
Pretendia evocar Rui Barbosa. Não que o excelso Cabeça de Nós Todos tenha refletido e discorrido sobre o nobre esporte, a espontânea arte. Não: evoco o Águia em sua Oração aos Moços. Lá, o mais nobre paraninfo já conhecido pelo homem elenca as três coisas às quais devemos respeito e dedicação: Deus, a pátria, o trabalho (e que me perdoem se me equivoco na ordem).
Prezado Cabeção, que vem a ser a pátria? Como poderíamos servi-la? Diariamente, acompanho o serviço pátrio de lorpas, de crápulas e canalhas que se valem do estandarte e do hino para as suas atividades igualmente torpes. Bilac que me perdoe, mas que significa cantar o Hino Nacional vinte vezes seguidas ao se alistar obrigatoriamente junto ao exército brasileiro?
Mas deliro. Divago. Perco-me. Desejo escrever, em realidade, sobre o regionalismo. Porque, no futebol diário e corrente, este que comentamos nas ruas e pelo qual padecemos às quartas e domingos, a pátria é a região, é a cidade, é o bairro. O rival torna-se estrangeiro. Há alguns textos, o companheiro de labuta desportiva refletiu a condição do torcedor exilado. Mantendo um discurso moderno e liberal, realmente sensato e lógico, Rafael B. defende-se de um ataque insensível e cruel.
Compreendo a sua condição. E explico: todo baiano que torce para um time baiano sente-se superior a outro que vibra pelas conquistas de um clube estrangeiro. E assim também eu costumo fazer: eu saio às ruas ostentando o brasão vitoriano como se ele me desse direito – divino e inalienável – de ser respeitado e admirado. Um bolsão de resistência. Algo assim.
Sim, é um procedimento assaz estúpido e inexplicável. Mas futebol e pátria são assim – inexplicáveis, estúpidos. Há algum tempo que percebo o futebol extremamente ligado à terra. Reconheço e perigo de tal posicionamento me levar, quem sabe, à construção de um campo de concentração ou ao fechamento das fronteiras – mas são riscos que um homem precisa enfrentar e diante dos quais deve se manter impávido, são e digno. Nunca pretendi que a minha relação com o futebol e com o país fossem pacíficos: como não detestar o Brasil? Como não vociferar e cuspir nos gramados?
Mas deixemos de abstrações – sei que o leitor, propenso à metafísica, já se perde em meio a Platões e Agostinhos. Discordo do companheiro Rafael B. num único ponto, concordo em outro e relativizo em mais um.
Primeiro: não creio que a escolha de um time seja algo necessariamente inconsciente. Não me refiro, naturalmente, aos que seguem esquadras por moda – desprezemos tais vampiros. Mas há muita coisa outra envolvida na escolha de um time. E aqui, naturalmente, afirmo que pode haver uma “escolha”. Pode ser, por exemplo, uma questão ideológica – e a minha se aproxima disso: iniciou-se como uma virulenta e apaixonada revolta contra a imposição maciça de camisetas e troféus do Sudeste. Não exatamente ressentimento, mas um incômodo – porque pareciam rir de mim. E homem nenhum se presta a que os outros riam dele. Joel Santana, com sua Epistemologia da Palhaçadinha, que o diga.
Há, também, a escolha edipiana. Quantos filhos, em domingos sombrios (vejam as palmeiras balançando, as crianças silenciando – tudo sob o céu nebuloso), não assassinam os pais simbolicamente numa final de campeonato em que o Vasco, time do jovem, esmaga o Flamengo, time do velho? A Grécia evocada. Tolo quem acha que o futebol acontece dentro das quatro linhas.
Hei-de concordar, porém, noutra questão – demonstrando que meu ressentimento de subjugado não é tão poderoso. Não simpatizo com as reclamações contra a imprensa do Sudeste. Sendo do Sudeste, é natural que os jornalistas tratem dos times de lá. Não acompanham o trabalho diário de Vitória, Bahia, Sport ou Náutico – e, naturalmente, não o comentam. Quando o fazem, acabam por escorregar na macumba para turista ou na desinformação, como bem demonstrou Rafael B. Pergunto-me como sobreviveu por tanto tempo a lenda da paz nos estádios nordestinos. Ou a de que a paixão daqui é maior do que a de lá.
Não concordo, porém, com a transposição desse panorama para o contexto estadual. Há uma diferença numérica muito vasta para que não seja levada em conta – e, assim como a imprensa estadual, no cenário nacional, trata dos seus times, a imprensa local acompanha os times de menor expressão dentro do Estado. Tal acompanhamento, por sinal, é a fonte maior do anedotário da imprensa esportiva. Portanto, assim como compreendo a preferência da forte mídia do Sudeste pelos seus times, entendo a preferência dos jornalistas soteropolitanos por suas duas esquadras centrais.
O regionalismo, enfim, já é equivocado desde o nome. Só há regionalismo se há um centro que trata de fazer do outro um cidadão periférico – daí, então, a sua arte e o seu esporte tornam-se pitorescos, engraçados, curiosos. É natural, portanto, a reação diante de tal quadro – logo, o periférico percebe-se central e alheio, central e solitário, central e orgulhoso.
3 Agosto, 2008 at 9:18 am
Meu velho, desculpe-me adentrar em vosso recinto já com uma perplexidade, mas é impossível não perguntar: Como é que porra não me libertei de minha lerdeza antes e só agora descobro este blog?
Realmente inexplicável.
Mas, como diria Irmão Dulce, o futebol tem razões, blá, blá,blá.
Abraços e obrigado pela visita.
Ah, sim. Quando estiver desocupado, sem nada melhor para fazer, favor visitar minha outra emissora no http://WWW.INGRESIA.WORDPRESS.COM
deus lhe pague.
3 Agosto, 2008 at 9:13 pm
O Quem é a bola? vem revolucionando a filosofia, a poesia e a crônica esportiva pelos subterrâneos. Pouco a pouco, Drummond, Sportv, Olavo de Carvalho, ESPN, Haroldo de Campos, Globoesporte e outros desse tipo vão sendo minados.
E, quando estiveres também desocupado, visite minha outra praça, que trata de temas menos importantes do que o ludopédio: http://moedoteca.blogspot.com/