“Ó Bahia, quão dessemelhante/Pobre de minha mãe/que me pariu nesta terra”. (Anônimo)

O futebol é a alegria do povo, e todos sabemos muito bem disso, não sendo por acaso a existência deste blog. Dada essa centralidade que o esporte mitológico, ou melhor, que esta arte assumiu em nossas vidas, não deixa de ser encarado com certa naturalidade que o Estado construa templos dedicados à prática da arte futebolística. É o que ocorre aqui, no Paquistão, na Itália ou nas Ilhas Faroe.
Mas é preciso estar atento aos tempos. Antes, como clubes amadores ou semi-profissionais poderiam construir obras magníficas? Era difícil. Ainda que não fosse o mais moral dos atos (há algumas coisas mais urgentes a se gastar o dinheiro que nos é tomado mês a mês, dia a dia), era algo racionalmente explicável- não justificável, mas, enfim, era um gasto a se fazer- um tanto mais digno do que sustentar sinecuras ou lobistas esfaimados.
Hoje, o que justifica o gasto com monumentais estádios? Pergunte-me, leitor, pergunte-se, amigo. O quê? Não sei. Ainda mais com os dirigentes que temos no futebol, o que justifica alimentá-los tais quais gatos que nos darão a morte por toxoplasmose?
Penso em Pituaçu, o Estádio Roberto Santos, reformado pelo Governo do Estado da Bahia, nesta cidade do Salvador. A história é conhecida. Da tragédia da Fonte Nova resultou uma apatia do governo, administrador do estádio e da direção do clube que o usava para mandar suas partidas, o Bahia.
O que fazer? Implodir a Fonte Nova e construir alguma “arena” (o pessoal adora esse termo que lembra, sabe-se lá, coliseus monumentais) em outro lugar? Implodir a Fonte Nova e construir um novo estádio? Fazer um novo estádio? Todo santo dia surgia uma hipótese. O curioso é que não surgia hipótese do que fazer com o Bahia.
Os dirigentes do Bahia fiaram-se no governo do Estado, que, por sua vez, fiou-se na Santíssima Providência (não, não falo do governo federal). Ora, o Bahia mandaria seus jogos no interior até esta nova obra. E então veio a iluminação! Ah, há um estádio de futebol na cidade. Não é o Campo da Graça ou do Rio Vermelho, não é o Parque Santiago, não é a Vila Canária! É o Estádio de Pituaçu! O Bahia até já mandou jogos lá! Ora, solução fácil! Basta reformar o templo e, pronto, o Bahia teria nova casa, num aluguel cômodo para todos.
Só que aí eu lembro da história de um fulano. Fulano morava com a mãe. Um dia teve uma discussão centenária com a senhora e decidiu sair de casa. Moraria num antigo imóvel que seu pai havia lhe deixado. Só que o imóvel era somente escombros, uma vez que ninguém o tinha conservado desde a morte do velho.
Ora, o de Pituaçu era o imóvel da historieta aí de cima. O estádio havia sido esquecido, e diz-se que servia de arena universitária. A verdade, no entanto, era uma hecatombe.
Graças aos céus, políticos são mágicos e tiveram início as obras de Pituaçu. Não discuto a legalidade da obra, nem seus valores. Deixo isso para quem de direito. Nem entro neste mérito para que não me acusem de leviano. Quanto à questão ambiental, ora suscitada, sei tanto de meio ambiente quanto sei jogar futebol gaélico.
Mas o que me incomoda na história toda é a moralidade da situação. Ou a falta de, no caso. Por que gastar um bom dinheiro recuperando um estádio somente para que um clube dele se aposse, sem as devidas responsabilidades? Para que torrar o meu, o seu, o dinheiro de quem telefona ou usa energia elétrica, p.ex., para construir um estádio que, no curtíssimo prazo, será debelado por outro, o tal estádio no lugar da Fonte Nova, que serviria de sede da Copa de 2010?
É, o Bahia pode virar concessionário do estádio. E o que seria feito com a Fonte Nova? O Bahia viraria concessionário de dois estádios? Caros, caros, caríssimos colegas, com a qualidade histórica dos dirigentes do clube, o risco é de os dois campos virarem ruínas, pó.
Em nenhum momento desta obra, discutiu-se a viabilidade deste ou daquele gasto, a sustentabilidade do investimento estatal. A única missão era construir, construir. As paralisações havidas disseram respeito a questões administrativas ou meramente burocráticas. Não se ouviu um ai, nessa Bahia de meu Deus, Maria Quitéria, Joana Angélica e Ana Néri, um ui não se ouviu das autoridades governamentais que transpirasse responsabilidade.
E, contudo, todavia, e por que não dizer?, entretantos, o estádio está lá. Uma vez que, está claro, o Governo desta Bahia dessemelhante não se preocupa tanto com gastos e gastos em favor de bens culturais e históricos do futebol baiano, como não deixa de ser o E. C. Bahia, deixo minha sugestão, singela, simpática e amável: Governador e autoridades, dêem dinheiro ao Galícia, ao Ypiranga e ao Botafogo, reavivem definitivamente estes clubes e entreguem Pituaçu a eles.
Como diz o promotor, é “questão de lídima justiça”.


Lembro-me de alguma coisa recorrente do passado que, no meu caso, era de pouco contato visual com as partidas e mais com os relatos do que ocorria nos campos europeus. Um destaque sempre vinha aos calendários. Ah, ali sim, respeitava-se o jogador, não se lhe exigia que jogue a ponto de morrer, ali era possível uma vida decente, pois nesse El Dorado reverso não se permitiam partidas em competições esdrúxulas ou inadaptadas. E eu olhava a tabela dos pontos corridos e o calendário começado em setembro e só podia concordar. Claro, claro, era tudo melhor.

