenção suficiente e por isso afasto o Brasileiro dessa lista imaginária de melhores), destaca-se na Liga dos Campeões (embora com uma final tímida, fazendo gol, é verdade, mas tímida) com um time que é o mais eficiente do globo terrestre e não merece o prêmio? E quem há de merecer é um argentino que, se parece um cracaço, ou melhor, se já demonstra ser um excelente jogador, ainda não atingiu o ápice no futebol, que é ajudar na elevação de seu clube a um patamar superior (sim, títulos, títulos)- ou um brasileiro que fez uma temporada mediana com um time beirando o medíocre?

Não, isso não dá para aceitar. Não dá para aceitar certo vira-latismo que rejeita as manhas de C. Ronaldo (manhas de celebridade num espetáculo em que se criam e alimentam celebridades a minuto , que por sua vez, faturam  milhões em átimos), mas adula a das estrelas brasileiras (e não só, pois baba nas calças de um Riquelme, p.ex.).  Não dá para aceitar o deslumbramento com Messi (do mesmo modo lamentável da torcida belo-horizontina), já que é preciso mostrar onde e como ele apresentou-se em melhor forma que o português.

Naturalmente, a unanimidade não convence nem o rei dos asnos e é bom que cada um apresente sua opinião. Agora, estas precisam de alguns fundamentos táticos, técnicos, sensíveis, antropomórficos ou transliterários que sejam, sob pena de vermos o futebol reduzido a um show de objetividade inobjetiva.