
Todos os meus três leitores são brasileiros. E, só porque todo brasileiro é íntimo um do outro, ousarei falar da Seleção. Sim, só na intimidade pátria podemos nos sentir a vontade o suficiente para falar de tamanha vergonha. Por mais que a infâmia seja de conhecimento mundial, o homem consegue ser velado o suficiente para só debater sua humilhação na alcova, cercado por dois ou três amigos, um familiar que não irá rir, mas compadecer-se e sofrer junto.
Vivesse eu na Inglaterra, fosse eu lido por colombianos, calaria de forma retumbante e partiria para o convívio social como se o ocorrido ontem no Paraguai não houvesse, de fato, ocorrido. Mas estou na Bahia e sejamos francos. Vamos nos auto-depreciar.
Não chegarei ao extremo de afirmar que este é o pior selecionado de todos os tempos. Durante os anos 90 e começo dos 00, houve momentos em que só a fé extrema nas roupas e nas armas de Jorge conseguiu dar esperanças ao povo brasileiro. Esse grupo, considerando os 22, é razoável. Claro: pode-se argumentar que os laterais titulares são fraquíssimos (com o que eu concordo), que Diego já teve chances demais (com o que eu concordo), que Josué, Mineiro e Gilberto Silva – que sequer se firmam como titulares em seus respectivos times – só merecem uma vaga de titular na cabeça delirante de Dunga (com o que, acima de tudo o mais, eu concordo), mas lá está muita gente pela qual o povo clama: Júlio Cesar, Juan, Lúcio (o povo; eu, não), Adriano, Pato, Anderson… Faz-se uma seleção razoável com tal material.
Mas uma Seleção não é um baba de recreio. O baba de recreio, vocês sabem, se escolhe no zerinho-ou-um e joga horrores, devastando tudo com tabelas, esquema tático perfeito, sincronia absoluta de movimentos. A Seleção, não – sobretudo porque não joga contra um baba de recreio (fator fundamental para que o adversário, na escola, soe como a Laranja Mecânica).
Tento evitar as frases sobre a inexperiência de Dunga. Tudo bem: o homem consegue armar um time que perde para a Venezuela, mas não nos esqueçamos que havia um time em campo e que Dunga (graças a deus) não jogou. Mas e como se negar a ver o ridículo que ele passou hoje em Assunção, durante o segundo tempo, no qual fez substituições de um desespero cômico? A Seleção está nas mãos, nos bolsos e nos pés errados. Crucificar Dunga, sozinho, não dá jeito – embora pareça ser o passo seguinte, visto que até o Galvão já tomou sua posição contrária ao técnico. É preciso que um dilúvio purifique a CBF.


