
Todos sabíamos que a decisão da Libertadores da América seria dada em termos extrafutebolísticos, extraterrenos, e digo mais: extrafáticos. Sabíamos também que havia algo de especial no Fluminense que fulminou o São Paulo no apagar das luzes do Maracanã (após uma artilharia intensa durante parte do jogo) e que esmigalhou o Boca Juniors, que pareceu um time chileno ou equatoriano comum da Libertadores.
Veja bem, eu falei em time comum equatoriano. Quando falam em futebol no Equador, alguns riem, outros fazem piadas e há uma terceira fatia de pessoas que nega haver futebol no país, ou que se há, pertence ao Exército, ou ainda, que nem mesmo existe um país com o nome do meridiano. Estão todos errados e de uma forma retumbante, crassa, avassaladora, guerronesca, eu diria.
Esse time da LDU não foi considerado por ninguém. Eu mesmo dei por favas contadas o título tricolor. Até digo de novo que a Liga de Quito é mediana e não mais que isso. Os jogadores também contavam com a Taça e era possível ver o sorriso no rosto “pó-de-arroz”, mesmo quando perdia no Brasileiro. O recheio da bolacha estaria guardado para o 2 de julho. E os jogadores pareciam corretíssimos, dada a Estrela que alcançava o Flu. A questão foi ter encontrado os Brancos num dia da mais pura felicidade futebolística.
Foi com a ajuda dessa magia da bola que os equatorianos conseguiram, de uma bela maneira, a vitória de ontem/hoje. Por isso, falemos do jogo, por ora, não em termos óbvios, pois todo mundo já viu e reviu e treviu o que aconteceu. Thiago Neves calou minha boca. O jogador apagado dos confrontos contra o São Paulo chegou ao ápice da possibilidade de um grande jogador da bola latino-americana, marcando 3 tentos na Final. Todavia, o problema do Fluminense foi a apatia e o nervosismo que tomou boa parte do time. E os defeitos, visíveis ao longo da campanha, mostraram-se claros: O time não tem meio-de-campo defensivo, resumindo-se o esquema tático a um defesa-ataque. A sobrecarga dada a boa zaga da equipe (um beque é excelente, o outro bom e identificado com a equipe) mostrou-se complicadíssima- o que, aliado à necessidade de marcar 2 (e logo após 5 minutos, 3) gols, tornou tudo mais grave.
Mas T. Neves explodiu as redes 3 vezes. E a última aos 12 da segunda etapa regular. Ou seja, foi possível vencer, mesmo com o descaro do juiz e de seus auxiliares no primeiro tempo (pelo segundo tempo, não tive a impressão de ter sido nada premeditado, uma vez que a LDU foi prejudicada. O chega pra lá que Branco deu no Sr. Baldassi, porém, mantém as suspeitas de que o rapaz age mais do que por incompetência própria, pelo total e doloso impudor de roubar, independente de que para que lado seja).
Pois, o time das Laranjeiras teve 30 (e depois mais 30) minutos para fazer um gol- não conseguiu. Ainda tomou calores da LDU, deixando arrepiadas as 80 mil almas que vibravam no Mário Filho. E, claro, era evidente que a partida era extratática, extratécnica, extrafutebolística. Um pouco porque na América do Sul a tática ainda é algo que se valoriza menos que o gol, o puro e simples gol (uma característica problemática, mas não necessariamente negativa) e a outra porque numa final de Libertadores, todos os espíritos rebeldes e profundos acompanham de perto o espetáculo- transformando pessoas, que em um dia cantavam de galo e no outro choravam feito crianças.
Falam-me de Cevallos. “Canalha! Fez cera! Cadê o juiz?” Vejam bem, o goleiro fez o que devia para conseguir a Taça, só agindo no limite da irresponsabilidade quando da cobrança de T. Neves (poderia ter sido expulso ali). No mais, a partida não pode ser explicada pela malandragem. Está claro que foi o futebol, em todos seus aspectos, e principalmente nos seus contra-aspectos que fez da Liga Deportiva de Quito a vencedora do 2, do 3 e do mês de julho.
PS: Ah, sim, o oba-oba. Não foram as declarações de Renato Portaluppi o sintoma de que algo trágico poderia acontecer, até porque o argentino que dirige a LDU também aparecia com um discurso entusiasmado às escâncaras. Mais do que isso, foi a própria atitude (deveras compreensível, confesso) do time, que ao passar Boca e São Paulo, acreditou que o objetivo já estava alcançado. O comandante do escrete pode ter alguma responsabilidade, mas não é o culpado. O time é o que é e o que todas suas peças (incluindo massagista, roupeiro, macaco de auditório, mulher do dirigente) fazem dele.
5 Julho, 2008 at 4:28 pm
Um vizinho meu custuma dizer: “futebol é uma caixinha de surpresas”, nunca dei importância, mesmo entendendo que há uma certa razão nesta afirmação; torcendo pela LDU, algo em mim dizia que seria quase impossível a equipe equatoriana levar a taça, mas para minha felicidade deu no que deu. Concordo que o Fluminense tem uma boa equipe e merecia o título, porém não contava que os equatorianos pudessem surprendê-lo, pois como você disse o clube das larangeiras “fulminou” o São Paulo e “esmigalhou” o Boca juniors, o que sobraria da Liga de Quito?
6 Julho, 2008 at 10:25 am
Para além de tudo isso Zé Doido, faltou destacar que:
(I) Guerrón é um monstro. Joga muito;
(II) Faltaram pernas para o Flu naquela prorrogação;
(III) Prefiro dizer que faltaram pernas a pensar que o Fluminense, depois do 3º gol, achou que a vitória estava na mão, bastando bater os penâltis e correr para o abraço. Foi o efeito pó-de-arroz: o Fluminenses nem cogitava chegar tão perto e não ganhar a Libertadores.