Vejam bem, amigos, que tempos cachorros são os nossos. Nos tempos de um Júlio César, de um Constantino  e mesmo nos tempos de um Guilherme de Orange, o sortudo era um iluminado. Por outra, ter sorte era melhor e mais recompensado do que ser competente, do que ter um harém ou ter a dentição completa antes da disseminação do bicarbonato de sódio e do flúor. Alguém de sorte passava pelos mercados e era cumprimentado, reverenciado, era, enfim um Bom. Hoje, a sorte é mal vista, na verdade, é realmente invejada, e se você, incauto e romano, qualifica alguém de sortudo, não passa o minuto seguinte sem ter em si pespegada a pecha de invejoso, canalha ou debilóide.

O Fluminense mesmo. É o time mais sortudo do Brasil hoje. Eu diria do mundo. Não digo da galáxia, porque não consigo captar a existência de inteligências nos confins do universo, mas é possível dizer que o Fluminense hoje tem tanta sorte quanto um velhinho contumaz vencedor de loterias.

No jogo de ontem, o time do Rio fazia medíocre exibição, dominado por um Boca Juniors senhor de si e que, embora com uma defesa ruim e com um goleiro propriamente medonho, nem sequer havia sido realmente ameaçado pelo mandante de um espetáculo que contava com 85 mil almas vivas.  Reparem que o dito craque do time, o Senhor Juan Roman Riquelme, não fez uma partida digna de prova final. Seria reprovado em qualquer escolinha de futebol da Prata com o futebol que deu ontem. Exagero, naturalmente, uma vez que o rapaz sempre acerta alguns passes notáveis, mas ainda assim o exagero parece-me mui aceitável. Se é um craque que me prometem, é um craque que pretendo ver em campo, e sem constipação intestinal. Um craque precisa, além de tudo o mais, todo o mérito, precisa de Estrela. Riquelme nem sempre a tem (e olhe que somente o tem com a camisa xeneize).

Pois então, o Fluminense era alvejado, era um time sem meio de campo, com um dito craque que só o é na cobrança de bolas paradas, tendo seu melhor jogador num pequeno argentino e num grandalhão desengoçado, pero goleador, batalhador (eu dizia em outro momento  o rapaz ser um proletário da bola) e acima de tudo: Estrelado.

Quando Palermo meteu o primeiro, todos pensaram: “Já deu. Acabou. Sem meio de campo e com Dodô em campo não dá”. Momento seguinte, Dodô (correndo de forma irreconhecível) sofre a falta. E o rapaz do parágrafo anterior, o Coração Valente, espanca as redes com uma boa cobrança de falta. (Não falemos do guarda-redes argentino. Preservemos sua dor).

Pensei: É a Estrela. Sem ela, dizia o Mestre, é impossível até atravessar a rua sem ser atropelado por uma carrocinha de picolé. Eu acrescento que há competentes que, não estrelados, não conseguem sair de casa, numa loucura pânica, num medo irracional do que possa acontecer. Isso não acomete o mais inpeto, o mais troglodita, o mais insultante dos Estrelados. E Washington é um estrelado com boa dose de competência. Assim como é Renato Gaúcho, que mais uma vez perdeu o meio de campo em casa e mais uma vez conseguiu vencer de maneira que não podemos falar outra coisa que não dar-lhe os parabéns.

A bola desviada do segundo gol só confirma a tese da Estrela. O último gol já no desespero não confirma, nem ratifica nada, só o riso esplendoroso e merecido dos que compareceram ao Maracanã, ainda que por meio de um aparelho televisivo, guiados por comentaristas sobrenaturais, que a tudo, menos ao jogo, parecem enxergar.

Desta feita, provou o Boca Juniors do mal que tanto fez aos outros: tomar não sei quantos ataques, amortizá-los e transformar tudo em força para vitórias inacreditáveis, soberanas. A soberania agora não esteve ao lado dos portenhos

Restam os universitários de Quito. As chances tricolores de desfraldar sua bandeira no topo das Américas são enormes. Do tamanho das constelações que abençoam o Pó-de-Arroz. Com a Estrela que o Fluminense encampa neste momento, é possível escalar o  Everest  correndo despido e voltar com a maior das Saúdes, disposto a um novo desafio.

E eu só posso dizer que invejo positivamente, ou melhor, admiro mesmo e até consagro quem possui tal atributo.