Soube que um conhecido meu, assim terminado o Campeonato Europeu de Seleções, berrou a todos os cantos: “Os bascos danaram-se!”, “Adeus, Galiza”, “Chore, Catalunha!”. Naturalmente, o rapaz exagerava. Certamente não eram todos os habitantes de fora de Castela que vibravam com a vitória espanhola.

Paro e penso. A Espanha venceu. Repeti isso três vezes no domingo e cinqüenta vezes na segunda-feira, mas ainda não me dei conta totalmente. A Espanha venceu. Mais que isso. O escrete do Reino de Espanha jogou de forma incisiva nos três jogos fatais, não fraquejando em nenhum momento. Sim, amigos, isso é notável. Desde que nasci, o destino do selecionado espanhol era a derrota, e o que é pior, a derrota nas mais pitorescas circunstâncias, pela mais desagradável chacota futebolística. Eram bolas debaixo das pernas, juízes atacando de forma inusitada, cotoveladas e de quando em quando goleadas vexatórias, que mais do que eliminar, punham o time como alvo do escárnio geral. Nem a mais inocente alma acreditava na Espanha em competições internacionais. Todos sabiam que o time passaria. Todos sabiam que a Espanha perderia nas oitavas ou nas quartas.

E tudo mudou, porém. O time fez belíssimas atuações (com Fábregas no banco, cidadãos! Fábregas estava no banco!), ofensivas, com certa consistência defensiva (com Puyol e Sérgio Ramos na zaga, colegas!) e com um Marcos Senna inspiradíssimo. Sérgio Aragonés conseguiu aquilo que ninguém (eu sou um desses) acreditava fosse possível a ele alcançar. Sucumbiram helênicos, russos (por duas vezes, para desespero do mais rasputiniano dos espectadores), suecos, italianos e os pobres alemães, que possuem a esquadra mais ofensiva desde pelo menos 1994, mas andam sem sorte nos confrontos decisivos em que triunfaram nas décadas passadas.

Belo time, bela esquadra, ótimos Villa, Torres e companheiros, que fizeram, mesmo que por um tênue segundo, por um frágil e instável átimo, um Reino fragmentado parecer-se com uma Nação vitoriosa.

Mas não posso deixar de falar do restante da Eurocopa. Começo pela impressão que tive dos times. Simplesmente embasbacante a disposição dos jogadores. Falaram-me de um ou outro (especialmente os turcos) que saiam do jogo com ganas de guerra. Confesso, tive medo, que rompesse ali, a qualquer momento, mais uma Batalha em solo europeu. Acamalvam-me, contudo, as moças sorridentes, os senhores e senhoras de famílias acenando para a câmera de TV, todos contentes com os belíssimos espetáculos que viam. Mesmo os horríveis e pavorosos escretes da Áustria, Suíça e Grécia soavam interessantes ou ao menos comprometidos com a estética. Eram, pode-se dizer, renascentistas todos os que disputaram a competição. De todo modo, ainda estou curioso e nervoso: Por que os jogos da Eurocopa foram tão melhores que boa parte dos jogos de 2006? Não culpemos os não-europeus. Foram os times do Velho Mundo responsáveis por boa parte do desânimo e da apatia da Copa na Germânia. Então, o que explica? Fica a pergunta.

Falo ainda da Holanda, de quem não vi os jogos, com exceção da eliminação para a Rússia, time agradável e não surpreendente para quem acompanha a trajetória do, p.ex., Zenith, de São Petersburgo.

Não poderia a minha pessoa deixar de mencionar a belíssima e enfurecida Turquia, minha insatisfação de não ter assistido Alemanha X Portugal (agradeço ao trabalho por isso) e os meus risos com mais atuações ruins do time italiano. Um outro conhecido teima em dizer que o futebol italiano, em qualidade de jogadores, é comparável ao brasileiro, sendo o catenaccio o grande responsável pelo horror que o jogo da Azurra causa a nossas vistas. Estaria certo meu bom rapaz, caso não fosse a cultura, claro, algo de mais essencial do que qualquer propensão inata ao futebol. Afinal, de nada adianta meu dom de falar com extraterrestres, se eu não conheço um mísero marciano ou jupiterino.

Isso é assunto para outra hora, porém. Fiquemos com a lembrança dos bons momentos de ótimo futebol na Euro. Que sirva de exemplo para os próximos campeonatos.